Kabir (IAST: Kabīr, hindi: कबीर, urdu: کبير‎; Varanasi, ca. 1440 — Maghar, ca. 1518) foi um dos grandes poetas místicos ou santos-poetas da Índia medieval (Século XV), cujo escritos influenciaram o movimento bhakti do hinduísmo. Os versos de Kabir são encontrados na escritura do Siquismo, Guru Granth Sahib.Kabir Encyclopædia Britannica (2015)Accessado: 27 de julho de 2015 Seus escritos mais famosos incluem suas dohas ou dísticos.

Kabir é conhecido por ser crítico tanto do hinduísmo quanto do islamismo, afirmando que foram mal orientados pelos Vedas, questionando a hipocrisia e seus rituais de iniciação sem significados, evidentes em várias práticas religiosas de sua época. Durante sua vida, ele foi ameaçado tanto por hindus quanto por muçulmanos por suas citações.

Kabir não se definia como hindu, muçulmano ou sufi. Ele desprezava credos, denominações e ascetismos, levando a filosofia oriental a um novo rumo. Para Kabir, a vida era reduzida a um jogo entre a alma de cada homem (atman) e Deus (paramatman). Alcançar a união de ambos seria a missão da vida terrena.

Kabir foi contemporâneo de outros protagonistas famosos do movimento bhakti da Índia medieval, tais como Mirabai, Caitanya, Tulsidas e Guru Nanak, o principal preceptor dos sikhs. O legado de Kabir sobrevive e continua através da Kabir Panth ("Caminho de Kabir"), uma comunidade religiosa que o reconhece como seu fundador e é uma das seitas de Sant Mat. Seus membros são conhecidos como Kabir panthis.

Início da vida e antecedentes Apesar de existir muitas lendas e escritos de Kabir, pouco se sabe sobre ele. As fontes históricas são escassas e a maioria é difícil de comprovar. Os anos de nascimento e morte de Kabir são incertos. Alguns historiadores dizem 1398–1448 como o período que Kabir viveu, enquanto outros dizem 1440–1518.

Muitas lendas, inconsistentes em seus detalhes, existem sobre sua família de nascimento e vida precoce. Kabir foi pego de uma família hindu e depois criado por uma família muçulmana. No entanto, os estudos modernos abandonaram essas lendas por falta de evidências históricas, e Kabir é amplamente aceito por ter família de tecelões muçulmanos.

Alguns estudiosos afirmam que os pais de Kabir podem ter sido recém-convertidos ao islamismo, eles e Kabir provavelmente desconheciam a tradição ortodoxa islâmica, e provavelmente seguiriam a escola do Hinduísmo Nath (Shaiva Yogi). Essa visão, embora contestada por outros estudiosos, foi resumida por Charlotte Vaudeville da seguinte forma:

Acredita-se que Kabir tenha se tornado o primeiro discípulo do poeta-santo Bhakti, Swami Ramananda, em Varanasi, conhecido pelo vaishnavismo devocional, com uma forte inclinação à filosofia monista Advaita, ensinando que Deus estava dentro de cada pessoa, de tudo. Acredita-se que o santo hindu Ramananda claramente se recusou a aceitá-lo como seu discípulo oficialmente, mas Kabir aceitou muito habilmente seu capuz de discipulado cobrindo-se em um pano e deitado nos degraus que levavam ao Rio Ganges, onde Ramananda foi obrigado a ir para um mergulho sagrado no rio antes do amanhecer: o santo o tocou acidentalmente com seu pé e habitualmente gritou "Rama, Rama!", tendo tocado ele com os pés e citando as mais sagradas palavras do hinduísmo (que se tornaram o "guru-mantra" de Kabir), foram suficientes, mesmo para o ortodoxo Ramananda para aceitá-lo como seu discípulo.Rekha Pande (2014), Divine Sounds from the Heart—Singing Unfettered in their Own Voices, Cambridge Scholars, , página 77Ronald McGregor (1984), Hindi literature from its beginnings to the nineteenth century, Otto Harrassowitz Verlag, , páginas 43–44

Algumas lendas afirmam que Kabir nunca se casou e levou a vida de um celibatário. A maioria dos estudiosos conclui da literatura histórica que esta lenda também é falsa, que Kabir provavelmente era casado, sua esposa provavelmente se chamava Dhania, eles tinham pelo menos um filho chamado Kamal e uma filha chamada Kamali.

