O guarani (em guarani: avañe'ẽ ou guaraniñe'ẽ) é um idioma originalmente indígena do sul da América do Sul pertence à família tupi-guarani das línguas tupi. Possui 6,54 milhões de falantes, sendo estes majoritariamente de povos da etnia tupi-guarani na Argentina, na Bolívia, no Brasil e no Paraguai, onde é a segunda língua oficial (juntamente com o espanhol). No Paraguai, é falado pela maioria de seus habitantes, sendo que metade da população rural do país fala apenas o guarani.
É a segunda língua oficial da província argentina de Corrientes desde 2004, idioma co-oficial do município sul-mato-grossense de Tacuru, um dos 37 idiomas oficiais constantes na Constituição da Bolívia e uma das línguas oficiais do Mercosul.
O guarani é uma das línguas americanas mais faladas e continua sendo comumente usada pelo povo paraguaio e por comunidades vizinhas. Isso é único entre as línguas americanas; a mudança de idioma para as línguas coloniais europeias (neste caso, a outra língua oficial, espanhol) tem sido um fenômeno quase universal no continente, mas os paraguaios mantiveram sua língua tradicional, adotando, simultaneamente, o espanhol.
O guarani moderno surgiu a partir do guarani antigo. Não se trata apenas de uma língua, mas de nove idiomas inteligíveis que compõem um contínuo dialetal.
Etimologia Avañeʼẽ significa, literalmente, "a língua do povo", ou seja, a língua que o povo guarani fala.
O exônimo "guarani", utilizado no português, tem origem no próprio guarani, na expressão abá guaraní, que significa, literalmente, "homem de guerra" ou "homem que guerreia", em referência à resistência dessa população, durante a Guerra Guaranítica, à remoção forçada perpetrada pelos colonizadores, justificada pelo Tratado de Madrid.
História
thumb|Capa de edição de 1724 da Arte da língua guarani de Antonio Ruiz de Montoya
Primeiros estudos O jesuíta Antônio Ruiz de Montoya foi um dos primeiros estudiosos da língua guarani. Desse autor foram publicadas as obras: "Tesoro de la lengua guaraní" (1639), "Catecismo de la lengua guaraní " (1639) e "Arte y Bocabulario de la lengua guaraní " (1640), que, durante muitos anos, foram utilizadas por jesuítas e hispanofalantes para conhecer a língua guarani.Antonio Ruiz de Montoya: promotor y defensor de lenguas y pueblos indígenas, em espanhol, acesso em 10 de agosto de 2017.
Enquanto o guarani, em sua forma clássica, era a única língua falada nos extensos territórios missionários, o guarani paraguaio tem suas raízes fora das reduções jesuíticas.
A erudição moderna mostrou que o guarani sempre foi a língua principal do Paraguai colonial, tanto dentro quanto fora das reduções. Após a expulsão dos jesuítas no século XVIII, os moradores das reduções migraram gradualmente para o norte e oeste em direção a Assunção, uma mudança demográfica que provocou um afastamento decididamente unilateral do dialeto jesuíta que os missionários haviam curado no sul e territórios orientais da colônia.
Em geral, o guarani dos jesuítas evitava empréstimos fonológicos diretos do espanhol. Em vez disso, os missionários confiaram na natureza aglutinante da língua para formular termos a partir de morfemas nativos. Este processo, muitas vezes, levou os jesuítas a empregar termos complicados e altamente sintéticos para transmitir conceitos ocidentais. Em contraste, o guarani falado fora das missões era caracterizado por um fluxo livre, natural e desregulado de hispanismos; frequentemente, palavras e frases em espanhol eram simplesmente incorporadas ao guarani com adaptação fonológica mínima.
Um bom exemplo desse fenômeno é encontrado na palavra "comunhão". Os jesuítas, usando sua estratégia aglutinante, traduziram esta palavra "Tupârahava", um calque baseado na palavra "Tupâ", que significa Deus. No moderno guarani paraguaio, a mesma palavra é traduzida como "komuño".
Após a emigração das reduções, esses dois dialetos distintos do guarani entraram em contato extensivo pela primeira vez. A grande maioria dos falantes abandonou a variante jesuíta menos coloquial e altamente regulamentada em favor da variedade que evoluiu do uso real por falantes no Paraguai. Essa forma contemporânea de falar guarani é conhecida como jopará, que significa "mistura" em guarani.
Ensino da língua O ensino do guarani é geralmente realizado no ambiente familiar, já que a maioria da população paraguaia fala guarani como primeiro idioma. Além disso, após a Constituição de 1992, o ensino do guarani passou a ser obrigatório nas escolas, devido ao caráter oficial adquirido pela língua.
