O bacurau-do-são-francisco (nome científico: Nyctiprogne vielliardi) é uma espécie de ave caprimulgiforme da família dos caprimulgídeos (Caprimulgidae) ou bacuraus, cuja posição taxonômica foi revisada à luz de estudos filogenéticos que demonstraram a inadequação de classificações tradicionais da família. Descrito originalmente em 1994 como Chordeiles vielliardi, foi posteriormente transferida para o gênero Nyctiprogne, onde permanece atualmente. Mede cerca de 17,5 centímetros de comprimento e apresenta plumagem predominantemente castanho-escura, sem manchas brancas nas asas ou na cauda; a fêmea permanece desconhecida. O imaturo é mais amarronzado que o macho adulto, com estrias mais evidentes e partes inferiores mais claras.
Espécie endêmica do Brasil, ocorre ao longo do rio São Francisco e de alguns de seus principais tributários, entre os reservatórios da Usina Hidrelétrica de Três Marias (Minas Gerais) e da Usina Hidrelétrica de Sobradinho (Bahia). Está associada principalmente aos biomas Caatinga e Cerrado, ocupando matas ciliares, várzeas, margens de lagoas e formações de florestas decíduas em ecótonos com florestas secas. Sua distribuição concentra-se nas sub-bacias do Alto e Médio São Francisco, com área de ocupação estimada em 868 quilômetros quadrados, apresentando forte dependência de corredores de vegetação ribeirinha e uso ocasional de ambientes modificados, como canais de irrigação conectados ao sistema fluvial.
Apresenta hábitos predominantemente crepusculares e provavelmente noturnos, alimentando-se de insetos capturados em voo sobre rios e áreas abertas. Pode formar desde pequenos grupos até grandes agregações com mais de uma centena de indivíduos, pousando no solo ou em galhos baixos próximos à água. Seu repertório vocal inclui notas suaves e repetitivas, e o único ninho conhecido foi registrado em 1998, contendo dois ovos rosados depositados diretamente no solo. A espécie é classificada globalmente como pouco preocupante (LC), embora a degradação das matas ciliares, a expansão agropecuária, os incêndios e possíveis empreendimentos hidrelétricos representem ameaças ao habitat. Apesar da ampla extensão de ocorrência, permanece pouco conhecida, com distribuição localizada, registros escassos e necessidade de novos estudos para melhor avaliação de sua situação populacional. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) tomou uma posição mais conservadora a respeito da situação da espécie e optou por classificá-la como nacionalmente quase ameaçada (NT) no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.
Etimologia
O nome popular bacurau deriva do tupi *waku'rawa, possivelmente de origem onomatopaica, com sentido definido. As formas históricas registradas incluem bacuráo (1863), bacurau (1900) e acurau (1911). O nome genérico Nyctiprogne deriva do grego, sendo formado por nykti- (, nyktí), que significa "noite" ou "noturno", e do latim progne, utilizado em referência a "andorinha", formando assim o sentido de "andorinha da noite" ou "andorinha noturna". O epíteto específico vielliardi faz homenagem ao ornitólogo francês Jacques Veilliard (n. 1944).
Taxonomia e sistemática
O bacurau-do-são-francisco é monotípico. O gênero Nyctiprogne insere-se na família dos caprimulgídeos (Caprimulgidae) e integra um dos principais clados neotropicais de bacuraus noturnos. Estudos filogenéticos baseados em múltiplos marcadores moleculares demonstraram que a antiga subdivisão da família em cordeilíneos (Chordeilinae) e caprimulgíneos (Caprimulginae) não reflete relações evolutivas naturais, uma vez que os cordeilíneos emerge como grupo parafilético dentro dos caprimulgíneos. Além disso, análises amplas indicam que Caprimulgus, em sua delimitação tradicional, é altamente polifilético, com diversas espécies sul-americanas agrupadas em linhagens distintas que incluem, entre outros, os gêneros Hydropsalis, Uropsalis, Nyctidromus, Lurocalis e Nyctiprogne. Dentro dessa reorganização, o conjunto neotropical sul-americano forma um clado bem suportado separado de outros grupos da família, reforçando a necessidade de revisão dos limites genéricos e da sequência linear do grupo. Nesse contexto, o bacurau-do-são-francisco (Nyctiprogne vielliardi) tem sido objeto de reavaliação sistemática.
A espécie foi descrita em 1994 pelo biólogo Frederico Lencioni Neto a partir de exemplares do vale do rio São Francisco, na Bahia com o binômio Chordeiles vielliardi. Seguindo Whitney et al. (2003), o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO) retificou o gênero para Nyctiprogne. Evidências morfológicas e comportamentais posteriores indicaram, contudo, afinidades mais estreitas com Nyctiprogne, levando à sua transferência formal para esse gênero. Essa reclassificação é atualmente aceita em sínteses taxonômicas modernas, refletindo melhor sua inserção no clado neotropical de bacuraus noturnos. A espécie Nyctiprogne vielliardi é reconhecida como integrante de um grupo de bacuraus sul-americanos especializados em ambientes abertos e atividades crepusculares e noturnas. Sua inclusão em Nyctiprogne enfatiza sua afinidade com outras espécies do gênero, distinguindo-a de linhagens convergentes dentro dos caprimulgídeos, como aquelas associadas a Chordeiles. A proposta de sua realocação foi posteriormente formalizada e aceita, consolidando sua posição taxonômica atual. Em 2011, o CBRO havia proposto proposto uma mudança para Hydropsalis, eliminando Nyctiprogne da lista das aves do Brasil. Em 2015, o gênero voltou à lista de espécies de aves do país.
