Crejoá (nome científico: Cotinga maculata), também conhecido como catingá, crejica, suiruá, curuá e anambé, é uma espécie de ave passeriforme da família dos cotingídeos (Cotingidae). É endêmico do Brasil e integrante do gênero Cotinga, cujos representantes se destacam pela plumagem vistosa e colorida dos machos. Monotípico, o crejoá é considerado a maior espécie do gênero e apresenta acentuado dimorfismo sexual, com machos de coloração azul, púrpura e preta brilhante e fêmeas predominantemente marrons. Estudos filogenéticos indicam que sua espécie-irmã é o anambé-de-peito-roxo (C. cotinga), com o qual forma um clado próprio dentro do gênero, embora ambas apresentem distribuições geográficas completamente separadas.

Historicamente, a espécie ocorria ao longo de uma faixa mais ampla da Mata Atlântica costeira do leste do Brasil, abrangendo áreas da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Atualmente, sua distribuição encontra-se fortemente reduzida e fragmentada, concentrando-se principalmente no sul da Bahia e no nordeste de Minas Gerais, com registros recentes isolados em Pernambuco. Habita sobretudo o dossel de florestas úmidas de baixada bem conservadas, geralmente abaixo de 200 metros de altitude. É uma ave discreta, frequentemente solitária e silenciosa, com dieta predominantemente frugívora composta por frutos de diversas espécies arbóreas. Sua biologia reprodutiva permanece pouco conhecida, sendo raros os registros documentados de ninhos e reprodução na natureza.

O crejoá é considerado uma das aves mais ameaçadas da Mata Atlântica. A destruição e fragmentação das florestas de terras baixas provocaram severo declínio populacional ao longo do , resultando em populações pequenas, isoladas e sem evidências de fluxo entre os remanescentes conhecidos. A população atual é estimada em menos de 250 indivíduos maduros, distribuídos em poucos núcleos remanescentes. Em decorrência desse quadro, a espécie figura em diversas listas de fauna ameaçada e tem sido classificada como Criticamente em Perigo (CR) ou Em Perigo (EN) em avaliações recentes. Sua conservação depende da proteção dos remanescentes florestais ocupados, da restauração da conectividade entre fragmentos e da ampliação do conhecimento sobre sua ecologia e história natural.

Etimologia

O nome popular crejoá, ainda registrado nas variantes querejuá, guiruá, quiruá e crejuá, deriva do tupi antigo kereîûá. O termo designava aves do litoral oriental do Brasil pertencentes à família dos cotingídeos, caracterizadas pela plumagem de cores brilhantes e vistosas. A palavra aparece documentada desde cerca de 1584 na grafia quereiuâ, enquanto as formas portuguesas crejoá e crejuá são registradas, respectivamente, antes de 1958 e em 1958. Crejica possui etimologia incerta. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, sua origem é obscura, embora possa representar uma alteração da terminação de crejuá. Curuá deriva do tupi kuru'a, originalmente empregado para designar diversas plantas, sendo seu uso em ornitologia tratado pelos dicionários como uma acepção relacionada a crejuá. Suiruá possui provável origem tupi. Segundo Antenor Nascentes, pode representar uma alteração, especialmente gráfica, de crejuá Anambé, também registrado guinambé e guainambé, deriva do tupi reconstruído *wana'mbe. A forma mais antiga registrada é uanambé, documentada por volta de 1777, enquanto a grafia moderna anambé encontra-se atestada desde 1833. Catingá possui etimologia incerta. Segundo Antenor Nascentes, pode ser de origem tupi, embora não haja consenso sobre sua derivação. O registro mais antigo conhecido data de 1655, em uma carta do padre António Vieira, mas refere-se a um grupo indígena homônimo, não necessariamente à denominação de uma ave. O nome genérico Cotinga deriva de catingá. O epíteto específico maculata deriva do latim maculatus, que significa "manchado", "malhado" ou "salpicado de manchas".

Taxonomia e sistemática

O crejoá é uma das sete espécies reconhecidas no gênero Cotinga, grupo de cotingídeos cujos machos apresentam combinações características de azul ou turquesa brilhante, púrpura e preto, padrões cromáticos considerados singulares dentro da família. É a maior espécie do gênero, embora suas dimensões sejam apenas ligeiramente superiores às das demais espécies de Cotinga. Não apresenta subespécies reconhecidas e, portanto, é considerado monotípico, sem variação geográfica formalmente descrita. Não são conhecidos fósseis atribuídos ao crejoá ou a outras espécies do gênero. De modo mais amplo, também não foram encontrados fósseis confirmados de passeriformes subóscines. Historicamente, foi incluído em diferentes arranjos de superespécies dentro do gênero. Haffer (1974), seguido pela União Americana de Ornitólogos (1983) e por Sibley & Monroe (1990), considerou a cotinga-azul-do-chocó (C. nattererii), o anambé-turquesa (C. maynana), o anambé-de-peito-roxo (C. cotinga) e o crejoá (C. maculata), juntamente com as espécies centro-americanas cotinga-amorosa (C. amabilis) e a cotinga-turquesa (C. ridgwayi), como integrantes de uma única superespécie. Snow (1979) adotou uma interpretação mais restrita, reconhecendo apenas a cotinga-amorosa, a cotinga-turquesa e a cotinga-azul-do-chocó como componentes de uma superespécie, enquanto o anambé-de-peito-roxo e o crejoá formariam uma segunda superespécie independente, embora tenha admitido a possibilidade de reunir todas essas espécies em um único complexo. Meyer de Schauensee (1966) sugeriu ainda que a cotinga-amorosa, a cotinga-turquesa e a cotinga-azul-do-chocó poderiam ser tratadas como coespecíficas, assim como o anambé-de-peito-roxo e o crejoá. Estudos filogenéticos recentes corroboraram a estreita relação entre o crejoá e o anambé-de-peito-roxo, indicando que ambas formam um clado próprio dentro do gênero Cotinga. O macho possui plumagem distinta de todas as outras aves simpátricas e é facilmente reconhecido, pois nenhuma outra espécie do gênero ocorre em sua área de distribuição. As fêmeas podem ser superficialmente confundidas com as do anambé-de-asa-branca (Xipholena atropurpurea), espécie simpátrica, mas estas apresentam coloração geral mais acinzentada, marcas brancas evidentes nas asas e íris mais claras. Ambos os sexos do crejoá são mais semelhantes aos do anambé-de-peito-roxo, sua espécie-irmã, embora os dois táxons sejam completamente alopátricos.

