Franz Liszt (Doborján, 22 de outubro de 1811 – Bayreuth, 31 de julho de 1886) foi um compositor, pianista, maestro, professor e terciário franciscano húngaro do .Walker, New Grove 2 Seu nome em húngaro é Liszt Ferenc.

Liszt ganhou fama na Europa durante o início do por sua habilidade como pianista virtuoso. Foi citado por seus contemporâneos como o pianista mais avançado de sua época, e em 1840 ele foi considerado por alguns como o maior pianista de todos os tempos. Liszt foi também um compositor bem conhecido e influente, professor e maestro. Ele foi um benfeitor para outros compositores, incluindo Richard Wagner, Hector Berlioz, Camille Saint-Saëns, Edvard Grieg, Vianna da Motta e Aleksandr Borodin.Searle, New Grove, 11:29.

Como compositor, ele foi um dos representantes proeminentes da "Neudeutsche Schule" ("Nova Escola Alemã"). Deixou para trás um corpo extenso e diversificado de trabalho em que ele influenciou seus contemporâneos sobre o futuro e antecipou algumas ideias e tendências do . Algumas de suas contribuições mais notáveis foram a invenção do poema sinfônico, desenvolvendo o conceito de transformação temática, como parte de suas experiências em forma musical e fazer rupturas radicais em harmonia.Searle, New Grove, 11:28–29. Ele também desempenhou um papel importante na popularização de uma grande variedade de música de transcrição para piano.

Biografia Origem Liszt nasceu em 21 de outubro de 1811 no vilarejo de Doborján (atual Raiding, Burgenland), então parte do Reino da Hungria, sob domínio Habsburgo, no comitato de Oedenburg. Foi batizado em latim com o nome "Franciscus", mas seus amigos mais próximos sempre o chamaram de "Franz", a versão alemã de seu nome. Era chamado de "François" em francês, "Ferenc", "Ferencz" ou "Ferentz" em húngaro; no seu passaporte de 1874, o nome registrado era "Dr. Liszt Ferencz".

A língua tradicional daquela região era o alemão, e apenas uma minoria sabia falar húngaro. Oficialmente, o latim era utilizado. Seu pai, Adam Liszt, tivera aulas em húngaro no ginásio de Pozsony, hoje Bratislava, mas ele não aprendeu quase nada. Apenas a partir de 1835 as crianças de Raiding passaram a ter aulas de húngaro na escola. O próprio Liszt era fluente em alemão, italiano e francês; também tinha um pequeno domínio de inglês, mas seu húngaro era muito precário. Nos anos de 1870, quando todos os habitantes da Hungria foram forçados a aprender húngaro, Liszt tentou aprendê-lo, mas desistiu depois de algumas aulas.

A nacionalidade de Liszt foi causa de muita intriga e discussão. De acordo com pesquisas, seu bisavô, Sebastian List,O pai de Liszt acrescentou a letra "z" ao sobrenome da família, e esta versão foi adotada pelo avô de Liszt. era um alemão que resolveu morar na Hungria no século XVIII. Como a nacionalidade de uma pessoa nascida na Hungria na época era herdada, seu avô e seu pai também seriam alemães. Seguindo este raciocínio, Liszt também deveria ser considerado alemão. A mãe de Liszt, Anna Maria Liszt, era austríaca.

Quando perguntado sobre sua nacionalidade, Liszt sempre respondia com orgulho que era húngaro, mesmo sem sequer falar a língua; durante toda sua vida usou seu passaporte húngaro para viajar. Isto fez com que ainda hoje a maioria pense que ele era integralmente húngaro.Isso se deve ao conceito de nacionalidade existente hoje na Hungria, que não se aplicava à época de Franz Liszt. A Hungria fazia parte do Império Habsburgo, onde a língua corrente era o alemão. A língua magiar, hoje dita húngara, era falada apenas no interior do país e por aproximadamente 45% da população. Com o surgimento do nacionalismo entre os Magiares, a língua húngara apresentou um renascimento, principalmente no período socialista, onde se "magiarizou" a população, já que boa parte dos germanófonos, entre eles judeus, haviam morrido ou migrado à força para a Alemanha ou Áustria. Caso semelhante ocorre com os germanófonos dos Sudetos e da Pomerânia.

