Lilith (, lilit; em árabe antigo: ليليث) é uma figura feminina nas mitologias judaica e mesopotâmica. Na tradição judaica, Lilith é interpretada por alguns como sendo a primeira esposa de Adão, criada ao mesmo tempo e da mesma forma que ele, e apresentada em diversos mitos e narrativas como uma personagem demoníaca primordial ou um arquétipo na demonologia judaica. Na mitologia mesopotâmica, ela era associada a demônios femininos da noite e aos ventos.
O nome Lilith parece estar relacionado às palavras acadianas lilû (masculino) e suas variantes femininas lilītu e ardat lilî, que designavam espíritos ou demônios noturnos na religião mesopotâmica antiga. A raiz lil- é compartilhada pela palavra hebraica lilit que aparece em Isaías 34:14, embora estudiosos modernos como Judit M. Blair interpretem esse termo como referência a um animal noturno, possivelmente uma ave.Blair, Judit M. De-Demonising the Old Testament - An Investigation of Azazel, Lilith, Deber, Qeteb and Reshef in the Hebrew Bible. Forschungen zum Alten Testament 2 Reihe, Mohr Siebeck, 2009.
Na Antiguidade Tardia, a partir de cerca de 500 d.C., Lilith aparece em fontes mandeístas e judaicas em historiolas (encantamentos que incorporam uma breve história mítica) em vários contextos e localidades que fornecem descrições parciais dela. Ela é mencionada no Talmude (Eruvin 100b, Niddah 24b, Shabbat 151b, Bava Batra 73a) e no Zohar como uma figura demoníaca associada à sexualidade e ao perigo para recém-nascidos. A narrativa mais conhecida de Lilith como primeira esposa de Adão aparece no Alfabeto de Ben-Sira, um texto satírico medieval judaico datado entre os séculos VIII e X.
Muitas autoridades rabínicas tradicionais, incluindo Maimónides e Menachem Meiri, rejeitaram a existência de Lilith como entidade real. No entanto, a figura exerceu profunda influência no folclore judaico medieval e moderno, nas tradições de proteção contra espíritos malignos e, mais recentemente, em interpretações feministas e na cultura popular.
Etimologia e origens miniaturadaimagem|O relevo de Burney, por vezes considerado uma representação de Lilith O nome Lilith deriva da raiz semítica lyl (noite), relacionada à palavra hebraica laylah (לילה) que significa "noite". Na mitologia mesopotâmica, encontram-se os termos acadianos lilû, lilītu e ardat lilî, que designavam classes de espíritos ou demônios, frequentemente associados ao vento, às tempestades e à noite.
Por volta de 3000 a.C., na Suméria, apareceram as primeiras representações de Lilitu, uma categoria de demônios associados a ventos tempestuosos, doenças e perigo para mulheres grávidas e crianças. Descrições antigas retratam os lilitu com características aviárias, incluindo asas e, em algumas representações, garras semelhantes às do pássaro Zu.
A conexão etimológica entre os termos mesopotâmicos e o hebraico lilit é amplamente aceita por estudiosos, embora o significado preciso do termo em Isaías 34:14 permaneça objeto de debate acadêmico.
Fontes antigas
Mesopotâmia
A mais antiga possível referência textual a Lilith aparece no poema sumério Gilgamesh e a Árvore Huluppu (também conhecido como Inana e a Árvore Huluppu), datado de aproximadamente 2000 a.C. Neste texto, uma figura demoníaca feminina chamada ki-sikil-lil-la-ke constrói sua casa no tronco de uma árvore sagrada plantada pela deusa Inana às margens do Rio Eufrates. A identificação exata desta figura com a posterior Lilith judaica é debatida entre estudiosos.
Na Babilônia e Assíria, os demônios lilītu eram temidos como espíritos noturnos que atacavam homens solitários, mulheres grávidas e crianças pequenas. Textos de encantamento em acadiano frequentemente invocavam proteção contra estes espíritos. A iconografia mesopotâmica às vezes retratava estas entidades com características híbridas, combinando aspectos femininos humanos com asas de ave e garras.
