thumb|350px|Albert Bierstadt: Entre as montanhas da Sierra Nevada
A Escola do Rio Hudson foi um movimento artístico norte-americano ativo entre aproximadamente 1825 e 1880, formado por um grupo de pintores paisagistas baseados em Nova Iorque, cuja visão estética representou uma síntese entre os princípios do Romantismo e do Realismo. O grupo não era formalizado mas se uniu num espírito de fraternidade; alguns excursionavam juntos para o interior, pertenciam aos mesmos clubes e trabalhavam num mesmo prédio localizado na área hoje conhecida como Greenwich Village. O ponto inicial de interesse para suas obras foi a região do rio Hudson e as montanhas circundantes, donde o nome da escola, mas em meados do século seus integrantes ampliaram seus horizontes para retratar o oeste dos Estados Unidos e, alguns deles, até mesmo regiões distantes como o Ártico, a Europa, o Oriente e a América do Sul.The Hudson River School The Hudson River School website AVERY, Kevin J. The Hudson River School. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000.
As primeiras referências ao nome da escola aparecem somente na década de 1870, embora não se saiba exatamente quem o cunhou e, nesse momento, quando o prestígio do grupo começava a declinar, tinha um sentido pejorativo. Seus pintores refletem basicamente três impulsos importantes dos Estados Unidos do século XIX: descobrimento, exploração e conquista, dentro de uma óptica bucólica e pastoril, onde os seres humanos e a natureza coexistem pacificamente, e com um tratamento detalhista e por vezes idealizado. De forma geral seus artistas acreditavam que a natureza era a inefável manifestação de Deus, embora os pintores variassem na profundidade de suas convicções religiosas. Foram inspirados pelas filosofias do Sublime e do Transcendentalismo, pela obra de artistas europeus como Salvator Rosa, John Constable, William Turner e especialmente Claude Lorrain, e compartilhavam a reverência às belezas naturais da América com os escritores norte-americanos contemporâneos, como Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson. HOWAT, John K. American Paradise, The World of the Hudson River School. The Metropolitan Museum of Art, Harry N. Abrams, Inc., New York, 1987. pp. 3-4 AVERY, Kevin J. The Hudson River School
A Escola do Rio Hudson representou um ponto alto no longo processo de reconhecimento do território norte-americano e de construção da sua imagem, que havia iniciado nos tempos coloniais com o trabalho de exploradores, naturalistas e artistas, nativos e estrangeiros. Também é considerada a mais importante expressão romântica na pintura norte-americana, a primeira escola de pintura genuinamente nacional STRICKLAND, Carol. The Annotated Mona Lisa: A Crash Course in Art History from Prehistoric to Postmodern. Andrews McMeel Publishing, 2007. p. 81 e o movimento artístico mais notável dos Estados Unidos oitocentista.THE NEW YORK TIMES. The New York Times Guide to Essential Knowledge. Macmillan, 2ª ed. 2007. p. 25
Antecedentes
130px|thumb|left|Ralph Waldo Emerson thumb|130px|left|Henry David Thoreau
Na virada do século XVIII para o XIX estava entre os interesses centrais dos pintores românticos europeus a representação do transcendente na natureza, acompanhando a evolução do pensamento filosófico da época. Rousseau falava de um retorno a um mundo primitivo intocado pelo progresso, Burke, Kant e Diderot elaboravam a teoria do Sublime, poetas como Blake, Byron e Shelley rejeitavam o racionalismo e a ordem da civilização dizendo que a natureza, mais o poder curativo da imaginação, poderiam levar as pessoas a uma transcendência de seu cotidiano, e que a criatividade poderia ser usada para transformar o mundo e regenerar sua espiritualidade.FORWARD, Stephanie. Legacy of the Romantics. The Open University. BBC No contexto norte-americano, Audubon, Wordsworth e Thoreau, enquanto decantavam a divina majestade do cenário nacional, estavam cientes das transformações sociais e econômicas do período e temiam pela degradação do ambiente natural em função do aceleramento do processo colonizador do oeste. Thoreau era inspirado nas ideias de Goethe e de outros poetas europeus, e na filosofia de Kant filtrada pelo inglês Coleridge, reagindo contra os princípios racionalistas e antirreligiosos da elite comercial da costa leste, a principal incentivadora da expansão para o interior, e também contra o ascetismo Puritano, que via o mundo como essencialmente mau. Ele colocava a natureza como a imagem de verdades espirituais e ideais, e como a fonte primeira da inspiração, e por isso era digna de ser preservada. Já Emerson não via incompatibilidade entre a comunhão mística com a natureza e sua exploração pelo homem, entendendo que ela era a base do conforto humano. Seu elogio do progresso contribuiu para a sociedade da época sobrepujar quaisquer preocupações acerca da destruição da paisagem ao longo desse processo desenvolvimentista, embora tenha fomentado significativamente o interesse pela sua representação na arte.MERCHANT, Carolyn. The Columbia guide to American environmental history. Columbia University Press, 2002. pp. 67-72 NOVAK, Barbara. American painting of the nineteenth century. Oxford University Press US, 2007. p. 41 Esse corpo de ideias, conhecido como Transcendentalismo, influenciou grande número de escritores, poetas, políticos e artistas na primeira metade do século XIX, levando à concepção de que "a América era uma nação da Natureza", cuja beleza, ao contrário do ambiente exaustivamente explorado, alterado e civilizado da Europa, estava em sua condição selvagem, fonte de orgulho nacionalista, e o trabalho da colonização não raro era comparado aos feitos dos heróis clássicos.BLACK, Brian. Nature and the environment in nineteenth-century American. Greenwood Publishing Group, 2006. pp. 81-82
