Realpolitik (em alemão, "política realística") refere-se à política ou diplomacia baseada principalmente em considerações práticas, em detrimento de noções ideológicas. O termo é frequentemente utilizado pejorativamente, indicando tipos de política que são coercitivas, imorais ou maquiavélicas. Pensadores como Maquiavel e Nietzsche defendem a Realpolitik como um tipo de realismo político segundo o qual as relações de poder tendem a solapar todas as pretensões de fundamentação moral, num tipo de ceticismo moral análogo ao do argumento de Trasímaco na República de Platão.Ética geral, por Nythamar de Oliveira. PUCRS, 2009.
Henry Kissinger conceitua Realpolitik como sendo “política exterior baseada em avaliações de poder e interesse nacional”.Kissinger, Henry [Diplomacy, p. 137, Nova Iorque, Simon and Schuster], 1994.
O termo também refere-se a promulgar ou engajar-se em políticas diplomáticas ou políticas com base principalmente em considerações de determinadas circunstâncias e fatores, em vez de estritamente vinculativa a noções ideológicas explícitas ou a premissas morais e éticas. Nesse sentido, compartilha aspectos de sua abordagem filosófica com os do realismo e do pragmatismo. Muitas vezes é simplesmente referido como "pragmatismo" na política, por exemplo, "prosseguir políticas pragmáticas" ou "políticas realistas". Embora muitas vezes usado como um termo positivo e neutro, o termo Realpolitik às vezes também é usado negativamente por implicar políticas que são percebidas como coercitivas, amorais ou maquiavélicas. Proponentes proeminentes da Realpolitik durante o século XX incluem Henry Kissinger, George F. Kennan, Zbigniew Brzezinski e Hans-Dietrich Genscher, bem como políticos como Charles De Gaulle e Lee Kuan Yew.
Origem e uso do termo O termo foi colocado por Ludwig August von Rochau, escritor e político alemão do século XIX, seguindo a ideia de Klemens Wenzel von Metternich de achar caminhos para equilibrar as relações de poder imperialista ao nível europeu. Equilibrar tal poder para manter a pentarquia europeia era o meio de manter a paz, e cuidadosos praticantes de Realpolitik tentaram evitar corridas armamentistas. Seu livro de 1853 Grundsätze der Realpolitik angewendet auf die staatlichen Zustände Deutschlands (“Princípios de Realpolitik aplicados ao estado nacional de coisas da Alemanha”) descreve o significado do termo: O estudo das forças que moldam, mantêm e alteram o Estado é a base de toda visão política e leva à compreensão de que a lei do poder governa o mundo dos estados, assim como a lei da gravidade governa o mundo físico. A ciência política mais antiga estava plenamente ciente dessa verdade, mas chegou a uma conclusão errada e prejudicial — o direito dos mais poderosos. A era moderna corrigiu essa falácia antiética, mas ao romper com o suposto direito do mais poderoso, a era moderna estava muito inclinada a ignorar o poder real do mais poderoso e a inevitabilidade de sua influência política.O historiador John Bew sugere que muito do que representa a Realpolitik moderna hoje se desvia do significado original do termo. A Realpolitik surgiu na Europa de meados do século XIX a partir da colisão do Iluminismo com a formação do Estado e a política de poder. O conceito, argumenta Bew, foi uma tentativa inicial de responder ao enigma de como alcançar objetivos liberais esclarecidos em um mundo que não segue regras liberais esclarecidas.
O publicitário, jornalista e reformador político liberal Von Rochau cunhou o termo em 1853 e adicionou um segundo volume em 1869 que refinou ainda mais seus argumentos anteriores. Rochau, exilado em Paris até a revolta de 1848, retornou durante a revolução e tornou-se uma figura conhecida no Partido Liberal Nacional. À medida que os ganhos liberais das revoluções de 1848 foram vítimas de governos coercitivos ou foram engolidos por forças sociais poderosas como classe, religião e nacionalismo, Rochau — segundo Bew — começou a pensar muito sobre como o trabalho que havia começado com tanto entusiasmo havia fracassado. para produzir quaisquer resultados duradouros.
