Tócos é o décimo sétimo (17º) distrito do município de Campos dos Goytacazes, estado de Rio de Janeiro.
Segundo os moradores do distrito, o nome Tócos tem origem nas enchentes que ocorriam na lagoa Feia. O relato amplamente aceito é o de que, no período cíclico das cheias, a lagoa expandia sua lâmina d’água e alagava toda a região. Com isso, tocos e pequenos arbustos ficavam submersos, o que acarretava no naufrágio e danos em muitas embarcações “do período da escravidão”, ao baterem o fundo de seus cascos nesses tocos escondidos pelas águas. A corruptela “Tócos”, com a primeira sílaba aberta, teria advindo com o tempo (Fonte: GOMES, 2024).GOMES, Rafael Rodrigues Malvino. Tócos: Um Estudo Sobre o Arranjo Espacial do 17° Distrito de Campos dos Goytacazes, RJ. 2024. 140 f. Monografi a (Licenciatura em Geografia). Instituto Federal Fluminense, Campos dos Goytacazes, 2024.
Pela lei estadual nº 79, de 23/04/1958, foi criado o distrito de Tócos e anexado ao município de Campos – distrito formado com terras desmembradas do então distrito de Goitacazes (Fonte: IBGE).
População Segundo dados do IBGE, no ano de 2010 Tócos possuía 8.164 habitantes.http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default.shtm
Geografia
Localização O distrito de Tócos está localizado na parte sul do município de Campos dos Goytacazes, estado do Rio de Janeiro, sendo um dos cinco distritos que constituem a denominada Baixada Campista – região de planície à margem direita do rio Paraíba do Sul, compreendida desde os relevos de tabuleiro, a noroeste, até a linha costeira do Cabo de São Thomé, a sudeste. A saber, são os distritos constituintes da Baixada Campista: Mussurepe, Santo Amaro, São Sebastião, Tócos e a parte sul de Campos dos Goytacazes (Distrito-Sede), que compreende, desde 1983, o território que anteriormente compunha o antigo distrito de Goitacazes, reanexado por ocorrência de reorganização territorial-administrativa realizada em julho daquele ano.
O território atualmente compreendido pelo distrito de Tócos dentro do município de Campos dos Goytacazes possui forma semelhante a losangular, estendendo-se por um perímetro de aproximadamente 86 km que constitui uma área de aproximadamente 368 km² – o 4° maior em extensão territorial no município. A sede do distrito, denominada Tócos (ou vila de Tócos), fica localizada a 21 km do centro do município, na parte nordeste do território distrital.
(Fonte: GOMES, 2024).
Topografia e Hidrografia Os principais elementos do meio físico que se destacam dentro do território compreendido pelo distrito de Tócos são: o relevo com pouquíssima variação de altitude – característico das planícies; a presença da lagoa Feia – um dos principais corpos d’água do estado do Rio de Janeiro; e uma rede de lagoas secundárias, brejos e terrenos alagados que, junto de uma série de canais de drenagem, do rio Macabu, do rio Ururaí e da própria lagoa Feia, fazem parte do complexo sistema hidrográfico da chamada Bacia da Lagoa Feia.
Os dois principais tipos de unidades de solos presentes no território do distrito, são os Solos Areno-Argilosos e Argilo-Arenosos sobre Substrato Fluvial e Marinho – formados pelos solos cambissolo eutrófico e neossolo flúvico – que são encontrados nos terrenos de relevo mais elevado (planície de inundação do rio Paraíba do Sul, com elevação de até 9 metros em relação ao nível do mar no distrito) e a Associação de Solos Orgânicos e Argilosos sobre Substrato Fluvio-Lagunar – que, segundo Costa et al. (2008), “são formados pelos depósitos de lagos, onde o sedimento característico é uma argila plástica de coloração que varia de cinza ao cinza-negro, esta última, com alto conteúdo de matéria orgânica, e pelos depósitos de pântanos ou brejos” – unidade encontrada nos arredores da lagoa Feia e que é basicamente constituída por sedimentos depositados em ambientes de água doce a salobra, em elevação de no máximo 2 metros acima do nível do mar no distrito. Há ainda uma terceira unidade de solo presente no território do distrito, ocupando área consideravelmente menor se comparada à das duas unidades descritas anteriormente. A presença de Cordões Litorâneos (Solos Arenosos sobre Substrato Marinho) pode ser notada numa pequena área a oeste do distrito, entre a margem esquerda do Canal Campos-Macaé e a margem direita do rio Ururaí em seu trecho final, próximo de sua foz na lagoa Feia. O terreno, constituído exclusivamente por areias quartzosas litorâneas, de coloração esbranquiçada – e formado pelo solo espodossolo (COSTA et al., 2008) – se eleva em meio aos brejos que margeam a lagoa Feia a noroeste e é uma testemunha da regressão do mar na região, processo também descrito por Lamego em “O Homem e o Brejo”.
