João de Deus de Castro Lobo (Vila Rica, 8 de março de 1794 - Mariana, 26 de janeiro de 1832) foi um sacerdote, organista e compositor brasileiro e afrodescendente, ativo em Vila Rica e Mariana (MG) no início do século XIX (especialmente na Catedral de Mariana) e hoje reconhecido como o principal autor mineiro de música sacra na primeira metade do século XIX. Seu estilo é próximo ao do compositor carioca e mestre de capela da Catedral e depois Capela Real/Imperial do Rio de Janeiro, José Maurício Nunes Garcia.

Carreira miniaturadaimagem|275x275px|Assinatura de João de Deus de Castro Lobo em 1820, aos 26 anos de idade. Filho dos afrodescendentes Gabriel de Castro Lobo (1763-1853) e Quitéria da Costa e Silva, nasceu muito provavelmente em 8 de março de 1794 (dia de São João de Deus)CASTAGNA, Paulo. Santo do dia: um recurso antroponímico para a formulação de hipóteses referentes à data de nascimento de músicos em comunidades católicas. XXX CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM MÚSICA, Manaus, 7-11 dez. 2020. Anais… Manaus: Universidade Federal de Manaus e Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música, 2020. p.1-14. ISSN: 1983-5981. e foi batizado em 16 de março. Seu tio José de Castro Lobo (?-1782) e seu pai eram músicos. Seus irmãos Gabriel de Castro Lobo Filho (1798-1858) e Carlos de Castro Lobo (1803-1849) também seguiram carreira musical, e o segundo transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde teve atuação de destaque, atuando como organista da Capela Imperial do Rio de Janeiro entre 1830 e 1848, tendo sido o responsável pela primeira apresentação pública do harmônio no Brasil, então denominado “harmônica”. A família residia na Freguesia de Antônio Dias de Vila Rica, na Rua dos Paulistas (que ainda mantém esse nome) e o treinamento musical de João de Deus e seus irmãos deve ter sido realizado pelo pai Gabriel de Castro Lobo, como era costume na época, não sendo conhecidos detalhes sobre os métodos de ensino utilizados.

Entre 1811 e 1818 foi regente dos músicos da Casa da Ópera de Vila Rica. Em 1812 assinou, com Gabriel de Castro Lobo, Gabriel de Castro Lobo Filho e outros colegas de profissão (aos 17 anos de idade) o pedido para a criação da Confraria de Santa Cecília de Vila Rica. Em 1814 atuou como músico da tropa de linha de Vila Rica e, em 1815, recebeu assento na recém-criada Confraria de Santa Cecília de Vila Rica. Entre 1818 e 1823 recebeu pagamentos da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo de Vila Rica, juntamente com João Nunes Maurício Lisboa, “pelos ajustes dos partidos da música” e pelo “órgão”, frequentando, em 1819, classes de Gramática Latina em Vila Rica, na classe do Padre Silvério. Em 31 de janeiro de 1820 deu início ao seu processo De genere et moribus, destinado ao ingresso na Igreja Católica, frequentando, no mesmo ano, classes de gramática latina em Congonhas do Sabará (atual Nova Lima) e sendo ordenado subdiácono em dezembro. thumb|left|Seminario da Boa Morte de Mariana, onde Castro Lobo estudou em 1821-1822, por Hermann Burmeister (1853).

Em 1821 matriculou-se no Seminário da Boa Morte de Mariana, reaberto nesse ano (encontrava-se fechado desde 1811). No mesmo ano (em 21 de junho) foi finalizado o seu processo De genere et moribus, com aprovação no exame de canto eclesiástico para as ordens de diácono e presbítero, tendo sido ordenado diácono em junho e presbítero em maio. Em 1824 e 1825 recebeu para “acolitar” na Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo de Vila Rica e desligou-se da atuação musical nessa Ordem Terceira, na qual havia atuado entre 1818-1823.

