Escolástica, escolasticismo (do latim scholasticus, derivado do grego σχολαστικός /skʰo.las.ti.kós/, "pertence à escola", "instruído", "sábio") ou filosofia escolástica é um método ocidental de pensamento crítico e de aprendizagem, com origem nas escolas monásticas cristãs,Steven P. Marone, "Medieval philosophy in context" in A. S. McGrade, ed., The Cambridge Companion to Medieval Philosophy (Cambridge: Cambridge University Press, 2003); Jean Leclerq, The Love of Learning and the Desire for God (New York: Fordham University Press, 1970) esp. 89; 238ff. que concilia a fé cristã com um sistema de pensamento racional, especialmente o da filosofia grega (razão aristotélica e platônica).SPINELLI, Miguel. Herança Grega dos Filósofos Medievais São Paulo: Hucitec, 2013.
Esta parte do desenvolvimento da dialética, procurando, pela especulação filosófica, elaborar a filosofia cristã. Atinge seu apogeu no século XIII com a filosofia tomista (de (Tomás de Aquino), sob o influxo do pensamento grego, especialmente o aristotélico, introduzido na escola medieval através da cultura árabeA obra filosófica e médica de Pedro Hispano (Papa Joao XXI), por Sebastião Gusmão, Revista Médica de Minas Gerais, 11/9/2003.
A escolástica surgiu dentro das escolas monásticas que traduziram as filosofias judaico-islâmicas medievais e "redescobriram" a coletânea de obras de Aristóteles. Esforçando-se para harmonizar a metafísica de Aristóteles e a teologia católica latina, essas escolas monásticas tornaram-se a base das primeiras universidades medievais europeias e, assim, o alicerce para o desenvolvimento da ciência moderna e da filosofia no mundo ocidental. A ascensão da escolástica esteve intimamente associada a essas escolas, que floresceram na Itália, França, Portugal, Espanha e Inglaterra.Gracia, Jorge JE, e Timothy B. Noone, eds. A companion to philosophy in the middle ages. John Wiley & Sons, 2008, 55–64
A escolástica é mais um método de aprendizado do que uma filosofia ou uma teologia, uma vez que enfatiza fortemente o raciocínio dialético para ampliar o conhecimento por meio da inferência e resolver contradições. O pensamento escolástico também é conhecido pela análise conceitual rigorosa e pela cuidadosa distinção entre conceitos. Em sala de aula e na escrita, frequentemente assume a forma de uma disputa explícita: um tópico extraído da tradição é abordado na forma de uma proposição sobre uma questão a ser debatida, respostas opostas são apresentadas, uma contraproposta é argumentada e os argumentos opostos são refutados. Devido à sua ênfase no método dialético rigoroso, a escolástica acabou sendo aplicada a muitos outros campos de estudo. Patte, Daniel. The Cambridge Dictionary of Christianity. Ed. Daniel Patte. New York: Cambridge University Press, 2010, 11132-1133Grant, Edward. God and Reason in the Middle Ages. Cambridge University Press, 2004, 159
A Escolástica foi o método crítico dominante no ensino nas universidades medievais europeias no período dos séculos XII ao XVIII, tendo sido inicialmente um programa conduzido por pensadores cristãos medievais que buscavam harmonizar as diversas autoridades de sua própria tradição e reconciliar a teologia cristã com a filosofia clássica e da Antiguidade Tardia, especialmente a de Aristóteles, mas também a do neoplatonismo.Particularlmente por meio de Pseudo-Dionísio, Agostinho, e Boécio, e através da influência de Plotino e Proclus sobre filósofos mulçumanos. No caso de Tomás de Aquino, por exemplo, veja Jan Aertsen, "Aquinas' philosophy in its historical setting" in The Cambridge Companion to Aquinas, ed. Norman Kretzmann and Eleonore Stump (Cambridge: Cambridge University Press, 1993). Jean Leclerq, The Love of Learning and the Desire for God (New York: Fordham University Press, 1970). Entre as figuras escolásticas proeminentes, incluem-se Anselmo de Cantuária ("o pai da escolástica"Grant, Edward. God and Reason in the Middle Ages. Cambridge University Press, 2004, 56), Pedro Abelardo, Alexandre de Hales, Alberto Magno, Duns Scotus, Guilherme de Ockham, Boaventura e Tomás de Aquino. A obra-prima de Tomás de Aquino, denominado Summa Theologica, é, frequentemente, vista como exemplo maior da escolástica.
