Clube da Esquina é um álbum colaborativo dos músicos brasileiros Milton Nascimento e Lô Borges, lançado como um álbum duplo em março de 1972 pela EMI-Odeon Records. Foi o quinto álbum de estúdio de Milton e o primeiro de Lô, após o qual este último seguiu carreira solo. A dupla gravou o álbum em novembro de 1971 na Praia de Piratininga, em Niterói, e nos Estúdios Odeon, no Rio de Janeiro, onde colaboraram com músicos do coletivo musical homônimo, que ajudaram a fundar.

Musicalmente, Clube da Esquina apresenta uma mistura de MPB, pop barroco, folk e jazz pop com elementos de rock, psicodelia e música clássica. Concebido em um período de tensão política durante a ditadura militar brasileira, o álbum explora temas como amizade, liberdade e juventude. A capa, fotografada por Carlos da Silva Assunção Filho, mais conhecido como Cafi, mostra dois meninos, Cacau e Tonho, em uma estrada de terra perto de Nova Friburgo, na serra do Rio de Janeiro, próximo de onde moravam os pais adotivos de Milton.

Inicialmente, Clube da Esquina recebeu críticas negativas da crítica brasileira contemporânea, que o considerou "pobre e descartável" e não compreendeu a mistura de gêneros e influências do álbum. Apesar disso, obteve sucesso comercial no Brasil e no exterior. Com o boca a boca e a mudança na percepção da crítica, o álbum foi aclamado posteriormente. Presente no livro de referência 1001 Albums You Must Hear Before You Die (2010), Clube da Esquina foi eleito o Melhor Álbum Brasileiro de Todos os Tempos pelo podcast Discoteca Básica  em 2022, e a revista Paste o classificou como o nono melhor álbum de todos os tempos em 2024.

Após o lançamento, uma sequência, Clube da Esquina 2, foi lançada em 1978, expandindo a discografia coletiva do original e incorporando uma gama mais ampla de colaborações. Embora cantado principalmente por Milton Nascimento, o álbum contou com menor participação de Lô Borges e incluiu contribuições de vários artistas, como Elis Regina, Chico Buarque e Francis Hime.

Antecedentes O coletivo musical Clube da Esquina teve origem na década de 1960, no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde Milton Nascimento e os irmãos Borges — Lô Borges, Márcio Borges e Marilton Borges — começaram a colaborar. Milton mudou-se para Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, em 1963 para estudar e trabalhar, conhecendo os irmãos Borges no Edifício Levy. Ele havia deixado sua cidade natal, Três Pontas, onde tocava na banda W's Boys com o pianista Wagner Tiso e se apresentava à noite com Marilton no grupo Evolussamba.

Quando Lô tinha apenas dez anos, sua mãe pediu que ele fosse comprar ovos e leite. Ao chegar à rua, Lô encontrou um jovem de vinte e poucos anos tocando violão — Milton Nascimento. Intrigado, aproximou-se dele, dando início a uma conexão. Milton costumava visitar a casa de Lô para apresentá-lo e ensiná-lo a tocar violão e a compor. Alguns meses depois, Lô conheceu Beto Guedes, outro futuro membro do coletivo, após vê-lo andando de patinete pelas ruas. À medida que a carreira de Milton ganhava impulso — particularmente depois que Elis Regina gravou sua música "Canção do sal" — suas colaborações com os irmãos Borges e outros músicos locais lançaram as bases para o Clube da Esquina.

Gravação e produção

O álbum foi gravado principalmente na casa de praia de Piratininga, no bairro de Mar Azul, Niterói, onde ocorreram longas sessões criativas e ensaios, durante os quais as gravações foram feitas em novembro de 1971. O grupo permaneceu lá por seis meses, enquanto as gravações finais ocorreram tanto em Santa Tereza quanto em bares do centro da cidade ou na casa dos irmãos Borges, bem como no estúdio da Odeon Records no Rio de Janeiro. Os estúdios Odeon deram ao coletivo Clube da Esquina várias semanas para gravar, com longas sessões que se estendiam por dias e noites inteiras, marcadas por uma intensa colaboração entre os músicos, com muita improvisação e experimentação.

