Uma pandemia é uma epidemia de uma doença infecciosa que se espalha por uma grande área geográfica e atravessa fronteiras internacionais, podendo alcançar vários continentes ou o mundo. O termo se refere principalmente à extensão da transmissão, e não à gravidade da doença. Uma infecção pode se tornar pandêmica sem causar alta mortalidade, enquanto uma doença muito grave não recebe essa classificação se permanecer limitada a uma região. Doenças endêmicas que circulam de forma esperada em muitas regiões, como a gripe sazonal, não são consideradas pandemias apenas por estarem amplamente presentes.
Pandemias ocorreram em épocas e circunstâncias muito diferentes, da Peste Negra, causada por Yersinia pestis, às pandemias de gripe, à disseminação mundial do HIV/AIDS e à pandemia de COVID-19. O modo de transmissão, a imunidade da população, as condições em que as pessoas vivem e a capacidade dos sistemas de saúde ajudam a explicar por que a velocidade e os efeitos de uma pandemia podem variar tanto de uma doença para outra.
Mudanças no uso da terra, urbanização, mobilidade, clima e contato entre seres humanos, animais e ecossistemas podem mudar as oportunidades para novos agentes surgirem e se espalharem. Viagens e redes de transporte também permitem que uma infecção alcance populações distantes em pouco tempo, o que torna a detecção precoce e a troca rápida de informações parte da preparação para uma possível pandemia.
Quando uma ameaça se espalha, a resposta pode combinar vigilância epidemiológica, diagnóstico, isolamento de casos, rastreamento de contatos, medidas de saúde pública, vacinação, tratamentos e ampliação da capacidade de atendimento, conforme o agente e a situação. Como patógenos atravessam fronteiras, laboratórios, autoridades de saúde e organizações internacionais também dependem da cooperação entre países para compartilhar informações, avaliar riscos e organizar o acesso a diagnósticos, medicamentos e vacinas.
Além de causar doença e morte, uma pandemia pode pressionar serviços de saúde e afetar famílias, trabalho, educação e atividade econômica. Como novos agentes podem surgir e vírus conhecidos continuam evoluindo, a preparação procura reduzir esses danos antes que um surto se espalhe amplamente, mantendo vigilância, pesquisa, laboratórios, atendimento e comunicação prontos para serem ampliados durante uma emergência.
Definição
Terminologia e escopo
miniatura|direita|upright=1.50|Países com surtos comunitários confirmados de influenza A (H1N1) durante a pandemia de gripe A de 2009, exemplo de disseminação internacional de uma doença infecciosa.
A palavra vem do grego antigo pándēmos, "de todo o povo, público, comum", formado por pan-, "todo", e dêmos, "povo".
O Dicionário de Epidemiologia da Oxford define pandemia como uma "epidemia que ocorre em uma escala que atravessa fronteiras internacionais, geralmente afetando pessoas em escala mundial". Na epidemiologia, a classificação depende principalmente da ampla disseminação geográfica de uma doença infecciosa e não exige, por si só, um nível mínimo de gravidade ou mortalidade. Assim, uma pandemia pode causar doença relativamente leve, enquanto uma doença muito grave não é uma pandemia se não apresentar esse padrão de disseminação. A palavra "pandemia" não tem uma formulação única aceita em todos os contextos.
Quando uma doença infecciosa se espalha amplamente entre animais não humanos, o termo equivalente é panzootia. Ela pode abranger uma grande região geográfica ou o mundo e atingir mais de uma espécie.
Pandemia, epidemia e emergência pandêmica
miniatura|direita|upright=1.00|Sede da Organização Mundial da Saúde, em Genebra. A organização administra o Regulamento Sanitário Internacional, que estabelece categorias como a Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) usa categorias jurídicas do Regulamento Sanitário Internacional que não significam a mesma coisa que pandemia. Uma Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional (ESPAI) é um evento extraordinário que constitui risco de saúde pública para outros Estados pela disseminação internacional de doença e pode exigir uma resposta internacional coordenada. Para tomar essa decisão, o diretor-geral da OMS considera as informações do Estado Parte e a orientação do Comitê de Emergência. Também leva em conta os princípios e as evidências científicas disponíveis e os riscos para a saúde humana, a disseminação internacional e o tráfego internacional.
A categoria de emergência pandêmica foi criada por emendas ao Regulamento Sanitário Internacional aprovadas em 2024. As novas regras entraram em vigor para a maioria dos Estados Partes em setembro de 2025, com prazos diferentes para alguns países. Uma emergência pandêmica é uma ESPAI causada por uma doença transmissível que já apresenta, ou corre alto risco de apresentar, ampla disseminação entre vários países, sobrecarregar sistemas de saúde, causar forte perturbação social ou econômica e exigir uma resposta internacional rápida e coordenada.
Toda emergência pandêmica é uma ESPAI, mas nem toda ESPAI é uma emergência pandêmica. Uma ESPAI pode ser declarada diante de um risco internacional que exija ação coordenada, enquanto a categoria de emergência pandêmica exige também ampla disseminação, pressão sobre os sistemas de saúde e forte perturbação social ou econômica. Em maio de 2026, por exemplo, a OMS declarou como ESPAI uma epidemia de doença pelo vírus Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, mas afirmou que o evento não preenchia os critérios de emergência pandêmica.
Pandemias de influenza
miniatura|direita|upright=1.00|Recrutas com gripe asiática em um ginásio militar em Luleå, na Suécia, durante a pandemia de influenza de 1957–1958.
A expressão "pandemia de influenza" tem um sentido mais específico do que a simples presença da gripe sazonal em muitas partes do mundo. A OMS acompanha a influenza sazonal mundialmente para orientar a composição das vacinas, mas usa a ideia de influenza pandêmica para a emergência de um novo vírus influenza capaz de se disseminar amplamente entre pessoas.
