A Ilha do Marajó (inicialmente chamada de Marinatambal) é uma ilha costeira do tipo fluviomarítima situada na Área de Proteção Ambiental do arquipélago do Marajó, no estado do Pará, na região norte do Brasil.Emil August Göldi, Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó. (Rio Amazonas), 1902. Jurandyr Luciano Sanches Ross, Geografia do Brasil, EdUSP, 1996 ISBN 8-531-40242-5 Considerada, segundo algumas fontes, a maior ilha fluviomarítima do planeta.
A ilha de Marajó está separada do continente pelo delta do Amazonas, pelo complexo estuário do rio Pará e pela baía do Marajó.
O maior município da ilha em termos de população é o município de Breves.
Etimologia Segundo o Pe. Giovanni Gallo (1997:108)GALLO, G. Marajó, a ditadura da água. 3. ed. Cachoeira do Arari: Museu do Marajó, 1997. "Marajó" (M-bará-yó) é o "tirado do mar" e também o "tapa-mar". Viria de Mbará, que pode variar em mará e pará, ou seja, "o mar". Já Batista Caetano diz que "pará" deriva de y-pá-rá, ou "as águas que colhem", isto é, "o colecionador das águas". Para o Pe. Giovanni Gallo Marajó, o emaranhado de caminhos, é portanto o dédalo de igarapés (igará-apé), o caminho da canoa, que, por sua vez é a dona da água, ou superior à água. O Marajó seria o "emaranhado de caminhos aquáticos da dona da água".O nome da ilha. Fundaj.
Tal referência muito provavelmente foi retirada pelo padre do livro O tupi na geografia nacional, lançado pelo geógrafo e historiador Teodoro Sampaio em 1914, ou seja, treze anos antes do nascimento do religioso italiano.
História 180px|esquerda|thumb|Detalhe da Ilha de Marajó. Ancestralmente, a ilha era chamada de Marinatambal pelos indígenas (confirmado por Walter Raleigh no século XVI), e na época colonial européia foi denominada Ilha Grande de Joannes
A ilha do Marajó, entre os anos de 400 e 1300, era ocupada por cerca de 40 mil habitantes, residentes em casas de chão batido sobre palafitas de terra, em uma sociedade de linhagem materna. Desde a infância, as marajoaras desenvolviam a arte de modelagem da argila, produção da cerâmica marajoara e o cultivo e manejo da mandioca. No início da adolescência, as marajoaras tinham os corpos pintados e usavam uma tanga de cerâmica decorada com traços referentes aos genitais.DIDONÊ, Débora, O Brasil antes do Brasil , ano XXIII, n. 212, maio, 2008.Eduardo Neves, Arqueologia da amazônia, Zahar, 2006 ISBN 8-571-10919-2Edithe Pereira, Arte rupestre na Amazônia: Pará, UNESP, 2004 ISBN 8-571-39505-5Loredana Ribeiro, Brasil rupestre: arte pré-histórica brasileira, Zencrane Livros, 2006 ISBN 8-560-47500-1Walter A. Neves, Luís Beethoven Piló, O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos, Editora Globo, 2008 ISBN 8-525-04418-0Helen C. Palmatary, Pottery of Marajo Island, Brazil: Transactions, APS, American Philosophical Society, 2008 ISBN 1-422-37709-1
A sociedade marajoara (termo global) subdividia-se em fases distintas de acordo com níveis de ocupação e desenvolvimento social: Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Acauã, Alta Marajoara e, Aruã. Nas duas últimas, desenvolveu-se o que chama-se de civilização (caracterizada basicamente por construção de comunidades fixas) chamada de Cacicados Amazônidas, que ia desde o Tapajós até a foz do rio Amazonas. No período de 400 a 1400 d.C., principalmente na ilha do Marajó, os indígenas levantavam suas casas sobre morros artificiais, estrutura elevada que protegia das inundações, chamados de teso.
Em 23 de dezembro de 1665, o rei Dom Afonso VI de Portugal outorga a António de Sousa Macedo, seu secretário de Estado, a donataria da Capitania da Ilha Grande de Joanes, constituída pelo território da atual Ilha de Marajó. Em 1754, a coroa portuguesa compra as terras da capitania e reverte sua administração ao Estado do Grão-Pará e Maranhão.
