thumb|270px|Um leão de jardim

Kitsch (, empréstimo do alemão) possui significado e aplicação controversos. Usualmente é empregado nos estudos de estética para designar uma categoria de objetos vulgares, baratos, sentimentais, bregas (cheesy, do inglês), que copiam referências da cultura erudita sem critério e sem atingirem o nível de qualidade de seus modelos, e que se destinam, conforme o seu crítico popularizador, Clement Greenberg, ao consumo de massa. Embora o kitsch apresente a si mesmo como "profundo", "artístico", "importante" ou "emocionante", raramente estes qualificativos são adquiridos por características intrínsecas ao objeto, antes derivam de associações externas que seu público estabelece. É uma expressão essencialmente figurativa, sendo difícil detectá-lo nas artes abstratas, pois depende de um conteúdo narrativo para exercer seu efeito.Marter, Joan. The Grove Encyclopedia of American Art. Oxford University Press, 2011, pp. 48-50

Alguns autores entendem o kitsch como uma atitude e um espírito geral de complacência e supressão do senso crítico, que pode se estender a áreas bem distintas da arte, como a política, a religião, a economia, o erotismo e praticamente toda a esfera da vida humana, e sua estética, de enorme penetração na psicologia das massas, muitas vezes é usada pelas elites para dirigir a opinião pública, seja na forma de publicidade comercial, educação escolar, propaganda partidária ou iconografia religiosa.Lugg, Catherine A. Kitsch: from education to public policy. Routledge, 1999, pp. 5-8 Gessert, George. Green light: toward an art of evolution. MIT Press, 2010, pp. 81-82

É um produto da industrialização e da cultura de massa, sendo considerado típico da classe média com pretensões de ascensão social, mas nos círculos ilustrados emprega-se o termo frequentemente com intenção pejorativa e como reprovação moral. Entretanto, o kitsch é um fenômeno de largo alcance, movimenta uma indústria milionária e para grande número de pessoas constitui, mais do que uma simples questão de gosto, todo um modo de vida, tendo para este público todos os atributos da legitimidade. Apareceu de forma importante também na produção de muitos artistas influentes do "grande circuito", e quase toda a arte, arquitetura e design pós-modernos apresentam características que podem ser classificadas como kitsch. Hoje em dia a tradicional distinção entre ele e a cultura erudita dificilmente se sustenta em bases objetivas.

Etimologia, origens, primeiros estudos

A palavra "kitsch" tem uma origem pouco clara. Segundo o dicionário etimológico de Friedrich Kluge, a palavra surgiu entre pintores alemães em torno de 1870. Talvez estivesse associada ao ato de atravancar, amontoar detritos ou barro nas ruas, kitschen, e ao instrumento com que isso era feito, Kitsche. No dialeto do sul da Alemanha significava também fazer móveis novos a partir de velhos. Também poderia estar ligada à palavra verkitschen, que significa trapacear, vender uma coisa no lugar de outra. Outras palavras alemãs com a mesma terminação "tsch" comumente se referem a coisas vulgares, ingênuas, sentimentais ou infantis. Richard Avenarius relatou outra origem possível, indicando ter aparecido em Munique a partir da palavra inglesa sketch, esboço, aplicado a pinturas baratas de baixa qualidade na intenção de classificá-las como "lixo".Apud Menninghaus, Wilfried. "On the 'Vital Significance' of Kitsch: Walter Benjamin's Politics of 'Bad Taste' ". In: Benjamin, Andrew & Rice, Charles. Walter Benjamin and the Architecture of Modernity. Re.Press, 2009, pp. 39-40 Para Gilbert Highet, contudo, a palavra pode derivar do russo kitchit'sya, significando "ser desdenhoso e orgulhoso",Walker, John A. Glossary of Art, Architecture & Design since 1945. Londres: Library Association Publishing, 1992, 3ª ed. e já foi aventado que seja um trocadilho com o termo francês chic, chique. O que importa é saber que desde sua origem kitsch assumiu uma conotação negativa.Kulka, Tomáš. Kitsch and art. Pennsylvania State University Press, 1996, p. 19

