A Origem das Espécies (ou, mais completamente, A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural, ou Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida) é uma obra de literatura científica escrita por Charles Darwin, que é considerada a base da biologia evolutiva. Publicado em 24 de novembro de 1859, ele introduziu a teoria científica de que as formas de vida evoluem ao longo das gerações por meio de um processo de seleção natural. O livro apresentou evidências de que a diversificação das formas de vida resulta de uma ascendência comum, que evoluiu por meio de um padrão ramificado. Darwin incluiu evidências que havia coletado na expedição Beagle na década de 1830 e também suas descobertas subsequentes por meio de pesquisa, comparação e experimentação.
Diversas ideias evolutivas já haviam sido propostas para explicar novas descobertas da biologia. Havia um apoio crescente a tais ideias entre anatomistas dissidentes e o público em geral, mas, durante a primeira metade do século XIX, a elite científica inglesa estava intimamente ligada à Igreja da Inglaterra e a atividade científica era considerada parte da teologia natural. As ideias sobre a transmutação das espécies eram controversas, pois conflitavam com as crenças de que as espécies eram partes imutáveis de uma hierarquia projetada e de que os humanos eram únicos, sem qualquer parentesco com outros animais. As suas implicações políticas e teológicas foram intensamente debatidas, mas a transmutação não foi aceita pelo mainstream científico da época.
O livro foi escrito para leitores não especialistas e atraiu amplo interesse após a sua publicação. Como Darwin era um cientista eminente, suas descobertas foram levadas a sério e as evidências que apresentou geraram discussões científicas, filosóficas e religiosas. O debate sobre o livro contribuiu para a campanha de T. H. Huxley e de seus companheiros do X Club para secularizar a ciência por meio da promoção do naturalismo científico. Em duas décadas, havia um amplo consenso científico a respeito da ocorrência da evolução com um padrão ramificado de descendência, mas os cientistas demoraram a dar à seleção natural o significado que Darwin considerava apropriado. Durante "o eclipse do darwinismo", de 1880 a 1930, vários outros mecanismos de evolução receberam mais crédito. Com o desenvolvimento da síntese evolucionária moderna, nas décadas de 1930 e 1940, o conceito de Darwin de adaptação evolutiva por meio da seleção natural tornou-se central para a teoria evolucionária moderna e viria a se consagrar como o conceito unificador das ciências da vida.
Resumo da teoria de Darwin miniaturadaimagem|Darwin retratado pouco antes da publicação A teoria da evolução de Darwin é baseada em fatos importantes e nas inferências extraídas deles, que o biólogo Ernst Mayr resumiu da seguinte maneira:
Cada espécie é fértil o suficiente para que, se todos os descendentes sobreviverem para se reproduzir, a população cresça (fato); Apesar de flutuações periódicas, as populações permanecem aproximadamente do mesmo tamanho (fato); Recursos, como alimentos, são limitados e relativamente estáveis ao longo do tempo (fato); Disso decorre uma luta pela sobrevivência (inferência); Os indivíduos em uma população variam significativamente entre si (fato); Grande parte dessa variação é hereditária (fato); Indivíduos menos adequados ao ambiente têm menos probabilidade de sobreviver e de se reproduzir; indivíduos mais adequados ao ambiente têm mais probabilidade de sobreviver e mais probabilidade de se reproduzir e deixar seus traços herdáveis para as gerações futuras, o que produz o processo de seleção natural (fato); Esse processo, que ocorre lentamente, resulta em populações que se modificam para se adaptar a seus ambientes e, em última análise, essas variações se acumulam com o tempo para formar novas espécies (inferência).