Como a gravidade de uma pandemia de influenza não depende apenas do número de infecções, a mortalidade costuma ser comparada por meio da mortalidade excessiva, medida usada desde os trabalhos de William Farr no século XIX. Já os casos leves, pouco sintomáticos ou não diagnosticados dificultam a estimativa da morbidade.
História
miniatura|esquerda|upright=1.30|O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel, o Velho, c. 1562–1563. A pintura é uma alegoria da morte em massa, tema familiar numa Europa marcada por guerras, fome e epidemias, embora não represente uma pandemia específica.
Muitos relatos históricos de epidemias não permitem identificar o agente com segurança, porque infecções diferentes podem produzir quadros semelhantes e mais de uma doença pode circular na mesma população. A paleogenômica ampliou as possibilidades de análise ao recuperar DNA antigo de patógenos em restos humanos, embora a preservação, a amostragem e a datação ainda limitem as conclusões.
Com a expansão da agricultura, da criação de animais e do pastoreio, aumentaram também as oportunidades de transmissão de infecções entre seres humanos e outros animais. Uma análise de DNA antigo encontrou, por exemplo, patógenos zoonóticos em populações da Eurásia desde cerca de 6.500 anos atrás, tornando-se mais frequentes por volta de 5.000 anos atrás, quando a domesticação de animais já estava amplamente difundida.
Da revolução neolítica à Antiguidade tardia miniatura|upright=1.00|Reconstrução de habitações neolíticas no Irish National Heritage Park, na Irlanda.
miniatura|upright=1.00|Centros de origem e difusão da agricultura durante a Revolução Neolítica.
miniatura|esquerda|upright=1.00|Peste em uma cidade antiga, representação artística de uma epidemia pintada por Michiel Sweerts no século XVII.
miniatura|direita|upright=1.00|Procissão de Carlos Borromeu durante uma epidemia de peste em Milão, em pintura de Pierre-Auguste Pichon.
Com o crescimento dos assentamentos e a expansão da agricultura e do comércio, grupos humanos antes mais separados passaram a manter contatos mais frequentes, criando condições para epidemias de maior escala.
Na Europa, esse processo avançou com a Revolução Neolítica, enquanto redes urbanas e comerciais ampliavam a circulação de pessoas e infecções. O comércio e as guerras também passaram a conectar centros populacionais distantes, favorecendo epidemias de maior extensão. Durante a Guerra do Peloponeso, a Peste de Atenas atingiu a cidade entre 430 e 426 a.C. Tucídides escreveu que a doença teria chegado à Grécia depois de passar por regiões da África e do Mediterrâneo oriental. Uma análise de dentes encontrados em uma vala comum identificou sequências atribuídas a Salmonella enterica serovar Typhi e propôs a febre tifoide como possível causa. Essa interpretação foi contestada por limitações na análise das sequências, e a causa da epidemia continua incerta.
Na Roma Antiga, surtos registrados por autores como Tito Lívio costumavam ficar restritos a cidades e áreas próximas. Com a expansão das estradas e das rotas militares, porém, pessoas, mercadorias e exércitos passaram a circular por distâncias maiores. Em 65, uma epidemia atingiu Roma, e Tácito relatou mortalidade generalizada, enquanto Suetônio registrou 30.000 mortes em um único outono. Entre 165 e 180 d.C., a Peste antonina atingiu grande parte do Império Romano. Varíola e sarampo já foram propostos como possíveis causas, mas o agente responsável nunca foi confirmado. Modelagens epidemiológicas mais recentes concluíram que os dados históricos disponíveis não permitem identificar o patógeno com segurança e também questionaram algumas estimativas antigas de mortalidade muito elevada.
miniatura|esquerda|upright=1.00|A peste em Florença em 1348, em gravura baseada no relato de Giovanni Boccaccio no Decamerão.
No século III d.C., a Peste de Cipriano atingiu partes do Império Romano, mas seu agente causador não foi identificado e ainda há incerteza sobre sua origem, duração e extensão. Uma interpretação recente propõe que a doença tenha entrado no império pelas invasões góticas no Danúbio, e não pelo Egito, depois da morte do imperador Décio. No século IV, textos antigos também mencionam epidemias de "pústulas", expressão interpretada de formas diferentes, entre elas varíola e carbúnculo, inclusive em relatos ligados às guerras romano-persas. Com a retração do comércio no século V, grandes surtos passaram a ser menos registrados no Ocidente, embora doenças continuassem acompanhando invasões e deslocamentos populacionais.
A Peste de Justiniano, entre 541 e 549, atingiu Constantinopla em 542 e se espalhou por regiões do Mediterrâneo. Genomas recuperados de restos humanos do século VI confirmam que o agente era Yersinia pestis. Embora relatos da época registrem muitas mortes na capital bizantina, ainda há debate sobre o tamanho da redução populacional no Império Bizantino e em outras regiões. Estudos modernos contestaram estimativas antigas de um colapso demográfico em escala imperial.
Entre 735 e 737, uma epidemia de varíola atingiu o Japão e causou forte mortalidade.
Idade Média miniatura|Expansão da Peste Negra pela Europa entre 1346 e 1353.
Depois do último surto conhecido da primeira pandemia de peste, por volta de meados do século VIII, os registros de grandes epidemias europeias tornam-se mais fragmentários. Por isso, diagnósticos feitos retrospectivamente permanecem incertos. Para a malária, uma revisão histórica publicada em 2017 encontrou indícios de ocorrência ao norte dos Alpes antes do ano 1000, mas ressaltou a escassez de evidências diretas e as divergências sobre sua cronologia e distribuição.