O chamado Relevo de Burney (também conhecido como Rainha da Noite), um relevo em terracota datado de aproximadamente 1800-1750 a.C., foi inicialmente identificado por alguns estudiosos como uma representação de Lilith. O relevo mostra uma figura feminina nua com asas e pés de ave, flanqueada por corujas e em pé sobre dois leões. Atualmente, a maioria dos estudiosos identifica a figura como a deusa Inana (chamada Ishtar pelos acadianos) ou uma divindade relacionada, não como Lilith.
Isaías 34:14
thumb|Lilith representada como a serpente em pintura de Rafael, 1508
A única menção da palavra lilit (לִילִית) na Bíblia hebraica ocorre em Isaías 34:14, parte de uma profecia sobre a desolação de Edom. O versículo descreve criaturas selvagens que habitarão a terra devastada:
A interpretação exata do termo lilit neste contexto é controversa. Atualmente não há consenso acadêmico, com estudiosos divididos entre interpretações animalísticas (referindo-se a uma ave noturna, possivelmente uma coruja ou noitibó) e demonológicas (referindo-se a um demônio ou categoria de demônios).
Judit M. Blair, em seu estudo De-Demonising the Old Testament (2009), argumenta que todas as oito criaturas mencionadas em Isaías 34:14 são animais naturais, e que lilit provavelmente se refere a uma ave noturna. Outros estudiosos, especialmente aqueles que consideram o contexto da demonologia mesopotâmica contemporânea, interpretam o termo como referência a um espírito ou demônio noturno.
Diversas traduções bíblicas refletem esta ambiguidade. A King James Version traduz como "screech owl" (coruja), a Revised Standard Version como "night hag" (bruxa noturna), enquanto a Vulgata latina usa "lamia" (um tipo de demônio feminino da mitologia greco-romana). A New American Bible usa "Lilith" diretamente, reconhecendo a palavra hebraica sem tradução.
É importante notar que em Isaías 34:14, o profeta não fornece explicação sobre a identidade de lilit, sugerindo que seu público contemporâneo (século VIII-VI a.C.) estava familiarizado com o termo. Este único uso bíblico não desenvolve mitologia sobre Lilith; desenvolvimentos posteriores vieram de fontes extra-bíblicas.
Manuscritos do Mar Morto
Lilith também aparece nos Manuscritos do Mar Morto, especificamente no texto 4Q510, parte de uma coleção de cânticos para dispersar demônios. A seita de Qumran estava profundamente envolvida em demonologia, e o texto menciona Lilith no contexto de um hino exorcístico, assumindo familiaridade com sua figura sem fornecer descrição detalhada.
Diferentemente da passagem de Isaías (onde o Grande Rolo de Isaías de Qumran usa o plural liliyyot), o texto 4Q510 usa lilit no singular, sugerindo uma entidade específica em vez de uma categoria de demônios.
Talmude Babilônico
thumb|esquerda|Lilith como serpente na fachada da Catedral de Notre-Dame de Paris, 1163
Lilith não aparece na Mishná, mas é mencionada quatro vezes no Talmude Babilônico, compilado por volta de 500-600 d.C. Nestas referências talmúdicas, Lilith não é apresentada como esposa de Adão, mas como um demônio perigoso.
Em Niddah 24b, o texto discute fetos anormais e impureza ritual, declarando: "Se um aborto teve a semelhança de Lilith, sua mãe está impura por razão do nascimento, pois é uma criança, mas tem asas." Esta passagem estabelece que os rabinos acreditavam que Lilith tinha asas e podia influenciar gestações.
Em Eruvin 100b, uma baraita (ensinamento oral antigo) descreve as maldições das mulheres, mencionando que uma mulher "deixa crescer seu cabelo como Lilith". Esta referência associa Lilith com cabelos longos, um atributo que se tornaria característico em representações posteriores.
Shabbat 151b contém um aviso importante: "É proibido a um homem dormir sozinho em uma casa, para que Lilith não se apodere dele." Esta passagem retrata Lilith como uma súcubo, um demônio feminino que seduz homens dormindo e rouba seu sêmen para gerar demônios. Segundo esta tradição, Lilith era responsável por emissões noturnas involuntárias, usando o sêmen coletado para dar à luz centenas de bebês demoníacos.
Em Bava Batra 73a, rabino Rabbah relata: "Eu vi Hormin, filho de Lilith, correndo no parapeito do muro de Mahoza." Esta passagem estabelece Lilith no mundo acadêmico judaico como a "Mãe dos Demônios".
