Engenheiros do Hawaii foi uma banda brasileira de rock formada no início de 1985 na cidade de Porto Alegre. Com a exceção de um pequeno hiato no final de 1996 e início de 1997, o grupo esteve na ativa até abril de 2008, quando foi anunciada uma "pausa por tempo indeterminado". Em todo esse período, foi liderado pelo multi-instrumentista Humberto Gessinger, único membro a permanecer em todas as formações da banda. Com mais de 20 discos lançados — entre álbuns de estúdio, ao vivo, coletâneas e álbuns de vídeo —, conquistou mais de uma dezena de certificações por vendagem, com mais de 3 milhões de discos vendidos. Também, em todo o período de atividade, mais de 15 músicos fizeram parte da banda, sendo os mais conhecidos — fora Gessinger — Carlos Stein, Marcelo Pitz, Carlos Maltz, Augusto Licks, Adal Fonseca, Luciano Granja e Lucio Dorfman.

O grupo iniciou a carreira em 1985, na cidade de Porto Alegre e, no ano seguinte, lançou seu primeiro álbum, Longe Demais das Capitais, que já conseguiu uma certificação. A formação inicial do grupo lançou apenas este disco. Em 1987, a entrada de Augusto Licks na guitarra produziu a formação mais estável e de maior sucesso da banda, alcunhada de GLM e durou até novembro de 1993, mudando o patamar do grupo que se tornou o principal nome do rock nacional. Nos anos seguintes, a banda experimentaria diversas mudanças de instrumentistas, que passaram a ser músicos contratados e não membros igualitários a Humberto, único remanescente em todas as formações da banda. A partir de 2004, o grupo lançou dois discos acústicos em sequência, ficando em turnê neste formato até o seu fim, em abril de 2008.

História

1984–1985: Formação inicial No final de 1984, aconteceu uma greve dos professores que paralisou as aulas na Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Por esta ocasião, as aulas estenderam-se para o ano seguinte, obrigando os estudantes a inventarem maneiras de se divertirem no verão porto-alegrense, já que, normalmente, as famílias de classe média e média alta — faixa de renda da maioria dos estudantes naquela época — viajavam para as praias de Santa Catarina. Uma das ideias para isto, foi a promoção de um show da banda de rock de um dos estudantes (chamada Ritual). Logo, surgiu entre os estudantes que organizavam a apresentação a ideia de abrir o espetáculo com a apresentação de uma banda formada somente pelo pessoal que estudava arquitetura. Assim, um dos organizadores — Carlos Maltz, que tocava bateria e já havia participado de outras bandas — resolveu ir atrás dos alunos que ele sabia que tocavam algum instrumento. Foi assim que ele recrutou Carlos Stein (guitarra) — que ele conhecia por já terem tocado juntos; Humberto Gessinger (vocal e guitarra) — que Maltz só conhecia de vista, mas admirava intelectualmente; e Marcelo Pitz (baixo) — que tinha vindo recomendado por ter tocado em bandas pela noite de Porto Alegre.

Enquanto se preparavam, veio a notícia de que a atração principal — a banda Ritual — havia perdido o vocalista. Sendo assim, o show deles seria instrumental e ficou acordado que não poderia ser o evento principal. Logo, inverteu-se a ordem das apresentações. O grupo fez, no máximo, 2 ou 3 ensaios antes do show. Humberto desistiu das canções que havia escrito na adolescência e que guardava em uma velha pasta e decidiu compor músicas novas, mais adequadas ao espírito daquele show - que deveria ser o único da banda. O nome do grupo foi escolhido a partir de uma lista que Humberto produziu e da qual ele preferia Frumelo & Os 7 Belos, fazendo referência a duas marcas de balas muito vendidas à época. Entretanto, a maioria da banda preferiu o nome Engenheiros do Hawaii, tirado de uma das canções que eles apresentariam e que tirava sarro dos estudantes de engenharia civil - com quem tinham uma certa rivalidade - e que visitavam o bar frequentado pelo pessoal da Arquitetura atrás das meninas, muito mais numerosas neste curso do que no outro naquela época.

