José de Anchieta SJ (San Cristóbal de La Laguna, – Reritiba, ) foi um padre jesuíta espanhol que ingressou na Companhia de Jesus no Reino de Portugal, ficando ao seu serviço, e um dos fundadores das cidades brasileiras de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Foi o primeiro dramaturgo, o primeiro gramático e o primeiro poeta nascido nas Ilhas Canárias. Foi o autor da primeira gramática da língua tupi e um dos primeiros autores da literatura brasileira, para a qual compôs inúmeras peças teatrais e poemas de teor religioso, a mais notória das quais o Auto de São Lourenço, e uma epopeia.NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global. 2005. p. 340-341.
Considerado santo pela Igreja Católica, foi beatificado em 1980 pelo papa João Paulo II e canonizado em 2014 pelo papa Francisco. É conhecido como o Apóstolo do Brasil, por ter sido um dos pioneiros na introdução do cristianismo no país. Em abril de 2015 foi declarado co-padroeiro do Brasil na 53.ª Assembleia Geral da CNBB.
É o patrono da cadeira de número um da Academia Brasileira de Música.Academia Brasleira de Música - Patronos Acessado em 26 de março de 2016 Em 2010 seu nome foi inscrito no Livro de Aço dos heróis nacionais do Brasil depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves.
Em 2014 José de Anchieta é declarado padroeiro dos catequistas.
Infância e juventude thumb|250px|Casa nativa de José de Anchieta em San Cristóbal de La Laguna (Tenerife). José de Anchieta, nascido na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, em 19 de março de 1534, era filho de João López de Anchieta (natural de Urrestilla, bairro da localidade de Azpeitia, em Guipúscoa, País Basco) e de Mência Diaz de Clavijo y Llarena, descendente da nobreza canária. Foi batizado em 7 abril de 1534 na Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios (atual Catedral de San Cristóbal de La Laguna), onde ainda existe a pia de calcário vermelho onde, segundo a tradição, o santo teria sido batizado. Sua certidão de batismo, inscrita no Livro I da Igreja dos Remédios, está preservada no Arquivo Histórico Diocesano de Tenerife, onde se lê: José, filho de Juan de Anchieta e sua esposa, foi batizado no dia 7 de abril por Juan Gutiérrez, vigário e seus padrinhos foram Domenigo Riso e Don Alonso.
miniaturadaimagem|Assinatura de José de Anchieta.|251x251px
Seu pai foi um revolucionário basco que tomou parte na revolta dos Comuneros (1520-1522) contra o Imperador Carlos V na Espanha e um grande devoto da Virgem Maria. Era aparentado dos Loyola, daí o parentesco de Anchieta com o fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola. Seu pai também era prefeito da cidade de San Cristóbal de La Laguna.San José de Anchieta, 9 de junio Sua mãe era natural das Ilhas Canárias, filha de judeus cristãos-novos. O avô materno, Sebastião de Llarena, era um judeu convertido do Reino de Castela. Dos doze irmãos, além dele abraçou o sacerdócio Pedro Nuñez.
Anchieta viveu com a família até aos quatorze anos de idade, quando se mudou para Coimbra, em Portugal, a fim de estudar filosofia no Real Colégio das Artes e Humanidades, anexo à Universidade de Coimbra. A ascendência judaica foi determinante para que o enviassem para estudar em Portugal, uma vez que na Espanha, à época, a Inquisição era mais rigorosa. Ingressou na Companhia de Jesus em 1 de Maio de 1551 como noviço.
Atuação no Brasil thumb|esquerda|“Evangelho nas Selvas”, por Benedito Calixto (1893). Pinacoteca do Estado de São Paulo. José de Anchieta pregando o evangelho próximo a uma jaguatirica.|251x251px
Chegada na Capitania da Baía de Todos os Santos Tendo o padre Manuel da Nóbrega, Provincial dos Jesuítas no Brasil, solicitado mais braços para a atividade de evangelização do Brasil (mesmo os fracos de engenho e os doentes do corpo), o Provincial da Ordem, Simão Rodrigues, indicou, entre outros, José de Anchieta. Desde jovem, Anchieta padecia de tuberculose óssea, que lhe causou uma escoliose, agravada durante o noviciado na Companhia de Jesus. Este fato foi determinante para que deixasse os estudos religiosos e viajasse para o Brasil. Aportou em Salvador, na Capitania da Baía de Todos os Santos a 13 de julho de 1553, com menos de vinte anos de idade e vindo na armada do segundo governador-geral do Brasil, Dom Duarte da Costa com outros seis companheiros, sob a chefia do padre Luís da Grã.
