Héctor Castro (Montevidéu, 29 de novembro de 1904 – Montevidéu, 15 de setembro de 1960) foi um futebolista e treinador de futebol uruguaio. Celebrizou-se como autor do último gol da Copa do Mundo de 1930 e por construir uma vitoriosa carreira mesmo sem possuir a mão direita, o que lhe rendeu o apelido de El Manco ou El Divino Manco. Ídolo no Nacional como jogador e treinador, tornou-se também, ao falecer, o primeiro ex-jogador velado na sede do clube. Castro conseguia jogar em qualquer posição ofensiva, virando sinônimo de atrevimento, dinâmica e entrega.BASSORELLI, Gerardo (2012). El Divino Manco. Héroes de Nacional. Montevidéu: Editorial Fin de Siglo, pp. 112-115
Ele é um dos 11 futebolistas Campeões Olímpicos e também da Copa do Mundo.olympstats.com/ Olympic Footballers – Gold Medalists and World Cup Championstheguardian.com/ Has any player ever won the Euro, World Cup and Olympics treble?
Origens Filho de um casal espanhol, Castro precisava trabalhar desde os dez anos de idade, sendo retirado pela própria família da escola noturna para inicialmente vender jornais. Perdeu a mão direita aos treze anos de idade, em um acidente com uma serra elétrica no seu trabalho como carpinteiro, necessário em função da situação humilde de sua família, que morava nos subúrbios de Montevidéu. Recebeu assim o apelido de Manco ainda na escola. Sonhava com a medicina, algo interrompido com a tragédia, que o deixaria uma pessoa calada e melancólica,O herói que driblou o azar (17 mar. 1986). Placar n. 825. São Paulo: Editora Abril, pp. 49-50 mas que conseguia manter conforto jogando futebol.Manco, um herói uruguaio (16 abr. 1982). Placar n. 621. São Paulo: Editora Abril, pp. 42-45 Jogando, conseguia rir das missões ditas "impossíveis".
Carreira em clubes Anos 20 Seu talento já era comentado antes do acidente e aos dezesseis anos ele já estreava no time adulto do Lito, onde conheceu José Pedro Cea, também revelado nesta equipe e seu futuro colega no Nacional e na seleção uruguaia campeã da primeira Copa do Mundo.GEHRINGER, Max (set. 2005). Os campeões. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, p. 43 Castro chegou ao Nacional ainda antes dos vinte anos completos, em 1924, ano em que conseguiu imediatamente seu primeiro título no campeonato uruguaio, já como titular.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1924. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 48-49 Também de forma meteórica, já integrou a seleção campeã da Copa América daquele ano, sendo ainda reserva no elenco uruguaio campeão olímpico também naquele ano.
O clube, porém, só voltaria a ser campeão nove anos depois, nem sempre por falta de méritos: não houve campeonato em 1930 em função da primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai e para a qual o Nacional foi base da seleção, com quatro titulares na decisão e nove convocados,MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1930 Montevideo. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 64-65 que seriam respectivamente cinco e dez se o goleiro Andrés Mazali não fosse previamente afastado uma semana antes da estreia, por indisciplina ao abandonar a concentração de oito semanas.GEHRINGER, Max (set. 2005). Indisciplinado. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, p. 37
thumb|right|350px|Urra dos jogadores do Nacional em Paris na excursão de 1925. Castro é o jogador mais à direita, com o pé na bola.