Quando ele morreu, tanto os hindus quanto os muçulmanos o reivindicaram como deles e houve uma disputa para cremar ou enterrar seu cadáver. Os hindus queriam cremá-lo conforme a sua tradição e os muçulmanos queriam enterrá-lo, seguindo seus costumes. Há uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas, após essa disputa, quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as muçulmanas e um buquê de suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

Sua doutrina Kabir ficou famoso por desdenhar profundamente qualquer tipo de designação ou filiação religiosa, e sua filosofia e ideais de relacionamento amoroso com Deus eram expressos de maneira metafórica, conforme tanto a corrente vedantista do hinduísmo (advaita) quanto a corrente de bhakti, empregando o hindi, na forma vernacular.

Kabir expunha seus princípios religiosos de forma bastante simples, onde a vida nada mais é do que uma interrelação entre Deus (paramatma) e a alma individual (jivatma), visando a união e harmonia. Ele considerava útil para a conclusão desta união a observância de alguns princípios religiosos, alguns tipicamente hindus como o conceito de um Absoluto, a reencarnação e as leis do karma, outros tipicamente sufis como o ascetismo e misticismo, tendo influenciado não somente os hindus e muçulmanos da sua época, como também enormemente os sikhs, a ponto de Kabir ser considerado um dos gurus do principal preceptor dos sikhs, Guru Nanak.

Mas na verdade, em sua obra mais eminente, o Bijak (a Semeadura), ele rejeitava tanto os Vedas quanto o Alcorão, e advogava a simplicidade do caminho sahaja (o caminho natural; lit “da sua própria maneira”) que a alma individual acaba se unindo ao Absoluto. Sua grande obra filosófica é considerada a quintessência do ecletismo religioso e pode ser resumida com a sua expressão mais famosa: “Koi bole Ram Ram Koi Khudai..”, “quer alguém cante Rama (nome hindu de Deus) ou Khuda (nome árabe de Deus) ...” o objetivo é sempre o mesmo, pois Deus é um só.

Obra poética thumbnail|Selo postal indiano retratando Kabir, 1952|180px A poesia de Kabir tornou-se conhecida no Ocidente em 1915, quando Rabindranath Tagore traduziu, para o inglês, cem de seus poemas, cuja edição foi realizada com a colaboração de Evelyn Underhill. Esta versão está disponível no Projeto Gutenberg.

Em 2003, a obra de Kabir foi traduzida com maior abrangência e rigor, por Vinay Dharwadker. Canções de Kabir foi traduzida por Arvind Krishna Mehrotra.

A tradução brasileira dos cem poemas, foi feita por José Tadeu Arantes, a partir da versão inglesa de Tagore. Doze poemas em versão portuguesa estão disponíveis no blog do tradutor.

Os poemas de Kabir eram em vernáculo hindi, emprestados de vários dialetos, incluindo Avadhi e Braj. Seus poemas cobrem vários aspectos da vida e clamam por uma devoção amorosa por Deus. Kabir compôs seus versos com simples palavras em hindi. A maior parte de seu trabalho estava relacionada à devoção, misticismo e disciplina.Sastri, p. 24

Kabir e seus seguidores nomearam seus poemas compostos de sabedoria de "bāņīs" (enunciados). Estes incluem canções e dístico, chamados variadamente dohe, śalokā (sânscrito: ślokā), ou sākhī (sânscrito: sākşī). O último termo significa "testemunha", implicando que os poemas são evidências da Verdade.The Vision of Kabir: Love poems of a 15th Century Weaver, (1984) Alpha & Omega, page 48

Obras de arte com composições atribuídas a Kabir incluem Kabir Bijak, Kabir Parachai, Sakhi Granth, Adi Granth (Sikh) e Kabir Granthawali (Rajastão). No entanto, com exceção de Adi Granth, versões significativamente diferentes desses textos existem e não está claro qual delas é original; por exemplo, Kabir Bijak existe em duas grandes recensões.O Classe (2000), Encyclopedia of Literary Translation Into English: A-L, Routledge, , página 746 (em inglês)

