thumb|O Diabo como descrito em Tentação de Cristo, de Ary Scheffer, 1854 Na tradição cristã, a figura do Diabo é tratada como a representação do mal, em sua forma original de um anjo querubim, responsável pela guarda celestial,Livro de Ezequiel 28, 14 que foi expulso dos Céus por ter criado uma rebelião de anjos contra Deus com o intuito de tomar-lhe o trono ou imitar a glória do Criador.Livro de Isaías 14, 12-15 Com seu parecer desconhecido, muitas são as tentativas de reproduzi-lo. A Bíblia retrata a figura de um anjo querubim de alta hierarquia portador de grande beleza, perfeição, sabedoria e luz que se rebelou contra Deus. A imagem folclórica mais popular retrata-lhe a ter uma cor vermelha, com feições humanas monstruosas mas com chifres, rabo pontiagudo e um tridente na mão, para remeter a um cetro ou objeto de tortura.
Etimologia e outros nomes A palavra "Diabo" teria equivalência no latim a Ximenes, por sua vez originado do grego antigo (διά+βολος), transl diá (mediante/passar de/através de)+bolos (recusar, retrucar, argumentar), entendido como "negador", "caluniador", "opositor", ou "acusador"Online Etymology Dictionary. (aquele que nega). No Brasil há diversos apelidos, dentre eles Maligno, Coisa-ruim, Sete-peles, Satanás, Capeta e Capiroto. No Rio Grande do Sul chamado de Sanguanel, é o título mais comum atribuído à uma ou mais entidades sobrenatural maligna da tradição cristã.
Diabo na história miniaturadaimagem|Das Jüngste Gericht, Detail de Fra Angélico. A pintura é do século XV No contexto medieval feudal, as pessoas eram marcadas pela cultura bélica, o que se refletia na interpretação do mundo ao seu redor e do metafísico. Enquanto os nobres (bellatores) lutavam contra a manifestação mais concreta das forças tidas como demoníacas (húngaros, muçulmanos, vikings, entre outros) na análise da época, os clérigos (oratores) enfrentavam forças maléficas que não se encarnavam. Sob o comando deste grupo social, todos enfrentavam o Diabo, que era visto como um vassalo de Deus que praticou felonia. Como visto, o Diabo era assimilado pela lógica feudal no ocidente medieval. No século XI e XII, há a primeira grande explosão diabólica. O que outrora era mais abstrato e teológico se concretiza.
A Europa se via mergulhada nas invasões bárbaras, sem contar com um poder sólido para garantir a ordem social. Era preciso demonizar as crenças pagãs, para que a religião cristã se prestasse como nova ferramenta de poder e de controle sobre os diversos povos que viviam dentro das fronteiras do decaído império Romano; fornecendo uma base de cultura comum para um mundo extremamente diverso e conflitivo.NOGUEIRA, C. R. F., Ruptura e permanência: a cristianização dos povos bárbaros. In: RBH, 29, p. 47-56 Quando há esses dois espectros do comportamento religioso em um mesmo lugar (paganismo e cristianismo) o conflito pela diferença e intolerância se é esperado. A conversão de um pagão pelo batismo só é concretizada após este renunciar à todos os deuses previamente adorados e temidos, além de confessar que todas estas entidades, que um dia venerou, são na verdade espíritos malignos - daimones - que exercem um único papel, ir contra o verdadeiro e único Deus.
O Apocalipse de Paulo, texto do século IV que descreve o inferno cristão, encontra-se com lendas irlandesas e enriquece o imaginário acerca dos acontecimentos dos acontecimentos infernais. Alguns autores apontem a influência desse texto atribuído à Paulo na Divina Comédia de Dante Alighieri.James, M.R. (1924). Apocalypse of Paul. translation and commentary (em inglês). Oxford: Clarendon Press Este, que também foi um grande influente da cultura no final do medievo e no início da Idade Moderna.
