O Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami é uma instituição cultural de Caxias do Sul, Brasil. Tem uma vasta coleção de documentos, fotografias, filmes, gravações, jornais e outros materiais, em sua maioria relativos à colonização italiana na região e à história de Caxias do Sul, cujo valor e amplitude a colocam como uma importante referência no estado.
O Arquivo nasceu em 1976 como um departamento do Museu Municipal, e por muitos anos permaneceu instalado em condições muito precárias nos fundos do Museu. Não obstante, cedo acumulou uma grande coleção e passou a desempenhar atividade relevante. Em 1979 começou um movimento pela sua transferência para uma sede própria, o que só veio a ocorrer entre 1996 e 1997. Em 1998 ganhou autonomia administrativa. O prédio histórico, antiga residência e comércio de Vicente Rovea, sito à avenida Júlio de Castilhos 318, é tombado pelo IPHAE e pelo Município.
História Um Arquivo Municipal já existia em Caxias desde a época da emancipação da vila em 1890, preservando documentação administrativa."Adami, João Spadari. "Episódio histórico de Caxias". Pioneiro, 22/02/1958, p. 9 Em 1919, quando o intendente José Pena de Moraes reorganizou os serviços públicos, determinou que ao Arquivo deveriam ser recolhidos sistematicamente "os livros e papéis findos de todas as repartições da administração, conforme a importância dos mesmos"."Regulamento da Administração Municipal de Caxias". O Brazil, 18/10/1919, p.3 Por ocasião da Festa da Uva de 1950, que comemoraria os 75 anos da imigração italiana, o historiador João Spadari Adami foi convocado pela Prefeitura para selecionar, dentro da coleção de documentos do Arquivo Municipal, aqueles de interesse histórico, para serem exibidos no pavilhão de exposição.Adami, João Spadari. "Falta de sorte". Pioneiro, 14/02/1959, p. 5 Ao longo do tempo, grande parte do material deste primeiro Arquivo foi perdido, deteriorou-se ou foi destruído deliberadamente."Arquivo Histórico". Pioneiro, 03/07/1976, p. 4
Em 1974, durante o processo de reativação do Museu Municipal, foi lançada uma campanha pública para a reconstituição do seu acervo, sendo recebidos também documentos."Museu vai funcionar na Prefeitura". Pioneiro, 27/04/1974, p. 29"Amanhã inauguração do Museu". Pioneiro, 01/03/1975, p. 26 Nesta mesma época, durante a transferência da Prefeitura para uma nova sede, a fim de dar lugar para o Museu, uma vasta quantidade de documentação do Arquivo Municipal esteve a ponto de ser incinerada, mas um grupo de pesquisa liderado por Loraine Slomp Giron alertou a museóloga Maria Frigeri Horn, que coordenava a equipe do Museu, o que possibilitou o salvamento do material e sua incorporação ao acervo.Giron, Loraine Slomp. "O Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul". Folha de Hoje, 10/12/1989, p. 6 Tornava-se claro que era necessário um departamento específico para a guarda e administração desse valioso material,Araújo, João Cândido Graça. "Estudo de usuários do Arquivo Histórico Municipal de Caxias do Sul: João Spadari Adami". Especialização. UFSM, 2010, p. 31 e no início de 1975 já se previa a criação de um Arquivo Histórico."Museu Municipal já tem 500 peças". Correio Riograndense, 26/02/1975, p. 1 Em março de 1976 um outro grande volume de documentos históricos, mapas, pesquisas, fotografias e livros, que ocupava dois carros, foi doada ao Museu pela Comissão do Centenário da Imigração."Museu recebe documentos do Centenário". Correio Riograndense, 31/03/1976, p. 6 thumb|esquerda|Vicente Rovea e sua família na porta da sua casa, coleção do Arquivo Histórico thumb|esquerda|Caxias do Sul nos primórdios do povoamento, coleção do Arquivo