Os músicos alternaram entre funções, sendo Beto Guedes o mais ativo na produção do álbum, tocando em 17 das 21 faixas, alternando entre baixo e bateria. Milton escolheu quem escreveria as letras de cada música de acordo com seu critério pessoal. Márcio Borges e Fernando Brant trabalharam nas letras, enquanto músicos como Toninho Horta desenvolveram ideias musicais. As orquestrações foram feitas principalmente por Eumir Deodato e Wagner Tiso. Durante a gravação no Odeon Studios, o álbum foi gravado usando técnicas analógicas, com um canal dedicado aos vocais e o outro aos instrumentos. Isso exigiu um alto nível de precisão, pois qualquer erro significava reiniciar a gravação do início.

A ideia de um álbum duplo enfrentou inicialmente resistência da gravadora, EMI-Odeon, que temia perdas financeiras e artísticas, mas o sucesso de colaborações anteriores ajudou a garantir o apoio da gravadora. Antes do lançamento de Clube da Esquina, três audições para o álbum foram realizadas em locais diferentes: na casa de Márcio, na casa de Brant e na casa do cineasta Schubert Magalhães. A ditadura militar no Brasil impôs diversas restrições à produção cultural, o que levou os artistas ao exílio ou ao confronto direto com a censura. Lô Borges afirma que "a ditadura foi um dos piores momentos que vivemos, mas conseguimos manter o foco na arte, nas canções [e] na produção do álbum". Márcio diz que, após a produção de Clube da Esquina, Milton e Lô começaram a compor cada vez mais, a ponto de parecerem, em suas palavras, "uma espécie de entidade híbrida, homogênea, autóctone, formada por duas cabeças, quatro mãos e duas guitarras". Toninho Horta descreveu o álbum como "néctar, um oásis", com cada música tendo algo diferente, destacando a importância da formação musical de cada participante. Após a gravação e produção de Clube da Esquina, Lô Borges seguiu carreira solo.

Composição

Visão geral Clube da Esquina é composto por 21 faixas que abordam temas como amizade, liberdade e juventude, com forte presença de elementos poéticos. Críticos musicais notaram sua fusão única de estilos musicais, sendo caracterizado como uma gravação de MPB, pop barroco, folk e jazz pop. Também foi descrito por ter influências de rock, psicodelia, bossa nova, música clássica e música afro-americana. Barbara Alge interpretou o álbum como um reflexo de um espírito de liberdade artística em contraste com o autoritarismo durante a ditadura militar no Brasil. Um motivo recorrente no álbum é uma estrada, que serve como metáfora para a vida em movimento e as transformações que ela traz.

O grupo absorveu influências de vários estilos e gêneros musicais, sendo os Beatles e Chopin duas das fontes mais influentes. Clube da Esquina incorporou ritmos brasileiros, jazz e MPB em sua música, inspirando-se no uso de diversas influências pelos Beatles. Milton cresceu ouvindo muitos gêneros musicais, como música tradicional brasileira, rock, jazz, samba e bossa nova tocados no rádio. Isso influenciou a incorporação de guitarras e teclados em sua música, refletindo a influência do rock e da música psicodélica. Publicações compararam a gravação aos equivalentes brasileiros de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) dos Beatles, por Robert Dimery e Magical Mystery Tour, pelo jornal espanhol El Nuevo Herald. Andy Beta, da Pitchfork, comparou-o com "clássicos ocidentetais" como Exile on Main St. (1972), dos Rolling Stones, e Blonde on Blonde (1966), de Bob Dylan.

