O ou Peixe Boi Preto (nome científico: Trichechus inunguis), também chamado popularmente como , guaraguá, , , ou , é um mamífero da família dos triquequídeos (Trichechidae) que é encontrado em rios e lagos da bacia do rio Amazonas.
Etimologia Guaraguá é um termo genérico para se referir aos peixes-boi, mas sua origem é controversa. De acordo com o Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi (DHPT), deriva do tupi ïgwara'gwa. Teodoro Sampaio, em O Tupi na Geografia Nacional (TupGN), alega que deriva de guara-guara no sentido de "comilão". Foi registrado em 1587 com goaragoá e em cerca de 1631 como guaragua.Grande Dicionário Houaiss, verbete guaraguá Manati, ou sua variante manatim, tem provável origem caribe e foi difundido pelo espanhol manatí. Foi registrado em 1853 como manahi.Grande Dicionário Houaiss, verbete manati e manatim Por sua vez, seu nome científico Trichechus advém do grego e significa "ter cabelos", enquanto iunguis significa" sem unhas".
Taxonomia e sistemática
Através de datação é possível afirmar que os antepassados dos animais da ordem dos sirênios tiveram sua origem no Eoceno, no qual sua distribuição e diversidade eram superiores, incluindo até mesmo indivíduos carnívoros. A ordem dos sirênios (Sirenia) é atualmente representada por duas famílias com dois gêneros vivos e cinco espécies. O T. inunguis é um dos três representantes da família dos triquequídeos (Trichechidae), juntamente com o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) e o peixe-boi-africano (Trichechus senegalensis), e foi oficialmente identificado no táxon por Johann Natterer em 1883. Inicialmente os peixes-boi foram classificados por Lineu juntamente com outros mamíferos devido a seu peculiar método de locomoção e ausência de incisivos, criando assim o grupo denominado Bruta que incluía os elefantes, bichos-preguiça, pangolins e tamanduás. Seus parentes mais próximos atualmente são os elefantes e hiracoides (Hyracoidea), sendo classificado como penungulado junto com eles em 1945 pelo paleontólogo George Simpson.
Análises filogenéticas discordam sobre a melhor forma de representar a cladística das três espécies do gênero Trichechus, visto que alguns estudos mostram que entre as espécies de peixe-boi ainda existentes, o peixe-boi-da-Amazônia representa a espécie mais basal. Sendo assim, T. manatus e T. senegalensis seriam duas espécies provavelmente derivadas do mesmo ancestral marinho. Essa mesma proposta dita que as espécies marinhas sejam monofiléticas, o que implica numa separação do peixe-boi-da-Amazônia há muito tempo. Da mesma forma, há especulações acerca de uma relação entre o peixe-boi-da-amazônia e o peixe-boi-africano, embora não haja sinapomorfias morfológicas apoiando tal hipótese. O cladograma ilustra as relações filogenéticas entre as espécies de peixe-boi viventes.
Descrição
As faixas de peso e tamanho corporal observadas do peixe-boi-da-Amazônia são 7,5–346 quilos (17–763 libras) e 76,0–225 centímetros (2 pés 5,9 polegadas – 7 pés 4,6 polegadas) para machos cativos, 8,1–379 quilos (18–836 libras) e 71,0 –266 centímetros (2 pés 4,0 polegadas – 8 pés 8,7 polegadas) para fêmeas em cativeiro e 120,0–270 quilos (264,6–595,2 libras) e 162,0–230 centímetros (5 pés 3,8 polegadas – 7 pés 6,6 polegadas) para peixes-boi de vida livre, respectivamente. O peso real máximo do peixe-boi-da-Amazônia relatado é de 379 quilos (836 libras). Os bezerros da espécie nascem pesando 10–15 quilos (22–33 libras) e 85–105 centímetros (33–41 polegadas) de comprimento. Aumenta em comprimento aproximadamente 1,6-2,0 milímetros por dia. Esse comprimento é medido ao longo da curvatura do corpo, de modo que o comprimento absoluto pode diferir entre os indivíduos. Quando bezerros, ganham em média um quilo por semana.
