ou ou ou Xogunato Tokugawa (governo do xogun imperador) ou Idade da Paz Ininterrupta (1603-1868), é um período da história do Japão que foi governado pelos xoguns da família Tokugawa, no período de março de 1603 a maio de 1868, estabelecido por Tokugawa Ieyasu (o primeiro xogum desta era) na então cidade de Edo (atual Tóquio) três anos após a batalha de Sekigahara.
Foi um período de forte isolamento político-econômico do país e rígido controle interno, regulando os feudos através do código de leis. Em 1868, o período terminou com a Restauração Meiji, quando o governo imperial (tenno) recuperou sua autoridade, marcando o fim das ditaduras feudais, iniciando a modernização do Japão.
Em 268 anos o Japão passou por um período de relativa paz e de valorização das artes, como: o teatro kabuki, a pintura em madeira, arte do chá, escrita e a educação. Também desenvolveram-se a agricultura e a construção civil no setor de estradas, que posteriormente, contribuíram para a rápida industrialização do país.
História
Governo dos daimyos Uma evolução surgiu durante os séculos do Xogunato Kamakura, que existia em equilíbrio com a corte imperial, até o Xogunato Tokugawa, quando um samurai tornou-se o governador incontestável - chamado pelo historiador Edwin Reischauer de "governo feudal centralizado”.
Tokugawa Leyasu foi importante para a ascensão do novo bakufu (xogunato), principal beneficiário das conquistas de Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi. Sempre poderoso, Leyasu lucrou com sua transferência para a rica região de Kantō (ilha de Honshu) onde manteve 2,5 milhões de koku de terras (unidade de volume japonesa) e um novo quartel general em Edo, uma cidade castelo estrategicamente situada. Este ganhou mais dois milhões de koku de terra e trinta e oito vassalos sobre seu controle. Após a morte de Hideyoshi, Ieyasu rapidamente movimentou-se para ganhar o controle do Japão da família Toyotomi.
A vitória de Ieyasu sobre os daimyos ocidentais (feudos) na Batalha de Sekigahara (1600) deu-lhe praticamente controle total do Japão. Ele rapidamente aboliu várias famílias inimigas e enfraqueceu outras, como a Toyotomi, além de redistribuir os espólios de guerra (saque) entre a família e aliados. Mesmo assim, falhou em obter controle completo de todos os daimyos ocidentais, mas a auto-denominação de xogum o ajudou a consolidar um sistema de aliança.
Em 1605, após fortificar sua base de poder, ganhou autoridade suficiente para nomear o filho Hidetada como o próximo xogum (1579-1632) e, se auto-intitular xogum aposentado. O clã Toyotomi ainda era uma ameaça significativa, assim o xogum concentrou-se na década seguinte em extermina-los. Em 1615, a fortaleza dos Toyotomi em Osaca foi destruída pelos exércitos de Tokugawa.
thumb|Tokugawa Ieyasu como xogum.|left O período Tokugawa (ou Edo) trouxe 200 anos de estabilidade para o Japão. O sistema político evoluiu para o bakuhan (combinação dos termos bakufu, que significa império e, han significa domínios), onde o xogum era a autoridade nacional e os daimyos eram autoridades regionais; nova unidade na estrutura feudal, composta de uma extensa burocracia para administrar a mistura de autoridades central e descentralizada.
O clã Tokugawa tornou-se mais poderoso durante o primeiro século de domínio: a redistribuição de terras lhes concedeu quase sete milhões de koku, controle das cidades mais importantes, e um sistema de tributos com grande margem de lucro.