Os colegas que ficaram responsáveis pela produção e divulgação da apresentação investiram bastante tempo, o que ficou patente pelo comparecimento do público — testemunhas oculares falam em mais de 500 pessoas — e pela divulgação no jornal Zero Hora de uma nota que informava sobre a realização do espetáculo. O festival aconteceu em 11 de janeiro de 1985, mesmo dia do início do primeiro Rock in Rio. A agora banda de abertura, Ritual, tocou 12 músicas em um show que durou aproximadamente 45 minutos. Na sequência, entram os Engenheiros com um visual completamente assimétrico, anunciando a união de elementos díspares pela qual o grupo ficaria conhecido: cabelos estilo new wave, camisas floridas havaianas e bombachas.

O repertório do primeiro show já mostrava uma certa ousadia da banda que, apesar de ter sido montada para durar apenas aquela apresentação, tocou 11 músicas, sendo que 6 eram autorais. E mesmo os covers compunham-se de uma música instrumental (o tema do seriado Hawaii Five-O, uma espécie de piada com o nome da banda), dois jingles (do biscoito Sem Parar e do Extrato de tomate Elefante), e apenas duas canções de música popular: "Lady Laura", de Roberto Carlos; e "Rebelde sem Causa", do Ultraje a Rigor. Entre as músicas autorais ("Spravo", "Porto Alegre", "Eu Não Sei", "Marta", "História" e "Engenheiros do Hawaii"), apenas "Spravo", "Engenheiros do Hawaii" e "História" teriam registros em gravações da futura banda: as duas primeiras seriam registradas nas demos que antecederam as gravações do primeiro disco e chegariam a tocar nas rádios gaúchas; a segunda tornaria-se a canção "e-Stória", do disco Surfando Karmas & DNA, lançado em 2002. Com esta formação em quarteto, o grupo faria apenas mais um show, em fevereiro, no mesmo local, só que, desta vez, abrindo para a banda Os Eles. Carlos Stein viajou com a família de férias após este show e a banda achou que soava melhor como trio, levando à saída do guitarrista. A banda passou a tocar em diversos lugares da capital gaúcha: a maioria salões dos centros acadêmicos das faculdades locais, mas, também, alguns poucos bares e boates, onde conhecem Júlio Reny - abrindo para a sua banda - e Augusto Licks - que trabalhou como técnico de som em uma das apresentações.

1985–1986: Reconhecimento local e demos A partir de abril de 1986, o grupo começa a gravar demos e enviá-las às rádios da capital, especialmente à Ipanema FM, que aceitava tocar na sua programação canções não gravadas de modo profissional. Assim, gravam seis músicas: "Causa Mortis" e "Engenheiros do Hawaii", em abril; "Spravo", em maio; "Segurança", em junho; e "Nada a Ver" e "Sopa de Letrinhas", em julho. "Spravo", "Segurança" e "Sopa de Letrinhas" se tornam hits locais e o grupo passa a excursionar também pelo interior do estado, algo que a maioria das bandas gaúchas da capital não fazia. Com a movimentação que provocavam pelos shows que faziam e pelas músicas que tocavam nas rádios, receberam um convite para participarem do Rock Unificado, festival de bandas que aconteceria no ginásio Gigantinho, no dia 11 de setembro de 1985. Este festival foi muito importante para a cena local, marcando o início da nacionalização do rock gaúcho. Dez bandas se apresentaram e um olheiro da RCA, presente ao espetáculo, selecionou 4 delas - mais o DeFalla, que não participou do show - para participarem de uma coletânea que seria lançada nacionalmente, Rock Grande do Sul.

Os Engenheiros estavam entre as bandas selecionadas. No final daquele ano, as bandas viajaram aos estúdios da gravadora para registrarem 2 canções cada para a coletânea. Enquanto DeFalla e TNT gravaram suas participações no Rio de Janeiro, Engenheiros, Os Replicantes e Garotos da Rua foram para São Paulo. Aquilo fez diferença no resultado final: as duas primeiras bandas tiveram menos liberdade artística por estarem mais perto da matriz da gravadora, que também ficava naquela cidade. Em São Paulo, as bandas foram produzidas por Luiz Carlos Maluly — que teve de abandonar a produção pela metade — e Reinaldo Barriga. Como era um produtor mais novo, Barriga deixou que as bandas ficassem mais soltas no estúdio e permitiu algumas experimentações: os Engenheiros, por exemplo, tiveram a autorização para adicionar acordeão na introdução de "Segurança". As gravações ocorreram em 4 dias de novembro daquele ano e a banda teve que utilizar instrumentos emprestados da gravadora para tal: a primeira guitarra profissional de Humberto só seria comprada no final do ano, por exemplo, e ele continuava utilizando sua Giannini semiacústica.

