António Luis Ernesto de Macedo (Lisboa, – Lisboa, ) exerceu a actividade de cineasta entre 1961 e 1996, tendo sido um dos realizadores mais activos do Novo Cinema português. Explorou as técnicas do cinema directo além de outros experimentalismos de natureza estética e técnica, nos seus filmes de longa-metragem, de curta-metragem e de séries de televisão. Era escritor e ensaísta.

Abandonou o cinema no fim dos anos noventa por se sentir marginalizado. Depois disso, dedicou-se inteiramente à escrita e à actividade docente.A conspiração contra António de Macedo – artigo de João Lameira no jornal Público, 26 de outubro 2016

Biografia O seu pai era empregado do comércio, originário do Pará, Brasil. Conheceu a mãe na Kodak, empresa de materiais fotográficos e cinematográficos, onde ambos trabalhavam. Viviam na Rua do Telhal, em Lisboa. Com os materiais que o pai trazia da Kodak, António começou a fazer filmes amadores de família. Andou no Liceu Camões. Após anos de aulas de piano, aos 19 anos entrou na Sociedade Portuguesa de Autores como músico. Aos 24 anos deixou de tocar depois de uma operação ao braço direto.cinemateca.pt - pdf

Frequentou a ESBAL (Escola Superior de Belas Artes de Lisboa), onde se graduou como arquitecto em 1958. Exerceu a profissão de arquitecto na Câmara Municipal de Lisboa até 1964, dedicando-se, por fim, ao audiovisual e à literatura. Assinou uma das primeiras obras teóricas e didácticas sobre cinema editadas em Portugal: A Evolução Estética do Cinema (Clube Bibliográfico Editex, 2 vols. 1959-1960).

Foi cofundador das cooperativas Centro Português de Cinema (1970) e Cinequanon (1974).

Pertenceu à Maçonaria e foi Discípulo Rosacruz da Fraternidade Rosacruz Max Heindel, filiada na The Rosicrucian Fellowship.

Especializou-se na investigação e estudo das religiões comparadas, de esoterologia, de história da filosofia e da estética audiovisual, das formas literárias e fílmicas de speculative fiction, temas que tem abordado em inúmeros colóquios, conferências e em diversas publicações. Na sequência destes trabalhos e investigações, doutorou-se em Sociologia da Cultura, com distinção e louvor, em 2010 (Universidade Nova de Lisboa).

Dedicado ao ensino desde 1970, foi professor no Instituto de Artes Decorativas (IADE), Instituto de Novas Profissões (INP), Universidade Lusófona, Universidade Moderna e na Universidade Nova de Lisboa, regendo cadeiras como Teoria e Prática do Cinema, Análise de Imagem, Arte Narrativa e Esoterismo Bíblico.António de Macedo – em Projecto Vercial

Macedo era mais conhecido como realizador, actividade que abandonou em 1996. Apesar da sua vasta e original filmografia, apesar da vertente cultural do cinema que pratica, viu recusados vários projectos que apresentou nos concursos oficiais para o financiamento de filmes portugueses. Salvo algumas raras excepções, o cinema português é financiado pelo Estado, que nomeia júris que decidem quais os projectos a apoiar.

Numa entrevista publicada na revista Autores, editada pela Sociedade Portuguesa de Autores (n.º 14, Abril / Junho 2007), entrevista intitulada Nos Interstícios da Realidade, a propósito de um prémio que lhe foi atribuído (Consagração de Carreira da SPA), explica o porquê do seu abandono:

«AUTORES — Quando se reformou [em 1996] largou definitivamente o cinema… «A. DE MACEDO — Tive de largar antes, foi em 93, embora tivesse continuado na Cinequanon — cooperativa da qual ainda hoje sou sócio —, porque houve uma espécie de conflito estético-cultural, o que lhe quiserem chamar, com os júris que atribuem os apoios financeiros para se fazerem filmes de fundo e que eram facilmente manipuláveis. A verdade é que alguns membros dos júris me disseram, mais tarde, que o meu tipo de cinema era “um cinema que não interessava” — um cinema fantástico, um cinema “desligado das realidades”, um bocado fantasioso, e esse tipo de imaginário não interessava para o cinema português. E por isso comecei a ser censurado num regime onde, constitucionalmente, não há censura».Entrevista SPA

Censurado no tempo da ditadura e em tempo de democracia, Macedo parece ser um dos casos ilustrativos de atitudes de um poder que tem (ou teve) preferência de autores.

