A Honorável Jessica Lucy Treuhaft (Asthall, 11 de setembro de 1917 – Oakland, 23 de julho de 1996), nascida Freeman-Mitford, posteriormente Romilly, e também conhecida pelo apelido de "Decca", foi uma nobre, escritora e ativista comunista anglo-americana. Era umas das célebres irmãs Mitford. Seu livro de memórias de 1960, Hons and Rebels, e seu livro de crítica social de 1963, The American Way of Death, tornaram-se obras clássicas. Por sua ideologia socialista, Jessica foi chamada de "ovelha vermelha" da família.

Jessica casou-se com seu primo de segundo grau, Esmond Romilly, e emigrou para os Estados Unidos em 1939. Romilly foi dado como desaparecido em combate em 1941. Em 1943, Mitford casou-se com o advogado norte-americano de direitos civis Robert Treuhaft, com quem trabalhou em estreita colaboração no Congresso dos Direitos Civis. Ela tornou-se cidadã norte-americana em 1944. O casal ingressou no Partido Comunista dos Estados Unidos e recusou-se a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara durante o auge do macartismo e do Pânico Vermelho.

Início de vida miniatura|esquerda|Jessica (ao centro) com sua irmãs, em 1932. Nascida na Asthall Manor, Oxfordshire, Jessica Mitford era a sexta de sete filhos, filha de David Freeman-Mitford, 2.º Barão Redesdale, e de sua esposa, Sydney Bowles. Ela era uma das celébres irmãs Mitford: Nancy (1904–1973), Pamela (1907–1994), Diana (1910–2003), Unity (1914–1948) e Deborah (1920–2014). As ainda irmãs tinham um irmão, Thomas, que em 1945 morreu em combate aos 36 anos de idade.

Impedida pelos pais de frequentar uma escola, Jessica foi educada em casa por governantas e, cada vez mais, rebelou-se contra a vida doméstica fortemente restrita que lhe era imposta. Aos doze anos, abriu uma conta bancária para sua futura fuga no Drummond's Bank, e sua consciência social e política despertou ao ler nos jornais relatos sobre a depressão econômica que afetava a Grã-Bretanha no final da década de 1920.

A irmã mais velha de Jessica, Unity, com quem ela dividira o quarto durante a infância, tinha convicções no extremo oposto do espectro político. Mais tarde, tornou-se uma dedicada nazista e amiga de Adolf Hitler. As duas irmãs traçaram uma linha de giz no meio do quarto para dividi-lo. O lado de Jessica era decorado com foices e martelos e imagens de Vladimir Lenin, enquanto o de Unity era decorado com suásticas e imagens de Adolf Hitler. Por sua ideologia socialista, Jessica foi chamada de "ovelha vermelha" da família.Mallon, Thomas. (16 de outubro de 2006) ["Red Sheep: How Jessica Mitford found her voice", The New Yorker.

Jessica descreveu seu pai conservador como "um dos fascistas por natureza", renunciou à sua origem privilegiada ainda na adolescência e tornou-se adepta do comunismo. Mitford afirmou que seus pais haviam "apaziguado Hitler e o nazismo... Ele havia esmagado os sindicatos, esmagado o Partido Comunista e esmagado os judeus... e não se esqueça de que existe uma enorme corrente de antissemitismo que atravessa essa classe na Inglaterra".

Casamentos e família Com Esmond Romilly Aos 19 anos, Mitford apaixonou-se por seu primo de segundo grau, Esmond Romilly, que se recuperava de uma disenteria contraída enquanto defendia Madrid junto às Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola. Romilly era sobrinho de Clementine Churchill, esposa de Winston Churchill. Apesar do parentesco, os dois primos de segundo grau nunca haviam se encontrado anteriormente, mas, segundo o próprio relato de Mitford, "eu estava apaixonada por Esmond havia anos, desde que ouvi falar dele pela primeira vez".

