miniaturadaimagem|Um cartoon xenófobo de 1912 culpando os estrangeiros por ameaçarem a prosperidade económica dos Estados Unidos da América. Xenofobia (do grego antigo: ξένος (xénos), "estranho, estrangeiro ou alienígena", e φόβος (phóbos), "medo")Oxford Standard English Dictionary (OED). Oxford Press, 2004, versão CDROM. é o medo ou aversão a qualquer coisa que seja percebida como estrangeira ou estranha. É uma expressão que se baseia na perceção de que existe um conflito entre um grupo interno e um externo e pode manifestar-se na suspeita das atividades de um grupo por parte de membros do outro grupo, num desejo de eliminar a presença do grupo alvo de suspeita e medo de perder uma identidade nacional, étnica ou racial.

Definições alternativas Um artigo de revisão de 1997 sobre a xenofobia afirma que esta é “um elemento de uma luta política sobre quem tem o direito de ser cuidado pelo Estado e pela sociedade: uma luta pelo bem coletivo do Estado moderno”.

Segundo o sociólogo italiano Guido Bolaffi, a xenofobia também pode ser exibida como uma "exaltação acrítica de outra cultura" à qual é atribuída "uma qualidade irreal, estereotipada e exótica". centro|miniaturadaimagem|636x636px|Índice global da xenofobia. Os países em azul forte correspondem a um menor índice de xenofobia. Os países menos azuis e mais vermelhos correspondem a um maior índice de xenofobia. Os países menos xenófobos do mundo estão localizados na Europa Setentrional, Península Ibérica, América do Norte, Vietname (Vietnã) e Oceânia.

História

África Antiga No Antigo Egito, os estrangeiros eram percecionados através de um complexo discurso xenófobo. Dada a longa e gloriosa história do Antigo Egito, os egípcios encontraram vários povos diferentes. Os povos que vivem nas atuais Grécia, Sudão e Turquia, por exemplo, eram referidos através de diversos nomes em egípcio. Segundo uma fonte, "... todos os nomes têm no final o mesmo sinal hieroglífico – um determinante ou taxograma – indicando o grupo de palavras. Este é o hieróglifo para um país montanhoso ou deserto - indicando uma "terra estrangeira" (khaset)... Pelo contrário, o Egito (Kemet / Terra Negra) é escrito com o determinante para uma cidade. Isso indica que os egípcios consideravam a sua parte do mundo como culta, ordenada e civilizada, enquanto que os outros países não o eram". Isto indica um dos primeiros exemplos de uma atitude xenófoba em relação aos outros povos. Para além disso, os antigos hieróglifos egípcios indicam ideias xenófobas relativas à necessidade de conquistar os não-egípcios, com os hititas, em particular, a serem referidos como "vis".

Europa Antiga

Um dos primeiros exemplos do sentimento xenófobo na cultura ocidental é a difamação dos estrangeiros pela Grécia Antiga como "bárbaros", a crença de que o povo e a cultura dos gregos eram superiores a todos os outros povos e culturas e a conclusão subsequente de que os bárbaros estavam naturalmente destinados a serem escravizados.

Os antigos romanos também tinham noções de superioridade sobre outros povos. Isto é comprovado, por exemplo, num discurso atribuído a Manius Acilius Balbus:

Os negros africanos eram considerados especialmente exóticos, e talvez fossem considerados ameaçadoramente estrangeiros, por isso raramente são mencionados na literatura romana, ou quando o são, nunca sem as diversas conotações negativas. O historiador Apiano afirmou que o comandante militar Marco Júnio Bruto, antes da batalha de Filipos no ano de 42 a.C., encontrou um “etíope” fora dos portões do seu acampamento: os seus soldados instantaneamente cortaram o homem em pedaços, entendendo a sua aparência como um péssimo presságio – para os supersticiosos romanos, o preto era a cor da morte".