Ele disse que a grande conquista do Iluminismo foi mostrar que o poder não é necessariamente objetivo. O erro que os liberais cometeram foi supor que a lei dos fortes de repente evaporou simplesmente porque se mostrou injusta. Rochau escreveu que "para derrubar os muros de Jericó, o Realpolitiker sabe que a simples picareta é mais útil que a trombeta mais poderosa". O conceito de Rochau foi apreendido por pensadores alemães em meados e final do século XIX e tornou-se associado com a política de Otto von Bismarck na unificação da Alemanha em meados do século XIX. Em 1890, o uso da palavra Realpolitik era generalizado, mas cada vez mais distante de seu significado original.
Na sua acepção estadunidense, o termo é geralmente similar a Machtpolitik, enquanto na Alemanha, Realpolitik descreve políticas mais modestas (realistas), opondo-se a políticas "superprotetoras", mas geralmente irrealistas, apesar de ser associado ao nacionalismo do século XIX. O mais famoso adepto alemão da Realpolitik foi Otto von Bismarck, Chanceler do Reino da Prússia (1862-1870) de Guilherme I. Bismarck utilizou Realpolitik para assegurar maioria da Prússia na Alemanha, manipulando questões políticas como a de Schleswig-Holstein e a candidatura de Hohenzollern, em antagonismo com outros países, possivelmente com intenções bélicas. Uma característica da ação política de Bismarck era a ação quase maquiavélica, sem dar muita importância a questões éticas, morais ou legais. O movimento aparentemente ilógico da Prússia de não requerer território de uma Áustria derrotada — uma ação que posteriormente levou à unificação da Alemanha — é um dos exemplos mais citados de Realpolitik. De modo análogo, no Partido Verde Alemão, pessoas que procuram acordos são chamadas de Realos (realistas), enquanto os opositores são os Fundis (fundamentalistas ou ideologistas).
Contraste com políticas de ideologia A Realpolitik foi formalmente introduzida na Casa Branca no governo de Nixon por Henry Kissinger. Nesse contexto, a política significava lidar com outras nações poderosas de uma maneira prática, em detrimento de uma base de política doutrinária ou ética — por exemplo, as ações diplomáticas de Nixon com a República Popular da China, apesar de a doutrina estadunidense ser contrária ao comunismo e apesar da política de contenção do expansionismo soviético, formulada por George F. Kennan.George F. Kennan e a política de contenção da Guerra Fria , por Andrea M. T. PENNACCHI. Outro exemplo é a "política de sonda" de Kissinger, na guerra entre árabes e israelitas de 1973, quando ele persuadiu os israelitas a se retirarem do Sinai em respeito à conjuntura internacional derivada da crise do Petróleo.
A Realpolitik é distinta da política ideológica por não seguir um número prefixado de regras, tendendo a ser orientada a resultados e limitada somente por exigências práticas. Como a Realpolitik é direcionada através dos mais práticos mecanismos de assegurar interesses nacionais, pode às vezes requerer o sacrifício de princípios ideológicos. Por exemplo, os EUA, nas administrações Nixon e Reagan, frequentemente apoiavam governos que violavam os direitos humanos, para assegurar o interesse nacional norte-americano de estabilidade regional. Opositores freqüentemente classificavam estas atitudes como imorais, enquanto situacionistas replicavam com o argumento de que estariam apenas operando dentro dos limites práticos. Mais recentemente, o ex-embaixador estadunidense Dennis Ross associou essa ideia à política internacional, em seu livro de 2007 Statecraft: And how to restore America's standing in the world.