Em 7 de outubro de 1825 recebeu provisão do Bispo de Mariana (Dom Frei José da Santíssima Trindade) para ocupação do cargo de mestre de capela e organista da Catedral de Mariana, sucedendo José Felipe Correa Lisboa (sendo essa a única provisão conhecida que recebeu para o referido cargo). Nos anos de 1826 a 1831 assumiu também a direção das atividades musicais da Ordem Terceira de São Francisco de Mariana e das festas da Câmara de Mariana, de forma concomitante com o exercício do cargo de mestre de capela da Catedral de Mariana. miniaturadaimagem|Vila Rica em 1820, quando João de Deus de Castro Lobo ainda residia na Rua dos Paulistas. Óleo sobre tela de Arnaud Julien Pallière (1774-1862). Museu da Inconfidência, Ouro Preto (MG).|330x330px Castro Lobo foi alvo de duas cartas de protesto no jornal Estrela Marianense, cerca de seis meses antes do seu falecimento, que ocorreu em 26 de janeiro de 1832, da moléstia “ética” (sífilis provavelmente seguida de tuberculose), tendo sido sepultado na Capela da Ordem Terceira de São Francisco de Mariana, em túmulo que ainda indica o seu nome. Foi sucedido na Catedral de Mariana em 27 de janeiro de 1832, por José Felipe Correa Lisboa no cargo de mestre de capela, e por Lucindo Pereira dos Passos (c.1782-1850) no cargo de organista, ambos nomeados no dia seguinte ao falecimento de João de Deus. Em 3 de fevereiro de 1832, Lucindo Pereira dos Passos pedia "que se cuidasse em providenciar a respeito do órgão desta Sé, a fim de que se evitasse o contágio da moléstia ética, de que tinha acabado de viver seu último proprietário o padre João de Deus Castro".

Produção musical miniaturadaimagem|left|Mariana em 1817-1818, por Thomas Ender, cidade na qual João de Deus de Castro Lobo começou a se estabelecer em 1821. miniaturadaimagem|left|Mariana em 30 de julho 1824, por Johann Moritz Rugendas, quando João de Deus de Castro Lobo já estava residindo na cidade. Imagem tomada da estrada para o Seminário.

Sua produção musical é conhecida quase exclusivamente por cópias de tradição, elaboradas da década de 1820 à década de 1990 (uma vez que seus autógrafos foram aparentemente todos perdidos)CASTAGNA, Paulo. Possíveis razões para o descarte parcial do arquivo musical da Catedral de Mariana no século XIX. II ENCONTRO DE MUSICOLOGIA HISTÓRICA DO CAMPO DAS VERTENTES: ARQUIVOS, TÉCNICAS E FERRAMENTAS DO ESTUDO DOCUMENTAL, São João del-Rei, 29 nov. – 1º dez. 2018. Anais… São João del-Rei: Universidade Federal de São João del-Rei, 2019. p. 381-416. ISSN 2595-5195. e inclui Missas, Matinas (anuais, santorais e fúnebres), Novenas e unidades funcionais avulsas para diversas cerimônias litúrgicas e paralitúrgicas. Destacam-se a Missa a 8 vozes em Ré Maior (PR.1.1), a Missa a 4 vozes em Ré Maior (PR.1.2), o Credo em Fá Maior (PR.1.3), as Matinas de Natal (PR.3.1) e sua contrafação Matinas de Nossa Senhora da Conceição (PR.3.3), as Matinas do Espírito Santo (PR.3.2), as Matinas de São Vicente (PR.3.6), as Matinas Fúnebres ou Seis Responsórios Fúnebres (PR.4.1), o Te Deum laudamus (PS.5.1.01), todas sacras e para solistas, coro e orquestra, além de uma Abertura em Ré Maior para orquestra (PR.10.1), conforme o quadro de obras (abaixo).

Suas composições foram transmitidas de forma orgânica em localidades do Estado de Minas Gerais (principalmente nas cidades de Mariana, Ouro Preto e São João del-Rei), mas com alguma circulação também nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, da década de 1820 até o início do século XX, entrando em lento declínio a partir da promulgação do Motu proprio Inter pastoralis officii sollicitudines, de Pio X (1903), que determinou a reforma da música sacra. Em 1975 e 1976, já na fase de revivalismo da música antiga, ocorreu a primeira edição de composições de João de Deus de Castro Lobo pela Funarte, na série “Música Sacra Mineira - século XVIII e século XIX" (posteriormente conhecida como Coleção Música Sacra Mineira) e em 22 de abril de 1979 foi realizado o primeiro concerto público externo às igrejas com uma de suas obras, a Missa a 8 vozes em Ré Maior (PR.1.1), na Sala Cecília Meireles (Rio de Janeiro). Somente em 1985 ocorreu a primeira gravação de uma composição de João de Deus de Castro Lobo (a mesma Missa a 8 vozes em Ré Maior - PR.1.1). Suas obras conhecidas vêm sendo progressivamente publicadas, gravadas e disponibilizadas na internet, e foram catalogadas em 2022, estando resumidas em quadro abaixo.

