UHF é uma banda portuguesa de rock formada na Costa de Caparica, em Almada, em 1978. São os principais responsáveis pelo surgimento do boom do rock em Portugal, em 1980, e os fundadores do movimento de renovação musical denominado "rock portuguêsa int". São uma das bandas portuguesas mais prestigiadas e a mais antiga em atividade. A formação inicial foi composta por António Manuel Ribeiro (vocal e guitarra), Renato Gomes (guitarra), Carlos Peres (baixo) e Américo Manuel (bateria). Atualmente são formados por António Manuel Ribeiro (vocal e guitarra), António Côrte-Real (guitarra), Ivan Cristiano (bateria), Nuno Correia (baixo) e Miguel Urbano (teclas e acordeão).
Resultante do pós punk, no final dos anos setenta, a sonoridade da banda incorpora o rock direto e espontâneo de características urbanas, produzindo também um som mais acústico e hard rock com alguma influência dos Doors. Bem sucedidos comercialmente no início da década de 1980, venderam mais de 100 mil discos premiando o single "Cavalos de Corrida" (1980) – canção génese do rock português – e o álbum À Flor da Pele (1981), que ocuparam a primeira posição da tabela de vendas. Após um período conturbado na formação conseguiram superar a crise do rock português, nos meados dos anos 80, introduzindo influências do rock alternativo no álbum Noites Negras de Azul (1988). No álbum Comédia Humana (1991) contornaram ligeiramente a sonoridade inicial para depois voltarem a estabelecer o rock convencional com Santa Loucura (1993) e 69 Stereo (1996), discos que obtiveram bom volume de vendas. Atentos à realidade política e social do país, os UHF são o rosto do rock de intervenção em Portugal. Com influência de José Afonso, assumem uma posição ativa em relação a temas sensíveis na vida das pessoas, como é o caso das canções "Sarajevo", "Porquê (português)" ou "Vernáculo (para um homem comum)" que se tornou um manifesto antipolítico. As bem-sucedidas digressões "Porquê em Portugal" e "UHF 35 anos – A Minha Geração" em 2010 e 2013, respectivamente, foram marcadas com palavras de ordem contra a desordem governativa do país. A intrépida atitude independente, assumida desde o início de carreira e que incomodava setores do jornalismo musical, contribuiu para uma menor exposição mediática da banda durante alguns anos.
A formação dos UHF sofreu alterações ao longo dos anos, tendo estabilizado a partir de 2001. António Manuel Ribeiro, compositor maioritário das canções, é o único membro fundador residente. Além de cantor e músico é também escritor e autor irregular de várias crónicas para rádios e jornais. Fundou o movimento de poesia-rock em Portugal tornando-se num dos melhores criativos. Lançou três álbuns a solo, e dois de formato mais reduzido, que contaram com a participação de antigos e atuais músicos dos UHF, entre outros convidados.
Em julho de 2017 atingiram concertos em Portugal e no mundo, venderam mais de 1,5 milhão de discos, entre eles, álbuns, extended plays, singles e cassetes, e lançaram quinze álbuns de estúdio. Estão representados em mais de 100 compilações com outros artistas incluindo nos Estados Unidos e Brasil. Receberam onze discos de prata, sete de ouro, três de platina e vários prémios e condecorações. Até ao ano de 2015 totalizaram 240 participações em concertos de beneficência social e de apoio a causas filantrópicas incluindo, por exemplo, a Associação Abraço e Assistência Médica Internacional.
