O português uruguaio, algumas vezes chamado fronteiriço ou misturado, é uma variedade dialetal do que hoje se conhece em meios acadêmicos como Dialetos Portugueses do Uruguai ou Dialectos portugueses del Uruguay (DPU) em espanhol. É falado por cerca de 30% da população uruguaia em geral e 15% como nativo, sendo usado na região fronteiriça entre o Uruguai e o Brasil em cidades como Artigas e Quaraí, mas principalmente na região das cidades gêmeas de Rivera e de Santana do Livramento. Esta região da fronteira é chamada de "Fronteira da Paz". Este nome é resultado da cultura de integração surgida da convivência internacional pacífica de ambos povos.

Características gerais

Como toda língua, o português uruguaio é muito dinâmico e heterogêneo, existindo um contínuo de dialetos que vão desde o português brasileiro (brazilero, em portunhol) padrão até ao espanhol rioplatense (castilhano, em portunhol). Não obstante, possui uma variante que é a mais utilizada, e que pode ser usada como base de estudo: esta localiza-se geograficamente na zona que tem como centro as cidades de Rivera e Santana do Livramento, e estende-se por uma orla de vários quilômetros ao longo da fronteira. E é a esta variante que o artigo tratará de abordar, ainda que daqui em diante seja chamada simplesmente portunhol ou riverense, nomes pelos quais se identificam as pessoas que falam este idioma.

A maioria dos linguistas classificam o riverense como um dialeto da língua portuguesa (mais notoriamente Adolfo Elizaincín , que tecnicamente chama-o de DPU - dialeto português do Uruguai), ainda que não haja um consenso. O que se pode dizer com certeza é que, por receber contribuições de dois idiomas, o portunhol é uma língua muito rica, no sentido de que tem uma grande variedade de sinônimos e palavras mais precisas para expressar conotações específicas, além de possuir uma maior riqueza fonética. Por outro lado, o riverense não é uma simples mescla de dois idiomas que não segue regras gramaticais precisas. Também é importante assinalar que, de maneira geral, somente os cidadãos uruguaios utilizam esse dialeto, enquanto o que ocorre no lado brasileiro é um bilinguismo.

Origem

A origem do portunhol se remonta na época da colonização portuguesa na região norte do Uruguai, na qual não estava bem definido a quem pertenciam esses territórios, com a soberania passando de maneira sucessiva de uma coroa a outra. Não somente o português e o espanhol tiveram influência sobre o portunhol, mas também as línguas indígenas, em alguns casos. Como exemplos, podem-se citar: guri (menino), mamboretá (reza ou pedido), caracu (osso de vaca).

Nas canções populares e folclore fronteiriço Muito frequente em músicas de caráter lúdico nas periferias fronteiriças de ambas cidades, um estilo regional de música surgiu utilizando o Portunhol Riverense como base linguística junto o amplo ritmo latino chamado Cumbia, sendo este estilo denominado a "Cumbia Bagacera".

"Bagacera" denomina algo ou alguém de procedência duvidosa e sugere um baixo calão para "algo/alguém que não presta". Muito comum relacionar o termo a pessoas com desvios de caráter ou que apresentam comportamentos não aceitáveis perante a sociedade como alcoolismo, boemia e a frequente pronúncia de palavrões. Por isto o estilo faz de forma mimética uma estereotipagem narrativa ou prosaica do dia a dia destes "bagaceras", ora como crítica, ora como mera brincadeira.

Decorrente da união dos conceitos de cada povo sobre as pessoas à margem da sociedade e esta convivência mútua, assim como "Bagacera" surgiram alguns arquétipos locais e perfis destas pessoas que são mutuamente reconhecidos e utilizados em ambas cidades, mais especificamente pelos falantes de portunhol, dentre estas figuras: "Chinelão" - Pessoa sem habilidades, sem respeito ou bons costumes, semelhante a bagacera. "Biticome" - Pessoa que orgulhosa e mentirosa, que se gaba muito de algo que não é. "Tramposo" - Pessoa trapaceira, principalmente em negócios ou jogos. "Fronha" / "Mãe" - Pessoa medrosa, que não encara desafios, melindrado. "Payaso" - Literalmente palhaço, pessoa que faz graça até do que não deve. "Entonado" - Pessoa brigona, que busca motivos para levantar a voz e arranjar briga. "Borracheira" / "Querosem" - Pessoa alcoólatra, referência ao estado "mol" devido a ingestão de álcool e ao cheiro desagradável de álcool. "Calavera" - Indivíduo de idade avançada e também caloteiro, caborteiro, vagabundo, tratante