Descrição
O bacurau-do-são-francisco apresenta comprimento de 17,5 centímetros. As partes superiores são castanho-escuras, com manchas da mesma tonalidade e estrias marrom-escuras na região da coroa. As coberteiras das asas são castanho-escuras, apresentando barramento marrom-escuro, enquanto as escapulares são igualmente castanho-escuras, com bordas na mesma coloração geral. A garganta não apresenta mancha branca. As partes inferiores são castanho-escuras, com manchas e barramento em bege, tornando-se progressivamente mais barradas de branco na região ventral da barriga e dos flancos. Não há marcas brancas nas asas nem na cauda. A íris é castanho-amarelada, o bico é provavelmente preto e as pernas e pés são castanho-amarelados. A fêmea permanece desconhecida. O indivíduo imaturo é mais amarronzado que o macho adulto, apresentando manchas castanho-pretas na cabeça, estrias escuras no dorso e no uropígio e partes inferiores mais claras, tendendo ao branco. A íris é castanho-escura, o bico não foi descrito e o tarso é castanho-escuro.
Distribuição e habitat
O bacurau-do-são-francisco é endêmico do Brasil, ocorrendo em matas ciliares associadas ao São Francisco, ao longo do trecho compreendido entre os reservatórios da Usina Hidrelétrica de Três Marias (Minas Gerais) e da Usina Hidrelétrica de Sobradinho (Bahia). Sua distribuição inclui ainda diversos tributários desse sistema hidrográfico, com destaque para a bacia do rio Paracatu, o baixo rio das Velhas, o ribeirão Pandeiros e o rio Gorituba, em Minas Gerais, bem como a bacia do rio Preto e do rio Grande, na Bahia. Ocorre inserida principalmente nos biomas Caatinga e Cerrado, associada a ambientes ripários ao longo do sistema do São Francisco, estando restrita às sub-bacias do Alto e Médio São Francisco, onde utiliza formações vegetacionais lineares ao longo dos cursos d’água, em uma distribuição relativamente localizada, concentrada em ambientes fluviais do interior do Brasil central, com forte associação a corredores de vegetação ribeirinha em regiões de transição entre Caatinga e Cerrado. A área de ocupação (AOO) do bacurau-do-são-francisco foi estimada a partir da sobreposição de uma malha de quadrículas de quatro quilômetros quadrados sobre os pontos de ocorrência confirmados e inferidos da espécie, sendo a área total resultante obtida pela soma das quadrículas com registros de presença, totalizando uma AOO de 868 quilômetros quadrados.
O bacurau-do-são-francisco habita formações de florestas decíduas associadas às margens fluviais, especialmente em áreas com dunas e afloramentos rochosos. Em adição ao padrão geral de distribuição ripária, a espécie ocorre em ambientes de transição mais amplos do ecótono entre Caatinga, Cerrado e florestas secas, incluindo várzeas e margens de lagoas ao longo do São Francisco, entre o centro da Bahia e o norte de Minas Gerais. Nesses contextos, permanece estritamente associada a microfaixas de vegetação ciliar de largura variável ao longo do rio principal e de alguns tributários, com ocupação igualmente vinculada a formações de vegetação arbustiva ripária. Em escala local, presume-se sua presença contínua em trechos com vegetação ribeirinha ainda conservada na porção média da bacia, sendo também registrada em Janaúba, no norte de Minas Gerais, onde foi observada sobrevoando canais de irrigação associados ao Gorituba, evidenciando uso ocasional de ambientes antropizados conectados ao sistema fluvial regional.
Ecologia
O bacurau-do-são-francisco apresenta hábitos predominantemente crepusculares e provavelmente noturnos. Foi observado alimentando-se em voo alto sobre rios abertos ao entardecer, geralmente em bandos pouco coesos com até cerca de 20 indivíduos, comportamento este compatível com registros de forrageamento em grandes agrupamentos, nos quais podem formar-se bandos de aproximadamente 150 a 200 indivíduos voando e planando sobre rios a cerca de um a dez metros acima da superfície da água. A espécie aparenta ser sedentária, embora não se excluam deslocamentos sazonais. Alimenta-se de insetos, sendo o comportamento de forrageamento semelhante ao de espécies relacionadas. Indivíduos em repouso têm sido registrados tanto em arbustos ribeirinhos quanto diretamente no solo, de onde podem ser levantados quando perturbados, sugerindo uso consistente de áreas marginais a corpos d’água tanto para atividade quanto para descanso. Seu repertório vocal inclui um canto constituído por uma série de notas suaves, musicais e dissilábicas, transcritas como whuip-purr, repetidas de forma contínua. As vocalizações também incluem sequências de weet-weet ou wik-wik, emitidas tanto em voo quanto a partir de poleiros, além de uma chamada de voo monossilábica descrita como whip. O único ninho conhecido foi encontrado em novembro de 1998 em Mocambinho, situado em uma depressão formada por uma pegada humana em área arenosa com cerca de 15 metros de comprimento, dois metros de largura e 2,5 metros de profundidade. O ninho localizava-se próximo à borda da depressão, a aproximadamente um metro de uma pequena planta, e continha uma ninhada de dois ovos de coloração rosada, sem outras informações adicionais disponíveis. A espécie pousa tanto no solo quanto em galhos de arbustos, incluindo Jatropha mutabilis (euforbiáceas). Os locais de repouso incluem galhos finos, geralmente horizontais, com diâmetro aproximado entre 25 e 75 milímetros, situados a cerca de 0,5 a dois metros acima da lâmina d’água, onde os indivíduos podem formar agrupamentos de dois a dez exemplares, frequentemente alinhados na mesma direção e dispostos perpendicularmente ao galho de suporte. Há indícios de deslocamentos sazonais locais, enquanto o comportamento migratório é considerado improvável, embora não completamente descartado.
Conservação