Os poemas de Kabir foram compostos verbalmente no Século XV e transmitido boca-a-boca apenas no Século XVII. Kabir Bijak foi compilado e escrito pela primeira vez no século XVII. Estudiosos afirmam que esta forma de transmissão, através da geografia e através de gerações gerou mudança, interpolação e corrupção dos poemas. Além disso, canções inteiras eram fabricadas e dísticos novos inseridos por autores desconhecidos e atribuídos a Kabir, não por desonestidade, mas por respeito a ele e pela exuberância criativa da tradição oral anônima encontrada nas obras literárias indianas.O Classe (2000), Encyclopedia of Literary Translation Into English: A-L, Routledge, , páginas 745–747 (em inglês) Estudiosos têm procurado estabelecer poesias que realmente vieram de Kabir e seu valor de historicidade.K Schomer and WH McLeod (Editors, 1987), The Sants: Studies in a Devotional Tradition of India, Motilal Banarsidass Publishers, , páginas 167–179

Autenticidade Numerosos poemas são atribuídos a Kabir, mas estudiosos duvidam da autenticidade de muitas canções creditadas a ele.

A tradução e compilação em inglês de Rabindranath Tagore "One Hundred Poems of Kabir" (Cem Poemas de Kabir) foi publicada pela primeira vez em 1915, e tem sido uma reimpressão clássica e amplamente divulgada particularmente no Ocidente.R Tagore (Edited by Evelyn Underhill, 2005), One Hundred Poems of Kabir: Translated by Rabindranath Tagore, , Arquivos da Universidade de Toronto Estudiosos acreditam que apenas seis dos seus cem poemas são autênticos,The authentic poems are poem 15, 32, 34, 35, 69 and 94; see Karine Schomer and W. H. McLeod (1987), The Sants: Studies in a Devotional Tradition of India, Motilal Banarsidass Publishers, , página 173 e questionaram se Tagore introduziu as perspectivas teológicas prevalentes sobre Kabir, já que ele traduziu poemas no início do século 20 que ele supôs serem de Kabir.V Mishra in K Schomer and WH McLeod (Editors, 1987), The Sants: Studies in a Devotional Tradition of India, Motilal Banarsidass Publishers, , páginas 168, 178–179 Os poemas não autênticos, no entanto, pertencem ao movimento Bhakti da Índia medieval, e podem ser de admiradores de Kabir que viveram mais tarde.Karine Schomer and W. H. McLeod (1987), The Sants: Studies in a Devotional Tradition of India, Motilal Banarsidass Publishers, , páginas 167–169 (em inglês)

Filosofia direita|300px|miniatura|Santo Kabir com Namdeva, Raidas, e Pipaji. Jaipur, início do século XIX, Museu Nacional de Nova Deli. Algumas pessoas sugerem que a filosofia de Kabir é uma síntese sincrética do Hinduísmo e do Islamismo, mas os estudiosos afirmam amplamente que isso é falso e um mal-entendido sobre Kabir.David N. Lorenzen and Adrián Muñoz (2012), Yogi Heroes and Poets: Histories and Legends of the Naths, State University of New York Press, , páginas 27–28 Ele questionou a necessidade de qualquer livro sagrado, como declarado em Kabir Granthavali da seguinte forma:

Muitos estudiosos interpretam a filosofia de Kabir questionando a necessidade de religião, em vez de tentar propor unidade hindu-muçulmana ou uma síntese independente de uma nova tradição religiosa.David N. Lorenzen and Adrián Muñoz (2012), Yogi Heroes and Poets: Histories and Legends of the Naths, State University of New York Press, , página 35 (em inglês) Kabir rejeitou a hipocrisia e os rituais errados evidentes em várias práticas religiosas de sua época, incluindo as do islamismo e do hinduísmo.

Em Bijak, Kabir zomba da prática de rezar a avatares como Buda, afirmando que "não chame o mestre Buda, ele não abateu demônios". Kabir pediu às pessoas que olhassem dentro de si mesmas e considerassem todos os seres humanos como manifestação das formas vivas de Deus: