Cleópatra VII Filopátor (; Alexandria, – Alexandria, 10 ou 12 de agosto de ) foi a última governante ativa do Reino Ptolemaico do Egito. Como membro da dinastia ptolemaica, foi descendente de Ptolemeu I Sóter, um general greco-macedônio e companheiro de Alexandre, o Grande. Sua língua materna era o grego koiné, e ela é a única governante de sua dinastia conhecida por ter aprendido a língua egípcia. Após sua morte, o Egito passou a ser uma província do Império Romano, marcando o fim do Período helenístico, que começou com o reinado de Alexandre .
É possível que tenha acompanhado seu pai Ptolemeu XII em durante seu exílio em Roma, depois que uma revolta no Egito permitiu que a filha mais velha de Ptolemeu XII, Berenice IV, reivindicasse o trono. Esta última foi morta em , quando o faraó retornou ao país com assistência militar romana. Quando morreu em , Ptolemeu XII foi sucedido por Cleópatra e seu irmão mais novo, Ptolemeu XIII, como governantes conjuntos, mas um desentendimento entre ambos levou ao início de uma guerra civil. Depois de perder a Batalha de Farsalos na Grécia contra seu rival Júlio César durante a Segunda Guerra Civil, o estadista romano Pompeu fugiu para o Egito, um estado cliente. Ptolemeu XIII ordenou a emboscada e morte de Pompeu enquanto César ocupava Alexandria em busca dele. César, um cônsul da República Romana, tentou reconciliar Ptolemeu XIII com sua irmã. Potino, o conselheiro-chefe do faraó, considerou os termos do cônsul favoráveis à rainha, e assim suas forças, que eventualmente caíram sob o controle de sua irmã mais nova, Arsínoe IV, cercaram César e Cleópatra. O cerco foi levantado por reforços no início de e Ptolemeu XIII morreu pouco depois na Batalha do Nilo. Arsínoe IV foi exilada em Éfeso, e César, agora ditador eleito, declarou Cleópatra e seu irmão mais novo Ptolemeu XIV como governantes conjuntos. O ditador manteve um caso com a rainha, que gerou um filho, Cesarião. Ela viajou para Roma como rainha cliente em 46 e , ficando numa vila local. Após os assassinatos de César e Ptolemeu XIV (este por ordem da própria Cleópatra) em , esta tentou fazer de Cesarião o herdeiro do ditador.
Na Terceira Guerra Civil entre 43 e , ficou ao lado do Segundo Triunvirato, formado por Otaviano, Marco Antônio e Lépido. Após um encontro em Tarso, em , a rainha teve um caso com Antônio. Ele realizou a execução de Arsínoe a pedido dela e tornou-se cada vez mais dependente de Cleópatra para financiamento e ajuda militar durante suas invasões ao Império Parta e ao Reino da Armênia. As Doações de Alexandria declararam seus filhos Alexandre Hélio, Cleópatra Selene II e Ptolemeu Filadelfo, governantes de vários territórios antigos, sob sua autoridade triunviral. Esse evento, seu casamento e o divórcio de Marco Antônio da irmã de Otaviano, Otávia, a Jovem, levaram à Última Guerra Civil da República Romana. Otaviano se engajou numa guerra de propaganda, forçou os aliados de Antônio no Senado a fugirem de Roma em e declarou guerra contra Cleópatra. Depois de derrotar a frota naval da ambos na Batalha de Áccio em , as forças de Otaviano invadiram o Egito em e derrotaram Antônio, o levando ao suicídio. Quando soube que o invasor romano planejava levá-la à sua procissão triunfal, cometeu suicídio por envenenamento, ao contrário da crença popular de que foi mordida por uma víbora.
Seu legado sobrevive em numerosas obras de arte, tanto antigas quanto modernas. A historiografia romana e a poesia latina produziram uma visão predominantemente polêmica e negativa da rainha que permeou as posteriores literaturas medieval e renascentista. Nas artes visuais, representações antigas de Cleópatra incluem a moeda romana e ptolemaica, estátuas, bustos, relevos, vidros e esculturas de camafeus e pinturas. Foi tema de muitas obras na arte renascentista e barroca, incluindo esculturas, pinturas, poesia, dramas teatrais, como Antônio e Cleópatra, de William Shakespeare, e óperas como Giulio Cesare in Egitto, de Georg Friedrich Händel. Nos tempos modernos, tem aparecido nas artes aplicadas e belas artes, na sátira burlesca, em produções cinematográficas e em imagens de marcas para produtos comerciais, tornando-se um ícone popular da egitomania desde o .