Estas referências talmúdicas refletem influência da demonologia babilônica, com Lilith compartilhando características das demonesses mesopotâmicas anteriores como capacidade de voar, perigo para gestantes e crianças, e associação com sexualidade perigosa.
Alfabeto de Ben-Sira
thumb|esquerda|LilithEstátua babilônica em terracota, c. 2000-1500 a.C.
O Alfabeto de Ben-Sira é um texto anônimo medieval em aramaico e hebraico, datado entre 700 e 1000 d.C., composto no mundo islâmico. O texto é conhecido por seu caráter satírico e frequentemente transgressor, contendo referências a temas considerados tabu. É nesta obra que aparece pela primeira vez a narrativa completa de Lilith como primeira esposa de Adão, a forma da lenda mais familiar ao público moderno.
O texto apresenta 22 provérbios em aramaico e 22 em hebraico, cada um seguido de um comentário aggádico (narrativo). Na quinta narrativa, Ben Sira conta a história de Lilith ao rei Nabucodonosor II da Babilônia, cujo filho jovem havia adoecido.
Segundo a narrativa, Ben Sira cura o filho do rei escrevendo um amuleto com o Nome Sagrado e inscrevendo nele os nomes dos três anjos responsáveis pela medicina: Snvi, Snsvi e Smnglof (em inglês: Senoy, Sansenoy e Semangelof). Ben Sira então explica ao rei a história destes anjos:
A narrativa continua descrevendo como Adão rezou a Deus pedindo que trouxesse Lilith de volta. Deus enviou os três anjos para encontrá-la e trazê-la de volta. Os anjos a encontraram no Mar Vermelho, nas mesmas águas onde os egípcios se afogariam séculos depois.
Os anjos ordenaram que ela voltasse, ameaçando afogá-la no mar se recusasse. Lilith respondeu: "Deixem-me em paz! Eu fui criada apenas para causar doenças em bebês: se forem meninos, terei poder sobre eles do nascimento até o oitavo dia; se forem meninas, do nascimento até o vigésimo dia." Quando os anjos insistiram, Lilith jurou pelo nome de Deus vivo: "Sempre que eu vir vocês ou seus nomes ou suas imagens em um amuleto, não terei poder sobre aquele bebê." Ela também aceitou que cem de seus filhos demoníacos morreriam a cada dia.
Esta história explica o costume judaico medieval de usar amuletos com os nomes dos três anjos (Snvi, Snsvi e Smnglof) para proteger recém-nascidos da influência maligna de Lilith. Os bebês meninos eram considerados vulneráveis durante os primeiros oito dias de vida (até a circuncisão), enquanto as meninas eram vulneráveis por vinte dias.
O Alfabeto de Ben-Sira apresenta uma versão sem precedentes da lenda de Lilith, embora alguns elementos de sua caracterização possam ser rastreados às tradições talmúdicas e midráshicas que surgiram em torno de Eva. A obra também pode refletir influências de tradições cristãs e da literatura indiana Panchatantra.
Estudiosos debatem se o texto deve ser lido como sátira ou como transmissão de tradições folclóricas genuínas. Adolf Neubauer e Abraham Epstein argumentaram pelo caráter satírico do texto, interpretação rejeitada por Louis Ginzberg. Independentemente da intenção original, a narrativa teve profundo impacto nas tradições folclóricas judaicas subsequentes e estabeleceu firmemente o medo de Lilith em comunidades judaicas medievais.
Zohar e misticismo cabalístico
thumb|Lilith representada como serpente em pintura de Michelangelo, 1510
O Zohar (Sefer ha-Zohar, "Livro do Esplendor") é o texto fundamental do misticismo judaico conhecido como Cabala. Embora tradicionalmente atribuído ao rabino Shimon bar Yochai do século II, estudiosos modernos, especialmente Gershom Scholem, estabeleceram através de análise linguística que o Zohar foi composto principalmente por Moisés de Leão (c. 1240-1305) na Espanha do século XIII.Scholem, Gershom. On the Kabbalah and Its Symbolism: Mysticism and the Kabbalah. New York: Schocken Books, 1961, p. 175.