thumb|200px|Tavares Festas em Viseu, óleo por José de Almeida e Silva, 1900 António Leão Tavares Festas (Gândara de Mortágua, 9 de Julho de 1860 — Lapa, Lisboa, 5 de Maio de 1920) foi um político liberal progressista, legislador, administrador e jurista português, durante o Rotativismo e a Primeira República.

Homem público Dotado de grande influência eleitoral, foi consensual dirigente beirão do seu tempo, tendo a sua obra política alcançado maior notoriedade enquanto impulsionador da criação da Região Demarcada do Dão, e da Adega Regional da Beira. Aderindo muito novo ao Partido Progressista, aonde sempre militara seu pai, evidenciou-se por invulgar e incessante actividade legislativa em sede parlamentar, de que foi melhor expoente a sua nomeação para relator da última proposta de Código Administrativo do seu velho amigo José Luciano de Castro, de 1900, de tendência descentralizadora, em iniciativa político-administrativa merecedora de atento estudo historiográfico infelizmente por fazer; e ainda pelo seu papel determinante na comissão parlamentar que preparou o Código de Processo Comercial, aprovado por decreto de 14 de Dezembro de 1905.

Tavares Festas destaca-se ainda singularmente entre todos os políticos portugueses enquanto predecessor avançado no tempo e no espaço da defesa da Mulher, i.é., dos direitos cívicos e políticos das mulheres à luz da época romântica, tendo iniciado a sua carreira política em Coimbra, no ano de 1884, ali proferindo justamente uma conferência intitulada A Mulher no Mundo Antigo. Revolução na Philosophia Cristã. O que deve ser a sua Emancipação, em que se mostrava entusiasmado defensor de alguns dos depois chamados Direitos da Mulher, nomeadamente o respeito que lhes é devido pelo legislador, e a sua liberdade de escolher livremente marido.

Tavares Festas foi político que valorizou sobretudo o poder efectivo de intervenção concreta na sociedade, granjeando popularidade alargada sob uma simplicidade afável e compreensão para com todos, de qualquer quadrante político e social, seguindo o exemplo e a reputação pública de seu pai, de quem foi o filho mais próximo e continuador político, e familiar. Pouco antes de terminar a chamada Concentração Liberal, coligação entre o Partido Progressista e o Partido Regenerador-Liberal, Tavares Festas é indicado por José Luciano de Castro para ministro do governo de João Franco, então ainda com suficiente apoio parlamentar. Integra depois a troika do Partido Progressista que se deslocou ao Palácio das Necessidades, em Junho desse ano, a comunicar ao rei D. Carlos I a não aderência do mesmo à ditadura parlamentar.

thumb|200px|right|Frontispício do jornal Beira Alta sobre as últimas eleições monárquicas em 1910

Segundo informe de 1910 do jornal Beira Alta, órgão progressista dirigido e redigido pelo deputado do Porto Ocidental António Rodrigues da Costa Silveira, várias vezes o seu partido "...tem querido eleval-o aos conselhos da Coroa, distinção e honra que s. exª. systhematicamente tem recusado", i.é, rejeitara já várias pastas ministeriais nos instáveis e efémeros governos da época, preferindo manter a rédea do seu círculo. Também em período republicano Tavares Festas veio ainda a recusar em 17 de Fevereiro de 1915 o ministério que lhe era então oferecido por Pimenta de Castro, em situação política igualmente da maior instabilidade.

Tavares Festas acumulava entre outros cargos, desde a Primavera de 1910, o de inspector e director da Polícia Administrativa de Lisboa. Durante a revolução de 4 para 5 de Outubro de 1910 que implantou militarmente a República nos Paços da Câmara de Lisboa, contíguos ao Governo Civil aonde funcionava a sede da Polícia por ele dirigida, encontrava-se na Beira. Em 6 de Outubro de 1910 António Tavares Festas reuniu na Colmeosa,Ver http://www.cm-santacombadao.pt/portal/page?_pageid=239,1337801&_dad=portal&_schema=PORTAL, in http://www.cm-santacombadao.pt a sua casa de família, no Couto do Mosteiro, em Santa Comba Dão, o directório do Partido Progressista da comarca, sendo decidido não oferecer resistência à revolução vitoriosa segundo refere a Imprensa, tendo "todos os assistentes frisado a disposição de cooperar, com lealdade e firmeza, em todos os actos tendentes a assegurar a ordem pública e a prosperidade da Pátria, bem como o progresso da região".

