Santa Teresa é um município brasileiro no estado do Espírito Santo, Região Sudeste do país. Localiza-se na região serrana do estado, estando situado a cerca de a noroeste da capital estadual. Ocupa uma área de aproximadamente , sendo que estão em área urbana, e sua população foi estimada em habitantes em 2025. É a sede do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e reconhecida pelo governo federal como pioneira na imigração italiana no BrasilBRASIL. Lei 13.617, de 11 de janeiro de 2018. Institui no calendário oficial brasileiro o dia 26 de junho como a Data do Reconhecimento do Município de Santa Teresa, no Estado do Espírito Santo, como Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil., e capixaba como a capital estadual da imigração italiana, gastronomia italiana, jazz e blues. Seu centro histórico foi tombado em 2019, mas o processo foi finalizado somente em 2025.
O município surgiu da colonização por italianos, poloneses, alemães, suíços e outros imigrantes europeus do Núcleo do Timbuí na década de 1870. Os italianos, principalmente do Trentino, Lombardia e Vêneto, predominavam e determinaram a atual cultura, com uma identidade que enfatiza o passado da colonização e exalta os pioneiros. A cidade emergiu do zero em meio à floresta, com uma sociedade de pequenos agricultores. A religiosidade era marcante. A cafeicultura era a força motriz da economia, criando uma classe de comerciantes e a convivência com os brasileiros. A emancipação de Santa Leopoldina foi obtida em 1891. As condições de vida iniciais eram precárias, mas a economia agrícola continuou a crescer no século XX. Os colonos e seus descendentes expandiram a frente pioneira pelo "vale do Canaã", até e além do rio Doce. O distrito de São Roque do Canaã, onde havia alguma industrialização, conseguiu emancipação em 1995.
A topografia é acidentada, com altitudes de 90 a 1.040 m acima do nível do mar, diferenciando a baixada do rio Santa Maria do Doce, quente e seca, das terras altas mais frias e úmidas, onde está a sede. Vários rios capixabas têm suas nascentes nas terras altas, como o Timbuí, que banha a sede. A Mata Atlântica local tem elevada biodiversidade e é uma das mais estudadas. Seus fragmentos remanescentes cobriam 32,1% do município em 2012/2013, com diversas áreas de conservação, além de atividades de ensino e pesquisa no Museu de Biologia Professor Mello Leitão, fundado pelo cientista e conservacionista teresense Augusto Ruschi. Os colibris são símbolo local.
46% dos teresenses viviam no campo em 2010, a maioria agricultores familiares, mas a maior parte do Produto Interno Bruto está no setor de serviços. As maiores áreas plantadas são de café, mas o eucalipto tem extensa cadeia produtiva e o município tem a maior produção vitivinícola do Estado. A industrialização consiste em algumas agroindústrias. Os serviços incluem instituições de ensino superior, um hospital com atendimento a outros sete municípios e um setor de turismo em expansão. Seus atrativos são as florestas, montanhas, vales, cachoeiras, arquitetura histórica (como a Casa Lambert) , culinária (especialmente na Rua do Lazer) e eventos (como a Festa do Imigrante Italiano). Em partes rurais das terras altas, como no Circuito Caravaggio, há procura por chácaras, condomínios e outros estabelecimentos. Consequentemente, há especulação imobiliária e desmatamento.
Etimologia O município evoluiu do "Núcleo do Timbuí", pertencente a Santa Leopoldina e batizado pelo rio de mesmo nome. Alguns nomes propostos no início da colonização não foram adotados, como São Vigílio, o padroeiro de Trento, e Santo Affonso, homenagem ao então presidente da província do Espírito Santo, Afonso Peixoto de Abreu Lima. Durante as mudanças de nome na Segunda Guerra Mundial, o IBGE quis chamar o município de "Catusana", "Bela Morena" em tupi-guarani, mas foi rechaçado pela população. A origem do nome atual, durante os anos 1870, é uma das controvérsias históricas locais.. p. 57.