Antes dessa gravação, em 26 de setembro de 1985, a banda ainda gravou outra demo no estúdio da ISAEC, em Porto Alegre, com 7 faixas: "Toda Forma de Poder", "Longe Demais das Capitais", "Nossas Vidas", "Todo Mundo É uma Ilha", "Fé Nenhuma" e novas versões de "Nada a Ver" e "Spravo". O lançamento do disco coletivo, no final de janeiro de 1986, deu oportunidade para a banda tocar pela primeira vez fora do Rio Grande do Sul: foram 3 shows em março, feitos em boates de São Paulo, além de uma aparição no Clube do Bolinha. O lançamento do disco também mostrou quais eram as bandas em quem a gravadora mais apostava: Engenheiros teve suas músicas escolhidas como a primeira do Lado A e a segunda do Lado B; Os Replicantes colocou "Surfista Calhorda" como segunda do primeiro lado; e, finalmente, os Garotos da Rua saíram com "Tô de Saco Cheio" abrindo a segunda parte. Junto com o lançamento, a banda produziu um videoclipe de modo praticamente artesanal para a música "Sopa de Letrinhas".

1986–1987: Longe Demais das Capitais A partir de maio, eles começaram a gravar o seu álbum de estreia, Longe Demais das Capitais, nos estúdios da RCA em São Paulo, com produção do mesmo Reinaldo Barriga que produziu as músicas do grupo na coletânea. Enquanto isso, a banda continuava fazendo seus shows. Os mais importantes foram quatro noites em setembro, no Teatro Presidente. A série de shows deveria ser o lançamento do disco — e da turnê Toda Forma de Tour, mas o álbum teve o seu lançamento atrasado e acabou saindo apenas em outubro. A gravadora investiu na divulgação do disco tanto que, em 30 de outubro, o clipe de "Sopa de Letrinhas" foi exibido na grade de programação da MTV americana, sendo o primeiro vídeo musical de rock brasileiro a ser exibido naquele canal. Na mesma semana, a banda gravou outro videoclipe, para a canção "Toda Forma de Poder", que a gravadora estava lançando como single. Ainda, a música foi incluída na trilha sonora da novela Hipertensão, da TV Globo, exibida entre outubro daquele ano e abril do ano seguinte. Com esta divulgação e com a participação da banda em diversos programas de TV, o disco seria um sucesso nacional, vendendo mais de 130 mil cópias no ano de seu lançamento e rendendo o primeiro disco de ouro do grupo.

A turnê que começou em setembro durou 9 meses, acabando com o último show em Garibaldi, no dia 20 de junho de 1987: este seria o último show do grupo com Marcelo Pitz no baixo. Porém, a sua saída já estava decidida desde abril e o seu substituto — o guitarrista Augusto Licks — já ensaiava com a banda desde o dia 8 de junho. Inclusive, a informação sobre a troca seria publicada na imprensa gaúcha dois dias antes. Muita controvérsia paira em torno da saída do baixista dos Engenheiros. Desde o início, sempre ficou claro que Pitz não era da mesma "turma" que Humberto e Carlos. O baixista já havia sido hippie e punk antes de entrar para a banda. Além disso, já havia tocado em uma banda de jazz e tinha mais experiência musical com seu instrumento do que Maltz e Gessinger. O próprio baixista chegou a dar duas declarações sobre sua saída: logo após a saída, ele disse que era uma "saída amigável" e que havia diferenças musicais, sendo que cada um estava com algo diferente na cabeça; 4 anos depois, ele alegou que havia muita disputa e concorrência no ambiente da música pop e que "não estava a fim daquele tipo de vida".