Etimologia O nome Cleópatra é originário do grego antigo Kleopatra (), que significa "glória de seu pai" na forma feminina. É derivado de kleos (), "glória", combinado com pater (), "antepassados", usando a forma genitiva patros (). A forma masculina teria sido escrita como Kleopatros () ou Patroklos (). Cleópatra era o nome da irmã de Alexandre, o Grande, bem como Cleópatra Alcíone, esposa de Meleagro na mitologia grega. O nome entrou na dinastia ptolemaica pelo casamento de Ptolemeu V Epifânio e Cleópatra I Sira (uma princesa selêucida). Seu título adotivo, Tea Filópator (), significa "deusa que ama seu pai".
Contexto histórico miniaturadaimagem|Busto helenístico de Ptolemeu XII Auleta, o pai de Cleópatra, no Louvre, Paris Os faraós ptolemaicos eram coroados pelo sumo sacerdote de Ptá em Mênfis, mas residiam na cidade multicultural e em grande parte grega de Alexandria, fundada por Alexandre, o Grande da Macedônia. Eles falavam grego e governavam o Egito como monarcas helenísticos, recusando-se a aprender a língua nativa. Em contraste, Cleópatra dominava vários idiomas na idade adulta e foi a primeira governante de sua dinastia a aprender a língua egípcia. Plutarco sugere que ela também falava etíope, troglodita, hebraico (ou aramaico), árabe, a língua síria (talvez siríaca), meda, parta e latim, embora seus contemporâneos romanos preferissem falar com ela em grego koiné nativo. Afora o grego, egípcio e latim, essas línguas refletiam seu desejo de restaurar os territórios do norte da África e da Ásia Ocidental que pertenciam ao Reino Ptolemaico.
O intervencionismo romano no Egito é anterior ao seu reinado. Quando Ptolemeu IX Látiro morreu no final de , foi sucedido por sua filha Berenice III. No entanto, com a crescente oposição na corte real contra a ideia de uma única monarca reinante, Berenice III aceitou o domínio conjunto e o casamento com seu primo e enteado Ptolemeu XI Alexandre II, um arranjo feito pelo ditador romano Sula. Ptolemeu XI matou sua esposa logo após o casamento em , mas foi linchado logo depois no tumulto resultante do assassinato. Ptolemeu XI, e talvez seu tio Ptolemeu IX ou pai Ptolemeu X Alexandre I, legaram o Reino Ptolemaico a Roma como garantia para empréstimos, de modo que os romanos tivessem bases legais para assumir o Egito, seu estado cliente, após o assassinato de Ptolemeu XI. Os romanos preferiram dividir o reino entre os filhos ilegítimos de Ptolemeu IX, concedendo o Chipre a Ptolemeu do Chipre e o Egito a Ptolemeu XII Auleta.
Biografia Primeiros anos Cleópatra Filópator nasceu no início de como a filha do faraó Ptolemeu XII e uma mãe desconhecida, presumivelmente Cleópatra VI Trifena (também conhecida como Cleópatra V Trifena), a mãe de sua irmã mais velha, Berenice IV. Cleópatra Trifena desapareceu dos registros oficiais alguns meses após o nascimento de sua filha em Os três filhos mais novos de Ptolemeu XII, a irmã de Cleópatra, Arsínoe IV, e os irmãos Ptolemeu XIII Téo Filópator e Ptolemeu XIV, nasceram na ausência de sua esposa. Seu tutor de infância foi Filóstrato, com quem aprendeu as artes gregas da oratória e filosofia. Presume-se que durante sua infância estudou no Museu e na Biblioteca de Alexandria.