Assim, em meados de junho de 1976 o prefeito Mário Vanin encaminhou à Câmara de Vereadores um projeto de lei para a criação do Arquivo Histórico Municipal,"Arquivo Histórico Municipal". Pioneiro, 26/06/1976, p. 2 que foi aprovado, e em 5 de agosto de 1976 o Decreto nº 4047 criava oficialmente a instituição. Porém, foi instalado numa casinha de madeira nos fundos do Museu, onde funcionou em condições extremamente precárias."A arte de esquecer". Correio Riograndense, 19/04/1978, p. 6 Na prática o Arquivo era um departamento do Museu e ambas as instituições tinham um mesmo diretor.Pontalti, Patrícia. "Pelas trilhas da cultura". Pioneiro, 18-19/01/1007, p. 5 Em 1978 o Museu iniciou a organização do Arquivo, em parceria com a Universidade de Caxias do Sul, e a necessidade de uma sede própria já era evidente. Nesta fase foram definidos os seguintes setores: 1) Documentos, com itens procedentes da antiga Intendência, da Prefeitura, do Judiciário, de particulares (com destaque para a grande coleção de João Spadari Adami), empresas, escolas e outras instituições e órgãos, incluindo correspondência, partituras, legislação, atos oficiais, orçamentos, processos, telegramas, balanços, licitações, requerimentos, etc; 2) Impressos, incluindo jornais, folhetos e livros e uma biblioteca sobre o tema da imigração; 3) Cartografia, com mapas e plantas; 4) Fotografia.<ref>"Arquivo será estruturado". Pioneiro, 22/04/1978, p. 2</ref>"O Museu Municipal de Caxias do Sul". Pioneiro, 21/05/1975, p. Em março de 1979 foi organizada a primeira grande exposição do Museu com material do Arquivo, constituída de fotografias."Caxias: sua gente, sua história". Pioneiro, 14/02/1979, p. 14
Neste ínterim, iniciou um debate sobre o destino da antiga casa e comércio de Vicente Rovea, construída em 1890, que depois havia sido transformada no hospital do celebrado médico Rômulo Carbone, um imóvel de grande valor histórico que, nesta altura já muito degradado, teve sua demolição programada para junho de 1979. Diante da ameaça iminente, o diretor do Arquivo Juventino dal Bó liderou um movimento pela sua conservação e pela transferência do Arquivo para a edificação histórica. A Prefeitura foi chamada a intervir mas alegou não ter recursos para comprar o imóvel. Legalmente também era difícil a proteção, pois ainda não havia lei de tombamento na cidade."Campanha de defesa ao antigo Hospital Carbone". Pioneiro, 05/05/1979, p. 23 O movimento teve grande repercussão e recebeu o apoio da influente Câmara de Indústria e Comércio. Um grupo de empresários adquiriu o casarão e o colocou à disposição da comunidade para uso cultural,"Câmara de Indústria e Comércio". Pioneiro, 10/11/1979, p. 33 mas a solução definitiva ainda tardaria muitos anos.
Em 1980 o Arquivo iniciou a publicação do periódico Boletim Informativo. Neste ano já tinha um acervo de cerca de 300 mil documentos,"Arquivo Municipal". Correio Riograndense, 31/12/1980, p. 2 e iniciava-se o processo de catalogação."Segunda etapa da pesquisa do Acervo Histórico". Pioneiro, 10/05/1980, p. 2 Novas doações continuavam sendo recebidas e ativamente buscadas."Arquivo Histórico com novas doações". Pioneiro, 24/05/1980, p. 57"Jornais antigos para o Arquivo Histórico". Pioneiro, 14/06/1980, p. 7 Ao longo desta década o Arquivo desenvolveu relevante atividade, a despeito das suas pobres condições, oferecendo cursos, participando de congressos e seminários, promovendo exposições e fomentando a pesquisa,"Arquivo Histórico: quatro anos de atividades". Pioneiro, 09/08/1980, p. 49"Museu e Arquivo Municipal: presença forte em encontros culturais". Pioneiro, 04/12/1987, p. 13 tornando-se uma referência no estado.
