Nanã, Nanan Buluku, Anamburucu, Borocô, NanamburucuFERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 114. ()Nanã Buruku, Por Pierre Verger ou Nanã Buruquê é o ser supremo na religião do povo Fon (África Ocidental), e um vodum e orixá em tradições afro-americanas. No Candomblé brasileiro, é responsável pelos portais de entrada (reencarnação) e saída (desencarne), identificada no jogo do merindilogum pelo odu ejilobom e representada materialmente através do assentamento sagrado denominado ibá de Nanã.

Na cosmologia religiosa Fon/Daomeana, Nàná Buruku é uma força primordial, ancestral e suprema, mais antiga do que qualquer ser ou divindade. Na mitologia daomeana, é a progenitora da divindade Mawu-Lisa, responsável pelo mundo. Nanã é a força criadora primária, e Mawu-Lisa é a força que traz ordem ao universo.Encyclopedia of African religion, Molefi Kete Asante e Ama Mazama.

Com a chegada da diáspora africana ás américas, a resistência cultural e religiosa colocou tradições Fon, Iorubás, Jejes e outras em contato contínuo. Isso permitiu que ideias religiosas fossem identificadas, traduzidas e incorparadas na formação de identidades afro-americanas.

Sendo assim, nas religiões afro-brasileiras, Nanã apresenta ao mesmo tempo a identidade de orixá (no sentido iorubá) como de uma força primordial (no sentido Fon/Jeje).

A área que abrange seu culto é muito vasta e parece estender-se de leste, além do rio Níger, até a região dos nupés, a oeste, além do rio Volta, nas regiões dos "guang", ao nordeste dos axantes.

Nanã, em seu aspecto puro, é considerada uma força sem genêro, por ter sido também a criadora do masculino e feminino. No entanto, costuma ser representada como uma senhora idosa, avó, associada à lagoas, pântanos, mangues, e o fundo dos rios . Para os eués e minas, ela é às vezes representada como um vodum masculino (Nana Densu), esposo da grande mãe das águas Mami Uata.

Na África 300px|thumb|Ibiri, o instrumento de Nanã A religião vodu dos fons reúne elementos que se sobrepõem, entre eles divindades públicas, divindades pessoais, espíritos ancestrais e práticas relacionadas à magia e amuletos. Nessa tradição, a criação do universo tem início com uma entidade suprema feminina chamada Nana Buluku, considerada a progenitora de Mawu-Lisa e criadora do universo.

Após dar origem a Mawu e Lisa, Nanã Buluku teria deixado o mundo sob responsabilidade de Mawu-Lisa, princípio que reúne aspectos lunares e solares, femininos e masculinos. A Mawu-Lisa é atribuída, por sua vez, a criação de numerosos seres espirituais, como "divindades menores".

Segundo a cosmologia fon, Mawu, de caráter feminino, teria contado com a participação de Lebá/Exu e da serpente Aidá Uedó/Oxumarê na criação dos seres vivos. Esse processo teria conferido a cada criatura (incluindo os seres humanos) aspectos benéficos e maléficos, assim como um destino próprio. Dentro dessa concepção, o destino poderia ser influenciado mediante a atuação de divindades menores e de Lebá, por meio de rituais e oferendas. Às divindades e aos espíritos ancestrais também é atribuída a capacidade de conceder benefícios aos seres humanos.

No Brasil 300px|thumb|Assentamento de Nanã

Nanã é cultuada no candomblé Jeje como vodum e, no Candomblé Queto como um orixá da chuva, das águas paradas, mangue, pântano, terra molhada, lama e considerada a mãe dos orixás Obaluaiê, Iroco, Oçânhim, Oxumarê e Ieuá. Nanã é chamada carinhosamente de "Avó", por ser usualmente imaginada como uma anciã. É cultuada em todo o Brasil nas religiões afro-brasileiras. Seu emblema é o ibiri, que caracteriza sua relação com os espíritos ancestrais. Se traçado um paralelo com tradições greco-romanas, Nanã pode ser equiparada à Titã Gaia, como "Mãe-Terra Primordial" dos grãos e dos mortos.

Em certas lendas, conta-se que, na aldeia chefiada por Nanã, quando alguém cometia um crime, era amarrado a uma árvore. Nanã, então, chamava os Eguns para assustá-lo. Ambicionando esse poder, Oxalá foi visitar Nanã e deu-lhe uma poção que fez com que ela se apaixonasse por ele, mas também conta-se que Nanã fazia par com Oxalufã, Oxalá velho. Nanã dividiu o reino com ele, mas proibiu a sua entrada no Jardim dos Eguns. Oxalá então espionou-a e aprendeu o ritual de invocação dos mortos. Depois, disfarçando-se de mulher com as roupas de Nanã, foi ao jardim e ordenou aos Eguns que obedecessem "ao homem que vivia com ela" (ele mesmo). Quando Nanã descobriu o golpe, quis reagir mas, como estava apaixonada, acabou aceitando deixar o poder com o marido. Hoje, no Culto aos egunguns, só os homens são iniciados para invocar os Eguns.