Os peixes-boi-da-Amazônia são grandes mamíferos de forma cilíndrica, com membros anteriores modificados em nadadeiras, sem membros posteriores livres e a parte traseira do corpo na forma de um remo achatado, arredondado e horizontal. As nadadeiras flexíveis são usadas para ajudar no movimento sobre o fundo, arranhar, tocar e até mesmo abraçar outros peixes-boi, mover comida e limpar a boca. Dentre suas características marcantes está a ausência de unhas nas nadadeiras peitorais (membros anteriores), a presença de duas mamas próximas às axilas e manchas brancas na região ventral da maioria dos indivíduos adultos, mesmo tendo a pele variando predominantemente de cinza a preto. Sua pele é ondeada e enrugada, com dobras profundas ao redor da cabeça, na junção das nadadeiras e na base da cauda, a qual também possui espessura entre oito e 16 milímetros coberta por pelos finos, sendo mais numerosos nas nadadeiras. Tem lábios de textura grossa e com numerosas cerdas queratinizadas, mais rígidas na região interna dos lábios e direcionadas ventralmente. O lábio superior é modificado numa grande superfície eriçada, profundamente dividida. Pode mover cada lábio independentemente durante a alimentação.
Tal espécie animal é classificada como selenodonte, tendo em vista a fórmula dental , sendo seus dentes molares paralelos à margem da língua, característico de herbívoros, à maceração de fibras duras. Ademais, ao nascerem possuem incisivos que permanecem submersos na gengiva, logo não são funcionais. Tendo em vista os dentes molares, são continuamente substituídos (polifiodontes) horizontalmente da porção caudal da mandíbula à porção rostral ao longo da vida, uma característica única entre os mamíferos. Apenas o parente vivo mais próximo dos sirênios, os elefantes, mostram característica semelhante de substituição de dentes, mas os elefantes têm um conjunto limitado desses dentes de substituição. À medida que os dentes migram rostralmente no peixe-boi, as raízes serão reabsorvidas e o esmalte fino se desgastará até que o dente finalmente caia. Chamados de dentes da bochecha, a diferenciação dos dentes do peixe-boi em molares e pré-molares não ocorreu, e os peixes-boi também não possuem incisivos ou caninos. Esses dentes migram a uma taxa de cerca de 1–2 milímetros por mês, com base nas taxas de desgaste e mastigação. Além disso, as espécies do gênero Trichechus contam com aproximadamente cinquenta vértebras agrupadas em: seis cervicais, dezessete torácicas, três lombares e vinte e quatro caudais. Ossos pélvicos são ausentes.
A escápula do peixe-boi-da-Amazônia é estreita, formando a cintura peitoral, o esterno constitui-se de um único osso e por um processo lateral está dirigido para trás. Compondo o membro anterior, ou seja, a nadadeira peitoral, está o úmero que nesses animais é fino e leve, ao contrário de outras espécies de peixe-boi, em que ele é pesado, tendo 22,3 centímetros de comprimento. Conectados a esses ossos, estão outros curtos e quase que dos mesmo tamanho, o rádio e a ulna, com os quais quatro e um elemento que constituem o carpo estão articulados, respectivamente. Conectados ao carpo estão cinco metacarpos, que diferentemente de outras espécies do gênero Trichechus, são mais compridas e como dito anteriormente, em suas extremidades as unhas estão ausentes. Seu crânio na fase adulta podem medir 360 milímetro. Os ossos nasais tem forma de discos losângicos medindo de três a seis milímetros de grossura, estendidos posteriormente, enquanto que os ossos temporais são direcionados lateralmente. Algumas diferenças entre o crânio do peixe-boi-da-amazônia e do peixe-boi-africano podem ser citadas: o forame parietal está ausente no peixe-boi-da-amazônia, o qual também possui uma sutura sagital pouco desenvolvida e o forame magno estreito, quando comparado ao peixe-boi-africano.