A hierarquia feudal se completava com as várias classes de daimyos. Os mais próximos da casa dos Tokugawa eram conhecidos como shinpan (casas aparentadas), formando vinte e três feudos (daimyos) nas fronteiras ao redor das terras dos Tokugawa. Todos parentes diretos de Ieyasu, possuíram os títulos mais honorários e postos de conselheiro no xogunato. A segunda classe da hierarquia eram os fudai (senhor da casa), recompensados com terras próximas às terras dos Tokugawa pelos serviços prestados. No século XVIII, cento e quarenta e cinco fudai controlavam hans (feudos) pequenos, o maior deles avaliado por 250 mil koku. Os membros desta classe representavam os ofícios mais importantes do império. Noventa e sete hans formavam o terceiro grupo, os tozama (vassalos de fora), ex-inimigos e novos aliados. Ficavam localizados, em sua maioria, nas periferias do arquipélago e juntos controlavam quase dez milhões de koku de terra produtiva. Mesmoos tozama serem feudos menos confiáveis, foram comandados com mais cautela e tratados generosamente, devido sua quantidade, embora tenham sido excluídos de cargos no governo central.
A sociedade era rigidamente dividida em quatro classes de trabalho, e uma vez integrado em uma classe não era permitido mudar, sendo estes os: camponeses, artesãos, comerciantes e, samurais. Mas neste período, proliferaram os ronin (samurais desonrados sem senhor), que com o fim da guerra tiveram que se dedicar a outras tarefas, tornando-se os principais desenvolvedores das artes, principalmente da escrita, do chá, do teatro e da pintura.
Os Tokugawa, além de consolidarem seu controle sobre um Japão reunificado, também tinham um poder sem precedentes sobre o imperador, a corte, todos os daimyos, e sobre as ordens religiosas. O imperador foi tomado como a fonte insuperável de legitimação política para o xogum, que aparentemente era vassalo da família imperial. Os Tokugawa ajudaram a família imperial a recuperar suas glórias passadas reconstruindo seus palácios e lhes doando terras. Para garantir um elo próximo entre o clã imperial e a família Tokugawa, assim em 1619, a neta de Ieyasu tornou-se consorte imperial.
Foi um período marcado também pelo forte isolamento político-econômico do Japão e controle interno, através do código de leis estabelecido para regular as casas dos feudos. Este englobava as seguintes regras: fim do último acordo comercial com a Holanda em 1641; redução do comércio com a China; conduta privada nos feudos; regras de casamento e vestimentas; tipos de armas e número de tropas permitidas; residência rotativa obrigatória entre a cidade de Edo e o han de ano em ano (sistema Sankin kotai); proibia a construção de navios com capacidade de navegar em mar aberto; baniu o cristianismo (fator desestabilizador); os regulamentos do xogunato eram a lei nacional; proibição da emigração e imigração; único contato com o resto do mundo através do porto de Nagazaki nos próximos duzentos anos.
Embora os daimyos não fossem oficialmente taxados com impostos, eram regularmente taxados com contribuições para o apoio logístico, militar e, para obras públicas, como: castelos, palácios, estradas e, pontes. Os vários regulamentos e taxações não só fortaleciam os Tokugawa, mas também esgotavam as riquezas dos daimyos, consequentemente diminuindo a ameaça para a administração central. Os hans, que no passado eram domínios altamente militarizados, tornaram-se meras unidades administrativas. Os daimyos tinham total controle administrativo sobre suas terras e seu complexo sistema de serventes, burocratas e cidadãos. Foi exigida lealdade das fundações religiosas, que já tinham tido seu poder enfraquecido por Nobunaga e Hideyoshi, através de uma variedade de mecanismos de controle.
Da abertura à reclusão thumb|direita|O samurai Hasekura Tsunenaga, o primeiro embaixador oficial do Japão nas Américas e Europa. Como Hideyoshi, Ieyasu encorajou o comércio exterior, mas também não confiava em estrangeiros. Ele queria fazer de Edo uma grande cidade portuária, favorecendo seus portos, mas a partir do momento que ele observou que os europeus favoreciam portos em Kyushu e que a China havia rejeitado seus planos para estabelecer um comércio oficial, ele agiu para tomar controle do comércio existente e permitiu que somente certos portos manejassem tipos específicos de mercadoria.