A casa de Rovea passou para a posse da Prefeitura em 1985, e foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul em 23 de dezembro de 1986,"Hospital Carbone". IPHAE sendo iniciado um projeto de restauro orçado em 3 milhões de cruzeiros e duração prevista para três anos, com financiamento da Prefeitura e do Ministério da Cultura."Em 15 dias inicia nova etapa de restauração do Hospital Carbone". Pioneiro, 12-13/09/1987, p. 23 O restauro sofreu atrasos e em 1989 parte do material do Arquivo já estava depositada na casa, mas ela se encontrava em estado de abandono, sem ter sequer tranca nas portas e sendo invadida por mendigos e depredada por vândalos. Segundo denúncia da vereadora Geni Peteffi, a recuperação do prédio era urgente, pois as condições do Arquivo eram péssimas, e a documentação estava ameaçada pela chuva que se infiltrava no local."Antigo Hospital Carbone, um prédio histórico de todos". Folha de Hoje, 27/11/1989, p. 4"Geni Peteffi denuncia invasão e depredação no prédio Carbone". Pioneiro, 23/11/1989, p. 8 Em dezembro as obras foram retomadas,"Carbone: uma perspectiva de mudança". Folha de Hoje, 15/12/1989, p. 8 ficando pronta na parte interna em janeiro de 1990 e iniciando a parte externa."Verba permite a conclusão do Carbone". Folha de Hoje, 10/02/1990, suplemento Folheto, p. 3
Estando prestes a ocupar o prédio, o Arquivo foi impedido pelo incêndio da Secretaria de Educação, que lá foi instalada em 1992, permanecendo até 1996. No ano seguinte, o espaço finalmente foi liberado para o Arquivo, que instalou-se de maneira ainda precária. A reforma anterior não se desenvolveu como o previsto. A rede elétrica prevista no projeto foi substituída por material mais barato, a iluminação do projeto também não foi instalada, e a mobília usada foi a velha que já estava na antiga sede."Carbone em fase de conclusão". Folha de Hoje, 29/03/1990, suplemento Folheto, p. 1 Os espaços também não foram bem adequados, e a estrutura dos pavimentos superiores não foi preparada para suportar o imenso peso do vasto material documental até então acumulado. Em 1997 foi aprovado projeto de lei que acrescentou à denominação oficial da instituição o nome do historiador caxiense João Spadari Adami, por sua importante contribuição para o resgate e preservação da história local."Projetos aprovados em 1997". Gazeta de Caxias, 21-27/02/1998, p. 4 Em 1998 o Arquivo foi desvinculado do Museu Municipal pela Lei Municipal nº 5026 de 29 de dezembro,"A instituição". Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami e neste mesmo ano já havia sido iniciado um projeto para uma nova reforma a fim de atender às necessidades da instituição,"Arquivo Histórico vai passar por reforma". Caxias Notícias, 03/04/1998, p. 5 obrigando à transferência do acervo para um prédio anexo. A reforma foi ultimada em fins de 1999, ocorrendo a inauguração no dia 7 de dezembro. Na data o acervo já havia crescido para cerca de 700 mil documentos, cerca de 90 mil fotografias e negativos, 15 mil estampas, uma hemeroteca com trezentos títulos, um banco de memória oral com quatrocentas gravações e uma biblioteca."Pesquisadores têm à disposição setecentos mil documentos de administrações passadas". Gazeta de Caxias, 21-27/08/1999, p. 5 A sede foi tombada pela Prefeitura em 2002.
Acervo O Arquivo Histórico abriga um vasto acervo documental abrangendo fotografias, manuscritos e documentos oficiais, além de um banco de memória oral, livros e outros itens. O acervo possui em torno de 500 mil documentos de origem pública, 500 mil de origem particular, 600 depoimentos gravados, 5 mil livros, 300 periódicos e mais de 300 mil fotografias. É uma instituição de referência, em particular por possuir o mais importante acervo relativo à imigração italiana no sul do Brasil. Além do acervo, a instituição se empenha em projetos de pesquisa e mantém uma série de publicações que podem ser acessadas online."Publicações". Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami Em 2022 o acervo estava organizado da seguinte forma:
thumb|Comemorações de Ano Novo, 1899-1910 thumb|Catedral de Caxias do Sul em 1899