O grande corpo d’água presente em Tócos é indiscutivelmente a lagoa Feia, que possui atualmente uma área estimada em 209 km² (LIMA et al., 2012). Deste total, aproximadamente 118 km² – ou seja, aproximadamente 56% de toda sua lâmina d’água – estão compreendidos dentro do território do distrito campista, o que representa, por sua vez, aproximadamente 32% da área do próprio distrito.
Um outro elemento marcante na hidrografia de Tócos é a lagoa do Jacaré, que fica localizada ao sul da sede do distrito. A lagoa do Jacaré é, na verdade, uma antiga enseada da lagoa Feia que se tornou um “braço” da mesma após os processos de drenagem e invasões de suas margens, realizados por proprietários rurais (SOFFIATI, 2021), e sua comunicação com o corpo principal da lagoa se dá por meio de um canal de 4 km de extensão, popularmente denominado de canal da Flutuante – uma provável referência às dragas flutuantes utilizadas pelo DNOS a partir da década de 1940 nas intervenções hidromorfológicas ocorridas na região. Completam o sistema lagunar presente no distrito uma série de outras lagoas secundárias, muitas delas já parcialmente ou quase totalmente dessecadas por consequência das obras sanitaristas realizadas na região durante o século XX – em especial as antigas lagoas da Carioca, Sussunga (ou Suçunga), do Tambor e da Goiaba, todas parcialmente drenadas com a abertura do canal Coqueiros.
Por último, os rios e os canais de drenagem completam o quadro hidrográfico do meio físico no distrito de Tócos, tais quais o trecho final do rio Macabu (em sua foz na lagoa Feia), o rio da Prata, o rio Ururaí, o rio de Jesus, o rio Macacoa (ou rio Macacuá) e o rio da Pedra (ou canal do Nicolau); bem como um trecho do Canal Campos-Macaé, o canal Coqueiros, o canal Tócos, a vala Correnteza e a vala do Mato (além de outras dezenas de canais e valas secundários, abertos pelo DNOS e também por fazendeiros da região).
(Fonte: GOMES, 2024).
História
Período colonial (séc. XVI ao séc. XIX) A história do distrito de Tócos possui origem na história da própria colonização do Norte Fluminense – a colonização de Campos dos Goytacazes, que se iniciou, especificamente, na grande Planície dos Goitacás: a Baixada Campista.
O primeiro ocupante das terras é de fato o ameríndio goitacá – grupo étnico que habitou a faixa costeira brasileira do norte do atual estado do Rio de Janeiro ao norte do atual estado do Espírito Santo. O colonizador português chega então ao território que viria a ser a Baixada Campista a partir de 1632 – décadas após a primeira e fracassada tentativa de colonização do atual Norte Fluminense empreendida por Pêro de Góis no litoral do atual município de São Francisco de Itabapoana, em 1538. A empreitada de sucesso é realizada pelo grupo que ficou conhecido como “Os Sete Capitães”: Miguel Aires Maldonado, Miguel da Silva e Riscado, Antônio Pinto Pereira, João de Castilho, Gonçalo Corrêa de Sá, Manuel Corrêa e Duarte Corrêa (LAMEGO, 1945).