Antecedentes
Desenvolvimentos anteriores à teoria de Darwin Em edições posteriores do livro, Darwin traçou as ideias evolucionárias até Aristóteles; o texto que ele cita é um resumo de Aristóteles das ideias do filósofo grego Empédocles. Os primeiros Padres da Igreja cristã e estudiosos europeus medievais interpretavam a narrativa da criação do Gênesis de forma alegórica, e não como um relato histórico literal; organismos eram descritos por seu significado mitológico e heráldico, bem como por sua forma física. A natureza era amplamente considerada instável e caprichosa, e acreditava-se na geração espontânea de vida e que a união entre espécies resultava no nascimento de monstros. esquerda|miniaturadaimagem|O artigo de Cuvier de 1799 sobre elefantes vivos e fósseis ajudou a estabelecer a realidade da extinção. A Reforma Protestante inspirou uma interpretação literal da Bíblia, com conceitos de criação que conflitavam com as descobertas de uma ciência emergente que buscava explicações congruentes com o mecanicismo de René Descartes e o empirismo do método baconiano. Após a turbulência da Guerra Civil Inglesa, a Royal Society queria mostrar que a ciência não ameaçava a estabilidade religiosa e política. John Ray desenvolveu uma teologia natural de ordem racional que se mostrou influente; em sua taxonomia, as espécies eram estáticas e fixas, sua adaptação e complexidade projetadas por Deus, e as variedades apresentavam pequenas diferenças causadas pelas condições locais. No desígnio benevolente de Deus, os carnívoros causavam uma morte misericordiosamente rápida, mas o sofrimento causado pelo parasitismo era um problema intrigante. A classificação biológica introduzida por Carl Linnaeus em 1735 também via as espécies como fixadas de acordo com um "plano divino". Em 1766, Georges Buffon sugeriu que algumas espécies semelhantes, como cavalos e asnos, ou leões, tigres e leopardos, poderiam ser variedades descendentes de um ancestral comum. A cronologia de James Ussher, da década de 1650, calculara a criação em 4004 a.C., mas, na década de 1780, geólogos observaram que o mundo era muito mais antigo. Os wernerianos pensavam que os estratos eram depósitos de mares em declínio, mas James Hutton propôs um ciclo infinito que se auto-manteve, antecipando o uniformitarismo.
O avô de Charles Darwin, Erasmus Darwin, delineou uma hipótese de transmutação das espécies, na década de 1790, e Jean-Baptiste Lamarck publicou uma teoria mais desenvolvida, em 1809. Ambos imaginavam que a geração espontânea produzia formas de vida simples que desenvolviam progressivamente maior complexidade, adaptando-se ao ambiente por herdar mudanças nos adultos causadas pelo uso ou desuso. Esse processo foi mais tarde chamado de lamarckismo. Lamarck pensava que havia uma tendência progressiva inerente conduzindo os organismos continuamente em direção a uma complexidade maior, em linhagens paralelas, mas separadas, sem extinção. Geoffroy afirmou que o desenvolvimento embrionário recapitulava as transformações de organismos em eras passadas, quando o ambiente agia sobre os embriões, e que as estruturas dos animais eram determinadas por um plano constante, conforme demonstrado por homologias. Georges Cuvier contestou veementemente tais ideias, sustentando que espécies fixas não relacionadas mostravam semelhanças que refletiam um design para necessidades funcionais. Seu trabalho paleontológico na década de 1790 havia estabelecido a realidade da extinção, que ele explicou por catástrofes locais, seguido pelo repovoamento das áreas afetadas por outras espécies.
No Reino Unido, a Teologia Natural de William Paley viu a adaptação como evidência de um "design" benéfico do Criador agindo por meio de leis naturais. Todos os naturalistas nas duas universidades inglesas (Oxford e Cambridge) eram clérigos da Igreja da Inglaterra, e a ciência tornou-se uma busca por essas leis. Os geólogos adaptaram o catastrofismo para mostrar a aniquilação mundial repetida e a criação de novas espécies fixas adaptadas a um ambiente alterado, inicialmente identificando a catástrofe mais recente como o dilúvio bíblico. Alguns anatomistas, como Robert Grant, foram influenciados por Lamarck e Geoffroy, mas a maioria dos naturalistas considerava suas ideias de transmutação uma ameaça à ordem social divinamente designada.