Em outras tradições, conta-se que, certa vez, os orixás se reuniram e começaram a discutir qual deles seria o mais importante. A maioria apontava Ogum, considerando que ele é o orixá do ferro, o que deu à humanidade o conhecimento sobre o preparo e uso das armas de guerra, dos instrumentos para agricultura, caça e pesca, e das facas para uso doméstico e ritual. Somente Nanã discordou e, para provar que Ogum não era tão importante assim, torceu com as próprias mãos o pescoço dos animais destinados ao sacrifício em seu ritual. É por isso que os sacrifícios para Nanã não podem ser feitos com instrumentos de metal.

Nanã é dona de um cajado, o ibiri. Suas roupas parecem banhadas em sangue. É a orixá das águas paradas. Ela mata de repente, mata uma cabra sem usar faca. É considerada o orixá mais antigo do mundo. Quando Orumilá chegou aqui para frutificar a terra, ela aqui já estava. Nanã desconhece o ferro por se tratar de um orixá da pré-história, anterior à idade do ferro. O termo nanan significa "raiz", aquela que se encontra no centro da terra.

Nanã tornou-se uma das Iabás mais temidas, tanto que, em algumas tribos, quando seu nome era pronunciado, todos se jogavam ao chão. Senhora das doenças cancerígenas, está sempre ao lado do seu filho Omolu. É protetora dos idosos, desabrigados, doentes e deficientes visuais. É um vodum, segundo alguns pesquisadores, originário de Dassa-Zumé. É uma velha divindade das águas. Pierre Verger encontrou um templo de Dassa-Zumé e o sacerdote do seu culto.

Também conta-se que Nanã era como uma juíza, mas era tendenciosa em ajudar mais as mulheres.

Associação com lagos, pântanos e profundezas

A associação de Nanã com as lagoas, a lama, os pântanos e as águas profundas é profundamente desenvolvida nas religiões afro-brasileiras. No candomblé, Nanã é descrita por como o «orixá da lama do fundo das águas», tendo como elementos naturais a «lama» e o «pântano» e estando associada à senioridade, sabedoria e também à morte.

Essa associação não é simplesmente com água, mas especificamente da junção entre água e terra, um espaço de transição e comunicação entre diferentes planos da existência. Um estudo da Universidade Federal da Bahia sobre corporeidade de matriz africana distingue Iemanjá, relacionada às águas salgadas de mares e oceanos, Oxum, às águas doces de rios e lagoas, e Nanã Buruku, às «águas-terra da lama».

No imaginário religioso afro-brasileiro, essa ligação com a lama também se relaciona à força primordial que é Nanã e à associação entre criação e morte. Na lama, existe tanto decomposição como biodiversidade, um encontro entre a morte e o renascimento. Narrativas míticas difundidas no candomblé atribuem à lama retirada do fundo das águas a matéria utilizada para a formação do corpo humano; após a morte, essa matéria retornaria à terra. Dessa maneira, Nanã aparece relacionada tanto à origem da vida quanto ao retorno dos mortos à matéria primordial. No contexto do sincretismo, o surgimento da vida a partir da lama pode ser associado com o mito da criação da humanidade a partir do barro em Gênesis, e com explicações científicas sobre o surgimento da vida na água e sua expansão para a terra.

A representação de Nanã por meio de águas paradas ou profundas também a diferencia, no sistema simbólico afro-brasileiro, de outras divindades aquáticas. Enquanto Oxum é principalmente associada a rios, lagoas e cachoeiras e Iemanjá ao mar e aos grandes rios, Nanã é relacionada à lama existente no fundo das águas e aos pântanos.

Há uma distinção histórica entre a caracterização afro-brasileira e Nana Buluku tal como aparece nas religiões da África Ocidental. O acolhimento de Nana Buruku no sistema dos orixás brasileiro resultou de processos históricos de contato e colaboração entre tradições africanas distintas. Estudos atuais destacam a permanência de sua antiguidade e de seu caráter primordial, ao mesmo tempo em que analisam os aspectos de Nanã característicos do contexto brasileiro.

Assim, nas tradições afro-brasileiras, Nanã encontra-se especialmente associada à lama, aos pântanos, às águas profundas e ao fundo dos corpos d'água; elementos que se articulam simbolicamente com temas como antiguidade, ancestralidade, criação, senioridade, sabedoria e morte.

Outras leituras Charles Spencer King.,"Nature's Ancient Religion" ISBN 978-1-4404-1733-7 Charles Spencer King, "IFA Y Los Orishas: La Religion Antigua De LA Naturaleza" ISBN 1-4610-2898-1

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