thumb|Nave principal da Basílica de São Lourenço, Florença, 1419-1460. A arquitetura do Renascimento ou arquitetura Renascentista é a fase da arquitetura italiana que se desenvolveu de 1420 até meados do século XVI. A arquitetura deste período manifestou-se como uma atitude de contestação face à tradicional influência religiosa e ao obscurantismo medieval, estabelecendo uma rutura deliberada com a estética da arquitetura gótica e da arquitetura românica. À civilização cristã medieval contrapô-se uma ideologia antropocêntrica e humanista. Este ideal procurava fazer renascer e desenvolver de forma crítica as bases da cultura espiritual, material e arqueológica da antiguidade greco-latina, cujo élan foi impulsionado pela herança cultural trazida por eruditos após a queda de Constantinopla em 1453.
Este novo espírito traduziu-se na procura de uma clareza racional, na simetria, nas proporções, na tectónica das ordens clássicas e gramática decorativa romana baseada no tratado de Sérlio (1475-1552) – que recupera as ordens toscana, dórica, jónica, coríntia e compósita – bem como na clara articulação das plantas e dos alçados. Os sistemas medievais de proporção irracionais ou geométricos (como a quadratura e a triangulação) foram formalmente substituídos por princípios matemáticos e de ordenação naturalista, assentes na confiança de que o mundo era uma realidade "mensurável". A captação rigorosa da realidade passou a exigir o estudo de disciplinas como a botânica, a anatomia e a geologia, o que levou à subordinação das belas-artes (como a escultura e a pintura) à própria estrutura arquitetónica.
O estilo do chamado Quattrocento (c. 1400-1500), também conhecido como "primeiro Renascimento" teve origem em Florença, favorecido pela afirmação da cultura burguesa e do humanismo, num contexto de forte prosperidade económica e comercial das cidades italianas após as Cruzadas. A ascensão desta rica burguesia capitalista estimulou o fenómeno do mecenato, através do qual príncipes, mercadores e famílias influentes patrocinavam e sustentavam intelectuais e artistas para a glorificação do seu patrono e afirmação da sua própria notoriedade individual, florescendo posteriormente noutras cortes como as de Mântua e de Urbino. A fase subsequente quinhentista, do Alto Renascimento, (c. 1500-1525) conhecida como "Renascimento clássico", teve o novo centro da vida artística em Roma, onde conceitos derivados da antiguidade clássica foram empregues com maior convicção, coexistindo no mesmo século com o maneirismo (), que é geralmente considerado pela historiografia como a terceira fase do Renascimento.
Durante o período maneirista, os arquitetos romperam com a rigidez clássica, experimentando novas combinações de formas para acompanhar o dinamismo das relações sólidas e espaciais. O ideal renascentista de harmonia deu lugar a ritmos mais livres e imaginativos. Esta evolução ficou marcada pelo afastamento do anonimato dos artesãos e operários medievais em prol da exaltação do indivíduo criador e da autoria, à semelhança do que ocorria na pintura e na escultura. Paralelamente, fez-se sobressair a importância do cliente, do mecenas e dos programas conceptuais baseados em textos, beneficiados pela rápida difusão e "democratização" da cultura propiciada pela imprensa de Gutenberg. O processo de construção passou a exigir a elaboração de plantas rigorosas, desenhos detalhados e maquetes tridimensionais, garantindo uma documentação histórica abundante. À medida que o estilo se expandia pela Europa, assimilou-se de acordo com a natureza de cada país, gerando variantes regionais distintas como o Renascimento nórdico nos Países Baixos e na Alemanha,Benesch, O. Iskusstvo Severnogo Vozroždenija. Moscovo: Iskusstvo, 1973. a arquitetura renascentista francesa, o plateresco em Espanha (com a influência da arte mudéjar e a utilização de diferentes materiais), as expressões do estilo elisabetano e jacobino no Reino Unido, o Renascimento Russo e o estilo manuelino em Portugal, uma variação muito própria nascida na transição do rebuscado gótico flamejante da Baixa Idade Média. Toda esta linguagem assentou na introdução de elementos essenciais como as abóbadas de berço, as cúpulas hemisféricas, os arcos de volta perfeita, as lógias e as fachadas almofadadas ou bujardadas da arquitetura áulica.