A emergência da modernidade foi acompanhada pelo medo intenso do Diabo, o qual alcançou uma difusão jamais obtida anteriormente. Vale ressaltar que foi no começo da Idade Moderna e não na Idade Média que o inferno e seus habitantes monopolizaram a imaginação dos homens no ocidente. Um dos aliados dessa disseminação foi a prensa, uma vez que ela proporcionou uma maior facilidade em reproduzir textos e disseminar as ideias das Igrejas Católica e Protestante.A obsessão na figura do Diabo se alia com a produção de um vasto arsenal de discursos e, principalmente, de imagens. Ela é extremamente presente nas duas vertentes da Igreja já citadas. A iconografia infernal dessa época é rica de exemplos de tortura e de detalhes imagéticos sobre como as almas condenadas a esse mundo sofrerão. O Diabo moderno expõe seus meios de corromper a humanidade e seus elementos de tormentos. O fato de que só na segunda metade do século XVI há aproximadamente 231600 exemplares de obras relativas ao mundo demoníaco elucida o fervor referente a produção de conteúdo relacionado ao Diabo e ao seu mundo e obviamente, a presença desse ser no imaginário das pessoas.
O Diabo também está associado intrinsecamente a outro fenômeno muito popular na Idade Média: o fim do mundo, isto é, o discurso escatológico. Para muitas autoridades teológicas, a aproximação dessa data é precedida por uma última ação do Diabo, ativo agente antes do fim.Delumeau, Jean (2009). História do medo no ocidente 1300 – 1800. São Paulo: Companhia de Bolso. p. 301-354
Nessa época, alguns religiosos disseminavam a ideia de que essa figura tornou-se o senhor da terra. Ele podia agir por meio de idólatras, muçulmanos, feiticeiros e principalmente, mulheres.Delumeau, Jean (2009). História do medo no ocidente 1300 – 1800. São Paulo: Companhia de Bolso. p. 462-507M. Del Rio. Les controversesKRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras (Malleus Maleficarium). Rio de Janeiro: Rosa dos tempos, 2010 Atribui-se à mulher o lugar primeiro da perversidade e da utilização da bruxaria como instrumento de luta do diabo contra a cristandade, na tentativa de frustrar a fé e a salvação humana. A mulheres, propensas ao mal, transformavam-se no alvo preferido do Diabo: recorriam a ele quando se deixavam tomar por sentimentos de luxúria, inveja e ganância ou, quando não tomam a iniciativa, podiam ser facilmente seduzidas para seus encontros noturnos e sabás. Sobre os idólatras, eles eram vistos principalmente na América. Foi aí que o Diabo ganhou contornos nativos, sendo as entidades indígenas interpretadas como o Diabo. A suposta presença do Diabo e esse preceito idólatra justificou a catequização e o confisco dos bens indígenas.LAS CASAS, F. B. O paraíso destruído: a sangrenta história da conquista da América Espanhola. Tradução de Heraldo Barbuy. Porto Alegre. L&PM. 2011. 176 p.Delumeau, Jean (2009). História do medo no ocidente 1300 – 1800. São Paulo: Companhia de Bolso. p. 386-397
Acreditava-se que com isso o "reinado do Anticristo" estaria sendo combatido (o próprio Papa foi tomado como sendo a "encarnação do Anti-Cristo" na terra, para a maioria de seus inimigos). Cresce a superstição de que, para cada criatura humana viva na terra, o Diabo havia designado um "Demônio tentador" para garantir que aquela alma se perdesse nos descaminhos da maldade; já Deus, em sua infinita bondade, teria designado um "anjo da Guarda" responsável para tentar levar a alma deste vivente para o "caminho do Bem".
Crença multicultural São muitos os nomes, as características e os poderes atribuídos ao Diabo - o príncipe das trevas - na cultura ocidental. Na verdade, o Diabo é o resultado da fusão de muitas crenças de diversas entidades e de diferentes culturas. Aparece na Bíblia Sagrada como sendo a serpente (tal referência só aparece a partir do Primeiro Livro de Reis, remontando época posterior ao exílio da Babilônia) que seduziu Eva e Adão no paraíso, levando-os a comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal; ou quando da agonia de Cristo no deserto, o Diabo aparece tentando-o, oferecendo-lhe o mundo como recompensa para que Jesus abandone o plano de Deus para sua vida. Da mitologia grega, ele é herdeiro direto de Hades, o Deus do mundo dos mortos, local para onde as almas dos condenados eram enviadas, após pagarem ao barqueiro Caronte; para entrar na morada de Hades era preciso passar por Cérbero, o cão de três cabeças que guardava os portais do Tártaro.