Início da vida thumb|esquerda|upright|Retrato de Liszt (1856) por Wilhelm von Kaulbach Era sonho do próprio Adam Liszt se tornar músico. Estudara piano, violino, violão e violoncelo. Enquanto estudava filosofia na Universidade de Pressburg, estudou instrumentação com Paul Wigler; infelizmente, devido à sua falta de recursos financeiros, teve de desistir dos estudos. Logo no dia 1° de janeiro de 1798, ele passou a trabalhar para o Príncipe Nikolaus II Esterházy. Entre 1805 e 1808, ele trabalhou em Einsenstadt, onde o Príncipe Esterházy tinha uma casa de férias com uma orquestra. Até 1804 essa orquestra foi regida por Franz Joseph Haydn, e a partir desta data até 1811, por Johann Nepomuk Hummel. Em várias ocasiões, Adam Liszt tocou nela como segundo violoncelista. Em 13 de setembro de 1807, a orquestra executou a Missa em Dó maior de Ludwig van Beethoven, regida pelo próprio. Adam Liszt conhecia Haydn, Hummel e Beethoven. Para ele, os vienenses clássicos haviam atingido o mais alto nível de musicalidade.

Ao nascer, Franz Liszt recebeu pouca esperança de sobrevida. Sofria síncopes frequentes e chegou a tal ponto que um carpinteiro foi chamado para tirar suas medidas e preparar seu caixão. Contudo, acabou se curando.Pourtalès (1934), p. 16

O próprio Liszt, quando adulto e artisticamente maduro, dizia muitas vezes que as experiências musicais mais importantes da sua infância foram as performances de artistas ciganos. Porém, o repertório que ele teve de estudar era bem diferente da música dos ciganos. Uma carta de Liszt para o Príncipe Esterházy datada de 13 de abril de 1820, diz que ele havia comprado cerca de 8,800 páginas de partituras dos maiores mestres da música. Durante os 22 meses que se seguiram, Liszt já havia estudado as obras mais tecnicamente complexas de Johann Sebastian Bach, Wolfgang Amadeus Mozart, Muzio Clementi, Johann Baptist Cramer, dentre outros. Em outubro de 1820, no velho cassino de Sopron, ele participou de um concerto do violinista Baron van Praun. Na segunda parte do evento, Liszt tocou um concerto em Mi bemol maior de Ferdinand Ries, numa improvisação pessoal de muito sucesso.

Ainda criança, Liszt já se mostrava capaz de reproduzir apenas de memória horas de música tocadas pelo pai. Em novembro de 1820, Adam Liszt teve uma oportunidade ainda maior de mostrar ao público o dom de seu filho. Em Pressburg, a Dieta se encontrou pela primeira vez após um rompimento de 13 anos. Em 26 de novembro, Liszt deu um concerto para uma audiência de aristocratas e membros da alta sociedade. Um grupo de magnatas assegurou um pagamento anual de 600 gulden durante seis anos para que o garoto pudesse estudar no exterior.Pourtalès (1934), pp. 18-23

Adam Liszt já havia pedido ajuda ao Príncipe Esterházy em 4 de agosto de 1819 para educar seu filho. Nessa petição, ele estimou um gasto anual que ficaria entre 1 300 e 1 500 Gulden. Ele não esperava que o príncipe fosse pagar essa quantia, mas também pediu uma posição em Viena. Assim, Adam poderia ganhar dinheiro por conta própria enquanto seu filho teria aulas com um grande mestre do piano. A petição foi apoiada por Hofrat Johann von Szentgály, um oficial. Mas como não havia vagas para o trabalho em Viena, a petição foi negada pelo príncipe. Os 600 Gulden oferecidos pelos magnatas em novembro de 1820 eram insignificantes comparados aos gastos anuais num total de 1 500 Gulden. Nada aconteceu pelos próximos 18 meses. Em 6 de maio de 1822, Adam Liszt pediu por uma petição um ano de ausência. Quando o príncipe aceitou esta, Adam Liszt já havia vendido tudo que ele possuía em Raiding. Em 8 de maio de 1822, a família Liszt foi para Viena.