Um trabalho importante na tradição escolar tem sido realizado desde a época de Tomás de Aquino, como no caso dos escolásticos ingleses Roberto Grosseteste e seu aluno Roger Bacon, por Francisco Suárez e Luis de Molina e também entre pensadores luteranos e reformados. O legado histórico do escolasticismo não reside em descobertas científicas específicas, mas em lançar as bases para o desenvolvimento das ciências naturais.Colish, Marcia L. Medieval foundations of the western intellectual tradition, 400–1400. Yale University Press, 1999, 317–351
Etimologia
Os termos escolástico e escolástica derivam da palavra latina scholasticus, a forma latinizada do grego antigo σχολαστικός (scholastikos), um adjetivo derivado de σχολή (scholē), "escola". , . Scholasticus significa "pertencente às escolas". Os "escolásticos", portanto, eram "homens das escolas".
História Os fundamentos da escolástica cristã foram estabelecidos por Boécio por meio de seus ensaios lógicos e teológicos. Precursores posteriores (e depois companheiros) da escolástica foram o Ilm al-Kalām islâmico, que significa "ciência do discurso", e a filosofia judaica, especialmente o Kalam judaico.Madeleine Pelner Cosman, Linda Gale Jones, Handbook to Life in the Medieval World, p. 391. Início da Escolástica
A primeira renovação significativa do saber no Ocidente ocorreu com a Renascença Carolíngia, na Alta Idade Média. Carlos Magno, aconselhado por Pedro de Pisa e Alcuíno de Iorque, atraiu os estudiosos da Inglaterra e da Irlanda, onde algumas obras gregas ainda existiam em seu original. Por um decreto de 787, ele estabeleceu escolas em todas as abadias de seu império. Essas escolas, das quais derivou o nome "escolástica", tornaram-se centros de aprendizado medieval.Marcia L. Colish Medieval foundations of the western intellectual tradition, 400–1400. Yale University Press, 1999, 66–67
Durante esse período, o conhecimento do grego antigo havia desaparecido no Ocidente, exceto na Irlanda, onde seu ensino e uso eram bastante comuns em suas escolas monásticas. Os estudiosos irlandeses tinham uma presença considerável no Império Carolíngio (corte franca), onde eram renomados por seu conhecimento. Entre eles estava João Escoto Erígena (815–877), um dos fundadores da escolástica.: "Abelardo foi... juntamente com João Escoto Erígena (século IX), e Lanfranco e Anselmo de Cantuária (ambos do século XI), um dos fundadores da escolástica." Erígena foi o intelectual irlandês mais importante do início do período monástico e um filósofo excepcional em termos de originalidade. Ele tinha considerável familiaridade com a língua grega e traduziu muitas obras para o latim, permitindo o acesso aos Pais Capadócios e à Tradição Teológica Grega. Outros três fundadores principais da escolástica foram os arcebispos do século XI Lanfranco e Anselmo de Cantuária na Inglaterra e Pedro Abelardo na França.
Este período testemunhou o início da "redescoberta" de muitas obras gregas que haviam se perdido para o Ocidente latino. Já na segunda metade do século X, a Escola de Tradutores de Toledo, na Espanha muçulmana, havia começado a traduzir textos árabes para o latim. Após um período de grande sucesso da Reconquista no século XII, a Espanha se abriu ainda mais para os estudiosos cristãos e, à medida que esses europeus se deparavam com as filosofias judaico-islâmicas, tiveram acesso a uma riqueza de conhecimento árabe e judaico em matemática e astronomia.Grant, Edward, and Emeritus Edward Grant. The foundations of modern science in the Middle Ages: their religious, institutional and intellectual contexts. Cambridge University Press, 1996, 23–28 As traduções latinas do século XII também incluíram figuras como Constantino, o Africano, na Itália, e Jaime de Veneza, em Constantinopla. Estudiosos como Adelardo de Bath viajaram para a Espanha e a Sicília, traduzindo obras sobre astronomia e matemática, incluindo a primeira tradução completa de Os Elementos de Euclides para o latim.