Tinha orgulho em ter sido "dos poucos ditosos, ou privilegiados, que pertenceram a duas gerações marcantes do século XX cultural português": a «Geração de 60» do Novo Cinema Português e a «Geração de 90» na literatura. Publicou toda a sua obra literária ficcional, romances, contos, etc integrada na literatura fantástica portuguesa. Emparceirou com os arautos da Nova Literatura portuguesa de Ficção Fantástica e Científica como João Barreiros, Luís Filipe Silva, José Manuel Morais, Daniel Tércio, Maria de Menezes ou João Botelho da Silva.

Em junho e julho de 2012, a Cinemateca PortuguesaCinemateca Portuguesa realizou uma retrospectiva com a totalidade da obra deste cineasta, editando um volumoso catálogo de 192 páginas totalmente dedicado aos seus filmes de curta e de longa metragem, intitulado O Cinema de António de Macedo, com textos, entrevistas, recensões críticas, etc. de vários autores. No mesmo ano, recebeu o Prémio SOPHIA de Carreira, atribuído pela Academia Portuguesa de Cinema. Em 2013, foi a vez do Fantasporto lhe dedicar uma homenagem com atribuição do troféu Prémio de Carreira, com textos subordinados ao tema “António de Macedo - O Fantástico no Cinema Português”, inseridos no catálogo do 33.º Festival Internacional de Cinema do Porto - Fantasporto 2013. Em 2014 recebeu o Prémio ADAMASTOR “Personalidade Fantástica 2014”, atribuído pelo Colectivo Trëma e pelo Fórum Fantástico.António de Macedo – em Triplov Em 2018, a Editorial Divergência criou o Prémio António de Macedo, destinado a premiar manuscritos inéditos.

Morreu a 5 de outubro de 2017, no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, onde se encontrava internado.Morreu o cineasta António de Macedo, CM 5.10.2017

Filmografia Longas-metragens

1965 – Domingo à Tarde 1967 – Sete Balas para Selma 1970 – Nojo aos Cães 1972 – A Promessa 1975 – O Rico, o Camelo e o Reino ou O Princípio da Sabedoria 1976 – As Horas de Maria 1979 – O Príncipe com Orelhas de Burro 1983 – Os Abismos da Meia-Noite 1988 – Os Emissários de Khalom 1989 – A Maldição de Marialva 1993 – Chá Forte com Limão 2016 – O Segredo da Pedras Vivas

Curtas e médias-metragens

1961 – A Primeira Mensagem 1962 – Verão Coincidente, baseado num poema de Maria Teresa Horta 1963 – Nicotiana, sobre a Tabaqueira 1963 – 1X2 1966 – Afonso Lopes Vieira 1966 – Crónica do Esforço Perdido 1966 – Fernão Mendes Pinto 1967 – Alta Velocidade 1968 – Albufeira 1968 – Fado - Lisboa-68 1968 – A Ginástica na Prevenção dos Acidentes 1968 – A Revelação 1969 – Almada Negreiros, Vivo Hoje - Prémio Paz dos Reis (que recusou) 1969 – Cine-Riso nº 1 1970 – História Breve da Madeira Aglomerada 1970 – Totobola — Relatório e Contas 1971 – Cinco Temas para Refinaria e Quarteto 1971 – Do Outro Lado do Rio — Almada 1972 – Inauguração da Doca Alfredo da Silva 1972 – O Leite 1972 – Lisboa — Jardim da Europa 1973 – Cenas de Caça no Baixo Alentejo 1973 – A Criança e a Justiça 1973 – Marconi — Via Satélite 1973 – Um Milhão de Vóltios 1974 – Arquitectura e Habitação 1974 – A Arte Culinária 1974 – A Profissão de Produtor de Cinema em Portugal 1974 – Vendedores Ambulantes 1975 – Candidinha 1975 – A Cooperativa Cesteira de Gonçalo 1975 – Hotel das Arribas — Um Ano de Auto-Gestão 1975 – Ocupação de Terras na Beira-Baixa 1975 – A Penteadora 1975 – Peter Lilienthal filma em Setúbal 1975 – Teatro Português 1975 – Unhais da Serra — Tomada de Consciência Política numa Aldeia Beirã 1976 – Os Encadernadores 1976 – Os Tipógrafos 1977 – Cooperativa de Ópera 1978 – A Bicha das Sete Cabeças 1978 – O Encontro 1979 – Encontros Imediatos do Nosso Grau 1979 – Ano Internacional da Criança 1982 – O Futuro do Mondego 1982 – Para uma Vida Melhor, numa Cidade Melhor 1985 – 50 Anos de um Complexo Escolar Universitário de Engenharia

