João de Castilho (; Merindade de Trasmiera, – ) foi um mestre de obras e arquiteto hispano-português originário da Cantábria (antigo Reino de Castela; atual Espanha), que desenvolveu a sua carreira da maturidade em Portugal, onde se fixou . É considerado o maior arquiteto português do e um dos grandes da Europa do Renascimento.

Com formação goticista, a sua ação foi marcante no período manuelino, tendo depois um papel decisivo na afirmação do estilo renascentista em território português. João de Castilho foi um dos protagonistas maiores de uma decisiva viragem no sentido do classicismo. O seu percurso assinala ainda a promoção gradual da condição de mestre pedreiro (medieval) para a de arquiteto — no sentido moderno da palavra —, com o correspondente reconhecimento e ascensão a nível social.

Autor de uma vasta e notável obra construída, João de Castilho encontra-se ligado à edificação de cinco monumentos históricos classificados pela UNESCO como Património Mundial, com grande destaque para o Mosteiro dos Jerónimos e o Convento de Cristo, onde a sua ação foi determinante (entre muitas outras obras de sua responsabilidade, teve também intervenção no Mosteiro de Alcobaça, no Mosteiro da Batalha e na construção da fortaleza de Mazagão, igualmente classificados como Património Mundial).

Biografia thumb|left|Abóbada da capela-mor, Sé de Braga Não existem certezas quanto aos locais e datas de nascimento e morte, tal como se desconhece com rigor a sua ascendência. Talvez fosse filho de Diego Sánchez de Castillo e de sua mulher, D. María Zorella (Zorilla ou Zurilla); segundo Pedro Dias, no entanto, existe amplo consenso de que o seu pai seria o Abade de Liérganes. Era irmão, dez anos mais velho, de Diogo de Castilho, que o acompanhou nas primeira empreitadas realizadas em Portugal. Foi educado nos estaleiros das catedrais de Burgos e de Sevilha (dois dos últimos polos de formação gótica na Europa).

Com cerca de 38 anos de idade e já então um experiente e prestigiado mestre — mestre arquiteto, empreiteiro e «engenheiro» —, João de Castilho é chamado por D. Diogo de Sousa (arcebispo de Braga, responsável por um amplo programa de modernização urbana dessa cidade), para assumir a renovação da Sé de Braga, a mais importante e vetusta catedral do país; as suas primeiras obras em Portugal, iniciadas , são precisamente a capela-mor e a galilé desse templo. A sua invulgar desenvoltura enquanto empreiteiro e afamada capacidade para resolver abobadamentos difíceis levam-no de seguida a Vila do Conde, onde irá resolver indecisões construtivas dos seus antecessores e terminar a construção da Igreja Matriz (1511-1513); a ele se deve a cobertura da nova capela-mor e o portal axial. Trabalhou de seguida na Sé de Viseu (terá sido autor da famosa «abóbada de nós») e talvez, segundo Vítor Serrão, na igreja-salão de Freixo de Espada à Cinta e em diversas campanhas nos armazéns, no Cais da Pedra e no edifício do Paço real da Ribeira, Lisboa.

Em 1515 é chamado ao Convento de Cristo, em Tomar, numa primeira intervenção em diversas frentes que inclui a abóbada da igreja/coro e o seu portal principal, a sul, no qual ensaia o esquema modular que utilizaria de seguida no portal sul do Mosteiro dos Jerónimos, "a sua obra-prima nesta fase de incorporação plena do formulário polimorfista do manuelino". Castilho começa a intervir nos Jerónimos — ponto culminante da arquitetura manuelina e o mais notável conjunto monástico português dessa época —, em abril de 1516, e assume a direção da construção a partir de 2 de janeiro do ano imediato (até 1530), tornando-se no principal responsável pelo monumento que hoje conhecemos. O seu virtuosismo na administração de subempreitadas é a chave para o sucesso da intervenção, que põe em campo e em simultâneo cerca de duzentos e cinquenta trabalhadores. Sob a sua coordenação são desdobradas as empreitadas em sete áreas diferentes: portal sul; portal axial; sala do capítulo; sacristia; claustro; refeitório; capelas do coro. Devido à sua invulgar capacidade como construtor e arquiteto, ao longo da vida (pelo menos a partir de 1515), para Castilho foi comum gerir diversas empreitadas em simultâneo, coordenando a ação de elevado número de trabalhadores (nomeadamente escultores e mestres de pedraria com elevado grau de adestramento, capazes de preencher escultórica e decorativamente os desenhos que executava em cumprimento dos programas iconográficos dos encomendadores).