miniaturadaimagem|567x567px|Esqueleto ósseo de um sirênio|centro
O canal nasal e a laringe formam um tubo contínuo até os pulmões, os quais são longos e cilíndricos, enquanto que o diafragma estende-se horizontalmente atrás dos rins, próximo a terceira costela indo até a pelve. Cabe também dizer que o coração, pulmões e rins se encontram numa câmara superior, e numa inferior a bexiga, fígado, estômago e intestino, o qual tem aproximadamente 15 metros. A temperatura corporal é instável variando entre 33 e 37 ºC. Com relação a genética, seu cariótipo é constituído de cinquenta e seis cromossomos. O peixe-boi-da-amazônia apresenta diferenças entre o macho e a fêmea, considerando sua forma corporal, exceto em seu tamanho. Nas fêmeas a abertura urogenital se encontra na região ventral, próxima e anterior ao ânus. Essa abertura está ligada à vagina por uma estrutura denominada vestíbulo, canal conectado ao trato reprodutivo e urinário. Tanto à vagina quanto o vestíbulo possuem dobras que aumentam o tamanho dessas estruturas durante o acasalamento e, após a remoção do pênis, diminuem, controlando a entrada de água no útero. Os machos possuem testículos achatados, estendendo-se da massa muscular pélvica até a base do abdome, não alterando de tamanho, sendo a cópula dependente da glande.
Além disso, o peixe-boi-da-amazônia tem um grau muito pequeno de deflexão rostral (30,4°), que pode ser usado como uma indicação de onde na coluna d'água o animal se alimenta. Um pequeno grau de deflexão significa que a extremidade do focinho é mais reta em relação à porção caudal da mandíbula. Animais com um maior grau de deflexão, como o dugongo (Dugong dugon) em cerca de 70° de deflexão, são espécies mais bentônicas, alimentam-se do fundo do mar e têm focinhos que apontam quase completamente para o ventre. Apenas o peixe-boi-africado tem deflexão rostral menor de cerca de 25,8°. Acredita-se que isso maximize a eficiência da alimentação. Um pequeno grau de deflexão rostral permite que os peixes-boi-da-amazônia se alimentem mais efetivamente na superfície da água, onde grande parte de sua comida é encontrada.
Ecologia
O peixe-boi-da-Amazônia é endêmico da bacia amazônica e o único sirênio que vive exclusivamente em habitat de água doce. A espécie depende de mudanças na circulação periférica para seu principal mecanismo de termorregulação, usando esfíncteres para desviar o fluxo sanguíneo de áreas do corpo em contato próximo com a água. Eles também contam com gordura subcutânea para reduzir a perda de calor. Têm narinas, não respiradouros como outros mamíferos aquáticos, que fecham quando estão debaixo d'água para manter a água fora e abrem quando estão acima da água para respirar. Embora possam permanecer debaixo d'água por longos períodos, é comum subir à superfície para respirar a cada cinco minutos. A submersão mais longa documentada de um espécime em cativeiro é de 14 minutos.
Os peixes-boi-da-Amazônia fazem movimentos sazonais migratórios sincronizados com o regime de cheias e secas da bacia do rio Amazonas. Eles são encontrados nas áreas de várzeas durante a estação das cheias, que apresentam maior diverisdade e abundância de macrófitas aquáticas de alta qualdiade nutricional . Tem o menor grau de deflexão rostral (25° a 41°) entre os sirênios, uma adaptação para se alimentar mais perto da superfície da água. No período de vazante, os peixes-bois deslocam-se para ambientes de igapó em busca de refúgio, permanecendo o período de seca. É noturno e diurno e vive sua vida quase inteiramente debaixo d'água. Apenas suas narinas se projetam da superfície da água enquanto procura vegetação no fundo de rios e lagos. Os peixes-boi da Amazônia e das Índias Ocidentais são os únicos peixes-boi conhecidos por vocalizar. Foram observados vocalizando sozinhos e com outros indivíduos, particularmente entre fêmeas e seus filhotes.