COVID-19

A pandemia da COVID-19, que foi relatada pela primeira vez na cidade de Wuhan, Hubei, China, em dezembro de 2019, levou a um aumento dos atos e manifestações de sinofobia, bem como do preconceito, xenofobia, discriminação, violência e racismo contra os indivíduos de ascendência e aparência do Leste Asiático e do Sudeste Asiático em todo o mundo. Com a propagação da pandemia e a formação dos focos da COVID-19, como os da Ásia, Europa e Américas, a discriminação contra as pessoas destas focos de contágio foram amplamente relatados.

Manifestações regionais

Américas

Brasil

Apesar da maioria da população do país ser de herança mista (parda), africana ou indígena, as representações dos brasileiros não-europeus na programação da maioria das redes de televisão nacionais são escassas e normalmente relegadas aos músicos/seus próprios programas. No caso das telenovelas, os brasileiros de tom de pele mais escuro são normalmente retratados como donas de casa ou em posições de menor nível socioeconômico (socioeconómico).

Venezuela Na Venezuela, tal como noutros países da América do Sul, a desigualdade económica divide-se frequentemente em linhas étnicas e raciais. Um estudo académico sueco de 2013 concluiu que a Venezuela era o país mais racista das Américas, seguido pela República Dominicana.

Estados Unidos Num relatório de 2010, uma rede de mais de 300 organizações de direitos civis e de direitos humanos sediadas nos EUA declarou que “a discriminação permeia todos os aspetos da vida nos Estados Unidos e se estende a todas as comunidades de cor”. Descriminação contra minorias raciais, étnicas e religiosas é amplamente reconhecida, especialmente no caso dos afro-americanos e dos povos da diáspora africana nos Estados Unidos, bem como de outros grupos étnicos.

Os membros de todos os principais grupos minoritários étnicos e religiosos norte-americanos perceberam a discriminação nas suas relações com os membros de outros grupos raciais e religiosos minoritários. O filósofo Cornel West argumentou que “o racismo é um elemento integrante da própria estrutura da cultura e da sociedade norte-americana. Está incorporado na primeira definição coletiva do país, enunciado nas suas leis subsequentes, e imbuído no seu modo de vida dominante”.

Um inquérito de 2019 realizado pelo Pew Research Center sugeriu que 76% dos entrevistados negros e asiáticos tinham sofrido alguma forma de discriminação, pelo menos de vez em quando. Estudos realizados pela PNAS e pela Nature descobriram que durante os controlos do trânsito, os polícias (policiais) falavam com os homens negros num tom menos respeitoso do que com os homens brancos e esses mesmos estudos também descobriram que os condutores (motoristas) negros têm maior probabilidade de serem parados e revistados pela polícia do que condutores (motoristas) brancos. Os negros também são supostamente representados como criminosos na media. Em 2020, a pandemia da COVID-19 foi frequentemente atribuída à China, levando a ataques aos sino-americanos. Isto representa uma continuação dos ataques xenófobos contra os sino-americanos iniciados há cerca de 150 anos.

Ásia

Butão Em 1991-92, o Butão deportou entre 10.000 e 100.000 nepaleses étnicos (Lhotshampa). O número real de refugiados que foram inicialmente deportados é debatido por ambos os lados. Em março de 2008, esta população iniciou um reassentamento plurianual em terceiros países, incluindo os EUA, Canadá, Nova Zelândia, Noruega, Dinamarca, Países Baixos e Austrália.