Já o tridente ele herdou de Netuno, o Deus dos mares; os pés de bode eram de Pã. A aparência hedionda de Lúcifer só veio se concretizar a partir do fim do Império Romano (476 d. c.), quando a Igreja Católica passou a ocupar o vazio de poder deixado pela queda de Roma.
Isso tudo veio se prestar perfeitamente para dar consistência para o projeto de poder de uma igreja que ambicionava reerguer o Antigo Império Romano e unificar a fé e as crenças por todo o mundo. Pode-se mesmo dizer que o Demônio seria uma espécie de oposto de Cristo; o seu inverso; a encarnação da maldade e da vilania. Dante Alighieri escreve "A Divina Comédia", livro em que a alma do poeta percorre os Céus e os infernos. A crença em Deus era alimentada pelo temor nas forças das trevas; o Diabo passou a ser visto em Hereges (dissidentes de fé diversa), bruxas, cientistas, judeus (por receberem a culpa da prisão e condenação de Cristo, e por negarem que este seria o "Messias" anunciado no velho testamento, os judeus sempre foram perseguidos e associados ao Diabo) e, mais tarde, ciganos.
Acreditava-se que desde o início da criação dos tempos o mundo testemunhava esta luta eterna entre Deus e o Diabo pelas almas dos humanos. Esta luta eterna entre Deus e o Diabo surge a partir da lenda da rebelião de anjos contra a autoridade de Deus-pai, quando Lúcifer, o anjo decaído, lidera uma legião de anjos, arcanjos e querubins numa tentativa frustrada de literalmente "tomar o poder no Paraíso". Derrotado por Deus e pelos anjos e arcanjos que lhe permaneceram fiéis, Lúcifer teria sido banido por Deus para todo o sempre para morar no submundo dos infernos, local sombrio e terrível. Teria sido neste momento que Deus teria punido seu "Anjo de Luz" (este é o significado da palavra Lúcifer) deformando seu corpo e seu rosto, tornando-o uma criatura abominável e repugnante (antes o Arcanjo lúcifer, segundo esta crença, era um rapaz belíssimo). Diz a lenda que quando Deus estava lançando Lúcifer aos infernos este teria dito: "É melhor reinar no inferno do que servir no paraíso!".
Com a descoberta das Américas por Cristóvão Colombo, duas visões se cristalizaram: a primeira dizia que o Novo Mundo era o reino do Anti-cristo na terra; o Diabo estaria dominando os índios e habitando suas almas e corpos; a outra dizia que este continente era o "o Paraíso perdido", local onde Deus teria colocado o primeiro homem e a primeira mulher para viverem em felicidade eterna, antes do pecado original. Com a escravidão dos negros, logo a Igreja (a serviço da coroa) e os senhores brancos se apressaram em associar a figura do Diabo às divindades africanas. O Diabo ganhou uma aparência africanizada (tornando-se um homem negro enorme, numa referência preconceituosa à raça negra em geral), passou a ser chamado também de Exu, Tranca-Rua e outras definições afins, também como consequência, religiões de extração africana, tais como o Candomblé e a Umbanda, no Brasil, também começaram sofrer um tipo de intolerância e/ou preconceito por parte da população cristã do país, especialmente dos protestantes, ao ponto de muitas vezes essas religiões serem até mesmo erroneamente vistas como estando associadas ao satanismo ou à magia negra, o que também perdura até os dias de hoje.
O Diabo em Diferentes Religiões
Judaísmo
No judaísmo dominante, não existe um conceito de Diabo, como existe no cristianismo e no islamismo. As únicas referências claras a Satanás no Antigo Testamento estão nos livros de Zacarias e de Jó.