Na televisão

1975 – Fatima Story 1976 – O Outro Teatro - As Coisas Pertencem a Quem as Torna Melhores 1979 – Recuperação de Deficientes (série) 1979-1980 – XX-XXI Ciência e Técnica, Hoje e Amanhã (série) 1981 – A Magia das Bonecas (série) 1988 – Fernando Lanhas - Os Sete Rostos 1992 – O Altar dos Holocaustos (série) 1996 – Santo António de Todo o Mundo

Literatura

A nível do ensaísmo, abordava as religiões comparadas, tradições esotéricas e a história da filosofia e da estética audio-visual. A nível da ficção, especializou-se na literatura fantástica e da ficção científica. Inclusivamente, foi um dos promotores dos Encontros Internacionais de Ficção Científica & Fantástico de Cascais, cuja primeira edição ocorreu em 1996, sendo um dos seus coordenadores. Dentre os diversos livros de ensaios que publicou, salienta-se a sua tese de doutoramento em Sociologia da Cultura, um denso volume de 670 páginas de investigação sociocultural e esoterológica dos textos bíblicos, intitulado Cristianismo Iniciático. Neste estudo, Macedo aprofunda em termos de História e Sociologia os conteúdos e os textos da Bíblia, discutindo especialmente a decisiva importância das interpretações esotéricas e heterodoxas da Bíblia, e respectivos autores e correntes, desde a produção dos antigos textos bíblicos até hoje, bem como o profundo significado dessas interpretações para o desenvolvimento da mentalidade, da cultura e da ciência na civilização ocidental.

Ensaios

1959 - A Evolução Estética do Cinema, vol. 1 1960 - A Evolução Estética do Cinema, vol. 2 1961 - Da Essência da Libertação 1999 - Instruções Iniciáticas 2002 - Laboratório Mágico 2003 - O Neoprofetismo e a Nova Gnose 2006 - Esoterismo da Bíblia 2006 - Textos Neo-Gnósticos 2011 - Cristianismo Iniciático 2016 - A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários

Ficção

1992 - O Limite de Rudzky (contos) 1993 - Contos de Androthélys (romance) 1995 - Sulphira e Lucyphur (romance) 1996 - A Sonata de Cristal (romance) 1998 - Erotosofia (romance) 2000 - O Cipreste Apaixonado (romance) 2004 - As Furtivas Pegadas da Serpente (romance) 2007 - A Conspiração dos Abandonados (contos) 2017 - Lovesenda ou o Enigma das Oito Portas de Cristal (romance)

Teatro

1983 - A Pomba 1984 - A Nova Ilusão 1989 - O Osso de Mafoma 2011 - O Sangue e o Fogo (Compilação de O OSSO DE MAFOMA, A POMBA e A NOVA ILUSÂO)

Bibliografia

José de Matos-Cruz - António de Macedo: Cinema - A Viragem de Uma Época, Ed. Publicações Dom Quixote (Lisboa, 2000)

Ver também

Cinema de Portugal

Referências

Ligações externas O Percurso Singular de António de Macedo em Bissaide, blogue. António de Macedo em Projecto Vercial. António de Macedo no Triplov António de Macedo, alquimista (Triplov) António de Macedo no Dicionário de Autores do Triplov. Os reinos mágicos estão aqui mesmo – entrevista (Triplov). Páginas Esotéricas por António de Macedo

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