A Benguela é um estilo de jogo e um toque de capoeira desenvolvido por Mestre Camisa no seio da escola Abadá-Capoeira durante a década de 1980. Embora frequentemente confundida com a "Banguela" de Mestre Bimba, a Benguela da Abadá constitui um desenvolvimento técnico e musical autônomo, focado na transição para o jogo de chão e na preservação da integridade física dos praticantes através da estratégia e da técnica.

Origem e Etimologia A criação da Benguela partiu da necessidade de Mestre Camisa em preencher uma lacuna que ele percebia na Capoeira Regional: a carência de um jogo de chão que não perdesse as características da linhagem de Bimba. O nome é uma homenagem à província de Benguela, em Angola, e ao povo Ovimbundu, buscando uma conexão direta com a herança africana e distanciando-se do termo "Banguela".

A Controvérsia: Banguela vs. Benguela Existe uma histórica distinção entre os dois termos: Banguela (Mestre Bimba): O termo refere-se a "alguém sem dentes". Foi criado para ser um toque que "tirava os dentes" (a agressividade) do jogo de São Bento Grande, sendo um momento de controle e mansidão. Benguela (Mestre Camisa): Refere-se à localidade geográfica africana. Mestre Camisa afirma que, embora o som possa ser similar aos ouvidos destreinados, o objetivo, o canto e a musicalidade são distintos, não devendo ser tratados como sinônimos.

Características Técnicas do Jogo O jogo de Benguela é caracterizado por ser rente ao solo, porém com volume de movimentação constante. Diferente da Capoeira Angola, onde a malícia é explorada em um ritmo mais lento, a Benguela busca a eficiência técnica, a ocupação de espaços e a continuidade.

As principais diretrizes são: Proximidade: Os jogadores mantêm uma distância curta, exigindo reflexos rápidos e controle corporal. Não-contato: É um jogo de marcação e estratégia; o objetivo é demonstrar superioridade técnica sem necessariamente atingir o parceiro. Volume de Chão: Utiliza-se de quedas, tesouras e passagens baixas, mantendo o fluxo sem interrupções.

Musicalidade A musicalidade é o pilar que diferencia a Benguela de outras variações. Enquanto na Regional tradicional o berimbau toca de forma isolada para este ritmo, na Benguela da Abadá utiliza-se uma orquestra completa.

A Orquestra 1. Berimbau Gunga (Grave): Mantém o toque básico, sustentando o ritmo da roda. 2. Berimbau Médio: Faz a inversão do toque do Gunga, criando um diálogo rítmico constante. 3. Berimbau Viola (Agudo): Responsável pelas dobras e variações constantes, exigindo alta perícia do tocador. 4. Pandeiro: Marca o tempo de forma cadenciada.

O Canto Mestre Camisa introduziu o Canto de Benguela, que possui uma função narrativa similar à Ladainha da Angola, mas com métrica própria. As letras geralmente versam sobre a história da capoeira, a geografia de Angola ou fundamentos éticos da escola, utilizando o formato de quadra e corrido adaptado.

Ver também Mestre Camisa Abadá-Capoeira Mestre Bimba

Categoria:Toques da capoeira