Alguns críticos, como Abraham Moles,Moles, Abraham. O Kitsch; a arte da felicidade. Perspectiva, 1998, p. 85 Arthur Koestler e Susan Sontag, entendem que o kitsch é um fenômeno recorrente na história da arte, mas a maior parte dos estudos concorda que se trata de uma manifestação cultural recente, derivando dos avanços na industrialização e na tecnologia em geral, da ascensão da classe média, da crescente urbanização, do afluxo em massa dos camponeses às cidades, da dissolução das culturas tradicionais e dos folclores, da maior educação do proletariado, da conquista de maior tempo para o lazer e do surgimento da chamada cultura de massa. Gillo Dorfles afirmou que os pressupostos da definição atual de kitsch não existiam na arte pré-moderna, que tinha funções e características em tudo distintas da modernidade,Kulka, pp. 13-16 e Hermann Broch considerou-o um filho do Romantismo, compartilhando com ele traços como sentimentalismo e amor ao drama e ao exagero, e definindo beleza como uma característica imanente ao objeto, não mais como era antes, um objetivo transcendente que uma obra finita jamais poderia alcançar.Călinescu, Matei. Five faces of modernity: modernism, avant-garde, decadence, kitsch, postmodernism. Duke University Press, 1987, p. 239 Mesmo que algo como o kitsch possa de fato ter existido antes do século XIX, foi a partir deste período que ele passou a assumir um papel de destaque no mundo da cultura, chegando a estar presente hoje em toda parte.Kulka, pp. 16-17

O primeiro estudo a respeito foi realizado por Fritz Karpfen (Der Kitsch: eine Studie über die Entartung der Kunst, 1925), onde o conceito recebeu o significado de degenerado, sendo usado em seguida pelos nazistas para informar sua política repressora sobre a arte de vanguarda. Walter Benjamin iniciou seus estudos sobre o kitsch no final da década de 1920, continuando-os até os anos 1940. Para ele, kitsch era uma abordagem que dissolvia a distinção entre arte e objeto utilitário, tendo características que anulavam o distanciamento respeitoso invocado pela arte e favoreciam um senso de intimidade sentimental, apelando para a gratificação imediata do público e para o consumo fácil, sem exigir um esforço de elaboração intelectual a respeito do objeto. Theodor Adorno, trabalhando na mesma época, identificou sua origem na cultura de massa e na industrialização,"Kitsch". In: Enciclopédia Itaú Cultural, 20/06/2011 e Norbert Elias escreveu um importante ensaio em 1935, The Kitsch Style and the Age of Kitsch, onde delineou uma cronologia e disse que o kitsch não é definível em relação a qualquer norma estética atemporal e nem pelo gosto da elite, sendo uma falsa categoria estética de uma sociedade que perdeu a confiança em seu próprio estilo.Ridley, Hugh. "Relations Stop Nowhere": The Common Literary Foundations of German and American Literature 1830-1917. Rodopi, 2007, p. 135 Hans Reimann participou do debate com seu Das Buch vom Kitsch (1936) e Clement Greenberg escreveu em 1939 o artigo Avant-Garde and Kistch, condenando o uso político do kitsch pelos nazistas e afirmando a natureza irreconciliável da oposição entre o kitsch e a arte de vanguarda, definindo o estilo como "a arte da cópia" e das "sensações falsas". Greenberg foi uma notável exceção nos estudos sobre a matéria, que foram desenvolvidos quase exclusivamente por alemães até os anos 70. Embora a definição de Benjamin tivesse se tornado dominante neste intervalo, de acordo com Wilfried Menninghaus sua importante contribuição é muitas vezes negligenciada pelos pesquisadores mais recentes.Menninghaus, pp. 40-41