Com efeito, num circunstanciado relatório confidencial entregue em mão em Lisboa a José Luciano de Castro, a seu pedido, pelo seu amigo de infância Abel de Matos Abreu, documento anterior ao regicídio, Tavares Festas relata que a adesão ao Partido Republicano, dentro do seu círculo, entre os proprietários e capitalistas que dispunham de votos, tinha ultrapassado já largamente a fasquia dos que ainda se mantinham monárquicos. E que se segurava completamente o círculo, tal se devia apenas à fidelidade política pessoal dos recém-convertidos ao seu nome, não ao Partido Progressista ou à Monarquia. Nesse documento relata desanimadamente, com exaustão e minúcia, os nomes e os bens estimados de todos os influentes eleitorais na Beira, assinalando um a um aqueles que se mantinham fiéis apenas na aparência ao poder ainda em vigor.

É este mesmo estado de espírito febril de desconfiança generalizada, medo e anarquia, que determina o total anonimato e sigilo praticados na recepção ao rei D. Manuel II em casa de seu irmão João, na Quinta da Vila, em Mortágua, por razões da ameaçada segurança régia, já no ano de 1909. Encontrando-se por essa época o monarca gozando alguns dias de férias no Palácio do Buçaco, recordou a João Tavares Festas, que ali o fora cumprimentar, uma promessa antiga de pescaria às famosas trutas existentes na Ribeira de Mortágua, que corre ao fundo da quinta da sua residência. Combinou-se fosse recebido o soberano no dia da visita, para pique-nique à beira de água, apenas pelos donos da casa, por seus irmãos António e Joaquim Tavares Festas e suas mulheres, pelo Prior de Mortágua, um Leão parente e amigo dos Tavares Festas, pelos oficiais da Casa Real que ali o acompanharam e escoltaram, e por muito poucos mais, conforme se lê das rigorosas instruções manuscritas para o efeito pelo ajudante de campo responsável por uma visita que os mortaguenses ficaram a ignorar.

Monárquico, Tavares Festas abandonou durante o regime republicano a carreira política oficial e foi advogado em Lisboa, com escritório na Rua Nova do Almada, 11, 2º, sendo também administrador da União Resseguradora e de outras empresas. Apesar de não ter aderido ao ideário republicano, passando a exercer apenas oficiosamente a sua grande influência política e eleitoral, inalterada a partir de 1911, António Tavares Festas manteve-se ainda por mais nove anos, até morrer, inamovível no seu lugar de director da Polícia Administrativa, apesar da infrutífera sindicância parlamentar que visou retirá-lo de função tão sensível ao novo regime. Tudo indica que Tavares Festas tenha mantido a sua influência política oficiosamente, a partir de Lisboa, como prova a correspondência familiar, que revela ter continuado a indicar os nomes para presidentes de Câmara e regedores das Juntas de Freguesia da comarca de origem e para os deputados do círculo de Viseu até à data da sua morte.

Homem que se destacou por uma grande popularidade individualizada, mais do que em visibilidade pura, Tavares Festas mostrou preferir o poder real exercido serenamente na segunda linha por sobre as vagas agitadas do seu tempo, assentando-o em consensos sociais, económicos, logo políticos, numa das épocas mais conturbadas e violentas da História de Portugal. Talvez isto possa ajudar a explicar porque, no próprio dia da sua morte, e apesar de estar ainda bem presente nos espíritos a adesão poucos meses antes de seus irmãos João e Joaquim Tavares Festas à Monarquia do Norte, o Governo, a Câmara dos Deputados e o Senado da República aprovaram por unanimidade, caso raro senão único, três sentidos votos de pesar entregues no próprio dia à viúva, e aos filhos, de quem morria indefectível monárquico.

