As aranhas (ordem Araneae) são artrópodes de respiração aérea que possuem oito membros, quelíceras com presas geralmente capazes de injetar veneno, e fieiras que expelem seda. Constituem a maior ordem dos aracnídeos e ocupam o sétimo lugar em diversidade total de espécies entre todas as ordens de organismos. As aranhas são encontradas em todos os continentes, exceto na Antártida, e estabeleceram-se em praticamente todos os habitats terrestres. Em maio de 2026, espécies de aranhas em 139 famílias foram registradas por taxonomistas. Contudo, há divergências entre os cientistas sobre como as famílias devem ser classificadas, tendo sido propostas mais de 20 classificações diferentes desde 1900.
Do ponto de vista anatômico, as aranhas (assim como todos os aracnídeos) diferem dos demais artrópodes porque os segmentos corporais usuais estão fundidos em dois tagmas: o cefalotórax ou prossoma e o opistossoma, ou abdome, unidos por um pequeno pedicelo. Contudo, como atualmente não há evidência paleontológica ou embriológica de que as aranhas tenham possuído uma divisão semelhante a um tórax separada, existe um argumento contra a validade do termo cefalotórax, que significa um céfalo (cabeça) fundido ao tórax. De modo semelhante, podem ser levantados argumentos contra o uso do termo "abdome", já que o opistossoma de todas as aranhas contém um coração e órgãos respiratórios, órgãos atípicos de um abdome.
Ao contrário dos insetos, as aranhas não possuem antenas. Em todos os grupos, exceto no mais primitivo, as mesotelas, as aranhas possuem os sistemas nervosos mais centralizados entre todos os artrópodes, já que todos os seus gânglios estão fundidos em uma única massa no cefalotórax. Diferentemente da maioria dos artrópodes, as aranhas não possuem músculos extensores nos membros e, em vez disso, os estendem por pressão hidráulica. Os abdomes apresentam apêndices modificados em fieiras, que expelem seda de até seis tipos de glândulas. As teias de aranha variam amplamente em tamanho, forma e quantidade de fios pegajosos utilizados. Atualmente, parece que a teia orbicular espiral pode ser uma das formas mais antigas, e as aranhas que produzem teias irregulares e emaranhadas são mais abundantes e diversificadas do que as aranhas-tecedeiras. Aracnídeos semelhantes a aranhas com espiches produtores de seda (Uraraneida) apareceram no Devoniano, há cerca de 386 milhões de anos, mas aparentemente esses animais não possuíam fieiras. Aranhas verdadeiras foram encontradas em rochas do Carbonífero datadas de 318 a 299 milhões de anos e são muito semelhantes à mais primitiva subordem ainda existente, as mesotelas. Os principais grupos de aranhas modernas, migalomorfas e araneomorfas, surgiram pela primeira vez no Triássico, há mais de 200 milhões de anos.
A espécie Bagheera kiplingi foi descrita como herbívora em 2008, mas todas as demais espécies conhecidas são predadoras, alimentando-se principalmente de insetos e outras aranhas, embora algumas espécies grandes também capturem aves e lagartos. Estima-se que 25 milhões de toneladas de aranhas matem entre 400 e 800 milhões de toneladas de presas todos os anos. As aranhas utilizam numerosas estratégias para capturar presas: aprisioná-las em teias pegajosas, capturá-las com laços pegajosos, imitar a presa para evitar detecção ou persegui-la diretamente. A maioria detecta presas principalmente pela percepção de vibrações, mas os caçadores ativos possuem visão aguçada, e os caçadores do gênero Portia demonstram sinais de inteligência na escolha de táticas e capacidade de desenvolver novas estratégias. Os intestinos das aranhas são estreitos demais para ingerir sólidos, então elas liquefazem o alimento inundando-o com enzimas digestivas. Elas também trituram o alimento com as bases dos pedipalpos, pois os aracnídeos não possuem mandíbulas como as de crustáceos e insetos.
Para evitar serem devorados pelas fêmeas, geralmente muito maiores, os machos identificam-se como parceiros potenciais por meio de diversos rituais complexos de cortejo. Os machos da maioria das espécies sobrevivem a poucos acasalamentos, limitados principalmente por sua curta expectativa de vida. As fêmeas tecem ootecas de seda, cada uma das quais pode conter centenas de ovos. As fêmeas de muitas espécies cuidam dos filhotes, por exemplo carregando-os ou compartilhando alimento com eles. Uma minoria das espécies é social, construindo teias comunais que podem abrigar desde alguns até 50 mil indivíduos. O comportamento social varia desde tolerância precária, como nas viúvas-negras, até caça cooperativa e compartilhamento de alimento. Embora a maioria das aranhas viva no máximo dois anos, tarântulas e outras aranhas migalomorfas podem viver mais de 20 anos.
Embora o veneno de algumas espécies seja perigoso para os humanos, cientistas atualmente pesquisam o uso do veneno de aranha na medicina e como pesticida não poluente. A seda de aranha apresenta uma combinação de leveza, resistência e elasticidade superior à de materiais sintéticos, e genes de seda de aranha foram inseridos em mamíferos e plantas para verificar se estes poderiam ser usados como fábricas de seda. Como resultado de sua ampla variedade de comportamentos, as aranhas tornaram-se símbolos comuns na arte e na mitologia, simbolizando diversas combinações de paciência, crueldade e poderes criativos. O medo irracional de aranhas é chamado de aracnofobia.