A memória social predominante na cidade atribuiu o nome a uma imagem sacra de Teresa d'Ávila colocada pela devota Teresa Zonta em 15 de outubro de 1875, dia da santa, no oco de um pau-peba onde os fiéis se reuniam para rezar. A explicação alternativa é uma homenagem das autoridades brasileiras à imperatriz Teresa Cristina. Anos antes já havia uma estrada de Santa Teresa ligando Vitória a Minas Gerais. Em julho de 1875, o diretor interino da colônia de Santa Leopoldina referiu-se à povoação como estando "à margem da antiga estrada de Santa Teresa", o que é visível em mapas da época. Pelo regulamento das colônias de 1867, a escolha do nome cabia ao governo e não aos imigrantes. A imagem sacra seria, então, uma lenda, ou escolhida por causa do nome já existente. Ainda assim, originalmente a expressão teria sido "Timbuí, na estrada de Santa Teresa", prevalecendo "Santa Teresa" com o tempo devido à religiosidade local.. p. 71-72.. p. 271.
Um nome alternativo, conservando a referência ao rio, é "Santa Teresa do Timbuí".. p. 16.. p. 6.
História Primórdios miniaturadaimagem|esquerda|A "Estrada de Sta. Thereza" e o "Núcleo Colonial Timbuy" em mapa de 1878 Há evidência arqueológica da presença de indígenas no atual município, embora o assunto seja pouco estudado. Augusto Ruschi especulou que tenham sido goitacás, teminimós, botocudos e puris, com os habitantes do rio Doce ocupando a baixada, e os do litoral alcançando a região da sede.
Em 1848 o governo capixaba iniciou a construção da estrada de Santa Teresa para ligar a Barra do Cuieté e Natividade, em Minas Gerais, ao porto de Vitória. Inicialmente partindo do primeiro cachoeiro do rio Santa Maria da Vitória, seu início foi em 1850 alterado para a vila da Serra, com um percurso mais plano. Concluída em 1857, a estrada foi um fracasso, pois o destino em Minas Gerais era pouco povoado e a maior parte do trecho no Espírito Santo era desabitada. Em dois anos ela já foi considerada intransitável.. p. 29-32. O projeto da estrada permitiu aos brasileiros conhecer a região do Timbuí, que supostamente teria terras férteis.Scalzer 2014, p. 75-76. Sua ocupação seria também uma expansão rumo ao rio Doce.Grosseli 2008, p. 271. Há alguma confusão nas fontes sobre a estrada, que não teria subido a serra, não tendo relação com o futuro povoado, teria sido alterada para receber a colônia ou não teria sido concluída, com a chuva devorando qualquer picada pela floresta.Biasutti 1994, p. 54.
Com o avanço do ciclo do café, a escassez de mão-de-obra e a necessidade de ocupar terras devolutas, especialmente no interior densamente vegetado do Espírito Santo, o governo brasileiro incentivava a imigração europeia. No Espírito Santo, o modelo era a distribuição de terras aos estrangeiros. Os imigrantes alemães já estavam presentes desde 1848.
Em 1869 a Assembleia Provincial discutiu a colonização das margens da estrada de Santa Teresa, e três anos depois já se demarcavam lotes na ponte sobre o rio Timbuí. Uma nova estrada ligou esse ponto ao Cachoeiro de Santa Leopoldina em 1874. No ano anterior, imigrantes poloneses chegaram à nova frente de colonização, mas foram desapontados pela precariedade das condições de trabalho, salário, saúde e moradia e o não cumprimento das promessas feitas pelas autoridades. Em julho eles seguiram armados a Santa Leopoldina. A maioria deixou o Espírito Santo.Grosseli 2008, p. 211-218. Cerca de 80 aceitaram lotes de terra. Como eram malvistos pelos demais imigrantes, foram encaminhados ao Baixo Timbuí, região quente, mais próxima do rio Doce e distante de Santa Leopoldina. No rio 5 de Novembro fundaram o Patrimônio dos Polacos, atual Santo Antônio do Canaã. Apesar do pioneirismo na ocupação do Timbuí, eles são menos conhecidos que os italianos.Scalzer 2014, p. 85-87.