Reinado e exílio de Ptolemeu XII Em , o censor romano Marco Crasso defendia perante o Senado que Roma deveria anexar o Egito ptolemaico, mas seu projeto de lei e o projeto similar do tribuno Servílio Rulo foram rejeitados dois anos mais tarde. Ptolemeu XII respondeu à ameaça de uma possível anexação oferecendo remunerações e presentes luxuosos a poderosos estadistas romanos, como Pompeu durante sua campanha contra Mitrídates VI do Ponto e, eventualmente, Júlio César depois que este se tornou cônsul romano em No entanto, o comportamento devasso do faraó o levou à falência, e ele foi forçado a adquirir empréstimos do banqueiro Caio Rabírio Póstumo.
miniaturadaimagem|esquerda|Provável retrato de Cleópatra pintado postumamente com cabelos ruivos e suas características faciais distintas, usando um diadema real e grampos de cabelo cravejados de pérolas, Herculano, Itália, Em , os romanos anexaram o Chipre e, sob acusações de pirataria, levaram Ptolemeu do Chipre, irmão de Ptolemeu XII, a cometer suicídio em vez de se submeter ao exílio em Pafos. O faraó ficou publicamente em silêncio sobre a morte de seu irmão, uma decisão que, juntamente com a cessão do território ptolemaico tradicional aos romanos, prejudicou sua credibilidade entre os cidadãos já enfurecidos por suas políticas econômicas. Ptolemeu XII foi então exilado do Egito à força, viajando primeiro para Rodes, depois para Atenas e, finalmente, à vila do triúnviro Pompeu, nas Colinas Albanas, perto de Palestrina, Itália. O faraó deposto passou quase um ano nos arredores de Roma, aparentemente acompanhado por sua filha Cleópatra, então com cerca de 11 anos. Berenice IV enviou uma embaixada a Roma para defender seu governo e se opor à reintegração de seu pai. Ptolemeu XII mandou assassinos matarem os líderes da embaixada, um incidente que foi encoberto por seus poderosos apoiadores romanos. Quando o Senado Romano negou a Ptolemeu XII a oferta de uma escolta armada e as provisões para um retorno ao Egito, ele decidiu deixar Roma no final de e residir no Templo de Ártemis em Éfeso.
Os financiadores romanos de Ptolemeu XII continuaram determinados a restituir o seu poder. Pompeu persuadiu Aulo Gabínio, o governador romano da Síria, a invadir o Egito e restituir o faraó, oferecendo-lhe 10 mil talentos à missão proposta. Embora isso o colocasse em desacordo com a lei romana, Gabínio invadiu o Egito na primavera de , através da Judeia asmoneia, onde Hircano II fez com que Antípatro, o Idumeu, pai de Herodes, o Grande, fornecesse suprimentos ao exército liderado pelos romanos. Como um jovem oficial de cavalaria, Marco Antônio estava sob o comando de Gabínio. Ele se destacou por impedir Ptolemeu XII de massacrar os habitantes de Pelúsio, e por resgatar o corpo de Arquelau, marido de Berenice IV, depois de ser morto em batalha, garantindo-lhe um enterro real apropriado. Cleópatra, agora com 14 anos, teria viajado com a expedição romana ao Egito; anos depois, Antônio professou que havia se apaixonado por ela nessa época.
Gabínio foi levado a julgamento em Roma por abusar de sua autoridade, do qual foi absolvido. No entanto, seu segundo julgamento, por aceitar subornos, o levou ao exílio. Ele foi chamado de volta sete anos depois, em , por César. Crasso o substituiu como governador da Síria e estendeu seu comando provincial para o Egito, mas ele foi morto pelos partos na Batalha de Carras em Berenice IV e seus partidários ricos foram executados, e o faraó apreendeu suas propriedades. Ele permitiu que a guarnição romana majoritariamente germânica e gaulesa de Gabínio, os gabinianos, assediassem as pessoas nas ruas de Alexandria e instalou seu financiador romano de longa data, Rabírio, como seu chefe financeiro. Dentro de um ano, Rabírio foi colocado sob custódia protetora e enviado de volta a Roma depois que sua vida foi ameaçada por drenar os recursos do Egito. Apesar desses problemas, Ptolemeu XII criou um testamento designando Cleópatra e Ptolemeu XIII como seus herdeiros conjuntos, supervisionou grandes projetos de construção, como o Templo de Edfu e um templo em Dendera, e estabilizou a economia. Em 31 de maio de , Cleópatra tornou-se regente de Ptolemeu XII, conforme indicado por uma inscrição no Templo de Hator, em Dendera. Rabírio foi incapaz de recolher a totalidade da dívida do governante no momento de sua morte, e assim foi passada para seus sucessores Cleópatra e Ptolemeu XIII.
Ascensão ao trono