No campo iconográfico, segundo Tim Barringer, desde a independência a história dos Estados Unidos seguia um projeto consciente de construção de imagem e identidade nacional. O sucesso no desligamento da Inglaterra, a feliz instituição do sistema democrático e a força do desenvolvimento econômico na sequência desses eventos alimentavam o cultivo de uma doutrina de excepcionalidade para a caracterização da nação, uma doutrina que procurava afirmar também a unidade nacional a despeito de evidentes contradições internas - mormente no que dizia respeito à questão escravocrata. Nesse contexto, a narrativa oficial da história dos Estados Unidos alcançava o status de um épico, consumado na noção do Destino Manifesto, e parte fundamental nessa narrativa era sua materialização através de símbolos visíveis, onde se solicitava o concurso dos artistas.BARRINGER, Tim. Unmistakably American? National myths and the historiography of landscape painting in the USA. In PAYNE, Christiana & VAUGHAN, William. English accents. Ashgate Publishing, Ltd. 2004. pp 225-226 Como dizia Henry Tuckerman em 1867, thumb|230px|John Gast: Progresso Americano, uma alegoria do Destino Manifesto
"Nossa atmosfera de Liberdade, de atividade material, de jovialidade e prosperidade, devem animar o artista viril. Aqui ele tem um terreno privilegiado, como não o têm os do Velho Mundo, e a partir disso ele deve trabalhar confiadamente… Convenções acadêmicas, mecenato bitolado, a deferência suscitada pelos grandes exemplos, nada subjugue as aspirações do artista, ou façam-no perder a fé em si mesmo, ou entorpeçam seu ideal de excelência… Que o artista Americano voe acima dos problemas nacionais… que use liberalmente todos os recursos que o rodeiam, e que seja fiel a si mesmo - e poderá operar milagres".BARRINGER, Tim. p. 226
Assim, na ausência de um Pártenon, de uma Catedral de Notre Dame ou de uma Basílica de São Pedro, carecendo de dinastias régias e tradições ancestrais de longa memória que definem outras nações, e possuindo apenas uma galeria de heróis recente demais para ter se alçado ao patamar do mito, nos Estados Unidos o emblema mais significativo e reconhecível da pátria era sua própria paisagem, que se exaltava vigorosamente. Daí a pintura de paisagem, que até então, a despeito do esforço dos artistas coloniais, havia conseguido um impacto apenas limitado sobre o grande público, e ainda não podia se comparar com os resultados europeus nem em termos de qualidade técnica nem como um símbolo realmente poderoso de tradição, adquirir uma primazia não encontrada na arte europeia, onde a pintura histórica era o gênero mais prestigiado, passando a natureza largamente virgem do país a ser vista como um espelho ainda mais fiel do mundo imaculado de Rousseau do que o cenário europeu, e sua representação como um auto-retrato da sociedade e um poder civilizador positivo. Além disso, ao contrário da pintura histórica, que exige do público uma base cultural e literária relativamente ampla e consistente para poder ser plenamente apreciada, a pintura de paisagem era uma expressão democrática, acessível a todos, e só requeria a experiência natural que era patrimônio de todo ser humano.CAÑIZARES-ESGUERRA, Jorge. Nature, Empire, and Nation. Stanford University Press, 2006. p. 153 NOVAK, Barbara. pp. 41-42 American painting … AVERY, Kevin J BARRINGER, Tim. pp. 226-227 Um articulista do The Crayon acrescentava:
"Lembremos que o sujeito da pintura, o objeto ou objetos materiais a partir dos quais ela é construída, são suas partes essenciais. Se não os amamos, não podemos ter sentimentos genuínos pela pintura que os representa. Amamos a Beleza e a Natureza - admiramos os artistas que as representam em suas obras… Um homem para quem a natureza, em suas formas inanimadas, foi um deleite em sua juventude, amará uma paisagem e será mais capaz de sentir os seus méritos do que qualquer artista crescido nas cidades (…) Só serão capazes de ser justos críticos de arte aqueles que primeiro aprenderam a amar as coisas de que trata a Arte". In NOVAK, Barbara. p. 42 American painting …
Paralelamente ao fundo patriótico, se fortalecia a ligação do paisagismo com a filosofia transcendentalista, como sonhava Thoreau ao desejar a substituição da religião norte-americana pelo culto direto do Deus imanente na natureza,BLACK, Brian. p. 81 e como Emerson pensava ao afirmar que "o pintor deveria saber que a paisagem tem beleza para seus olhos porque expressa um pensamento de bondade". In NOVAK, Barbara. pp. 42-43 American painting … Aliás a sua evidente preocupação com o transcendental levou críticos como Anne Hollander a dizerem que a produção da Escola do Rio Hudson pode ser considerada a verdadeira arte sacra norte-americana,HOLLANDER, Anne. Moving pictures. Edição da autora, 1989. p. 352 e Barbara Novak, talvez a mais acreditada estudiosa da Escola, a chamá-los de "sacerdotes da igreja natural".In MERCHANT, Carolyn. American environmental history. Columbia University Press, 2007. p. 78 Essa generalizada tendência ao encômio entusiástico da natureza e da paisagem introduzia uma nota nova na história da pintura norte-americana, mas não anulava sua antiga inclinação para a descrição realista dos temas, pois o público em geral acreditava que o pintor não precisava ser um imitador servil da natureza, mas também não devia dar muitas asas à suas fantasia pessoal, em busca de se preservar a clareza e palpabilidade dos fatos representados, e para que "a obra de Deus não fosse obscurecida". Desse diálogo entre necessidades e princípios opostos e complementares nasceu a original síntese romântico-realista da Escola do Rio Hudson.NOVAK, Barbara. pp. 38; 43 American painting …
O mecenato, a literatura e o circuito de arte thumb|130px|Washington Irving