Os primos fugiram juntos para a Espanha, onde Romilly conseguiu trabalho como repórter do News Chronicle. O plano era que Mitford viajasse como sua secretária. Como justificativa para explicar sua partida à família, Mitford inventou um convite para visitar amigos na Áustria. O casal deixou a Inglaterra em 8 de fevereiro de 1937. Eles chegaram a Baiona, na fronteira entre a França e a Espanha, e, após uma tensa espera pelo visto espanhol de Mitford, embarcaram em um navio de carga com destino a Bilbau, na Espanha. Depois de algumas dificuldades legais causadas pela oposição de seus parentes, os dois se casaram em uma cerimônia civil em Baiona, França, em 18 de maio de 1937.

Romilly e Mitford mudaram-se para Londres e passaram a viver em um apartamento em Rotherhithe, no East End, então uma região predominantemente industrial e pobre. O térreo do edifício funcionava como cassino, onde Romilly trabalhou como crupiê antes de conseguir um emprego mais estável como redator publicitário na agência Graham & Gillies. Mitford deu à luz em casa uma filha, Julia Decca Romilly, em 20 de dezembro de 1937. A criança morreu durante uma epidemia de sarampo em maio do ano seguinte. Jessica Mitford raramente falou sobre Julia em sua vida posterior, e ela não é mencionada pelo nome na autobiografia de Mitford de 1960, Hons and Rebels.

Em 18 de fevereiro de 1939, Romilly e Mitford emigraram para os Estados Unidos após oferecerem uma festa de despedida aos amigos. Eles viajaram pelo país, trabalhando em empregos temporários. No início da Segunda Guerra Mundial, Romilly alistou-se na Força Aérea Real Canadense (RCAF). Mitford vivia em Washington, D.C., e considerou juntar-se a ele quando fosse enviado para a Inglaterra. Enquanto morava em Washington, D.C., junto de seus contemporâneos Virginia Foster Durr e Clifford Durr, deu à luz outra filha, Constancia Romilly ("the Donk" ou "Dinky"), em 9 de fevereiro de 1941. Seu marido foi dado como desaparecido em combate em 30 de novembro de 1941, quando retornava de uma missão de bombardeio sobre a Alemanha Nazista. Mitford ficou devastada.

Com Robert Treuhaft Mitford dedicou-se ao trabalho relacionado ao esforço de guerra. Por meio dele, conheceu e, em 1943, casou-se com o advogado norte-americano de direitos civis Robert Treuhaft, estabelecendo-se posteriormente em Oakland, Califórnia. Tornou-se cidadã norte-americana em 1944.

O casal teve dois filhos: Nicholas, nascido em 1944 e morto em 1955 após ser atropelado por um ônibus, e Benjamin, nascido em 1947. Mitford encarava a maternidade segundo uma filosofia de "negligência benigna", descrita por seus filhos como "prática" e "sem demonstrações excessivas de afeto físico". Ao longo das décadas, tornou-se mais próxima da própria mãe por meio de cartas, mas permaneceu afastada da irmã Diana pelo resto da vida.

Em 1954, Mitford foi atacada por um jovem negro enquanto caminhava à noite para uma reunião. Algumas versões do episódio afirmam que seu marido ouviu o que estava acontecendo e a resgatou. No entanto, Mitford posteriormente contou a uma amiga que havia sido estuprada pelo homem que a atacara e procurou um médico em consequência do ocorrido. Ela não denunciou o crime à polícia porque temia que isso colocasse em risco a vida de um homem negro.

Descendentes Dois dos filhos de Mitford faleceram antes dela.

Sua filha sobrevivente, Constancia Romilly, deu continuidade à tradição de ativismo da família, trabalhando para o Student Nonviolent Coordinating Committee, organização que atuava pelos direitos civis dos afro-americanos; posteriormente, tornou-se enfermeira de pronto-socorro. Romilly teve dois filhos com o diretor do Comitê, James Forman: James Forman Jr., professor da Yale e vencedor do Prêmio Pulitzer, e Chaka Forman, ator.

Seu filho mais novo, Ben Treuhaft, é afinador de pianos radicado em Coventry, West Midlands, no Reino Unido.