É a partir desse período que a Baixada Campista – e, consequentemente, o território que hoje compreende-se por Tócos – é então ocupada não apenas pelos “herdeiros” dos Sete Capitães, os chamados “Heréus” (LAMEGO, 1945 e 1996) – pioneiros colonos e vaqueiros dos primeiros rebanhos –, mas também pelos padres da Companhia de Jesus. Os jesuítas foram detentores de uma sesmaria que abrangia uma imensa área cedida pelo então governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides (MARCH, 1988), que ia desde a atual Rodovia Estadual RJ-216 (Rodovia do Açúcar) – limitando-se com a sesmeria dos padres da Ordem Beneditina – até as margens da lagoa Feia e o litoral na atual Barra do Furado. A sede desta enorme fazenda era o solar do colégio, de fato o grande marco da ocupação colonial no território, construção iniciada ainda em 1652 e finalizada em 1690 (LAMEGO, 1996 e FERREIRA, 2014). Um dos marcos jesuíticos (totem em monólito rochoso com o símbolo da ordem) encontra-se justamente no perímetro urbano do distrito de Tócos, às margens da Avenida Miguel Rinaldi.
Os padres jesuítas tiveram importante papel na pacificação dos nativos e os ajudavam em sua proteção contra os avanços dos colonos, por meio de reduções missionárias. Uma destas localizou-se próxima à atual localidade de Carioca. Considerando os relatos de Couto Reis, Lamego registra o seguinte, sobre as ações preservacionistas dos jesuítas do Colégio em relação aos goitacás, realizadas já no século XVIII: “afim de subtrai-los à tirania dos colonos, os jesuítas arrebanham muitos para a lagoa da Carioca, em Tócos, e depois para as aldeias do Cabo-Frio, São Pedro-de-Aldeia e Macaé. [...]” (LAMEGO, 1945). A extinta redução jesuítica de Carioca, em Tócos, teria sido então a mais antiga instituída pelos padres do Colégio, precedendo, possivelmente, as célebres reduções que deram origem às cidades de São Pedro da Aldeia e São Fidélis. Os jesuítas também foram responsáveis pela abertura e manutenção de canais, rios e valas saneadoras em suas terras na Baixada Campista – período em que abriram a vala do Mato, canal artificial que dá nome à atual localidade no distrito de Tócos (COUTO REIS, 1785 e LAMEGO, 1996). Entretanto, devido às reformas pombalinas realizadas no reinado de D. José I, os jesuítas foram expulsos das colônias portuguesas e os seus bens incorporados à coroa em 1759. A Fazenda do Colégio, indo à hasta pública, é arrematada em 1781 pelo nobre português e comerciante de escravos Joaquim Vicente dos Reis e seus tios João Francisco Vianna e Manoel José de Carvalho. Vicente dos Reis torna-se em seguida o único proprietário da fazenda, após a morte dos dois tios (FERREIRA, 2014).
Ainda no século XVIII, são também notáveis os primeiros registros relacionados à localidade de Ponta Grossa dos Fidalgos. Já indicada em 1767 na “Carta Topográfica da Capitania do Rio de Janeiro”, de Manuel Vieyra Leão (NASCIMENTO et al., 2013a), a vila de pescadores localizada em uma península da lagoa Feia é novamente cartografada por Manoel Martins do Couto Reis, em 1785 (COUTO REIS, 1785).
O período entre 1813 e o final da década de 1830 (administração da Fazenda do Colégio por Sebastião Gomes Barroso – genro de Joaquim Vicente dos Reis e seu herdeiro, após sua morte (MARCH, 1988) – coincide com o período em que se atestam os primeiros registros do surgimento de outras fazendas no território do atual distrito de Tócos, ou seja, o início da compartimentação da grande fazenda jesuítica original – processo que pode ser considerado um segundo marco da ocupação do território e fundamental para o desenvolvimento do espaço que ocorreria entre o final do século XIX e o início do século XX.
(Fonte: GOMES, 2024).
Período Imperial (séc. XIX ao séc. XX)