Distribuição O guarani é falado, predominantemente, no Paraguai, que conta com mais de 6,34 milhões de falantes ativos do idioma. Há, ainda, comunidades importantes de falantes no sudeste da Bolívia, na província argentina de Corrientes (dialeto correntino) e nos estados brasileiros de Mato Grosso do Sul (dialeto kaiowá) e Rio Grande do Sul.
A língua guarani apresenta diversos dialetos e variações regionais. O "guarani paraguaio", variante predominante, conta com mais de 6 milhões de falantes. O "guarani ava" ou "apytare", ameaçado de extinção, apresenta pouco mais de 6 mil falantes, esparsamente distribuídos no sudeste paraguaio e no sul brasileiro. Há ainda o dialeto "ñandeva", com mais de 2500 falantes.
No leste boliviano e no norte argentino, há forte presença da variante "pe", também conhecida como "guarani boliviano oriental", que conta com aproximadamente 70 mil falantes. Outro dialeto, denominado "boliviano ocidental" ou "simba", é preservado em pequeas vilas no oeste boliviano. No Brasil, a principal variante utilizada é o "guarani mbyá", presente em comunidades de falantes localizadas no sul e sudeste do país.
A língua viva left|thumb|Uso da língua guarani ao redor do mundo A variante mais regional do sul e oeste, denominada "guarani paraguaio", mantém-se viva e é falada por mais de sete milhões de pessoas, notadamente no Paraguai. O guarani, dessa forma, tornou-se uma das únicas línguas indígenas americanas a obter um reconhecimento nacional e literário e a ser falada por um número significativo de não indígenas.
No Paraguai, a língua guarani foi mantida principalmente porque os padres jesuítas a usaram como instrumento de conversão religiosa numa empreitada colonizadora desvinculada das potências católicas ibéricas. Efemeramente, os jesuítas mantiveram um estado indígena cristão: as chamadas missões (ou reduções) jesuíticas.
Entretanto, a língua guarani, que, antes de ser sistematizada pelos jesuítas, não era escrita, assimilou uma enorme variedade de vocábulos da língua castelhana (gerando no Paraguai o chamado "Jopará", que quer dizer "mistura") advinda com a invasão cultural em face da colonização espanhola. Há uma tendência entre as pessoas com um maior grau de escolarização a falar o castelhano com sotaque peculiar, com algumas frases curtas e expressões em guarani. Este modo de expressar-se também é muito comum nos jornais, revistas e mesmo livros didáticos.thumb|Livros em guarani
Em agosto de 1995, o guarani recebeu o status de "língua histórica" pelos países membros da comunidade econômica do Mercosul. Em janeiro de 2006, o guarani também recebeu o status de língua oficial do Mercosul.
Em 2005, foi lançada uma versão da Wikipédia em guarani,Ape, em guarani, acesso em 4 de outubro de 2016. chamada de "Vikipetã".
Em 24 de maio de 2010, a cidade de Tacuru, no estado brasileiro do Mato Grosso do Sul, adotou o guarani como língua oficial, além do português. A lei sancionada na data determinou que ninguém poderá sofrer discriminação pela língua de que faça uso e destaca o respeito e a valorização devidos às variedades do guarani, como o caiouá, o nhandeva e o embiá. A lei determina, ainda, que a prefeitura de Tacuru deverá apoiar e incentivar o ensino da língua guarani nas escolas e nos meios de comunicação.
Fonologia Consoantes Há 20 fonemas consonantais no dialeto guarani: +Fonemas Consonantais do GuaraniBilabialLabiodentalDentalAlveolarPós-alveolarPalatalVelarGlotalPlosivaptk gʔNasalmnɲŋPré-nasalizada mb nd ŋgVibranteɾFricativas∫ʝhAproximanteʋɰLaterall
Vogais Há 6 vogais no guarani, que podem ou não ser nasalizadas, totalizando 12 fonemas vocálicos no idioma.
+Fonemas Vocálicos do GuaraniAnteriorCentralPosteriorFechadaiɨuSemifechadaeoAbertaa
Sílaba No guarani, as sílabas de palavras nativas podem ser estruturadas de duas maneiras:
Sem consoantes, consistindo em apenas uma vogal. Com uma consoante inicial, seguida de uma a três vogais.
Organizações silábicas diferentes ocorrem em palavras herdadas de outras línguas.
Tonicidade Alguns morfemas do guarani são inerentemente tônicos, ao passo que outros são naturalmente átonos, como é o caso de todos os prefixos. A sílaba tônica de uma palavra será a última a apresentar um morfema inerentemente tônico.