China

Os Boxers

A Revolta dos Boxer foi um violento levantamento antiestrangeiro, anticristão e antiimperialista que ocorreu na China entre 1899 e 1901. Foi liderado por um novo grupo, a "Milícia Unida pela Justiça", um grupo que era popularmente conhecido como os Boxers porque muitos dos seus membros praticavam artes marciais chinesas e, na época, essas artes marciais eram popularmente chamadas como Boxe Chinês. Após a derrota da China na guerra pelo Japão em 1895, os habitantes do norte da China temiam a expansão das esferas de influência estrangeiras e ressentiram-se com a expansão dos privilégios aos missionários cristãos. Durante uma seca severa, a violência dos Boxers espalhou-lhe por Xantum e pela Planície do Norte da China, destruindo propriedades estrangeiras, atacando ou assassinando missionários cristãos e cristãos chineses. Em junho de 1900, os lutadores Boxers, convencidos de que eram invulneráveis às armas estrangeiras, convergiram para Pequim, e o seu slogan era "Apoie o governo Qing e extermine os estrangeiros". Diplomatas, missionários, soldados e alguns cristãos chineses refugiaram-se no Bairro da Legação diplomática. Ali foram sitiados durante 55 dias pelo Exército Imperial do governo chinês e pelos Boxers. George Makari diz que os Boxers "promoveram um ódio violento contra todos aqueles de outras terras e não fizeram nenhum esforço para distinguir os beneficentes dos vorazes... Eles eram descaradamente xenófobos". Os Boxers foram derrotados pela Aliança das Oito Nações composta por tropas norte-americanas, austro-húngaras, britânicas, francesas, alemãs, italianas, japonesas e russas — 20.000 no total — que invadiram a China para levantar o cerco em agosto de 1900. Os aliados impuseram o Protocolo Boxer em 1901, com uma enorme indemnização anual em dinheiro a ser paga pelo governo chinês. O episódio gerou atenção mundial e denúncia da xenofobia chinesa.

Nacionalismo chinês e xenofobia A historiadora Mary C. Wright argumentou que a combinação do nacionalismo chinês e da xenofobia teve um grande impacto na visão chinesa do mundo na primeira metade do século XX. Analisando a amargura e o ódio que existiam contra os norte-americanos e europeus nas décadas anteriores à tomada do poder comunista de 1949, Mary C. Wright argumenta:

COVID 19 Na China, a xenofobia contra residentes não chineses foi agravada pela pandemia da COVID-19 na China continental, com os estrangeiros a serem descritos pelas autoridades como “lixo estrangeiro” e alvo de “descarte”. Algumas pessoas negras na China foram despejadas das suas casas pela polícia e obrigadas a deixar a China no prazo de 24 horas, devido à desinformação de que eles e outros estrangeiros estavam a espalhar o vírus. Expressões de xenofobia chinesa e práticas discriminatórias, como a exclusão dos clientes negros dos restaurantes, foram criticadas por governos estrangeiros e membros do corpo diplomático.

Hong Kong Os negros em Hong Kong sofreram comentários negativos e casos de discriminação no mercado de trabalho e nos transportes públicos. Os expatriados e as minorias do Sul da Ásia enfrentaram um aumento da xenofobia durante a pandemia da COVID-19.

Perseguição aos Uigures

Desde 2017, a China tem sido alvo de intensas críticas internacionais pelo tratamento dado a um milhão de muçulmanos (a maioria deles são uigures, uma minoria étnica turca principalmente em Xinjiang) que estão detidos em campos de detenção secretos sem qualquer processo legal. Os críticos da política descreveram-na como a Sinização ou Chinização de Xinjiang e também a chamaram de etnocídio ou genocídio cultural.

Médio Oriente

Egito O líder da Irmandade Muçulmana egípcia, Mohammed Mahdi Akef, denunciou o que chamou de "o mito do Holocausto" em defesa da sua negação feita ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Num artigo de outubro de 2000, o colunista Adel Hammoda alegou no jornal estatal egípcio al-Ahram que os judeus fazem Pão Ázimo (Matza) com o sangue das crianças não-judias (ver libelo de sangue). Mohammed Salmawy, editor do Al-Ahram Hebdo, "defendeu o uso dos velhos mitos europeus como o libelo de sangue contra os judeus" nos seus jornais.

Europa Portugal

Entre 2017 e 2021, as denúncias de xenofobia contra brasileiros em Portugal cresceram 505%, segundo balanço da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial do país.

Segundo dados recolhidos pela agência Lusa, junto da Polícia de Segurança Pública e da Guarda Nacional Republicana, houve um crescimento de 38% nos crimes de ódio em Portugal em 2023.