thumb|Portal da Sacristia, Mosteiro de Alcobaça Segundo Pedro Dias, João de Castilho terá sido o autor da traça global dos túmulos de D. Afonso Henriques e no Mosteiro de Santa Cruz (1518), cuja construção foi dirigida pelo seu irmão, Diogo de Castilho (a quem, em geral, a autoria desta obra é atribuída). Teve ainda intervenção no Mosteiro de Alcobaça sensivelmente entre 1519 e 1528 (é de sua autoria a sala de passagem para a sacristia e os dois portais respetivos, bem como o primeiro piso do claustro do silêncio), assim como em diversas igrejas dos antigos Coutos Alcobacenses, que dinamizaria com belos portais e capelas abobadadas, com particular destaque para as igrejas de Vestiaria (portal; arco mestre; abóbada da capela-mor) e Turquel (portais principal e lateral). Em 1528 é nomeado mestre-de-obras de el-rei e, no ano seguinte, está assinalada a sua intervenção no Mosteiro da Batalha (abobada nervurada da zona de entrada das capelas imperfeitas e, talvez, uma tentativa frustrada de abobadamento das mesmas). Nesse ano desloca-se ainda em inspeção às praças marroquinas de Ceuta e Safim.

É sensivelmente nesse ano que se clarifica e radicaliza a inflexão estilística na sua obra, com crescente afastamento da estética manuelina e adoção da nova linguagem classicista. 1529 é também o ano em que Frei António de Lisboa dá início à grande reforma (espiritual e artística), da Ordem e do Convento de Cristo, em Tomar, de que Castilho será o protagonista no domínio arquitetónico ("todas as empresas de João de Castilho em Tomar, no quarto decénio de Quinhentos […] se articulam milimetricamente com o pensamento humanístico de Frei António"). Por volta de 1532 as novas direções da sua obra impõem-se em absoluto: "o arquiteto biscainho traça então as avantajadas estruturas gerais do «novo» Convento de Cristo, já segundo absorvidos e maturados modelos renascentistas". A sua intervenção, em larga escala, prolongar-se-ia até à data da sua morte, incluindo a Sala do Capítulo dos frades, o claustro de Santa Barbara, a Capela do Cruzeiro, o claustro da Hospedaria, o claustro da Micha, o claustro dos Corvos ou do Celeiro, o claustro das Necessárias, o da Procuração, o Refeitório, o Dormitório, a chamada Charolinha (na mata do convento), as três salas ditas das Cortes (ou do Noviciado) e, ainda, o primeiro Claustro Grande (demolido depois da sua morte e reconstruído por Diogo de Torralva após 1554 segundo os novos princípios do maneirismo).

Em 1541-1542 interrompe a empresa tomarense e desloca-se, juntamente com uma vasta mão-de-obra da sua equipa, a Mazagão, para levar a cabo as obras de reconfiguração da fortaleza (conceção de Benedetto da Ravenna), nomeadamente a edificação da espetacular cisterna (segundo Vítor Serrão, quase uma igreja-salão) (concluída por Lourenço Franco em 1547).

thumb|190px|left|Cisterna da Fortaleza de Mazagão Em 1543 está de volta ao Convento de Cristo, onde prolonga o trabalho nos claustros e dá início às três alas do Noviciado; ocupa-se também das obras da «granja» dos freires de Cristo (atual Quinta da Cardiga) e das igrejas de Santa Maria das Areias e de Santo Aleixo do Beco (e possivelmente da Igreja de Marvila de Santarém e da Matriz de Pedrógão Grande).