O início da teoria de Darwin Darwin foi para a Universidade de Edimburgo em 1825 para estudar medicina. Em seu segundo ano, ele abandonou seus estudos de medicina de história natural e passou quatro meses auxiliando na pesquisa de Robert Grant sobre invertebrados marinhos. Grant revelou seu entusiasmo pela transmutação das espécies, mas Darwin o rejeitou. Começando em 1827 na Universidade de Cambridge, Darwin aprendeu ciências, como teologia natural, com o botânico John Stevens Henslow, sendo que leu obras de Paley, John Herschel e Alexander von Humboldt. Cheio de zelo pela ciência, ele estudou geologia catastrofista com Adam Sedgwick. direita|miniaturadaimagem|Em meados de julho de 1837, Darwin começou seu caderno "B" sobre Transmutação das Espécies e, na página 36, escreveu "Eu acho" acima de sua primeira árvore evolucionária. Em dezembro de 1831, ele se juntou à expedição Beagle como um cavalheiro naturalista e geólogo. Ele leu os Princípios de Geologia de Charles Lyell e desde a primeira parada em terra, em Santiago, encontrou no uniformitarismo de Lyell uma chave para a história geológica das paisagens. Darwin descobriu fósseis que lembram enormes tatus e notou a distribuição geográfica das espécies modernas na esperança de encontrar seu "centro de criação". Os três missionários fueguinos que a expedição retornou à Terra do Fogo eram amigáveis e civilizados, mas para Darwin seus parentes na ilha pareciam "selvagens miseráveis e degradados", com o que ele passou a não ver mais uma lacuna intransponível entre humanos e animais. Quando o Beagle se aproximou da Inglaterra em 1836, ele observou que as espécies poderiam não ser fixas.
Richard Owen mostrou que os fósseis de espécies extintas que Darwin encontrou na América do Sul eram aliados de espécies vivas no mesmo continente. Em março de 1837, o ornitólogo John Gould anunciou que o nandu-de-darwin era uma espécie separada da ema anteriormente descrita (embora seus territórios se sobrepusessem), que os pássaros zombeteiros coletados nas Ilhas Galápagos representavam três espécies distintas, cada uma endêmica de uma determinada ilha, e que vários pássaros distintos dessas ilhas foram todos classificados como tentilhões. Darwin começou a especular, em uma série de cadernos, sobre a possibilidade de "uma espécie se transformar em outra" para explicar essas descobertas e, por volta de julho, esboçou uma ramificação genealógica de uma única árvore evolucionária, descartando as linhagens independentes de Lamarck que progrediam para formas superiores. De forma não convencional, Darwin fez perguntas a criadores de animais, bem como a cientistas estabelecidos. No zoológico, ele avistou um macaco pela primeira vez e ficou profundamente impressionado com a aparência humana do orangotango.
No final de setembro de 1838, ele começou a ler Um Ensaio sobre o Princípio da População, de Thomas Malthus, com seu argumento estatístico de que as populações humanas, se não restringidas, se reproduzem além de seus meios e lutam para sobreviver. Darwin relacionou isso à luta pela existência entre a vida selvagem e à "guerra das espécies" do botânico Augustin Pyrame de Candolle nas plantas; ele imediatamente imaginou "uma força como cem mil cunhas" empurrando variações bem adaptadas para "lacunas na economia da natureza", de modo que as sobreviventes transmitissem sua forma e habilidades e as variações desfavoráveis fossem destruídas. Em dezembro de 1838, ele notou uma semelhança entre o ato dos criadores ao selecionar características e uma natureza malthusiana, que seleciona entre as variantes lançadas por "acaso", de modo que "cada parte da estrutura recém-adquirida é totalmente prática e aperfeiçoada".