Partida para São Vicente e fundação de São Paulo Anchieta ficou menos de três meses em Salvador, partindo para a Capitania de São Vicente no princípio de outubro, com o padre jesuíta Leonardo Nunes, onde conheceria Manuel da Nóbrega e permaneceria por doze anos. Anchieta abriu os caminhos do sertão, aprendendo a língua tupi, catequizando e ensinando latim aos índios. Escreveu a primeira gramática sobre uma língua do tronco tupi: a "Arte da Gramática da Língua Mais Falada na Costa do Brasil", que foi publicada em Coimbra em 1595.
No seguimento da sua ação missionária, a pedido do referido Pe. Manuel da Nóbrega, que lhe solicitou uma peça teatral para o Natal mais adequada à realidade local, criou uma primeira versão "Da Pregação Universal" e que foi apresentada na aldeia de Piratininga. Onde, posteriormente, teve uma variante a pensar especificamente no público indígena e se chamava "Na Festa de Natal" ou de "Na Festa de São Lourenço", adaptado aos índios da aldeia de São Lourenço, atual Niterói, fundada por Araribóia, chefe dos Temiminós da aldeia de São João de Carapina.
Em São Vicente o Irmão José de Anchieta, apresenta pela primeira vez o Presépio aos índios e filhos de colonos, fins do ano de 1553.
alt=|esquerda|miniaturadaimagem|251x251px|Fundação de São Paulo (1909), óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva. O jesuíta Manuel da Nóbrega (ao centro) celebra uma missa, enquanto Manuel de Paiva e José de Anchieta estão ao fundo benzendo alguns indígenas. Acervo do Museu do Ipiranga.
Igualmente participou da fundação, no planalto de Piratininga, do Colégio de São Paulo, um colégio de jesuítas do qual foi regente, embrião da cidade de São Paulo, junto com outros padres da Companhia, em , recebendo este nome por ser a data em que se comemora a conversão do Apóstolo São Paulo. Esta povoação contava, no primeiro ano da sua existência com 130 pessoas, das quais 36 haviam recebido o batismo. São Paulo era em 2018 o maior aglomerado urbano do Hemisfério Sul e o quinta maior do mundo. Sabe-se que a data da fundação de São Paulo é o dia 25 de janeiro, por causa de uma carta de Anchieta aos seus superiores da Companhia de Jesus, com a citação:
miniaturadaimagem|220x220px|Pátio do Colégio, em São Paulo, fundado por Nóbrega, Paiva e Anchieta. Fotografia de Militão Augusto de Azevedo, em 1862.
Missões pelo litoral paulista thumb|direita|“Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu”, por Benedito Calixto (1927). Acervo do Museu do Ipiranga. A pregação de jesuítas como Anchieta e Nóbrega no Brasil foi uma inculturação recíproca entre a influência do cristianismo para as crenças e costumes dos nativos, utilizando elementos da cultura indígena como uma melhor forma de ensinar a doutrina cristã para eles.|222x222px miniaturadaimagem|222x222px|Poema à Virgem Maria, por Benedito Calixto (1901). Enquanto refém dos tamoios, Anchieta escreve versos dedicados à Virgem Maria na Praia de Iperoig. Ele recorda no poema que registrou posteriormente: "Eis, ó mãe toda santa, o que outrora eu em verso/Te prometi com voto, entre o gentio adverso./Enquanto ao cru Tamoio abrandei com a presença,/E tratei, qual refém, a obra da paz suspensa,/Teu favor me acolheu com afeto tão caro/Que alma e corpo guardou, sem culpa, teu amparo." O religioso cuidava não apenas de educar e catequizar os indígenas, como também de defendê-los dos abusos dos colonizadores portugueses que queriam não raramente escravizá-los e tomar-lhes as mulheres e filhos. Esteve em Itanhaém e Peruíbe, no litoral sul de São Paulo, na quaresma que antecedeu a sua ida à aldeia de Iperoig, juntamente com o padre Manuel da Nóbrega, em missão de preparo para o armistício com os Tupinambás de Ubatuba (Armistício de Iperoig). Nesse período, em 1563, intermediou as negociações entre os portugueses e os indígenas reunidos na Confederação dos Tamoios, oferecendo-se Anchieta como refém dos tamoios em Iperoig, enquanto o padre Manuel da Nóbrega retornou a São Vicente juntamente com Cunhambebe (filho) para ultimar as negociações de paz entre os indígenas e os portugueses. Entre os índios batizados por Anchieta destaca o cacique Tibiriçá.