Liszt na sua juventude miniaturadaimagem|Selo alemão emitido em 2011 em comemoração aos 200 anos de nascimento do compositor Em Viena, o jovem Liszt frequentou aulas de piano com o grande Carl Czerny, que fora aluno de Beethoven em sua juventude. Czerny comentou, em seu livro de memórias, que ficou impressionado com o talento de Liszt ao piano, mas que o garoto não tinha qualquer conhecimento de dedilhados apropriados, e seu jeito de tocar era caótico. Czerny mostrou a Liszt algumas das sonatas mais fáceis de Muzio Clementi e mandou tocá-las. Liszt tocou-as sem qualquer dificuldade, mas não entendia que tinha de trabalhar nos detalhes da execução e da expressividade. O professor e seu aluno também tinham opiniões diferentes quanto a dedilhados usados para as obras tocadas. Há boatos de que ele, numa tentativa de escapar das aulas de piano, escreveu dedilhados complexos e difíceis para as obras e os mostrou ao seu pai, alegando que eles haviam sido escritos por Czerny. Havia se tornado óbvio que Czerny não tinha noção do que mandava seus alunos fazer, e por isso Liszt deveria parar de ter aulas com ele. Mas logo depois, Adam Liszt conversou com Czerny e seu filho, e as aulas prosseguiram.

Liszt foi então ouvido em círculos privados. Sua estreia em Viena foi em 1° de dezembro de 1822, em um evento musical na "Landständischer Saal", Liszt tocou um concerto em Lá menor de Hummel e também fez uma improvisação sobre uma ária da ópera Zelmira de Gioachino Rossini e também o allegretto da Sinfonia No. 7 de Beethoven. Em 13 de abril de 1823, ele deu um famoso concerto na "Kleiner Redoutensaal". Dessa vez, tocou um concerto em Si menor de Hummel, Variações de Moscheles e uma improvisação dele mesmo.

A partir de julho de 1822 Liszt passou a ter aulas de composição com Antonio Salieri, o último professor de Beethoven.Pourtalès (1934), p. 24 De acordo com uma carta deste ao Príncipe Esterházy datada de 25 de agosto de 1822, até então ele havia introduzido Liszt a alguns elementos da teoria musical, sendo que mais aulas viriam depois destas. Visto que os admiradores de Liszt o tratavam como um prodígio, Salieri sabia que havia aceitado uma tarefa nada fácil.

Na mesma época, a família Liszt conheceu Anton Felix Schindler, amigo de Beethoven por meio do qual o garoto via uma chance de conhecer seu ídolo. Schindler conseguiu o encontro, mas Beethoven, à altura já lutando contra a surdez e a pobreza, pouco se interessou em conhecer o húngaro. Contudo, em 13 de abril de 1823, Beethoven compareceu a um concerto de Liszt e, ao final da sua apresentação, beijou a testa do garoto.Pourtalès (1934), pp. 25-26

thumb|Altenburg, residência de Franz Liszt em Weimar, entre 1848–1861, época na qual compôs os seus primeiros doze poemas sinfónicos.

Na primavera de 1823, quando o ano de ausência concedido a Adam Liszt estava chegando ao fim, este pediu em vão ao príncipe mais dois. Adam mais tarde pediu demissão ao príncipe, e no fim de abril de 1823, a família voltou pela última vez à Hungria. Liszt deu concertos em Pest nos dias 1° e 24 de maio. Também participou de concertos nos dias 10 e 17 de maio no "Königliches Städtisches Theater" e em 19 de maio na "Vergnügliche Abendunterhaltung". Neste último evento, Liszt tocou um arranjo para piano da Marcha de Rackózy, algumas danças húngaras e peças de Antal Csermák, János Lavotta e János Bihari. No fim do mês, a família retornou a Viena.

Ao final de 1823, os Liszt foram a Paris tentar fazer o garoto entrar no conservatório de Paris e conseguiram uma reunião com o diretor da instituição, que encerrou o sonho deles ao informá-los de que apenas franceses poderiam estudar lá.Pourtalès (1934), p. 27 Em 1827, seu pai adoeceu e morreu no dia 28 de agosto, alertando o filho em suas últimas palavras de que ele seria dominado pelas mulheres em sua vida.Pourtalès (1934), pp. 32-32

Liszt conheceu sua primeira paixão logo após a morte do pai: Carolina de Saint-Cricq, sua aluna, que o correspondeu a princípio. Sua mãe, ciente da relação, morreu pouco tempo depois e alertou o marido sobre o amor da filha. O conde, então, tratou de informar Liszt que um noivo (o conde de Artigaux) já havia sido selecionado para sua filha. O músico nunca mais voltou ao palácio da família.Pourtalès (1934), p. 33-36