Estilo miniaturadaimagem|Chácara Episcopal (onde funcionava a Cúria Episcopal), jardins de Dom Cipriano de São José e cidade de Mariana, aquarela do Padre José Joaquim Viegas de Meneses, pintada entre 1801 e 1809. Embora sejam escassas as análises do repertório sacro mineiro dos séculos XVIII e XIX, a posição de João de Deus de Castro Lobo nesse panorama já começou a ser compreendida, ainda que em poucos trabalhos. Maurício Dottori analisou a Ladainha em Sol Maior (PR.7.4.17) e observou que o tipo de tonalidade empregada por esse compositor (e mesmo por alguns dos seus contemporâneos) não pode ser totalmente entendida dentro do conceito europeu de classicismo, afastando-se das impressões superficiais que caracterizavam as tentativas de enquadramento automático da música de Castro Lobo na periodização da música europeia.DOTTORI, Maurício. A estrutura tonal na música de João de Deus de Castro Lobo. Cadernos de Estudo: Análise Musical, São Paulo: n. 3, p. 44-51, out. 1990. Dottori argumenta que “João de Deus trata aqui a tonalidade pela sua negação, dando preferência a relações entre os tons que enfraquecem a tônica, na direção da subdominante, ou que ampliam pouco a tensão, como as modulações para o relativo menor”, concluindo que “Isto o diferencia fundamentalmente de todos os modelos pré-clássicos, clássicos ou pré-românticos que, supostamente, lhe serviram, pois que estes caminhavam na direção da música abstrata através da valorização das relações de dominante, enquanto à estética de João de Deus de Castro Lobo interessava, sobretudo, a independência do texto poético”. miniaturadaimagem|Mariana em 1839, por Ernst Hasenclever (1814-1869). Imagem tomada da estrada para a freguesia do Inficionado (atual distrito de Santa Rita Durão), hoje Rua Wenceslau Braz. Outra importante análise da música de Castro Lobo foi realizada por Josinéia Godinho, que comparou suas duas Missas (PR.1.1 e PR.1.2) com Missas de Manoel Dias de Oliveira (1735-1813), José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (c. 1746-1805), Joaquim de Paula Souza (c. 1780-1842), José Maria Xavier (1819-1887) e Presciliano José da Silva (1854-1910).GODINHO, Josinéia. Do Iluminismo ao Cecilianismo: a música mineira para a missa nos séculos XVIII e XIX. Dissertação (Mestrado em Música) – Escola de Música da UFMG, Belo Horizonte, 2008. 144 p. Godinho constatou que existe uma tendência cronológica de aumento da dimensão e da segmentação das obras até João de Deus de Castro Lobo e sua posterior diminuição nas Missas dos compositores cronologicamente posteriores, concluindo que, além de representar o ponto máximo da dimensão e segmentação, em Minas Gerais, as Missas de Castro Lobo representam o apogeu da complexidade técnica e da instrumentação orquestral. Para Godinho, “O crescimento da orquestra e da massa sonora acompanha, nas obras de Castro Lobo, o desenvolvimento internacional que levará às grandes missas sinfônicas nas quais a orquestra terá́ papel de destaque absoluto”, sendo notória, em João de Deus, a maior frequência de introduções instrumentais e de fugas (ainda que sem seguir os cânones europeus e abreviar bastante sua complexidade) e a escritura de solos vocais com o máximo grau de elaboração em toda a música mineira dos séculos XVIII e XIX, próxima aos solos vocais operísticos do período. miniaturadaimagem|Catedral de Mariana, na qual João de Deus de Castro Lobo atuou como mestre de capela e organista, de 1825 ao seu falecimento em 1832.