No ano de 1925, também não houve campeonato; até o ano anterior, havia um cisma com duas ligas separadas, com uma contendo o Nacional e a outra, o Peñarol. assim, naquele ano de 1925 os tricolores organizaram uma vitoriosa excursão à Europa. Castro marcou dezoito gols ao longo de 38 jogos, dentre eles três no 7-0 sobre a seleção neerlandesa em Roterdã, o do empate em 1-1 contra a seleção austríaca, uma das mais fortes do continente na época,GEHRINGER, Max (set. 2005). Tão perto, tão longe. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, pp. 6-11 em Viena e um no 5-0 sobre o Sporting Clube de Portugal na capital portuguesa. A excursão, no ano seguinte ao primeiro ouro olímpico do futebol uruguaio e sul-americano, confirmou o valor do futebol uruguaio na Europa. 700 mil pessoas viram o Nacional ao longo de 38 partidas. Foram 130 gols marcados, somente 30 sofridos, com 26 vitórias e somente cinco derrotas.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1925 - La Gira de las Giras. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 50-53
O clube também fez outra turnê vitoriosa em 1927, às Américas Central e do Norte. Castro marcou dezoito gols em dezessete jogos. Dentre eles, um em vitória por 3-1 sobre a seleção mexicana e três em vitória por 8-1 sobre a seleção espanhola.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1927 - La Gira por Estados Unidos y Centroamérica. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 58-59 O clube viria a ser base da seleção campeã das Olimpíadas de 1928.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1928 - Amsterdam tuya Héctor!!!. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 60-61
Fim de carreira
No ano de 1932, Castro esteve no futebol argentino, contratado pelo Estudiantes de La Plata, sensação do ano anterior, quando teve o melhor ataque do campeonato e disputou o título com o campeão Boca Juniors, que fez cerca de trinta gols a menos. Castro chegou a marcar um gol em 6-1 sobre o rival Gimnasia y Esgrima, no que foi a maior goleada do clássico platense até o 7-0 de 2006. Em 1932, os alvirrubros terminaram em sexto, abaixo somente dos cinco grandes do futebol argentino (Boca Juniors, River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo), enquanto o rival Gimnasia foi o sétimo.
Castro voltou ao Nacional em 1933, ano em que o clube voltou a ser campeão uruguaio. Foi após uma edição interminável, a mais longa da história da competição, que só foi concluída em novembro do ano seguinte. Foram necessários quatro jogos finais contra o Peñarol, já adentrando no ano de 1934, em maio, agosto, setembro e o último, em novembro,MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1933 - El Año de la Máquina. El Campeonato más largo de la historia. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 68-73 enquanto o campeonato próprio pelo ano de 1934 já estava em andamento desde julho.MELOS PRIETO, Juan José (2012). 1934. El Padre de la Gloria. Montevidéu: Ediciones El Galeón, pp. 74-77 No torneio de 1933, Castro dividiu a titularidade com Pedro Petrone, que voltava de uma passagem de sucesso pelo futebol italiano, mas que precisou retirar-se da disputa após denúncia de seu clube na Itália. Outro ídolo que saiu durante a competição foi o brasileiro Domingos da Guia, transferido ao Boca Juniors. Outro brasileiro era Patesko.
Peñarol e Nacional terminaram igualados na liderança e uma primeira final foi agendada para maio do ano seguinte. O jogo terminou em 0-0, mas ficou conhecido pelo "gol da mala", pois um arremate do adversário brasileiro João de Almeida "Bahia" foi para fora. A bola voltou a campo após rebater na mala de um membro da comissão técnica do Nacional, e assim o aurinegro Braulio Castro chutou para as redes. O árbitro não era famoso e seus gestos confundiram os jogadores do Nacional, que acreditaram que ele estava validando o lance, gerando um tumulto que suspendeu a partida no minuto 70. José Nasazzi e Juan Labraga foram expulsos por agressões ao juiz. Os vinte minutos restantes foram disputados somente em agosto, a portões fechados. A partida continuou em 0-0 e disputou-se uma prorrogação de sessenta minutos. O placar não se alterou. O Nacional precisou jogar com nove jogadores, por ser uma continuação do dia em que Nasazzi e Labraga foram expulsos. Castro também não jogou, mas o clube conseguiu segurar o 0-0.
