A língua tukano, também conhecida como ye'pâ-masa ou dásea, é uma língua ativa da família tukano, mais especificamente tukano oriental, conhecida pelos estudiosos como "tukano próprio", falada por diferentes nações indígenas (aproximadamente 10 mil falantes), muitas vezes como língua franca devido à grande presença do povo tukano e a necessidade de comunicação, na região do alto rio Negro, Amazonas, no Brasil e na Colômbia, também estando presentes na Venezuela, seguindo as margens do rio Uaupés.
As etnias da região que possuem o tukano como fala são: arapaso, bará, barasana, desana, karapanã, kubeo, makuna, mirity-tapuya, pira-tapuya, siriano, tariana, tukano, tuyuca, kotiria, tatuyo, taiwano, yuruti, uanana.
A língua tukano e seu povo possuem uma história com fortes marcas da colonização europeia na região, tendo sido promovida pela escravidão e aldeamentos no século XVIII. Posteriormente, no início do século XX, a expansão de missões salesianas na região fortaleceu o estudo, documentação e compreensão da língua, adaptando-a e escrevendo-a no alfabeto latino. Em 2023, o tukano foi declarado língua oficial do Amazonas, acompanhado de outras 15 línguas indígenas, também sendo uma das três línguas oficiais do seu município de São Gabriel da Cachoeira, o mais plural em relação a línguas no país. Entretanto, as etnias falantes do tukano ainda estão inseridas nos conflitos indígenas nacionais sobre seus direitos, destacando Álvaro Tukano, membro ativo na causa.
A língua tukano é uma língua sufixal, ou seja, a adição de sufixos é o principal constituinte dos morfemas, sejam eles nominais ou verbais. Assim, utiliza-se de nomes dependentes, nomes independentes, verbos dependentes e verbos independentes para estabelecer sua morfosintaxe. Um ponto notável é a divisão da 3ª pessoa animada do singular entre feminina e não feminina na conjugação verbal.
Etimologia A origem do nome exônimo "tukano" para designar a língua remonta ao século XIX, quando os jovens indígenas ye'pâ-masa perseguiam mulheres de outros grupos para agarrá-las, sendo comparados à ave tucano (caracterízada por se movimentar em grupos) quando se aproximavam das moças. A alteração de "tucano" para "tukano" remete à própria identificação dos povos, diferenciando-se da escrita igual ao animal. Na sua própria língua o nome tucano é dito dásea, que significa "aves tucano", sendo mais utilizado entre os falantes no território colombiano.
Já a origem do nome endônimo ye'pâ-masa traz consigo o significado das palavras na língua nativa, sendo a forma que o próprio povo refere-se a si mesmos e à sua língua. O termo ye'pâ tem o significado de "nossa mãe", sinônimo de "nossa terra", "nossa ancestral" e "lugar de onde viemos"; já o termo masa apresenta a ideia de "gente". Portanto, a expressão ye'pâ-masa significa "gente da nossa terra" ou "gente da nossa mãe".
Distribuição A língua tukano está presente na região do alto rio Negro, cidade de São Gabriel da Cachoeira, estado do Amazonas, Brasil seguindo as margens do rio Uaupés e seus afluentes, extendendo-se para a Colômbia na área fronteiriça com o Brasil, também estando presentes na fronteira colombiana e venezuelana. Atualmente, a língua possui cerca de 10 mil falantes totais, evidenciando a diminuição de falantes em relação a dados anteriores de 18.705 na Colômbia (2001) e 11.130 no Brasil (2000).
Os aldeamentos religiosos tiveram grande influência ao concentrar os falantes de tukano e, simultaneamente, serem responsáveis por separar os grupos e formar interações diversas. Assim, não houve uma diáspora ou imigração deliberada. Além disso, como grande parte dos falantes do tukano não são da própria etnia tukano, muitos falam o idioma como língua franca após o apagamento de suas respectivas línguas em reduções, tornando-se uma língua necessária e hegemônica na região para as comunicações e transações entre os povos locais.
Embora o tukano não possua diferentes dialetos, ele tem relações com as outras 10 línguas que também fazem parte da família línguística tukano. As ramificações línguisticas estão indicadas a seguir:
Família Tukano
Tukano ocidental Koriguage, †Tama Siona, †Macaguaje Sekoya Orejón Tukano oriental Tukanoide Desanida Desano e codialetos †Yupúa Barasanida Barasana e codialetos Eduria Makuna Tukanida Ye'pâ-masa (língua tukano) Pira Tupuyo e codialetos Wanano †Arapasú †Koewána Tuyuka e codialetos Yurutí Pisa-Mira Bará/Waimaja Karapaná Tatuyo Tanimuka †Kueretú Kubeo
Também vale ressaltar que essas relações implicam em uma quantidade indefinida de inovações e empréstimos línguisticos para a língua tukano, principalmente dentro do grupo tukanid, que forma uma forte unidade de semelhanças. Assim, uma grande dificuldade para linguistas é a distinção complexa entre as origens dos fenômenos semelhantes que ocorrem nessas línguas.
História miniaturadaimagem|Indígenas tukano em cerimônia de recepção|esquerda Acerca da história da língua tukano, não se tem registros anteriores aos fatos envolvendo o processo de colonização indígena pelos europeus, iniciado no século XVIII. No entanto, isso não significa que não se possui história, apenas não seguindo o molde de história escrita; Os aspectos cosmológicos e sociais são objeto de estudo na medida que a autocompreensão constitui a visão de mundo do povo. Como exemplo, tem-se o traço cultural de que indivíduos pertencem ao grupo e língua de seu pai, devem casar com membros de outras etnias.