Em oposição à Realpolitik, políticas ideológicas tendem a favorecer princípios ideológicos acima de outras considerações. Tais grupos (teoricamente) rejeitam compromissos que, a seu ver, vão contra os seus ideais e, então, sacrificam ganhos políticos de curto prazo em favor de suas ideias.
Realismo político Uma política externa guiada pelos princípios de Realpolitik também pode ser descrita como uma política externa realista. Realpolitik pode ser considerada como um dos fundamentos do realismo político. Ambos implicam power politics, mas Realpolitik seria como um guia prescritivo para a formulação de políticas (a exemplo da política externa), enquanto o Realismo é um paradigma que inclui uma grande variedade de teorias que descrevem, explicam e predizem as Relações Internacionais. Realpolitik também visa o equilíbrio de poder entre estados-nações, o que também é um assunto central do Realismo. Ambos implicam operações políticas, de acordo com a crença de que a política é baseada na perseguição, posse e aplicação do poder. Por isso, corre um risco de cometer crimes em tempos de guerra.
Relações internacionais Enquanto Realpolitik se refere à prática política, o conceito de realismo político nas relações internacionais se refere a um arcabouço teórico que visa oferecer explicações para eventos no domínio das relações internacionais. A teoria do realismo político parte do pressuposto de que os Estados — como atores na arena internacional — perseguem seus interesses praticando a Realpolitik. Por outro lado, a Realpolitik pode ser descrita como o exercício de políticas que estão alinhadas com as teorias aceitas do realismo político. Em ambos os casos, a hipótese de trabalho é geralmente que a política se baseia principalmente na busca, posse e aplicação do poder (ver também política de poder). No entanto, alguns realistas de relações internacionais, como Kenneth Waltz, têm visto a política estatal em termos de busca de sobrevivência ou segurança, em vez de busca de poder por si só.
História do conceito e perspectivas Veja realismo político para ramos e antecedentes mais relevantes para a diplomacia contemporânea e o paradigma moderno particular de relações internacionais:
Sun Tzu, um estrategista militar chinês que escreveu A Arte da Guerra, que prenunciou elementos da Realpolitik desenvolvidos mais tarde. Tucídides, um historiador grego que escreveu a História da Guerra do Peloponeso e também é citado como um precursor intelectual da Realpolitik. Chanaquia (ou Cautília), um dos primeiros estadistas indianos e escritor do Artaxastra. Ibne Caldune, um historiógrafo árabe, historiador e um dos pais fundadores da historiografia moderna, autor de Muqaddimah, uma história universal do tempo. Han Fei, um estudioso chinês que teorizou o legalismo (ou legismo) e que serviu na corte do rei de Qin — mais tarde unificador da China, encerrando o período dos Reinos Combatentes. Sua teoria centra-se nas Duas Alças (sobre penalidades e recompensas como ferramentas de governança). Ele teorizou sobre um governante neutro e manipulador que agiria como chefe de Estado enquanto controlava secretamente o executivo por meio de seus ministros — aqueles que assumem a responsabilidade real por qualquer política. Nicolau Maquiavel, um filósofo político italiano que escreveu Il Principe (O Príncipe) no qual ele sustentava que o único objetivo de um príncipe (político) era buscar o poder, independentemente de considerações religiosas ou éticas. No entanto, há um debate acadêmico sobre a natureza e a moralidade de seus conselhos. Cardeal Richelieu, um estadista francês que destruiu o facciosismo doméstico e guiou a França a uma posição de domínio nos assuntos externos. Thomas Hobbes, um filósofo inglês que escreveu Leviatã em que afirmou que o estado de natureza era propenso a uma "guerra de todos contra todos". Frederico, o Grande, um monarca prussiano que transformou a Prússia em uma grande potência europeia por meio da guerra e da diplomacia. Charles Maurice de Talleyrand-Périgord, um diplomata francês que guiou a França e a Europa através de uma variedade de sistemas políticos. Príncipe Klemens Wenzel von Metternich, um estadista austríaco nascido em Koblenz que se opõe à revolução política.