Carreira e política Comunismo e política de esquerda Mitford e Treuhaft tornaram-se membros ativos do Partido Comunista em 1943. No início da década de 1950, Mitford passou grande parte de seu tempo trabalhando como secretária-executiva da seção local do Congresso dos Direitos Civis. Por meio desse trabalho e da atuação profissional de seu marido como advogado, ela envolveu-se em diversas campanhas pelos direitos civis, especialmente na tentativa malsucedida de impedir a execução de Willie McGee, um afro-americano condenado pelo estupro de uma mulher branca. Em 1953, como membros do Partido Comunista durante o auge do macartismo e do Pânico Vermelho, os dois foram convocados a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara. Ambos se recusaram a identificar grupos e amigos radicais ou a testemunhar sobre sua participação em organizações comunistas e foram considerados "não cooperativos".

Em 1956, Mitford publicou um panfleto intitulado Lifeitselfmanship or How to Become a Precisely-Because Man. Em resposta a Noblesse Oblige, livro que sua irmã Nancy coescreveu e editou sobre as distinções de classe no inglês britânico, popularizando as expressões "inglês U e não-U" (das classes altas e das classes não altas), Jessica descreveu o inglês L e não-L (de esquerda e não de esquerda), satirizando os clichês utilizados por seus camaradas na luta de classes sem trégua. O título faz alusão à série de livros satíricos de Stephen Potter, que incluía Lifemanship.

Mitford e Treuhaft deixaram o Partido Comunista dos Estados Unidos em 1958, pois haviam chegado à conclusão de que poderiam perseguir seus ideais de maneira mais eficaz fora do partido. Mitford considerava que o partido havia se tornado "bastante inútil".

Em 1960, Mitford publicou seu primeiro livro, Hons and Rebels (título nos Estados Unidos: Daughters and Rebels), um livro de memórias que aborda sua juventude na família Mitford.

Jornalismo investigativo Em maio de 1961, Mitford viajou para Montgomery, Alabama, enquanto trabalhava em um artigo sobre as atitudes do Sul para a revista Esquire. Enquanto estava na cidade, ela e uma amiga foram ao encontro da chegada de um grupo de Freedom Riders e acabaram envolvidas em um tumulto quando uma multidão, liderada pela Ku Klux Klan, atacou os ativistas pelos direitos civis. Após o tumulto, Mitford dirigiu-se a um comício liderado por Martin Luther King Jr. A igreja onde o evento ocorreu também foi atacada pela Ku Klux Klan, e Mitford e o grupo passaram a noite barricados no interior do edifício até que o cerco fosse encerrado com a chegada de tropas da Guarda Nacional do Alabama.

Por meio de seu trabalho com sindicatos e benefícios por morte, Treuhaft interessou-se pela indústria funerária e convenceu Mitford a escrever um artigo investigativo sobre o assunto. Embora o artigo, "São Pedro Não Me Chame", publicado na revista Frontier, não tenha tido ampla circulação, chamou considerável atenção quando Mitford apareceu em um programa de televisão local ao lado de dois representantes do setor. Convencida do interesse público pelo tema, ela escreveu The American Way of Death, publicado em 1963. No livro, Mitford criticou duramente a indústria funerária por utilizar práticas comerciais inescrupulosas para tirar vantagem de famílias enlutadas. O livro tornou-se um grande sucesso de vendas e levou à realização de audiências no Congresso sobre a indústria funerária. A obra foi uma das inspirações para o filme satírico de 1965 do cineasta Tony Richardson, The Loved One, baseado no romance satírico homônimo de 1948, The Loved One, de Evelyn Waugh,

Em 1964, Mitford juntou-se ao Citizens Committee of Inquiry, de Mark Lane.

Depois de The American Way of Death, Mitford continuou a trabalhar com jornalismo investigativo. Em 1970, publicou na revista Atlantic Monthly o artigo "Let Us Now Appraise Famous Writers", uma denúncia da Famous Writers School, um curso por correspondência de práticas comerciais questionáveis fundado por Bennett Cerf. Publicou The Trial of Dr. Spock, the Rev. William Sloane Coffin Jr., Michael Ferber, Mitchell Goodman and Marcus Raskin, um relato do julgamento dos cinco homens em 1970, acusados de conspiração para violar as leis de alistamento militar, seguido por uma crítica contundente ao sistema prisional norte-americano intitulada Kind and Usual Punishment: The Prison Business (1973), em alusão à expressão "tratamento cruel e incomum".