Canções

Faixas 1–11

A faixa de abertura, "Tudo Que Você Podia Ser", apresenta uma narrativa de resignação diante da opressão militar, interpretada por Milton, que começa com um violão de cordas de nylon tocado por Lô. A letra retrata um jovem que, em vez de resistir ao regime autoritário, escolhe se conformar e abandonar suas aspirações. Os temas da canção refletem o clima sociopolítico mais amplo do Brasil sob a ditadura, onde a censura e a repressão sufocavam a dissidência. "Cais", interpretada por Milton, explora temas de solidão, com a letra sugerindo um porto metafórico como um lugar de refúgio emocional, contrastando o desejo de liberdade com um sentimento inerente de isolamento. A canção também apresenta influências de compositores como Heitor Villa-Lobos e músicos de jazz como John Coltrane e Bill Evans. "O Trem Azul", interpretada por Lô, é uma canção de amor que usa a imagem de um trem para evocar a ideia de partida. A canção começa com um violão simples acompanhando letras que evocam reflexão e busca interior, abordando questões de identidade e a relação do indivíduo com o mundo e a natureza. A faixa transmite uma sensação libertadora com imagens quase psicodélicas, descrita por Jonathon Grasse como um "hit jazzístico de pop rock com uma vibe positiva". Lívia Nolla, da Novabrasil, observou que a menção a um "trem azul" pode ser interpretada de várias maneiras, servindo como um símbolo que convida a múltiplas leituras. Pode representar uma jornada pessoal e introspectiva ou, alternativamente, uma referência ao cotidiano, com a palavra "trem" sendo usada como gíria em Minas Gerais para qualquer objeto. Leandro Aguiar afirma que o termo também poderia aludir ao período em que Lô usou LSD e fumou cannabis. A canção foi comparada a "Lucy in the Sky with Diamonds", dos Beatles, pelo escritor Paulo Thiago de Mello. esquerda|miniaturadaimagem|A sexta faixa, "Cravo e Canela", é uma homenagem à atriz brasileira Dina Sfat (na foto), pessoa que teve ligações com Milton. "Saídas e Bandeiras Nº 1", interpretada por Milton e Beto Guedes, aborda a ideia de deslocamento e busca, tanto física quanto simbólica. A letra sugere um desejo de partir, explorar novos territórios e encontrar algo valioso, evidente em versos como: "Subir novas montanhas, diamantes procurar". "Nuvem Cigana", interpretada por Milton, explora o tema da estrada como um espaço de possibilidades. A letra utiliza imagens do sol e do vento para evocar movimento, imprevisibilidade e liberdade. A abertura da canção apresenta Beto Guedes tocando uma guitarra elétrica de doze cordas. O verso "pó, poeira, ventania" refere-se ao vento, reforçando a ideia de incerteza, ecoando a afirmação de Riobaldo no romance de 1956, Grande Sertão: Veredas, de que "viver é muito perigoso". "Cravo e Canela", interpretada pelos dois cantores, é uma canção em homenagem à atriz brasileira Dina Sfat, que tinha ligações com Milton. Seu arranjo com influência do samba difere de sua versão instrumental anterior na faixa "Fibra" de Paulo Moura, de 1971. A canção foi originalmente escrita para o filme de 1970, Os Deuses e os Mortos, embora não tenha sido incluída na trilha sonora. Ela foi descrita como um "samba em três", deslocando a esfera da congada de Minas Gerais para o universo rítmico do samba do Rio de Janeiro.

A faixa mais longa, "Dos Cruces", é um bolero espanhol de 1952 escrito pelo compositor basco Carmelo Larrea, gravado por Milton em sua própria interpretação. A canção explora o tema do amor perdido e esquecido, com uma melodia que expressa dor e nostalgia. Milton descobriu a canção durante uma visita à Venezuela para o festival Buena Onda em 1971. Lá, ele fez amizade com três moradores locais que o apresentaram a diferentes partes de Caracas, incluindo seus bairros mais pobres, e um deles tocou "Dos Cruces" para ele. "Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo", interpretada por Lô, aborda temas como amor, movimento e permanência. A música apresenta um dilema entre partir ou ficar, contrastando o sentimento de amor, que tende a criar raízes, com a estrada, que simboliza movimento e mudança. A letra foi inspirada na primeira esposa de Márcio Borges, Duca Leal. Segundo Márcio, a canção foi escrita no início do relacionamento deles durante uma viagem ao interior de Minas Gerais. Apesar de sua natureza romântica, a letra tem um tom existencial e melancólico, misturando temas de morte e alucinação, evidente em versos como: "Se eu morrer, não chore, não / É só a Lua".