A primeira fase de contato entre europeus e a língua tukano ocorreu com a derrota de povos resistentes no baixo rio Negro e a seguinte escravização de povos, mas alguns, como os kueretú e aroaqui, colaboraram no processo ao ajudar na caça de indígenas portuguesa. Logo, houve a proibição da escravidão indígena após o maior controle da administração portuguesa, responsável pelos descimentos e aldeamentos de grupos indígenas inteiros.
Os responsáveis pelo processo de extração das drogas do sertão, que eram favoráveis ao uso da mão de obra tukano, frequentemente atacavam aldeias para capturar pessoas e impor trabalho forçado. O processo do ciclo da borracha e a presença de seringalistas também deixou severas marcas nos povos com o trabalho escravizado ilegal e suas condições péssimas. Assim, houve movimentos do governo para "civilizar" os grupos indígenas, permitindo o processo catequético de ordens religiosas. De início, em 1916, os franciscanos chegaram na área para catequizar e educar conforme as normas sociais coloniais, seguidos por salesianos, tornando-se os responsáveis pela luta contra o trabalho escravo seringalista e agressões de comerciantes. No entanto, a imposição da fé cristã levou a fortes abalos na cultural tradicional e modos de vida, marcando severas agressões ideológicas e sociais, levando ao fim de práticas como o nomadismo. miniaturadaimagem|Planta de aldeamento religioso|224x224pxOs primeiros registros escritos da língua ocorreram em meio ao contexto das missões religiosas durante o século XX, realizando a base da escrita no alfabeto latino, com objetivo de compreender a língua para melhorar as formas de catequese e aprendizado dos povos. Um dos primeiros trabalhos sobre a gramática tukano é a obra "Pequena gramática e dicionário da língua tucana" do padre salesiano Antônio Giacone em 1960. E, com o passar dos anos, a língua portuguesa tornou-se uma base para os povos tukano, havendo uma cartilha (em português) para ensinar a língua tukano para as crianças. Os aldeamentos exerceram sua influência direta na região até o final do século XX.Atualmente, a língua tukano e seu povo ainda estão inseridos no contexto de conflitos políticos nacionais acerca de demarcação de terras, conflitando com grileiros e grandes proprietários, e da valorização da cultura indígena. Seu principal representante é o ativista socioambiental Álvaro Tukano.miniaturadaimagem|Álvaro Tukano no Senado brasileiro|esquerda Fonologia A língua tukano registra dezoito fonemas, sendo seis deles vogais (//, //, //, //, //, //), 12 consoantes (//, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //) e suas variantes nasalizadas (denotado por um til: ~), com laringalização (denotada por um apóstrofo: ') e duas melodias tonais tônicas (a melodia alta, denotada por um acento circûnflexo: ^) e a melodia ascendente (denotada por um acento agudo: ´).
Consoantes Existem doze fonemas consonantais, dividindo as consoantes em oclusivas surdas ou sonoras, fricativas, vibrantes e semivogais fonemas, tornando o // em [], o // em [], o // em [], também apresentando nasalisação no // e //.
Consoantes Bilabial Alveolar Palatal Velar Glotal Oclusivas surdas Oclusivas sonoras Fricativas Vibrante Aproximantes
Vogais As vogais diferenciam-se quanto a elevação da língua, abertura da boca, zona de articulação e arredondamento da boca, apresentando seis vogais orais (ar sai apenas pela boca) que podem tornar-se nasais (ar sai pela boca e pelas fossas nazais). Um ponto interessante sobre as vogais envolve a estrutura dos morfemas, onde cada radicais quase sempre consta de duas vogais acompanhadas de uma ou duas consoantes e, se uma das vogais for nasalizada, o que é devidamente marcado apenas na primeira vogal, toda a palavra sofre nasalização por consequência.
// é alta, fechada, anterior e não arredondada. // é média, semiaberta, anterior e não arredondada. Corresponde ao fone []. // é alta, fechada, central e não arredondada. // é baixa, aberta, central e não arredondada. // é alta, fechada, posterior e arredondada. // é baixa-média, podendo ser semifechada ([]) ou, mais normalmente, semiaberta ([]), posterior e arredondada.
Vogais Anteriores Centrais Posteriores Fechadas Semiaberta Abertas O caso de ditongo entre vogais orais ocorre quando uma sílaba CV (consoante + vogal) é seguida por uma sílaba V (vogal), onde qualquer vogal pode assumir a posição inicial ou final em um grupo vocálico. Já o caso de ditongo entre vogais nasais segue a mesma propriedade, no entanto a vogal final sempre é //, // ou //. Em ocorrências de tritongo, que são muito raras, apenas encontram-se os grupos // e //.
Tons A língua tukano possui diferenciação entre seus tons por acentuação tonal, sendo o tom a altura musical das vogais. Existem três tons no tukano, que sempre são graficamente notados na segunda vogal, pois a primeira é reservada à marcação da nasalização. Vale apontar que os tons são de uso lexical, ou seja, distinguem totalmente as palavras. Os tons são:
Tom ascendente (livre ou flutuante): Ocorre quando a primeira vogal do morfema é baixa e a segunda torna-se alta. Tom alto: Ocorre quando as duas vogais são altas. Porém se a primeira vogal for laringalizada ou seguida por consoante surda ela passa a possuir um tom mais baixo. Tom baixo: Ocorre quando ambas as vogais são baixas. É característica de sufixos, verbos e nomes dependentes.
Ortografia A língua tukano usa o alfabeto latino com as devidas adaptações feitas por missionários, tendo a direção de escrita e leitura da esquerda para a direita e de cima para baixo. As relações entre grafemas e fonemas, assim como a pronúncia em português ou inglês e especificidades, estão mostradas na tabela a seguir: