miniaturadaimagem|361x361px|Câmeras fotográficas de várias marcas e modelos.Desde o topo e à esquerda: Polaroid P, Holga, Yashica A, Contax T, Sony Cybershot DSC-N2, Gowland Pocket View, Mamiya Universal Press, Minolta Pocket Autopak 460, Leica IIIf, Rollei 35, Nikon F2, Canon 5D, Fuji Instax Mini 8, Zenza Bronica e Voigtlander Bessa I.
A , ou simplesmente câmera ou câmara, é um instrumento óptico para captação de imagens na forma de fotografias individuais; capta informações visuais de elementos externos sem ter contato físico com eles e, que podem ser registrados sobre uma superfície plana, é tecnicamente um dispositivo de sensoriamento remoto. que são armazenadas localmente e/ou transmitidas para outro local.
A palavra câmera vem de camera obscura, latim para câmera escura, um dispositivo originalmente usado para projetar uma imagem sobre uma superfície plana. Tendo evoluído desse aparato, mesmo os equipamentos modernos mais sofisticados guardam o seu princípio fundamental:Gustavson, Todd (2012). Camera: a history of photography from daguerreotype to digital (em inglês). New York: Sterling Signature. p. 1. ISBN 1454900024 uma caixa à prova de luz com um orifício em um dos lados. Semelhantemente ao funcionamento do olho humano, por esse orifício penetram raios de luz e outras porções de espectro eletromagnético, registrados em um filme fotográfico ou por um sensor de imagem. Além disso, tipicamente câmeras contam com objetivas, obturadores e diafragmas, que controlam a quantidade de luz recebida; um sistema de foco, que permite ajustar a distância entre a objetiva e o filme ou sensor; e um visor, que auxilia na composição da cena que se quer fotografar.
Evolução
Origens
A precursora da câmera moderna é a câmera escura, cujo principio de funcionamento é fenômeno ótico que ocorre quando a luz de uma cena é captada por um pequeno orifício numa tela ou parede e projetada em outra tela ou parede paralela e oposta ao orifício, resultando na visualização sobre essa superfície da mesma cena invertida (esquerda para a direita e de cabeça para baixo). O registro mais antigo desse princípio é uma descrição feita pelo filósofo chinês Mozi (cerca de 470-391 a.C.), que concluiu corretamente que na câmera escura a imagem é projetada invertida como resultado do trajeto em linha reta que a luz percorre desde a sua fonte. Algumas décadas mais tarde, o grego Aristóteles (ou eventualmente um dos seus alunos) fez apontamentos a respeito do mesmo princípio. No seu tratado sobre ótica, Euclides pressupõe igualmente a câmera escura como uma demonstração de que a luz viaja em linha reta.
miniaturadaimagem|esquerda|Principio de funcionamento de uma câmera escura.
Provavelmente em 1021, o físico árabe Ibn al-Haytham, conhecido como Alhazen, escreveu o influente Livro de Óptica, que inclui experimentos com luz e descreve em maior detalhe uma câmera escura. Por traduções latinas, seus escritos no campo da ótica tornaram-se muito influentes na Europa, inspirando pessoas como Roger Bacon, Leonardo Da Vinci, René Descartes e Johannes Kepler. Perto de 1558 as descrições de Alhazen foram estudadas pelo acadêmico italiano Giambattista della Porta, que baseado nas primeiras experimentações com uma lente, por Girolamo Cardano, propôs a adição de lentes à câmera escura visando focalizar mais claramente as imagens projetadas.
A partir dessa época, tal qual mais tarde ocorreria com a câmera lúcida, o uso de câmeras escuras, ou mais comumente salas escuras com um furo na parede, difunde-se sobretudo como auxílio para pinturas e desenhos, e existem evidências de que um número de mestres da pintura, notadamente Vermeer, tenham utilizado esse dispositivo. A partir do século XVII câmeras escuras foram adaptadas na forma de tendas e caixas, que podiam ser transportadas e utilizadas numa variedade de ambientes, e existem registros de que o próprio Kepler utilizou uma delas.Gernsheim, Helmut (1986). A Concise History of Photography (em inglês) 3 ed. New York: Dover Publications. p. 5. ISBN 9780486251288
O processo fotográfico
Paralelamente ao desenvolvimento das próprias câmeras, por centenas de anos se sabia que algumas substâncias escurecem quando expostas à luz solar. Em uma série de experimentos publicado em 1727, o cientista alemão Johann Heinrich Schulze demonstrou que o escurecimento de sais de prata é resultado da ação da luz apenas, e não do calor ou da exposição ao ar, tal qual se acreditava à época. Meio século depois, o químico sueco Carl Wilhelm Scheele demonstrou que o cloreto de prata é especialmente suscetível ao escurecimento pela exposição à luz, e que uma vez escurecido ele torna-se insolúvel em soluções de amoníaco. A primeira pessoa a usar a química para criar imagens foi Thomas Wedgwood, que para criar imagens adicionava objetos, como folhas e asas de insetos, a vasos de cerâmica revestidos com nitrato de prata que eram então expostos à luz. Contudo, essas imagens não eram permanentes, pois Wedgwood não foi capaz de desenvolver um mecanismo para fixação das mesmas.miniaturadaimagem|Vista da Janela em Le Gras: a primeira fotografia feita por Nicéphore Niépce em 1827.A primeira imagem permanente realizada com uma câmera foi feita em 1827 por Joseph Nicéphore Niépce, e mostra a cena vista da janela de sua casa em Le Gras. Usando uma câmera escura feita por Charles e Vincent Chevalier de Paris, desde 1816 Niépce vinha experimentando com formas de corrigir e fixar as imagens de uma câmera escura. Para produzir sua primeira fotografia, Niépce submeteu uma placa de estanho revestida com betume a uma exposição de oito horas, e em referência à luz solar batizou o seu processo heliografia. Nos anos seguintes Niépce correspondeu-se com o inventor Louis Jacques Mandé Daguerre, com quem estabeleceu uma parceria visando melhorar o processo da heliografia. Niépce realizou experimentos com outros produtos químicos, que lhe permitiram acentuar o contraste de seus heliógrafos. Daguerre contribuiu com um design melhorado de câmera escura, mas a parceria encerrou-se com o falecimento de Niépce em 1833. Alguns anos depois, Daguerre teve sucesso no desenvolvimento de uma imagem bem focalizada e de alto contraste, ao projetar imagens sobre uma placa revestida com iodeto de prata, que era então exposta ao vapor de mercúrio e finalmente corrigida com uma solução de sal comum.Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 368. ISBN 9780415972352 Reconhecendo o potencial comercial desse novo processo, que chamou daguerreótipo, Daguerre buscou o apoio de François Arago, secretário da Academia Francesa de Ciências e membro do parlamento francês.Warren, Lynne (Ed.) (2005). Encyclopedia of Twentieth-Century Photography, 3-Volume Set (em inglês). 1 (A-F). New York, London: Routledge. p. 704. ISBN 9781135205362 Interessado, Arago que propôs uma lei - na sequência efetivamente aprovada - outorgando uma pensão a Daguerre e ao filho de Niépce, Isidore, em troca da divulgação dos detalhes do processo do daguerreótipo, para que "a França possa nobremente dar ao mundo essa descoberta que muito poderá contribuir para o progresso da arte e da ciência".Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 368. ISBN 9780415972352 Essa tecnologia se tornaria extremamente popular nos anos seguintes.Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 675. ISBN 9780415972352
Paralelamente, na década de 1830 o cientista britânico William Henry Fox Talbot inventou um processo usando sais de prata para fixar imagens. Embora convencido de que Daguerre tinha se antecipado a ele na invenção da fotografia, em 31 de janeiro de 1839 submeteu à Royal Institution um panfleto intitulado Alguns informes sobre a arte do desenho fotogênico (no original, Some Account of the Art of Photogenic Drawing), que é a primeira descrição publicada de um processo fotográfico. Dentro pouco tempo, Talbot desenvolveu um processo em dois passos para a criação de fotografias em papel, que chamou calótipo.Warren, Lynne (Ed.) (2005). Encyclopedia of Twentieth-Century Photography, 3-Volume Set (em inglês). 1 (A-F). New York, London: Routledge. p. 607. ISBN 9781135205362 Esse foi o primeiro processo a utilizar impressões negativas e que invertem todos os valores na fotografia: preto mostra-se como branco e vice-versa. Esse processo trouxe avanços, pois em princípio negativos permitem a produção de um número ilimitado de duplicatas positivas, que também podem ser alteradas por meio de retoque.Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 1253. ISBN 9780415972352 Calótipos nunca foram tão amplamente utilizados como os daguerreótipos, devido principalmente ao fato de que este último produz detalhes mais nítidos.Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 678. ISBN 9780415972352 No entanto, daguerreótipos só produzem uma impressão positiva direta que não pode ser duplicada ou modificada, e ao longo do tempo seriam abandonados em detrimento do processo em duas etapas dos calótipos, que constitui a base da fotografia e do cinema do século XX.
Da câmera escura à câmera moderna miniaturadaimagem|esquerda|George Eastman, pioneiro do filme fotográfico. A popularização dessa mídia teve grande influência sobre o desenvolvimento das câmeras modernas.A primeira câmera fotográfica desenvolvida para produção comercial, construída por Alphonse Giroux, um parente de Daguerre, foi lançada em 1839 e era destinada à produção de daguerreótipos.Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 244. ISBN 9780415972352 Giroux assinou um contrato com Daguerre e Isidore Niépce para produzir as câmeras na França, e cada dispositivo e acessórios custava 400 francos, o equivalente a um ano de salário de um trabalhador médio. Essa câmera consistia numa dupla caixa de madeira com uma lente montada na caixa exterior e um suporte na caixa interna, no qual se acoplava um vidro fosco emoldurado que funcionava como tela de focagem.Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 254. ISBN 9780415972352 Deslizando a caixa interna, objetos a várias distâncias poderiam ser mais ou menos focalizados. Após compor a imagem desejada, o vidro fosco era substituído por uma placa sensibilizada com produtos químicos. Uma roda estriada na aba da lente funcionava como obturador e era controlada manualmente.Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 538. ISBN 9780415972352 As câmeras daguerreótipo necessitavam de longos tempos de exposição, que iam de 5 a 30 minutos, e, portanto algumas variações de tempo eram toleradas.
Graça a melhorias nos processos químicos e no desenho das lentes, por volta de 1840 os tempos de exposição foram reduzidos a apenas alguns segundos.Hannavy, John (Ed.) (2008). Encyclopedia of nineteenth-century photography: A-I, index(em inglês). New York, London: Routledge. p. 339. ISBN 9780415972352 Daguerreotipistas americanos lançaram placas produzidas em massa e em tamanhos padronizados, que se tornaram padrões internacionais: placa inteira (6,5 x 8,5 polegadas), placa de três quartos (5,5 x 7 1/8 polegadas), meia placa (4,5 x 5,5 polegadas), placa de um quarto (3,25 x 25,04 polegadas), placa de um sexto (2,75 x 3,25 polegadas), e placa de um nono (2 x 2,5 polegadas). Placas maiores e menores também continuaram a ser produzidas, embora em menor escala.