História Formação e primeiros anos (1977–1979)
thumb|rigth|200px|Almada, terra natal dos membros fundadores dos UHF.Em 1976, enquanto o emergente estilo musical punk rock cativava Inglaterra e os Estados Unidos, Portugal procurava ajustar-se à liberdade recém conquistada com a revolução de Abril. O rock era visto pelos jovens como um movimento de contracultura, uma fuga aos princípios ditatoriais do regime salazarista. O rock era sinónimo de liberdade, uma linguagem musical sem ligação ao passado. Os UHF foram dos primeiros a saciar uma imensa sede de rock nessa nova realidade social e política do pós 25 de abril. António Manuel Ribeiro (voz e guitarra), Carlos Peres (baixo), Alfredo Antunes (bateria) e um guitarrista brasileiro formaram em 1976, em Almada, uma banda de covers chamada Purple Legion que atuava no circuito de bailes, que era o panorama musical da época, pois o rock que se fazia pelo mundo era pouco divulgado tanto pela imprensa como pela rádio. No final de 1977, Alfredo abandonou o grupo e o baterista Américo Manuel juntou-se a Carlos Peres e a António M. Ribeiro para iniciarem as composições de autor. Com a entrada do guitarrista Renato Gomes alteraram o nome da banda para À Flor da Pele e depois para UHF. De certa forma os Purple Legion funcionaram como embrião dos UHF, pois foi aí que o futuro se começou a desenhar. O vocalista explica como encontrou o nome para a banda:As dificuldades daquela época eram tremendas, pois não havia salas nem existia um circuito de espetáculos em que os grupos se pudessem mostrar. O país estava a acordar de uma enorme apatia social asfixiado por anos de isolamento e o rock era encarado como brincadeira para rapazes em tempo de liceu, que rapidamente se diluía com a chamada para a incorporação na tropa. Mas o espírito empreendedor dos UHF era tal que, perante a dificuldade em encontrar locais para tocarem em Almada, organizaram uma série de eventos num local perto do rio Tejo chamado Canecão no sentido de dinamizar a zona e com muitas bandas convidadas.
No início de novembro de 1978 realizaram o primeiro concerto no Bar É, em Lisboa, fazendo a primeira parte dos Faíscas. Nesse concerto convidaram Vitor Macaco – um operário da Lisnave com pinta para dar espetáculo – para assumir a vocalização, mas estaria pouco tempo na banda. António M. Ribeiro ocupava apenas a guitarra rítmica e coros e só depois viria a assumir o papel de vocalista. Na plateia, o mediático radialista António Sérgio, espetador atento, confessava-se entusiasta do som underground dos UHF. O segundo concerto aconteceu na discoteca Brown's, em Lisboa, no dia 18 de novembro de 1978, na primeira parte dos Aqui d'el-Rock. Esta é a data oficial de aniversário considerada pelos UHF porque foi o primeiro concerto com António M. Ribeiro na voz principal. Foi uma atuação pragmática, como recordou mais tarde: "Não sei se foi da timidez ou da falta de ensaio de som, mas tocámos tão alto e tão rápido e berrei tanto que abafámos as palmas logo com uma nova canção". Os membros da banda viviam em Almada e as suas deslocações à capital estavam limitadas aos horários do transporte que fazia a travessia do rio Tejo. Para não perderem o último cacilheiro no regresso a casa, impunha-se a rápida saída depois dos concertos, ficando conhecidos como "Os gajos de Almada que chegam, tocam e desaparecem".
No dia 3 de junho de 1979 fizeram a estreia em grandes eventos, naquele que foi o décimo primeiro concerto da banda, com a participação no "Festival Antinuclear – Pelo Sol", realizado no Parque Eduardo VII, onde tocaram nomes como Rão Kyao, Pedro Barroso, Vitorino, Fausto, Trovante, Minas & Armadilhas, entre outros, A 6 e 7 de agosto os UHF tocaram em Vila Viçosa com mais um guitarrista, Alfredo Pereira, que deixara os Aqui d’el-Rock em busca de um projeto mais consistente, mas a sua passagem foi breve. Participaram também os Minas & Armadilhas – que causaram uma afronta às convicções locais – e os promissores Xutos & Pontapés (ex-Beijinhos e Parabéns), ainda sem projeção mediática, pois apesar de darem vários concertos só conseguiriam o primeiro registo fonográfico em 1982.