No Brasil, a questão foi inaugurada nos anos 1960 por Anatol Rosenfeld,Rosenfeld, A. "No reino da pseudo-arte". O Estado de S. Paulo, Suplemento Literário, 31 mar. 1962. link. Republicado em Texto/Contexto II. S. Paulo: Perspectiva, 1993.Pignatari, Décio. "Marco Zero de Andrade". Alfa, FFCL de Marília, n. 5–6, p. 41–56, 1964. Republicado em: Contracomunicação. Cotia: Ateliê Editorial, 2004. p. 149-165. link. seguido de reflexões por Décio Pignatari e outros.Pignatari, Décio. "Kitsch e repertório". In: Informação. Linguagem. Comunicação. São Paulo: Perspectiva, 1968, p. 113-17. link.Guimaraens, Dinah & Cavalcanti, Lauro. Arquitetura kitsch: suburbana e rural. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1979. link.

O kitsch e a estética Características gerais e a dinâmica arte popular x arte erudita

thumb|left|180px|Publicidade de um gadget dos anos 1950: umedecedor de selos em forma de dentadura com língua exposta. A legenda original dizia: "Lamba-os com um sorriso! ... Garantimos que não vai morder!"

Embora Moles o descreva acima de tudo como "uma maneira de ser",Moles, p. 11 o conceito de kitsch é mais empregado no terreno da estética. Sua definição não é fácil, pois, baseando-se geralmente em juízos de valor, padece das inconsistências comuns a todos os tipos de valorações, que variam segundo os tempos, os grupos sociais, as preferências individuais e as geografias, mas geralmente é tido, em suma, como sinônimo de algo banal, barato e de mau gosto. Muitas vezes, é considerado uma oposição completa ao conceito de arte, enquanto outras vezes ele é aceito como arte, mas de má qualidade. A despeito dos esforços dos eruditos em estabelecer definições claras, é problemática a identificação de traços objetivos para descrever um objeto como kitsch. Como observou Tomáš Kulka, tipicamente falta-lhe uma estrutura caracterológica intrínseca que possibilite demonstrar cabalmente que um objeto é de mau gosto ou de escasso valor estético, contrapondo-o ao mundo da "arte", ou pelo menos da arte erudita, e as análises geralmente se baseiam em conceitos paralelos derivados da antropologia, sociologia ou da história para reforçar suas conclusões.Kulka, pp. 1-12

Em que pese a ressalva do autor, vários outros estudiosos apontaram indícios genéricos do que é um objeto kitsch. Entre eles, como se encontra nos sumários do Instituto Itaú Cultural, se destacam: falsificação de materiais (madeira pintada como mármore, objetos de zinco dourados como bronze, sempre procurando aparentar ser algo mais nobre do que é); preferência pela cópia ou adaptação de modelos eruditos; distorções em relação ao modelo original; uso de cores vivas ou em combinações exóticas; tendência ao exagero, ao empilhamento e à acumulação; onivoria e sincretismo; dinamismo, fluência e inconstância; tendência sentimental; funcionalidade deslocada ou minimizada pela ênfase no decorativo; tradução de um código complexo para um mais simples, ao mesmo tempo que dissemina o produto de um público reduzido para um mais vasto.Morais, Frederico. "ABC do Kitsch" . Itaú Cultural

Moles acrescentou, a estes traços, os de propósito hedonista e ocasionalmente humorístico, alguma dose de surrealismo, alienação, dependência da indústria (é um produto), autenticidade no que se propõe (espontaneidade), heterogeneidade, percepção sinestésica, mediocridade (no sentido de que se adequa ao gosto médio e é por isso democrático), universalidade, ofelimidade, urbanidade e permanência, dizendo jocosamente que ele é tão permanente quanto o pecado.Moles, pp. 10-11; 26-27; 32; 38; 40; 61; 74 Além disso, Călinescu assinalou que o kitsch pode aparecer somente na dependência de contextos específicos, sem que seus objetos constituintes o sejam, remetendo ao princípio de inadequação estética como característico do kitsch e dando como exemplo hipotético a instalação de um autêntico quadro de Rembrandt no elevador de uma residência milionária. Outros exemplos podem ser materiais descartados usados como decoração, tais como livros estragados, cartões-postais velhos, banheiras antigas enferrujadas e assim por diante.Călinescu, p. 236