Chegada dos trentinos miniaturadaimagem|Casa Lambert, considerada a mais antiga da sede Ainda antes da abertura oficial do núcleo colonial, ele recebeu 135 imigrantes italianos até fevereiro de 1875, a maioria do Trentino-Alto Adige, que haviam abandonado a colônia Nova Trento, fundada por Pietro Tabacchi em 1873 em Santa Cruz (Aracruz). Visionário da cafeicultura com mão-de-obra imigrante no Brasil, havia propagandeado entre seus compatriotas trentinos. 388 vieram na Expedição Tabacchi, em 1874, mas foram decepcionados ao chegar, não encontrando os campos e casas prometidos, mas apenas a floresta. Não apreciando o tratamento recebido e a vida amontoada no barracão, perceberam que o Estado brasileiro, que não precisava do lucro, tinha ofertas melhores. Desde cedo houve descontentamento. Os colonos que deixaram Nova Trento e seguiram ao Timbuí encontraram o agrimensor Franz von Lipp e seus empregados trabalhando nos lotes. Eles se estabeleceram em Valsugana, atual Valsugana Velha, a poucos quilômetros da futura sede.Biasutti 1994, p. 59-63.Grosseli 2008, p. 170-199.Scalzer 2014, p. 87-92.
À época os camponeses do Norte da Itália tinham sua vida social e econômica ameaçadas pela superpopulação, falta de terras (num relevo acidentado e assolado por enchentes), expulsão de suas terras pelo desenvolvimento do capitalismo, guerras da unificação italiana, altos impostos, fome, miséria e doenças. Já havia uma cultura migratória, e agenciadores faziam propaganda e intermediavam a emigração. O Novo Mundo era onde podiam enriquecer e manter a unidade familiar. Os primeiros imigrantes oficialmente destinados ao núcleo Timbuí vieram no navio Rivadavia. O sorteio de lotes em 26 de junho de 1875, na sede do município, é a data oficial da fundação do núcleo e de Santa Teresa.Scalzer 2014, p. 92.Biasutti 1994, p. 59.
Em 2018, o Governo Federal institui o dia 26 de junho como data do reconhecimento município de Santa Teresa como pioneiro da Imigração Italiana no Brasil. O início da "Grande Imigração" italiana no Brasil só ocorreu 1874 em diante., como processo diaspórico em massa, existindo a vinda de italianos de maneira isolada anteriormente.
O Núcleo Timbuí miniaturadaimagem|esquerda|Primórdios do povoado Os primórdios do Timbuí foram árduos para os colonos e agrimensores.Grosseli 2008, p. 273. Como em muitas outras frentes de colonização no Brasil, não havia nenhuma comunidade ou cidade para receber os imigrantes, apenas uma floresta exuberante. A primeira tarefa era o desmatamento em grande escala. Os recém-chegados não sabiam como lidar com seu novo ambiente. Morria-se por quedas de árvores durante a derrubada, ataques de onças e serpentes, doenças transmitidas por mosquitos e a ausência de assistência médica. O choque psicológico era dramático, e a preocupação era a sobrevivência. Não havia casas prontas; as primeiras semanas ou meses eram vividas em barracões coletivos.Grosseli 2008, p. 395-402.Scalzer 2014, p. 107-112. A vida era mais dura do que haviam prometido os agenciadores na Europa. Nos primeiros dez anos, muitos imigrantes desistiram e voltaram à Itália ou emigraram para o Sul.Biasutti 1994, p. 58.
Após os pioneiros suportarem o choque do local desconhecido, as levas seguintes tiveram uma experiência mais fácil, auxiliada por uma rede social. Os colonos conseguiram erguer a estrutura mínima para convidar seus parentes e amigos na Europa.Grosseli 2008, p. 466. Apesar dos sofrimentos no Novo Mundo, ali havia terra e a sociedade camponesa conseguia escapar dos impostos, serviço militar, separação familiar e ameaças a seus valores. A religião estava no centro da sociedade da floresta, e a solidariedade comunitária era forte. A princípio havia pouca diferenciação de classes sociais.Grosseli 2008, p. 411-412. Os imigrantes italianos eram quase todos camponeses, com alguns artesãos e sacerdotes.Grosseli 2008, p. 405-406. A maioria era de casais jovens com filhos.