Ao mesmo tempo, a Escola de Chartres produziu os comentários de Bernardo de Chartres sobre o Timeu de Platão e uma série de obras de Guilherme de Conches que tentaram reconciliar o uso de fontes pagãs e filosóficas clássicas em um conceito cristão medieval usando o artifício do integumentum, tratando os significados superficiais obviamente heréticos como coberturas que disfarçavam uma verdade mais profunda (e mais ortodoxa).. O próprio Abelardo foi condenado por Bernardo de Claraval no Concílio de Sens de 1141, e Guilherme evitou um destino semelhante por meio da autoexpurgação sistemática de seus primeiros trabalhos, mas seus comentários e as enciclopédicas De Philosophia Mundi e Dragmaticon foram erroneamente atribuídos a estudiosos anteriores como Beda, e amplamente disseminado. Anselmo de Laon sistematizou a produção da glosa sobre as Escrituras, seguida pela ascensão da dialética (o segundo tema do trivium medieval) na obra de Abelardo. Pedro Lombardo produziu uma coleção de Sentenças, ou opiniões dos Pais da Igreja e outras autoridades.
Mais recentemente, Ulrich Leinsle, Alex Novikoff, e outros argumentaram contra a ideia de que o escolasticismo derivada principalmente do contato filosófico, enfatizando sua continuidade com o cristianismo patrístico anterior. Esta, no entanto, continua sendo uma visão minoritária.
Apogeu
Os séculos XIII e início do XIV são geralmente considerados o auge da escolástica. O início do século XIII testemunhou o ápice da redescoberta da filosofia grega. Escolas de tradução surgiram na Itália e na Sicília e, eventualmente, no resto da Europa. Poderosos reis normandos reuniam homens de conhecimento da Itália e de outras regiões em suas cortes como sinal de seu prestígio. As traduções e edições de textos filosóficos gregos feitas por Guilherme de Moerbeke na segunda metade do século XIII ajudaram a formar uma imagem mais clara da filosofia grega, particularmente de Aristóteles, do que a oferecida pelas versões árabes nas quais se baseavam anteriormente. Edward Grant escreve: "A estrutura da língua árabe não era apenas radicalmente diferente da do latim, mas algumas versões árabes derivavam de traduções siríacas anteriores e, portanto, estavam duplamente distantes do texto grego original. Traduções literais desses textos árabes podiam produzir leituras tortuosas. Em contraste, a proximidade estrutural do latim com o grego permitia traduções literais, porém inteligíveis, palavra por palavra."
As universidades se desenvolveram nas grandes cidades da Europa durante esse período, e ordens clericais rivais dentro da Igreja começaram a lutar pelo controle político e intelectual desses centros de vida educacional. As duas principais ordens fundadas nesse período foram os Franciscanos e os Dominicanos. Os Franciscanos foram fundados por Francisco de Assis em 1209. Seu líder em meados do século XIII foi Boaventura, um tradicionalista que defendia a teologia de Agostinho e a filosofia de Platão, incorporando apenas um pouco de Aristóteles aos elementos mais neoplatônicos. Seguindo as ideias de Anselmo, Boaventura supunha que a razão só pode descobrir a verdade quando a filosofia é iluminada pela fé religiosa.Hammond, Jay, Wayne Hellmann, and Jared Goff, eds. A companion to Bonaventure. Brill, 2014, 122 Outros escolásticos franciscanos importantes foram Duns Scotus, Pedro Auriol e Guilherme de Ockham.Evans, Gillian Rosemary. Fifty key medieval thinkers. Routledge, 2002, 93–93, 147–149, 164–169Gracia, Jorge JE, and Timothy B. Noone, eds. A companion to philosophy in the middle ages. John Wiley & Sons, 2008, 353–369, 494–503, 696–712