Acção parlamentar e legislativa A carreira parlamentar de Tavares Festas tem formalmente início em 16 de Janeiro de 1893, quando em São Bentojura o seu lugar de deputado a par do Visconde de Serpa Pinto, o herói africano, que na mesma data jurou o seu pelo Partido Regenerador; sendo ambos logo designados pela praxe, como mais novos membros da Casa, a deslocarem-se juntos ao Paço, a fim de como representantes dos dois maiores partidos com assento parlamentar ali apresentarem oficialmente, em nome da Câmara, os cumprimentos de Ano Bom a Suas Majestades.

A actividade no Parlamento de Tavares Festas, durante a Monarquia, foi diversificada, tendo sido sucessivamente eleito em 1892, pelo círculo de Santa Comba Dão, para as legislaturas de 1893, 1894, 1897-1899, 1900, 1901. Após o seu casamento passou também a representar círculos ligados à família de sua mulher: Lamego, na legislatura de 1902-1904, Arganil, na legislatura de 1904, Viseu, na legislatura de 1905-1906. Foi reeleito pelo círculo de Viseu para as legislaturas de 1906-1907, e de 1908-1910. Estava eleito na última eleição monárquica em 1910, a última e malograda Câmara que já não veio a poder tomar posse.

Comissões parlamentares Tavares Festas fez também parte de inúmeras comissões parlamentares:

Administração Pública (1897-1898, 1900 e 1905-1906) Petições (1897) Redacção (1897, 1900 e 1905) Recrutamento (1897 e 1899-1900) Paz e Arbitragem (1898 e 1909) Instrução Primária e Secundária (1898-1900 e 1905) Obras Públicas (1898) Reclamações e Vacaturas (1898, 1900, 1905-1907) Agricultura (1899-1900) Legislação Civil (1899-1900), comissão especial solicitada a dar parecer sobre o projecto de reforma da lei eleitoral de 1899 Legislação Criminal (1900 e 1905) Ultramar (1905) Fazenda, (1906) Interparlamentar de Tarifas (1909) Discurso da Coroa (1910) Estatística (1910)

Projectos de lei No decurso da sua vida parlamentar apresentou inúmeros projectos de lei:

Em 1 de Julho de 1893 renovou a iniciativa de um projecto de lei que pretendia, através da aplicação de 900$000 réis do fundo de viação da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, proceder a vários melhoramentos municipais. Na mesma data num outro projecto de lei, referente à Câmara Municipal de Mortágua, requereu a construção de uma ponte sobre o vale do rio Arouce, obra que utilizaria verbas do fundo especial de viação. Em defesa dos alferes e dos segundos tenentes do exército, a 19 de Julho de 1897, subscreveu um projecto de lei que visava terminar com a lei que estabelecia, para efeitos de promoção na carreira militar, um prazo de dois anos de tirocínio. O cargo de governador civil de Évora possibilitou-lhe ter conhecimento das necessidades desse distrito. Assim, em 27 de Julho de 1897, apresentou dois projectos de lei a ele referentes. O primeiro requeria a dispensa, pela Câmara Municipal de Redondo, do pagamento da contribuição de registo de uma doação que lhe fora feita, destinada à exploração das nascentes de água da Serra de Ossa. No outro projecto, relativo ao concelho de Arraiolos, propunha que se autorizasse o desvio, no prazo de dez anos, de 500$000 réis anuais para a conclusão das obras dos Paços do Concelho. Nesta mesma data subscreveu, em conjunto com Simões dos Reis, um outro projecto de lei, com o objectivo de ser modificada, em alguns pontos, a lei de 14 de Setembro de 1890, referente à aposentação dos párocos. Com a finalidade de elevar a liceus nacionais centrais os liceus estabelecidos em Évora e Viseu, subscreveu, em 7 de Fevereiro de 1898, um novo projecto de lei, em conjunto com Alfredo César de Oliveira e outros deputados. Defensor do melhoramento da rede rodoviária no distrito do círculo que representava, apresentou no dia 3 de Março de 1898, em conjunto com João Abel da Silva Fonseca, um projecto de lei para construção de novos lanços ou serventias de estradas.