Geografia Com uma área de 40.100 km², é a maior ilha costeira do Brasil e a maior ilha fluviomarítima do planeta (banhada ao mesmo tempo tanto por águas fluviais quanto por oceânicas), banhada pelo rio Amazonas a oeste e noroeste, pelo oceano Atlântico ao norte e nordeste, pela baía do Marajó a leste e sudeste e pelo complexo de canais distributários do rio Tocantins e do rio Pará a sul.
Clima A classificação climática dada à região, conforme Köppen, é do tipo Ami, cujo regime pluviométrico anual define uma estação seca, porém com total pluviométrico suficiente para manter este período, não caracterizando a presença de um déficit hídrico na região. A subdivisão climática da região, segundo a classificação bioclimática da Amazônia de Bagnoul e Gaussen, caracteriza-a como sub-região eutermaxérica que compreende um clima equatorial com temperatura média do mês mais frio superior a 20 °C e temperatura média anual de 26ºC. A precipitação anual é sempre maior que 2 000 milímetros. As estações são inexistentes ou pouco acentuadas. A amplitude térmica é muito fraca e os dias têm a mesma duração das noites. A umidade relativa do ar é alta (> 80%), com ausência total de período seco. Nesta região, predomina o centro de massa de ar equatorial e surgem, também, bolsões de ar na foz do rio Amazonas.Brasil. (2007): “Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó. Presidência da República”. Casa Civil. Grupo Executivo Interministerial. Grupo executivo do Estado do Pará. 2007. 296p.
Biodiversidade local Marajós é a maior ilha fluviomarinha do mundo e possui uma rica biodiversidade devido à sua localização estratégica entre a floresta amazônica e o oceano Atlântico .
A região abriga uma grande diversidade de ecossistemas, incluindo florestas tropicais, manguezais, savanas e áreas alagadas. Essa variedade de habitats contribui para a existência de uma ampla gama de espécies vegetais e animais SENA, Regian Ferreira et al. USO DA FAUNA E FLORA POR COMUNIDADES QUILOMBOLAS DO ARQUIPÉLAGO DO MARAJÓ, PARÁ. Ethnoscientia-Brazilian Journal of Ethnobiology and Ethnoecology, v. 6, n. 3, p. 98-115, 2021..
Flora A flora da Ilha de Marajó é caracterizada por uma vegetação exuberante, com presença de espécies típicas da Amazônia, como açaí, buriti, palmeiras e várias espécies de árvores e plantas medicinais. Os manguezais também são uma parte importante da paisagem, oferecendo abrigo e alimentação para muitas espécies marinhas e aves migratórias REPOLHO, Silas Moura et al. Percepções ambientais e trilhas ecológicas: concepções de meio ambiente em escolas do município de Soure, Ilha de Marajó (PA). Revista Brasileira de Educação Ambiental (RevBEA), v. 13, n. 2, p. 66-84, 2018.
Fauna Em termos de fauna, a Ilha de Marajó abriga uma grande diversidade de espécies. Existem várias espécies de mamíferos, como o guará vermelho, o cervo-do-pantanal, o macaco-prego e o tamanduá-bandeira. A avifauna é especialmente rica, com mais de 400 espécies de aves registradas, incluindo garças, colhereiros, tuiuiús, araras e várias espécies de aves aquáticas. Além disso, a ilha também abriga répteis, como jacarés, tartarugas e serpentes, além de uma variedade de peixes de água doce e marinhos .
Economia miniaturadaimagem|Búfalo no município de Salvaterra - PAA economia da Ilha de Marajó se baseia — além da administração pública, que tem grande participação no PIB — nas atividades primárias relacionadas ao extrativismo vegetal e ao extrativismo animal, e também na agropecuária. O extrativismo vegetal é voltado para a obtenção de palmito a partir de diferentes espécies, do fruto do açaí, de borracha e de bacuri (nome dado ao fruto do bacurizeiro, árvore típica da região Norte), apenas para citarmos alguns exemplos.
Ainda no setor primário, uma das atividades de maior importância para a Ilha do Marajó é a pecuária extensiva de búfalos, chamada de bubalinocultura. O leite e seus derivados estão entre os principais produtos dessa atividade, seguidos da carne.