Durante este tempo em que passou entre os gentios, compôs o "Poema à Virgem". Segundo uma tradição, teria escrito nas areias da praia e memorizado o poema, e apenas mais tarde, em São Vicente, o teria trasladado para o papel. Ainda segundo a tradição, foi também durante o cativeiro que Anchieta teria "levitado" entre os indígenas.
Missões no Rio de Janeiro e Espírito Santo e a Fundação do Rio de Janeiro miniaturadaimagem|222x222px|Igreja de Santo Inácio ou dos Jesuítas, no Morro do Castelo, no Rio de Janeiro, ao lado do Hospital São Zacharias, antigo Colégio dos Jesuítas, que foi dirigido por Anchieta, Fotografia de Augusto Malta, por volta de 1920. Acervo do Instituto Moreira Salles. Lutou contra os franceses estabelecidos na França Antártica na baía da Guanabara; foi companheiro de Estácio de Sá, a quem assistiu em seus últimos momentos (1567) e também foi um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro com o padre Manuel da Nóbrega, com quem fundou a cidade de São Paulo e com Estácio de Sá em 1 de março de 1565. Em 1566, foi enviado à Capitania da Bahia com o encargo de informar ao governador Mem de Sá do andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses ao Rio de Janeiro. Por esta época, foi ordenado sacerdote aos 32 anos de idade. Dirigiu o Colégio dos Jesuítas do Rio de Janeiro por três anos, de 1570 a 1573. Em 1569, fundou a povoação de Reritiba (ou Iriritiba), atual Anchieta, no Espírito Santo. Em 1577, foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos, sendo substituído em 1587 a seu próprio pedido. Retirou-se para Reritiba, mas teve ainda de dirigir o Colégio dos Jesuítas em Vitória, no Espírito Santo. Em 1595, obteve dispensa dessas funções e conseguiu retirar-se definitivamente para Reritiba (hoje chamada de Anchieta, em honra ao santo) onde veio a falecer, sendo sepultado em Vitória.
miniaturadaimagem|223x223px|Antiga Igreja de São Tiago e Colégio dos Jesuítas (fundado em 1550) de Vitória, no Espírito Santo, em 1912. Atual Palácio Anchieta, sede do governo capixaba, onde o padre José de Anchieta viveu e foi sepultado. Pintura de 1956, acervo do Palácio Anchieta. Anchieta foi enterrado em frente ao altar principal da Igreja de São Tiago, em Vitória, ao lado de outro padre jesuíta, Gregório Serrão. Os ossos de Anchieta foram removidos para o Colégio dos Jesuítas da Bahia, em Salvador, em 1610, e depois para Roma. Os jesuítas enviaram uma relíquia de José de Anchieta, um pedaço de seu fêmur, e uma lápide foi encomendada em Portugal no final do século XVI. Outra relíquia de São José de Anchieta, um fêmur completo, está localizado na Basílica de São José de Anchieta, no Pátio do Colégio, em São Paulo. miniaturadaimagem|336x336px|Lápide de pedra 'lioz' do antigo túmulo de São José de Anchieta, localizada no atual Palácio Anchieta.
Polêmica sobre a execução de Jacques Le Balleur