Etimologia A palavra aranha originou-se no latim aranĕa,ae em sentido próprio, mas também com o sentido de "teia de aranha" (Plínio, o Velho) e "fio muito fino". Foi registrada no como aranna e no como arãha como aranha.
Anatomia e fisiologia Plano corporal As aranhas são quelicerados e, portanto, artrópodes. Como artrópodes, possuem: corpos segmentados com membros articulados, todos recobertos por uma cutícula composta de quitina e proteínas e cabeças compostas por vários segmentos que se fundem durante o desenvolvimento do embrião. Por serem quelicerados, seus corpos consistem em dois tagmas, conjuntos de segmentos que desempenham funções semelhantes: o primeiro, chamado cefalotórax ou prossoma, é uma fusão completa dos segmentos que em um inseto formariam dois tagmas separados, a cabeça e o tórax. O tagma posterior é chamado abdome ou opistossoma. Nas aranhas, o cefalotórax e o abdome estão conectados por uma pequena seção cilíndrica, o pedicelo. O padrão de fusão dos segmentos que forma a cabeça dos quelicerados é único entre os artrópodes, e o que normalmente seria o primeiro segmento cefálico desaparece em um estágio inicial do desenvolvimento, de modo que os quelicerados não possuem as antenas típicas da maioria dos artrópodes. Na verdade, os únicos apêndices dos quelicerados situados à frente da boca são um par de quelíceras, e eles carecem de qualquer estrutura que funcione diretamente como "mandíbulas". Os primeiros apêndices atrás da boca são chamados pedipalpos e desempenham funções diferentes nos distintos grupos de quelicerados.
Aranhas e escorpiãos pertencem a um grupo de quelicerados, os aracnídeos. As quelíceras dos escorpiões possuem três segmentos e são utilizadas na alimentação. As quelíceras das aranhas apresentam dois segmentos articulados distintos e terminam em presas, que normalmente apresentam ductos internos capazes de injetar veneno, articulando-se distalmente para trás quando não estão em uso. Ambos os lados das quelíceras costumam apresentar dentes cuticulares, que são usados para prender e macerar as presas capturadas. As quelíceras exercem também outras funções dependendo do grupo de aranhas, incluindo em escavar buracos, carregar bolsas de ovos ou presas, e participar no acasalamento. Normalmente, os machos possuem as quelíceras maiores do que as fêmeas. De acordo com sua articulação, elas classificam-se como "ortógnatas" (paralelas, que se movem somente no plano longitudinal), "labidógnatas" (opostas, movendo-se no plano transversal) ou "plagiógnatas" (disposição intermédia entre as anteriores). Os pedipalpos dos escorpiões geralmente formam grandes pinças para capturar presas, enquanto os das aranhas são apêndices são apêndices relativamente pequenos, cujas bases atuam como se fossem uma extensão da boca. Morfologicamente, assemelham-se a pernas, porém não apresentam o segmento correspondente ao metatarso. Os pedipalpos das aranhas podem apresentar modificações importantes; por exemplo, nos machos as últimas seções são maiores do que nas fêmeas, para utilização na transferência de esperma. As coxas dos pedipalpos, denominadas de enditos ou mesmo maxilas, são estruturas modificadas para participarem no processo de trituração dos alimentos; as secções superiores costumam apresentar cerdas longas que filtram pedaços sólidos, uma vez que aranhas apenas se podem alimentar de alimentos liquefeitos.
Descendo em direção às quelíceras, a área entre a fileira anterior de olhos e o final da carapaça é designada por clípeo. Nas aranhas, o cefalotórax e o abdome são unidos por um pequeno pedicelo cilíndrico, que permite ao abdome mover-se independentemente durante a produção de seda. A superfície superior (dorso) do cefalotórax é coberta por uma única carapaça convexa, enquanto a face inferior (ventre) é coberta por duas placas relativamente planas: o esterno e o lábio. A carapaça dorsal possui uma linha divisória chamada de sulco cervical, ou fóvea torácica, que delimita a fronteira entre o final do tórax a base da cabeça funcional. O abdome é mole e possui formato ovalado. Não apresenta sinais de segmentação, exceto nas primitivas mesotelas, cujos representantes vivos são os Lifistiídeos, que possuem placas segmentadas na superfície dorsal.
Sistema nervoso central O sistema nervoso central básico dos artrópodes consiste em um par de cordões nervosos que percorrem a região abaixo do intestino, com gânglio nervosos pareados atuando como centros locais de controle em todos os segmentos; o cérebro é formado pela fusão dos gânglios dos segmentos cefálicos situados à frente e atrás da boca, de modo que o esôfago fica circundado por esse conglomerado de gânglios. Exceto nas primitivas mesotelas, das quais os lifistiídeos são a única família sobrevivente, as aranhas possuem um sistema nervoso muito mais centralizado, típico dos aracnídeos: todos os gânglios dos segmentos localizados atrás do esôfago são fusionados, de modo que o cefalotórax é amplamente preenchido por tecido nervoso e não há gânglios no abdome; nas mesotelas, os gânglios do abdome e da porção posterior do cefalotórax permanecem não fusionados. Apesar do sistema nervoso central relativamente pequeno, algumas aranhas (como Portia) exibem comportamento complexo, incluindo a capacidade de utilizar tentativa e erro.
Órgãos sensoriais Olhos miniatura|esquerda|Esta aranha-saltadora possui os ocelos principais (par central) altamente desenvolvidos; o par externo corresponde aos "olhos secundários", havendo ainda outros pares de olhos secundários nas laterais e no topo da cabeça