Contexto
thumb|A Escola de Atenas, uma das cenas das Estâncias Vaticanas de Rafael Sanzio (1512-1514), é uma obra que mostra a relação do Renascimento com o Humanismo e o Classicismo. Num entorno arquitetónico inspirado nas obras da Basílica de São Pedro em que o próprio Rafael interveio, aparecem retratados, encarnando os sábios gregos, muitos dos arquitetos e artistas contemporâneos.
thumb|Florença, fachada da basílica de San Miniato al Monte, exemplo de arquitetura proto-renascentista No início do século XV, a Itália era dividida em cinco estados principais (Reino de Nápoles, Estado Pontifício, República de Florença, República de Veneza e Ducado de Milão), cercados por numerosos ducados e repúblicas menores (como o Ducado de Urbino, o Ducado de Mântua e a República de Siena).
thumb|Cosimo de' Medici, chefe do Banco dos Medici, patrocinou programas de construção cívica. Retrato póstumo de Pontormo. Florença, no século XV, consolidou o seu poder económico através de um dinamismo baseado numa inovadora organização produtiva industrial, mercantil e bancária. Com a afirmação definitiva da burguesia da cidade, passou-se de uma espécie de empresa familiar a uma empresa composta por numerosos funcionários, balconistas, correspondentes estrangeiros e viajantes. A família Medici, em particular, era proprietária de uma empresa com agentes em vários centros mercantis da Europa e tinha ligado o seu nome aos mais prestigiados cargos públicos da cidade: foi através do controlo das eleições, do sistema tributário e da criação de novas magistraturas atribuídas a homens de grande confiança que, nas primeiras décadas do século XV, Cosimo, o Velho lançou as bases sólidas do poder da Família Medici, tornando-se de facto senhor de Florença.
O segundo campo útil para a contextualização da arquitetura do século XV é o dos estudos literários, linguísticos, filológicos e de tradução de textos clássicos, iniciado no século XIV com Francesco Petrarca e continuado por uma série de autores de extração florentina. Os humanistas, diferentemente dos monges medievais, tentaram uma leitura crítica das obras latinas, buscando não apenas o que interessava aos teólogos, mas também outros aspetos da vida humana, como história, política e arte.
O outro aspeto que pode explicar a predisposição da Toscana ao desenvolvimento da arquitetura renascentista é o carácter geográfico e nacional desta região, que teve a sua expressão inicial na arte etrusca e que ainda era claramente reconhecível na época medieval: da elegância da fachada da San Miniato al Monte às composições grandiosas e serenas da Santa Croce, Santa Maria Novella e Santa Maria del Fiore. Além disso, quando já em 1334 as autoridades decidiram nomear um pintor, Giotto, como o novo mestre construtor da catedral florentina, foram lançadas as bases para um novo período na história profissional da arquitetura, que teria o seu apogeu no Renascimento: a partir de então, grandes artistas foram homenageados e admitidos em cargos que não se enquadravam em suas especialidades apenas por respeito à sua genialidade.
Por outras palavras, no início do século XV, em Florença, ocorreu uma série de fatores excecionais, autónomos, mas concomitantes, para o nascimento de uma nova arquitetura. Além disso, uma república mercantil rica como a florentina tinha necessariamente de visar ideais humanos e não transcendentais, a clareza e não a obscuridade, a atividade e não a meditação; por esta razão o espírito da Roma Antiga, claro e realista, só poderia ser redescoberto em Florença.
thumb|Roma, o Panteão em gravura de Antoine Lafréry
No final do século XV, porém, o velho mundo florentino começou a exaurir-se; logo, a vanguarda da primeira geração deu lugar a uma academia aristocrática, tanto que a partir de 1470, com exceção de Leon Battista Alberti, as mais avançadas pesquisas no campo da arquitetura foram levadas a cabo, paradoxalmente, por dois pintores: Piero della Francesca e Andrea Mantegna.