Na primavera de 1979 foram convidados a gravar na pequena editora Metro-Som, à semelhança do que acontecera com os Aqui d’el-Rock. Sem contrato assinado lançaram em outubro desse ano o extended play Jorge Morreu, um disco de intervenção composto por três faixas que não obteve sucesso comercial, uma vez que a editora não promovia as suas bandas tanto na rádio como na imprensa. Descontentes com a situação contactaram a multinacional PolyGram mas o rumo da editora, na altura, ainda não passava pelo rock nacional. Em 1979 já percorriam Portugal de norte a sul e conseguiram o feito inédito de uma digressão nacional completa, consolidando a sua reputação. Foram uma das poucas bandas nacionais escolhidas para fazer a primeira parte de artistas de renome internacional, caso dos Dr. Feelgood com dois concertos consecutivos a 18 e 19 de setembro no Dramático de Cascais, e de Elvis Costello, com os Attractions, nos dias 15 no pavilhão Infante de Sagres, no Porto, e 17 e 18 de dezembro no pavilhão de Os Belenenses, em Lisboa. Os UHF adquiriram junto da imprensa o estatuto de 'banda ao vivo', mas passavam despercebidos aos responsáveis das grandes editoras pois estes não saíam dos seus gabinetes para se inteirarem dos concertos de rua. A linguagem escrita do rock em português, direta e espontânea, chegava pela primeira vez a todos os lugares de Portugal. Os músicos atrevidos de Almada começavam a fazer a radiografia real da vida dos jovens urbanos, falando dos fluxos migratórios, marginalidade, prostituição, drogas duras e do trabalho árduo na Lisnave. Corporizavam a vivência do 'estar à margem' e alguma ortodoxia rock inspirada nos Doors e em Lou Reed.
Sucesso e o boom do rock português (1980–1982)
No início de 1980, Xutos & Pontapés, GNR, Heróis do Mar, IODO, Street Kids, António Variações, entre outros, foram lançados nos concertos dos UHF. Com o desaparecimento dos Aqui d’el-Rock, Minas & Armadilhas e dos Faíscas (depois Corpo Diplomático), foram os UHF que passaram a dirigir o motor do rock nacional. Cognominados de 'Locomotiva de Almada', impulsionaram o nascimento de novas bandas.
thumb|left|150px|Primeiro logotipo da banda, em 1980.Após uma primeira tentativa falhada com a EMI–Valentim de Carvalho, em janeiro de 1980, a banda voltou pouco meses depois a apresentar a mesma maqueta do tema "Cavalos de Corrida", entrando também na disputa a editora Vadeca; "Comigo este single vai vender no mínimo 50 mil", foram as palavras certeiras (como se confirmou mais tarde) do diretor Ilídio Viana. Desconfiados, os UHF decidiram optar pela EMI e celebraram contrato de cinco anos, no início da primavera. Gravaram em junho a canção "Cavalos de Corrida", mas para espanto do grupo ficou arquivada durante três meses. Américo Manuel retirou-se, cedendo o lugar de baterista a Zé Carvalho. Participaram no programa de rádio ao vivo Febre de Sábado de Manhã, um dos principais percursores da divulgação do rock cantado em português, em que apresentaram em playback, na primeira e única vez ao vivo, a maqueta "Cavalos de Corrida". Os novos músicos que despontavam com o rock nacional encontraram também no programa Rock Em Stock, da Rádio Comercial, o trampolim para o reconhecimento do seu trabalho. A canção "Cavalos de Corrida" foi o primeiro grande êxito de audiência do programa e do rock nacional, tornando-se o tema fundador do boom do rock cantado em portugues. No dia 7 de junho de 1980 fizeram a primeira parte dos Uriah Heep em Cascais, e a 10 de junho o semanário Rock Week publicou na capa uma foto com o título desafiante: UHF – O Canal Maldito. Na entrevista, conduzida pelo jornalista António Rolo Duarte, António M. Ribeiro revelava a linha ideológica da banda:
Na primeira entrevista de exposição mediática foi notória a maturidade da banda e do seu líder, opondo-se aos discursos vulgares da maioria dos músicos da época. O cognome 'Canal Maldito' ficou e tornou-se uma constante no trajeto da banda. Em 2004, foi criado um blogue de debate musical e em 2013 Nuno Calado produziu e realizou o documentário UHF Canal Maldito – 35 anos para o canal RTP.thumb|left|170px|Capa do single que lançou o boom do rock português, em 1980.