Do seu último período pode datar-se a Ermida de Nossa Senhora da Conceição, em Tomar (localizada perto do Convento de Cristo), cuja construção se terá iniciado em 1550. Originalmente concebida como igreja-mausoléu para e os seus familiares (segundo proposta do historiador Rafael Moreira), esse desejo testamentário do rei não seria cumprido pelos seus sucessores; este pequeno templo sobrevive, no entanto, como uma das mais significativas obras-primas do renascimento em Portugal (seria terminado por Diogo de Torralva depois da morte de Castilho, o que é coerente com o tratamento exterior das cimalhas e paramentos, que se enquadra melhor nas opções maneiristas de Torralva).

Figura profissionalmente prestigiada desde a chegada a Portugal, a sua fama e fortuna consolidaram-se ao longo dos mais de quarenta anos que se seguiram, em que construiu uma carreira de sucesso. João de Castilho viveu, ao longo da vida, a profunda alteração do estatuto social do arquiteto, que, libertando-se do anonimato associado à antiga estrutura medieval, se transformou numa figura indiscutivelmente reconhecida e prestigiada, no topo de uma pirâmide que integrava os simples mestre-de-obras, os canteiros, os pedreiros e restante mão-de-obra envolvida na construção arquitetónica. Responsável por muitas das mais importantes empreitadas do seu tempo, elogiado junto do monarca como alguém «capaz de construir o mundo» e cujos filhos foram embaixadores, cronistas, poetas e detentores de alta formação, João de Castilho seria feito cavaleiro em final de vida.

Obra C. 1508-1529 As suas primeiras obras em Portugal, realizadas na Sé de Braga (a partir de 1508), denunciam a sua formação nos derradeiros estaleiros-escola do gótico Europeu, apresentando elementos de caráter inovador como a abóbada de perfil rebaixado da capela-mor. Esta abóbada de combados, de tipo floreado e de grande efeito decorativo, foi o primeiro testemunho dessa tipologia em território português. Para a fachada, concebeu uma galilé com três arcos, os laterais de arco quebrado gótico e o central em arco ligeiramente abatido, "respondendo já à tendência horizontalizante dessa linguagem gótica tardia trazida das Espanhas e da Europa. A decorar os arcos encontramos caréis, um rendilhado policêntrico que haveria de ser determinante no estabelecimento de uma proposta arquitetónica e, em concreto, da imagem da Sé de Braga". Com esta intervenção e com a que se lhe seguiu, na Igreja Matriz de Vila do Conde — onde resolveu as hesitações dos seus antecessores na finalização do templo, sendo responsável pela abóbada de combados da capela-mor e pelo portal —, Castilho deu o mote para edificações posteriores (em particular as do gótico tardio no noroeste de Portugal). Nas duas primeiras décadas de atividade em Portugal , a sua obra caracterizou-se pela confluência dos formulários do gótico final e do manuelino com a ornamentação de influência italianizante, «plateresca».

Essa confluência está claramente presente na fachada da Igreja Matriz de Vila do Conde. "Combinando o naturalismo manuelino com o relevo plácido do «plateresco» espanhol, mantendo a predominante horizontal tardo-gótica, com as enjuntas ornamentadas com simbologia heráldica e o restante das ombreiras exibindo a densidade ornamental do gótico tardio", o portal integra, por entre essa proliferação de elementos, dois escudos de armas, um com uma nau acompanhada pelas cinco quinas (correspondente às armas da própria vila) e o outro com um homem, de braços abertos, emergindo de uma taça e segurando nas mãos algo semelhante a duas pedras, ou «pérolas» (talvez uma representação do Santíssimo Sacramento).