Harmonização nasal A presença de um morfema nasalizado em uma palavra do guarani influencia na pronúncia dos outros morfemas dessa palavra. Há forte nasalização regressiva, com até três sílabas anteriores ao morfema nasalizado sendo igualmente nasalizadas. A nasalização progressiva é menos intensa, geralmente afetando um único morfema sucessório. Sufixos e encliticos nasalizados, no entanto, não produzem nasalizações subsequentes, ainda que sejam tônicos. Abaixo, alguns exemplos de nasalização no guarani:
Pendekotýpe ("No quarto de vocês", não apresenta nasalização); Peneakãme ("Na cabeça de vocês", "ã" acarreta na nasalização de outros dois morfemas). Ojohayhu ("Eles se amam", sem nasalização); Oñohenói ("Eles se chama", todos os morfemas são nasalizados devido à presença de "n").
Prosódia O guarani não apresenta tons, porém a duração e intensidade da pronúncia das palavras pode alterar a interpretação de uma sentença, assim como no português. Frases declarativas, por exemplo, apresentam uma queda de tom ao seu final. Ortografia
Alfabeto O guarani utiliza uma variação do alfabeto latino conhecida como achegety. A utilização da escrita latina como base se deve aos jesuítas, que tentaram catalogar o idioma e sua gramática nos primórdios da colonização. Uma versão padrão da ortografia só foi adotada em larga escala, no entanto, a partir da década de 1950 e permanece em uso até hoje, praticamente inalterada. +Alfabeto do Guarani (Consoantes)FonemaGrafiaExemploCorrespondência em Português/p/⟨p⟩popo ("pulo")pato/t/⟨t⟩tatu ("tatu")teto/k/⟨k⟩kakuaa ("crescer")carro/ʔ/⟨'⟩ ou ⟨-⟩mba'e ("coisa")ã-ã (interjeição)/m/⟨m⟩meme ("continuamente")meu/n/⟨n⟩nune ("talvez")nada/ɲ/⟨ñ⟩ñyñýi ("secar")arranhar (português europeu)/ŋ/⟨g⟩ ou ⟨g̃⟩hag̃ua ("para")Sem correspondência (parecido com arranhar do português europeu)/mb/⟨mb⟩mbarakaja ("gato")ambiente/nd/⟨nd⟩nde ("você")Sem correspondência (parecido com havendo, mas com o ⟨n⟩ pronunciado)/ŋg/⟨ng⟩ngotyo ("em direção a")Sem correspondência (parecido com manga, mas com o ⟨n⟩ pronunciado como ⟨nh⟩ do português europeu)/s/⟨s⟩sy ("mãe")sim/∫/⟨ch⟩ ou ⟨x⟩che ("eu")chave/ʝ/⟨j⟩ ou ⟨y⟩juka ("matar")Sem correspondência (entre o ⟨j⟩ de haja e o ⟨i⟩ de raio)/h/⟨h⟩, ⟨j⟩ ou ⟨jh⟩ha ("e")carro (dialeto baiano)/ʋ/⟨v⟩, ⟨b⟩vevúi ("flutuar")Sem correspondência (entre o ⟨v⟩ de leve e o ⟨u⟩ de pitauá)/ɰ/⟨g⟩óga ("casa")Sem correspondência (entre o ⟨rr⟩ de carro e o ⟨g⟩ de lago)/ɾ/⟨r⟩rire ("depois")touro/l/⟨l⟩lala ("reclamar")limpo
+Alfabeto do Guarani (Vogais)FonemaGrafiaExemploCorrespondência em Português/i/⟨i⟩taita ("pai")quis/e/⟨e⟩karumbe ("jabuti")mesa/a/⟨a⟩apysa ("audição")casa/o/⟨o⟩aravo ("hora")calmo/u/⟨u⟩kumanda ("feijões")ragu/ɨ/⟨y⟩py ("pé")pequeno (português europeu)/ĩ/⟨ĩ⟩tatatĩ ("fumaça")cinto/ẽ/⟨ẽ⟩okẽ ("porta")centro/ã/⟨ã⟩narã ("laranja")Sem correspondência (parecido com amanhã, mas com o ⟨ã⟩ mais aberto)/õ/⟨õ⟩merõ ("melão")gongo/ũ/⟨ũ⟩pytũ ("escuro")mundo/ɨ̃/⟨ỹ⟩akỹ ("molhado")Sem correspondência (parecido com pequeno do português europeu, mas com este ⟨e⟩ nasal)
Achegety