Foi assim que, no século XVI, o centro de gravidade artístico da Renascença mudou de Florença para Roma. O contexto romano estava distante do contexto burguês, mercantil e industrial florentino; também carecia da continuidade que caracterizou a passagem de Florença da Idade Média para a Renascença. Com o retorno dos papas após o Cativeiro de Avinhão, a cidade foi reduzida a um pequeno centro urbano, de onde surgiam os amontoados de ruínas dos vestígios imperiais. A renovação de Roma segundo o prestígio da Igreja Católica, iniciada pelo Papa Martinho V e confirmada pelos seus sucessores, passou por uma série de pontos fundamentais: devolver a cidade aos seus antigos esplendores, começando obras de restauro e reforço das fortificações. A viragem ocorreu sob o Papa Júlio II, eleito em 1503, que atualizou o programa acima exposto fazendo uso do capitalismo bancário e das contribuições da cultura humanista.
Esta época feliz foi interrompida pelo saque de Roma em 1527, que deixou a cidade em ruínas e comprometeu os alicerces da civilização ressurgimental, pelo menos até a chegada de Michelangelo Buonarroti em 1534, que, a partir dessa data, criou algumas das suas obras mais importantes; tudo isso, porém, no clima renovado da Contra-reforma.
Periodização thumb|Santa Maria della Consolazione em Todi (1508-1607). Exemplo de igreja de planta central. Na sua construção trabalharam Cola da Caprarola, Antonio da Sangallo, o Velho, Baldassarre Peruzzi, Galeazzo Alessi, Michele Sanmicheli, Jacopo Vignola e Ippolito Scalza. thumb|Villa Capra, Andrea Palladio, 1566. Exemplo de arquitetura palladiana. thumb||Gravura de Palladio do Tempietto de Bramante thumb||Planta do Tempietto de Bramante em Montorio A história da arquitetura do Renascimento, como um todo, costuma ser dividida em três grandes períodos:
Século XIV e início do XV (Quattrocento): o Início da Renascença. Neste primeiro momento, destaca-se a figura de Filippo Brunelleschi e Leon Battista Alberti, e uma arquitetura que se pretende classicista, mas ainda sem o referencial teórico e, principalmente, a canonização que caracterizará o período seguinte. Século XV e início do XVI (Cinquecento): considerado o período da Alta Renascença, no qual atuam arquitetos como Donnato Bramante, Rafael Sanzio, Antonio da Sangallo, o Jovem e, posteriormente, Miguel Ângelo. Século XVI: o Renascimento Tardio ou Baixo Renascimento, de meados do século XVI ao início do século XVII (em que se inicia a arquitetura barroca). Nesta fase, as características individuais dos arquitetos já começam a sobrepor-se às da canonização clássica, o que irá levar ao chamado Maneirismo. Atuam arquitetos como Giulio Romano, Jacopo Vignola, Giorgio Vasari, Giacomo della Porta e Andrea Palladio.
Nos países "ao norte dos Alpes", períodos semelhantes na arquitetura foram desenvolvidos mais tarde, não antes do século XVI, e as inovações renascentistas foram enxertadas nas tradições românico-góticas já existentes. Daí o aparecimento de formas arquitetónicas mistas renascentistas-góticas e renascentistas-maneiristas.
Historiografia
O termo "Renascimento" já era utilizado pelos tratadistas da época para destacar a redescoberta da arquitetura romana, da qual vários vestígios mantiveram-se intactos no século XV.