Importância cultural e econômica miniaturadaimagem|350x350px|Búfalo-Bumbá de Mestre Damasceno. Salvaterra - Marajó. Foto: Guto Nunes. A cultura marajoara, uma antiga civilização indígena que floresceu na região entre os séculos 5 e 14 d.C., deixou um rico legado arqueológico na ilha. Suas cerâmicas decoradas são mundialmente conhecidas e podem ser encontradas em museus ao redor do Brasil DE LIMA, Aline Maria Meguins et al. Ilha do Marajó: revisão histórica, hidroclimatologia, bacias hidrográficas e propostas de gestão. Holos environment, v. 5, n. 1, p. 65-80, 2005..
Além disso, a Ilha de Marajó atrai turistas interessados em explorar suas belas paisagens naturais, fazer passeios de barco pelos rios e desfrutar das praias de água doce. Também é possível visitar fazendas de búfalos, experimentar a culinária local, que inclui pratos à base de peixe e búfalo, e participar de festivais culturais, como o Búfalo-Bumbá Junino de Mestre Damasceno, que tem 51 anos de tradição, o Festival de Boi-Bumbá de Mestre Damasceno, o MarajóFest e o Festival do Carimbó .
Mestres e mestras das culturas populares miniaturadaimagem|Mestre Robledo - Mestre da Cultura Popular Marajoara. Foto: Guto Nunes. A cultura do Marajó é marcada pelas tradições populares das comunidades tradicionais da região, incluindo muitos mestres e mestras das culturas populares que detém conhecimentos que foram repassados por seus pais/mães e avós, como os(as) mestres(as) que atuam na brincadeira do Boi-Bumbá, no Carimbó, os curandeiros, benzedeiros, parteiras, erveiros, entre outros, que trazem consigo o conhecimento de suas tradições familiares.Artigo: OFÍCIOS DAS MATAS E DAS ÁGUAS: Sabedoria e Medicina Caboclas em Salvaterra. p. 70.
Um dos mestres que podia sempre ser visto pelo Marajó, no município de Salvaterra, era Mestre Damasceno, muito conhecido na região e que já recebeu várias homenagens pelo seu mérito cultural, mas ele faleceu em 26 de agosto de 2025. Mestre Damasceno foi foi homenageado pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, do Grupo Especial do Rio de Janeiro, pelo seu trabalho com o Carimbó e com o Búfalo-Bumbá. Ele também foi homenageado com a Comenda Eneida de Moraes, concedida pelo Departamento de Patrimônio Histórico Artístico e Cultural do Estado do Pará (DPHAC/SECULT/PA), por ser uma "Pessoa de Pertença do Patrimônio Cultural do Estado do Pará", que contribui na preservação e valorização do Patrimônio Cultural do Estado, além de ter sua obra declarada como patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado do Pará. Seu legado segue vivo, sendo administrado por seus filhos, no município de Salvaterra.
Outro mestre de Carimbó e de Boi-Bumbá que é muito conhecido na região marajoara é Mestre Robledo, filho do finado Mestre Pau Que Ronca. Mestre Robledo está em atuação desde 1981, dedicando sua vida pela cultura popular e no repasse de conhecimento para crianças, jovens e adultos.
Cerâmica Marajoara A cerâmica marajoara é uma das mais importantes expressões artísticas pré-colombianas das Américas. Desenvolvida entre 400 e 1400 d.C. por sociedades indígenas da ilha, notadamente os marajoaras, essa arte se caracteriza por grafismos complexos, simetria e representações antropomorfas e zoomorfas. Essas peças eram utilizadas em contextos funerários e rituais. Atualmente, ateliês locais como o Arte Mangue Marajó, em Soure, mantêm viva essa tradição milenar.
Lundu Marajoara O lundu marajoara é uma manifestação musical e coreográfica de raízes afro-brasileiras, muito presente nos municípios de Soure e Salvaterra. É uma dança de casal com forte carga simbólica de conquista e sensualidade, marcada por roupas tradicionais e instrumentos como rabeca, clarinete, cavaquinho e atabaque. Em 2021, o lundu marajoara foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do estado do Pará.
Luta Marajoara