A Junta das Obras Públicas (1763-1834) foi uma entidade criada pelo rei D. José I que, com amplos poderes, era responsável pela promoção e controlo da urbanização do Porto, em Portugal, e que operou uma autêntica revolução na cidade. À frente dos destinos da Junta das Obras Públicas estiveram João de Almada e Melo e o seu filho Francisco de Almada e Mendonça.
Até meados do a vida urbana portuense ficou quase confinada aos limites da Muralha Gótica estendendo-se ainda ao longo das vias de ligação aos pequenos núcleos das paróquias rurais e aos centros piscatórios da margem do Douro. No entanto, a segunda metade do século trouxe novas transformações urbanísticas e arquitetónicas que irão alterar profundamente o aspeto da cidade. Foram fatores decisivos para o desencadear desta nova fase o crescimento rápido da população citadina, uma conjuntura económica favorável ligada à atividade mercantil—nomeadamente ao comércio e à exportação do vinho do Porto como resultado da crescente importância da produção vinícola e da criação da Companhia da Agricultura do Alto Douro—e ainda a nomeação de João de Almada e Melo como comandante militar.
Criada por iniciativa do Marquês de Pombal, primeiro-ministro do rei D. José I, em 1763, a Junta de Obras Públicas estendeu ao Porto as medidas de exceção então em uso em Lisboa para reconstruir a cidade na sequência da devastação do Terramoto de 1755. João de Almada e Melo foi colocado à frente da Junta, financiada localmente pela imposição de um novo imposto lançado sobre o comércio do vinho: um real por cada quartilho (meio litro) de vinho. Deste modo, centralizou-se num único departamento todo o desenvolvimento urbanístico da cidade, que incluía membros da Câmara Municipal do Porto, apoiados por engenheiros militares e, mais tarde, por arquitetos encarregados dos trabalhos.
A ação da Junta introduziu uma abordagem racional na conceção da cidade, defendendo aspetos como a luz, a higiene e a salubridade. Segundo estes novos conceitos urbanísticos, as construções deviam obedecer a planos rigorosos em que se privilegiava o conjunto arquitetónico e não o edifício isolado. O risco das novas ruas era acompanhado pelo desenho dos alçados a edificar. Estas áreas constituem, ainda hoje, paradigma de coerência e equilíbrio na relação rua-conjunto edificado.
O plano almadino pretendia renovar a cidade antiga e ordenar o crescimento para fora da Cerca Fernandina que, sobretudo desde meados do , estava a realizar-se de uma forma espontânea e caótica. Visava ainda redefinir as principais vias de acesso tornando-as desafogadas. São disso exemplos as Ruas de Cedofeita, de Santa Catarina, Direita (hoje de Santo Ildefonso), do Reimão (atual Avenida Rodrigues de Freitas), dos Quartéis (agora Rua de D. Manuel II), a Calçada da Natividade (Rua dos Clérigos), a Rua Nova das Hortas (troço inicial da Rua do Almada), o Passeio das Virtudes.
Da concretização deste plano resultaram: novas praças como a Praça de São Roque entre a Rua do Souto e a Rua das Flores (desaparecida um século mais tarde, aquando da construção da Rua de Mouzinho da Silveira); a renovação da Praça da Ribeira; a abertura de ruas amplas e com passeios como a Rua de São João; realinhamentos de fachadas e ruas antigas. Surgem também novas preocupações com os espaços públicos, de que são exemplos as alamedas voltadas para o rio Douro, como as das Virtudes, das Fontainhas ou de Massarelos.
O plano urbanístico de João de Almada para a cidade do Porto—um dos primeiros planos de conjunto a aparecer na Europa—criou um novo e importante eixo citadino que partia da Praça da Ribeira, seguia pela Rua de São João, Largo de São Domingos, Rua das Flores, Rua Nova das Hortas e Rua do Almada até ao Campo de Santo Ovídio (atual Praça da República).
A segunda metade do foi também a época da construção de grandes edifícios representativos da arquitetura neoclássica de influência inglesa que se prolongaria ainda pelo : Casa da Feitoria Inglesa Edifício da Cadeia e Tribunal da Relação Hospital de Santo António Edifício da Real Casa Pia, mais tarde ocupado pelo Governo Civil Edifícios do lado poente da Praça da Ribeira Arcos abertos no "Muro da Ribeira" Edifício da antiga Real Academia da Marinha e do Comércio, hoje Reitoria da Universidade do Porto Igreja dos Terceiros de São Francisco, ao lado da Igreja de São Francisco Igreja da Lapa Igreja da Trindade Igreja de Nossa Senhora da Vitória Edifício da Alfândega Nova Convento de Santo António da Cidade, hoje edifício da Biblioteca Pública Municipal do Porto.
Entretanto, desde finais do começou-se a demolir progressivamente a velha Muralha Fernandina, uma resposta da época à crescente expansão urbana.
Em 1804, quando faleceu Francisco de Almada e Mendonça e a Junta das Obras Públicas foi finalmente extinta, a cidade do Porto era já outra, desencravada da medievalidade que a caracterizava quatro décadas antes.
Categoria:História da Área Metropolitana do Porto Categoria:História do Porto