A fonologia e ortografia A língua Riverense formalmente não tem uma ortografia definida, mas neste artigo uma ortografia de Portunhol Riverense será apresentada/indicada para permitir que os seus fonemas sejam representados da mais exata e mais constante maneira possível, enfatizando as características fonológicas desta variedade da língua. Deve-se observar que nem todos os falantes do Portunhol Riverense usam a mesmo pronúncia para as mesmas palavras (que é o caso com a maioria das línguas). Não obstante, escolhe-se a escrita que é mais representativa das características mais frequentes e distintas.

Os fonemas e a sua representação ortográfica

A representação escolhida é a mais próxima da usada se tentarmos transcrever os fonemas à língua espanhola (porque esta é a língua ensinada aos uruguaios, aquela é a nacionalidade da maioria dos usuários deste dialecto), à excepção dos fonemas que não podem ser representados com o alfabeto espanhol, como, por exemplo as vogais nasais.

Vogais espanholas

As vogais espanholas são pronunciadas como as cinco vogais da língua espanhola (existem também no português):

letraAFIFronteiriçoPronúncia(AFI)Português BrasileiroEspanhol (dialeto rioplatense) a papa batatapapacatarata cachoeiracatarata e peshe peixepezdetergente detergentedetergente i cisco lixobasuraniño ninhonidociá jantar (cear)cenar o ontonte anteontemanteayeroio olhoojoposo poçopozo u yururú jururutriste, melancóliconu noen elacuá latir, ladrar ladrar

Vogais portuguesas

Estas vogais são encontradas no português, mas não no espanhol.

Vogais Semiabertas

São como as vogais e e o, mas pronunciado de uma maneira mais aberta, próximo de um a.

letraAFIFronteiriçoPronúncia (AFI)PortuguêsEspanhol é té chátépél pelepielvéia velhavieja ó fófóca fofocachismepóso possopuedo

É muito importante distinguir as vogais abertas (é, ó), porque podem mudar totalmente o sentido da palavra, como nos seguintes exemplos:

avó (avó) e avô (avô) véio (velho) e veio (veio, do verbo ir) véia (velha) e veia (veia) póso (posso) e poso (poço)

Vogais nasais

As vogais nasais são as vogais que são expiradas produzindo o ar através do nariz e em parte através da boca. Não existem no espanhol e consequentemente derivam-se das palavras portuguesas.

AFIletrasFronteiriçoPronúncia (AFI)PortuguêsEspanhol ã masã maçãmanzanalã lãlanasã sãsana (adj.)an (*) cansha canchacancha en (*) pênsaũ pensampiensan in (**) intonce entãoentonces õ garsõ garçommozo (de bar o restaurante)tõ tomtonoon (*) intonce entãoentonces ũ ũ umunocũtigo contigocontigoniñũa nenhumaningunamaũ mãomano (*) antes de s, sh, y, z, ce, ci. (**) antes de s, sh, y, z, ce, ci, ou quando é a primeira sílaba da palabra e não é seguida por ga, gue, gui, go, gu, ca, que, qui, co, cu ou k.

Distinguir vogais nasais é muito importante, porque podem mudar completamente o significado da palavra, como nos seguintes exemplos:

paũ (pão) e pau (pau) nũ (num) e nu (no) nũa (numa) e núa (nua) ũ (um) e u (o) cũ (com) e cu (cu, ânus) ũs (uns) e us (os)

Consoantes

No quadro seguinte, quando se referir ao português, está-se a referir ao português brasileiro e em particular ao português gaúcho (do estado do sul do Brasil o Rio Grande do Sul) ou aos da mídia brasileira, e quando se referir ao espanhol, na realidade está-se a referir à variante do espanhol tal como é falada no Uruguai.