O início do período Edo coincide com a última década do período de Comércio Nanban, durante o qual uma intensa interação com os poderes europeus ocorrera tanto a nível econômico quanto religioso. Foi no início do período Edo que o Japão construiu seu primeiro navio de guerra em estilo ocidental com capacidade de navegação oceânica, como o San Juan Bautista, um navio estilo galeão de 500 toneladas que transportou uma embaixada japonesa comandada por Hasekura Tsunenaga para as Américas e depois para a Europa.
O problema cristão era, em consequência, um problema de controlar tanto os dáimios cristãos em Kyushu quanto seu comércio com os europeus. Em 1612, os serventes e residentes do xógum em terras dos Tokugawa foram ordenados a repudiar o cristianismo. Mais restrições vieram em 1616 (a restrição do comércio com estrangeiros podendo só ser realizado nas cidades de Nagasaki (capital da Prefeitura de Nagasaki na Ilha Kyushu) e Hirado (Prefeitura de Nagasaki), 1622 (a execução de 120 missionários e convertidos), 1624 (a expulsão dos espanhóis), e 1629 (a execução de milhares de cristãos). Finalmente, em 1635, um decreto proibia qualquer japonês de viajar para fora do Japão ou, se alguém saísse, de retornar algum dia. Em 1636 os holandeses ficaram restritos a Dejima, uma pequena ilha artificial – não sendo oficialmente solo japonês – na enseada de Nagasaki. thumb|esquerda|Um navio japonês "selo vermelho" de 1634. O xogunato considerava o cristianismo católico como sendo um grande fator desestabilizador, levando então à perseguição do catolicismo. A Rebelião de Shimabara de 1637-1638, no qual samurais e aldeões cristãos católicos descontentes rebelaram-se contra o bakufu – e Edo pediu ajuda aos barcos holandeses para bombardear a fortaleza rebelde – marcou o fim do movimento cristão, embora alguns cristãos católicos sobreviveram vivendo clandestinamente, e ficaram conhecidos como Kakure Kirishitan. Logo após esse incidente, os portugueses foram permanentemente expulsos, membros da missão diplomática portuguesa foram executados, todos os súditos foram ordenados a registrarem-se em templos budistas ou shinto, e os holandeses e chineses ficaram restritos, respectivamente, a Dejima e um pedaço específico de Nagasaki. Fora pequenas trocas realizadas por dáimios que viviam longe do controle do bakufu com coreanos nas ilhas Ryukyu, ao sudoeste das principais ilhas do Japão, pelo ano de 1641, o contato com estrangeiros era limitado pela polícia do sakoku em Nagasaki.
No ano de 1650, o cristianismo foi quase que completamente erradicado e toda a influência externa na política, na econômica e na religiosidade do Japão tornou-se bem limitada. Somente a China e a Companhia Holandesa das Índias Orientais tinham o direito de visitar o Japão durante o período, para propósitos estritamente comerciais, e eles eram restritos ao porto de Dejima em Nagasaki. Outros europeus que aportavam na costa japonesa eram executados sem direito a julgamento.
Sociedade thumb|direita|A cidade da era de Edo
Depois de um longo período de conflitos internos, o principal objetivo do recém-estabelecido governo Tokugawa era o de pacificar o país. O governo criou uma balança de poder que permaneceu (praticamente) estável pelos próximos 250 anos, influenciada por princípios de ordem social confucionistas. A maior parte dos samurais perdeu seus direitos de possessão sobre terras: toda a posse das terras foi concentrada nas mãos de aproximadamente 300 dáimios. Os samurais então tiveram que decidir: desistir de sua espada e se tornarem aldeões, ou mudar para a cidade de seu senhor feudal e tornar-se seu vassalo pago. Somente alguns samurais com posse de terras permaneceram nas fronteiras de províncias ao norte, ou como vassalos diretos do xogum. Eram chamados de hatamoto e eram aproximadamente 5 mil. Os dáimios foram colocados em um controle firme pelo xogunato. Suas famílias tinham que residir em Edo, e os próprios dáimios tinham que morar em Edo por um ano, e, no próximo, em seu han (domínio). Esse sistema era chamado de sankin kotai.