Assim, novo jogo foi marcado para setembro, dessa vez para a disputa de novos 90 minutos regulamentares. Novamente, precisou-se jogar mais 60 minutos de prorrogação. Ainda assim, o placar foi novamente 0-0. Castro, novamente, não jogou. Mas retornou na quarta final, em novembro. Foi sua consagração: marcou os três gols tricolores na vitória por 3-2, cumprindo uma promessa feita no intervalo ao presidente do clube, Atilio Narancio. El Manco terminou carregado nos ombros alheios ao fim da decisão. O campeonato de 1934, por sua vez, alargou-se até abril do ano seguinte, encerrando-se com o clássico com o Peñarol na rodada final. O empate em 1-1 favoreceu o Nacional, apesar dos tricolores jogarem a última meia hora com nove homens, devido às expulsões de Aníbal Ciocca e do próprio Castro. O clube sagrou-se assim o primeiro bicampeão seguido do profissionalismo uruguaio e Castro foi um dos convocados à seleção para a Copa América de 1935.
Castro parou de jogar outro ano mais tarde, em 1936. É o sétimo maior artilheiro do campeonato uruguaio, com 107 gols e 101 partidas.
Seleção Uruguaia Início como reserva thumb|right|350px|O Uruguai nas Olimpíadas de 1928, no dia em que ganhou por 4-1 da Alemanha. Autor de um gol, Castro aparece sorrindo com a bola, sendo o segundo jogador agachado.
Castro estreou pela seleção uruguaia em 1923, quando ainda jogava no Lito. Foi na data de 25 de novembro, em vitória por 2-1 sobre o Brasil na Copa América daquele ano.
Integrou o elenco que em 1924 foi campeão nas Olimpíadas de Paris e na Copa América daquele ano, mas sem jogar nenhuma partida em ambas as competições.
Ficou marcado inicialmente como um eterno reserva. Destacou-se na Copa América de 1926, em que o Uruguai foi campeão e El Manco, vice-artilheiro da competição com seis gols, quatro deles na rodada final no 6-1 contra o Paraguai e o segundo na vitória por 2-0 no clássico com a Argentina. Foi vice-artilheiro e titular também na Copa América de 1927. Foi nessa competição que El Manco virou El Divino Manco. O torneio foi vencido pela Argentina, mas classificou também o vice Uruguai para as Olimpíadas de 1928.
Nos Jogos de Amsterdã, porém, Castro só jogou duas vezes. Após eliminarem os anfitriões neerlandeses, os uruguaios sofreram vaias da torcida nos jogos seguintes. Um deles foi contra a Alemanha, derrotada por 4-1 com Castro marcando o terceiro da Celeste. Atuou apenas porque o titular Héctor Scarone havia se machucado. Sua outra partida foi na primeira decisão contra a Argentina, que terminou empatada. Para a segunda partida, Castro voltou à reserva, diante da recuperação de Scarone.
A consagração em 1930 thumb|right|350px|Seleção uruguaia antes da final da primeira Copa do Mundo. Castro é o terceiro jogador agachado, usando a mão esquerda para cobrir a amputação na mão direita. Castro voltou à titularidade para a Copa América de 1929, sem desta vez marcar gols. A Argentina foi campeã. El Manco foi convocado à Copa do Mundo FIFA de 1930, mas só disputou a estreia em função, novamente, de lesão de Héctor Scarone nas vésperas da partida. Coube a Castro a honra de marcar o primeiro gol uruguaio na história da competição. Foi também o primeiro gol do estádio Centenário, cuja inauguração oficial foi naquela ocasião. Porém, o resultado, um magro 1-0 contra o Peru, seleção criada apenas três anos antes, despertou severas críticas da imprensa;GEHRINGER, Max (set. 2005). Festa e decepção. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, p. 37 O jornal El País chegou a escrever que "Os Deuses estão cansados!". Scarone voltou à titularidade na partida seguinte e o Uruguai bateu por 4-0 a Romênia, marcando todos os gols nos primeiros 35 minutos.GEHRINGER, Max (set. 2005). Time de veteranos. Placar Especial "A Saga da Jules Rimet fascículo 1 - 1930 Uruguai". São Paulo: Editora Abril, p. 38