Descrição

O crejoá mede entre 18,8 e 22 centímetros de comprimento total e apresenta forte dimorfismo sexual, com machos de plumagem intensamente azul, púrpura e preta, enquanto as fêmeas possuem coloração predominantemente marrom. As fêmeas também são ligeiramente menores. Entre os indivíduos medidos, o comprimento da asa variou de 112,5 a 124 milímetros nos machos (n=16) e de 114 a 120 milímetros nas fêmeas (n=9). A cauda mediu entre 66 e 80 milímetros nos machos (n=16) e entre 69 e 79 milímetros nas fêmeas (n=8). O comprimento do bico foi de 14,61 a 20 milímetros nos machos (n=15 e de 17,68 a 20 milímetros nas fêmeas (n=9), enquanto o tarso variou de 20,06 a 23,91 milímetros nos machos (n=8) e de 21 a 23,92 milímetros nas fêmeas (n=4). Um macho pesado apresentou massa de 65 gramas. O macho adulto possui as partes superiores de azul-cobalto brilhante, marcadas por extensas áreas pretas, sobretudo no manto e nas escapulares. As porções externas das retrizes centrais e as margens das coberteiras maiores, das terciárias e das secundárias apresentam franjas muito estreitas de azul-cobalto ligeiramente mais pálido. As asas e a cauda são pretas. As partes inferiores são predominantemente púrpuras, interrompidas por uma faixa azul bem definida no peito. A porção inferior do ventre também é azul, mas apresenta uma larga faixa central púrpura que se torna estriada em direção às coberteiras inferiores azuis da cauda, onde podem ficar expostas algumas bases negras das penas. A fêmea apresenta as partes superiores marrom-escuras, com margens marrom-bege nas penas e franjas marrom-canela nas coberteiras das asas e nas rêmiges internas. As partes inferiores são comparativamente pálidas, sobretudo na garganta e no ventre, enquanto o peito apresenta centros escuros mais amplos nas penas. As coberteiras inferiores da cauda são marrom-canela e não possuem marcações. As coberteiras inferiores das asas são canela e salpicadas de marrom, enquanto o restante da face inferior das asas é marrom-claro. A face inferior da cauda possui tonalidade marrom-acinzentada. Os indivíduos imaturos assemelham-se inicialmente às fêmeas adultas. Nos machos jovens, o desenvolvimento da plumagem adulta começa pelo aparecimento de extremidades mais brilhantes e canela nas penas de voo, marcas que desaparecem rapidamente pelo desgaste. Em seguida, surgem penas azuis na parte posterior do pescoço, nas escapulares, no manto, nas coberteiras maiores e nas coberteiras superiores da cauda. As penas púrpuras das partes inferiores aparecem mais tarde. A plumagem completa do macho adulto é alcançada aproximadamente no final do primeiro ano de vida. As íris variam de marrom-amareladas a marrom-escuras. O bico possui base larga, cúlmen ligeiramente arqueado e extremidade em forma de gancho. A mandíbula superior é preta, com a base acinzentada, enquanto a inferior é cinza e apresenta a ponta preta. Os tarsos e os dedos variam de cinza-escuros a pretos. A muda aparentemente começa depois da reprodução, entre novembro e dezembro. Com base em observações realizadas em outras espécies de Cotinga, estima-se que o processo completo possa durar aproximadamente noventa dias.

Distribuição e habitat

O crejoá é endêmico do Brasil e originalmente ocorria em uma faixa mais extensa da Mata Atlântica, ao longo da região litorânea oriental do país. Sua distribuição histórica abrangia o sudeste da Bahia, o Espírito Santo, partes de Minas Gerais e o norte do Rio de Janeiro. A espécie não é registrada no Rio de Janeiro desde o . Em Minas Gerais, permaneceu sem registros desde a década de 1940 até ser redescoberta em Santa Maria do Salto e, posteriormente, registrada também em Bandeira, no extremo nordeste do estado, próximo da divisa com a Bahia. Evidências recentes sugerem que a espécie pode ter sido extirpada do Espírito Santo, especialmente da região de Linhares, onde era observada regularmente até o final do , mas deixou de ser registrada apesar do intenso esforço de observação realizado na área. A distribuição atual encontra-se fortemente contraída e fragmentada, estando restrita principalmente ao sul da Bahia e ao nordeste de Minas Gerais. Registros recentes são conhecidos para os municípios baianos de Apuarema, Camacan, Guaratinga, Ibirapitanga, Macarani, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, bem como para Bandeira e Santa Maria do Salto, em Minas Gerais. Em 2015, foi documentado um registro considerado incomum no município de Rio Formoso, no litoral sul de Pernambuco, significativamente ao norte da distribuição atualmente conhecida da espécie.