Agustina Bessa-Luís, nome literário de Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa GOSE • GCSE (Amarante, Vila Meã, 15 de outubro de 1922 — Porto, 3 de junho de 2019) foi uma escritora portuguesa.O assento de nascimento refere Travanca como local de nascimento. Contudo, a própria Agustina Bessa-Luís afirma ter nascido numa casa de Vila Meã, onde se situava o domicílio familiar.

Biografia Infância e juventude Segunda e ultimogénita filhaJosé Artur Teixeira Bessa, seu irmão mais velho. do empresário Artur Teixeira Bessa (1882-1964), duma família rural de Entre Douro e Minho, e de sua mulher Laura Jurado Ferreira (1899-?), que era filha de pai Português, Lourenço Guedes Ferreira, Engenheiro dos Caminhos de Ferro, e de mãe Espanhola, sua mulher Lourença Agustina Jurado Franco, nascida em Zamora.Círculo Literário Agustina Bessa-Luís

Regressado a Portugal, o pai de Agustina, que já no Brasil se dedicara à exploração de casas de espectáculo e de jogo, tornou-se gerente do Casino da Póvoa. As contingências da sua vida levaram a família a viver em vários lugares do Norte e do Douro — Gaia, Porto, Póvoa de Varzim, Águas Santas, Outeiro Maior, Vila do Conde e Godim, naquela que era a casa de família da sua mãe. A relação com a região duriense, durante largas temporadas da sua infância e adolescência, marcaria de forma indelével a obra da escritora.

Desde muito jovem que Agustina se interessou por livros, descobrindo na biblioteca do avô materno, os clássicos da literatura espanhola, francesa e inglesa, marcantes na sua formação literária. Em 1932 vai para o Porto estudar, onde passa parte da adolescência, mudando-se para Coimbra em 1945. A partir de 1950 fixa definitivamente a sua residência no Porto.

Casou a 25 de julho de 1945, na cidade do Porto, com o estudante de Direito Alberto Luís, que conheceu através de um anúncio no jornal "O Primeiro de Janeiro", publicado pela escritora, no qual procurava uma pessoa culta com quem se corresponder. Do seu casamento teve uma única filha, Mónica Bessa-Luís Baldaque, museóloga, pintora e autora de vários livros. Do casamento de sua filha, nasceram um filho chamado Alberto e duas filhas chamadas Leonor e Lourença Agustina.

Actividade literária Estreou-se como uma brilhante romancista em 1949, ao publicar a novela Mundo Fechado, mas seria o romance A Sibila, publicado em 1954 que constituiu um enorme sucesso e lhe trouxe imediato reconhecimento geral. E é com A Sibila que atinge a total maturidade do seu processo criativo.

É conhecido o seu interesse pela vida e obra de um dos grandes expoentes da escola romântica, Camilo Castelo Branco, cuja herança se faz sentir quer a nível temático (inúmeras obras de Agustina se relacionam com a sociedade de Entre Douro e Minho), quer a nível da técnica narrativa (explorou ficcionalmente a própria vida de Camilo). Essa filiação associa Agustina à corrente neo-romântica, como defende Eduardo Lourenço."(…) estas novas terras romanescas entreabertas pela passagem de Sibila bem podem receber o nome de neo-românticas", Sobre Agustina, in O Canto do Signo, Existência e Literatura (1957-1993), Lisboa: Presença 1994, 162.

Vários dos seus romances foram adaptados ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira, com quem manteve uma relação de amizade e de colaboração próxima. Exemplos desta parceria são Fanny Owen (Francisca, 1981), Vale Abraão (filme homónimo, 1993), As Terras do Risco (O Convento, 1995) ou A Mãe de um Rio (Inquietude, 1998). Foi também autora de peças de teatro e guiões para televisão, tendo o seu romance As Fúrias sido adaptado para teatro e encenado por Filipe La Féria, (Teatro Nacional D. Maria II, 1995).

A sua criação era extremamente fértil e variada. Escreveu mais de cinquenta obras, entre romances, contos, peça de teatro|peças de teatro, biografias romanceadas, crónicas de viagem, ensaios e livros infantis. Foi traduzida para alemão, castelhano, dinamarquês, francês, grego, italiano e romeno. A Sibila já atingiu a vigésima quinta edição, sendo de leitura opcional no Ensino Secundário.

Em 2005, participou no programa da RTP Ela por Ela, série de 13 episódios sobre provérbios e aforismos, em conversa com Maria João Seixas, realizado por Fernando Lopes.

Em julho de 2006, pouco depois de terminar a sua última obra, A Ronda da Noite, deixou de escrever e retirou-se da vida pública, devido a razões de saúde,A romancista que sonhou a sua obra por Carlos Câmara Leme, Revista Ler, Janeiro de 2009, p. 42. Página visitada em 04-01-2014.Textos inéditos de Agustina Bessa-Luís vão ser publicados na próxima semana, in Sol, 24-10-2013. Página visitada em 04-01-2014. tendo sofrido um acidente vascular cerebral.

Morte Morreu a 3 de junho de 2019, em sua casa, no Porto, vítima de doença prolongada.Morreu a escritora Agustina Bessa-Luís (1922-2019), TSF 03.06.2019

Atividades institucionais Além da atividade literária, envolveu-se em diversos projetos. Foi membro do Conselho Diretivo da Comunitá Europea degli Scrittori (Roma) (1961-1962). Colaborou em várias publicações periódicas, tendo sido entre 1986 e 1987 diretora do diário O Primeiro de Janeiro (Porto). Entre 1990 e 1993 assumiu a direção do Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa) e foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Foi ainda membro da Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres (Paris), da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Letras).

Distinções e prémios Foi distinguida com o grau de Grande-Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico, a 9 de abril de 1981, tendo sido elevada ao grau de Grã-Cruz da mesma Ordem a 26 de janeiro de 2006.

Em 2005, foi-lhe atribuído o título de Doutora Honoris Causa pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Em 2004, aos 81 anos, recebeu o mais importante prémio literário da língua portuguesa, o Prémio Camões. Na ata do júri da XVI edição do Prémio, pode ler-se que "o júri tomou em consideração que a obra de Agustina Bessa-Luís traduz a criação de um universo romanesco de riqueza incomparável que é servido pelas suas excepcionais qualidades de prosadora, assim contribuindo para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum".

Recebeu ainda: Prémio Eça de Queirós (1954) Prémio Ricardo Malheiros (1966, 1977) Prémio D. Dinis (1980) Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística (1981) Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB (1983) Prémio Seiva (1988) Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1992) Medalha de Mérito Cultural (1993) Prémio União Latina de Literaturas Românicas (1997) Globo de Ouro (2002)

Condecorações oficiais Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal (9 de abril de 1981) Medalha de Honra da Cidade do Porto (31 de maio de 1988) Oficial da Ordem das Artes e das Letras de França (1989) Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal (26 de janeiro de 2006)

Obra

Escreveu livros de diversos tipos, na sua maioria romances. Com a novela Mundo Fechado estreou-se como romancista. Contudo, foi com o romance A Sibila que ganhou o reconhecimento e a atenção da crítica literária. A sua escrita opõe-se a qualquer tentativa de contextualização, em termos de correntes, na história da literatura portuguesa. A escritora surgiu no panorama literário português numa altura em que a oposição entre o neorrealismo e o modernismo do movimento da Presença atingia o seu auge. Dedicou-se quase inteiramente à criação literária e, desde sua estreia em 1948, manteve um ritmo de publicação pouco usual nas letras portuguesas.

Conhecida não só como romancista, mas também como autora de peças de teatro, guiões de cinema, biografias, ensaios e livros infantis, a sua obra conta com mais de meia centena de títulos. Também se distinguiu enquanto articulista da "escola" do "jornalismo literário", tendo colaborado com assiduidade na imprensa. A autora revela preocupação pela condição social e cultural dos portugueses, particularmente interessada em perscrutar o passado, recorrendo à ficção para problematizar o conhecimento histórico e vivencial.

Ficção 1948 - Mundo Fechado (novela) 1950 - Os Super-Homens (romance) 1951-1953 - Contos Impopulares (romance) 1954 - A Sibila (romance) 1956 - Os Incuráveis (romance) 1957 - A Muralha (romance) 1958 - O Susto (romance) 1960 - Ternos Guerreiros (romance) Guimarães Editores, Lisboa. 1961 - O Manto (romance) 1962 - O Sermão do Fogo (romance) 1964 - As Relações Humanas: I - Os Quatro Rios (romance) 1965 - As Relações Humanas: II - A Dança das Espadas (romance) 1966 - As Relações Humanas: III - Canção Diante de uma Porta Fechada (romance) 1967 - A Bíblia dos Pobres: I - Homens e Mulheres (romance) 1970 - A Bíblia dos Pobres: II - As Categorias (romance) 1971 - A Brusca (contos) 1975 - As Pessoas Felizes (romance) 1976 - Crónica do Cruzado OSB (romance) 1977 - As Fúrias (romance) 1979 - Fanny Owen (romance histórico) 1980 - O Mosteiro (romance) 1983 - Os Meninos de Ouro (ação) 1983 - Adivinhas de Pedro e Inês (romance histórico) 1984 - Um Bicho da Terra (romance histórico, biografia de Uriel da Costa) 1984 - Um Presépio Aberto (narrativa) 1985 - A Monja de Lisboa (romance histórico, biografia de Maria de Visitação) 1987 - A Corte do Norte (romance histórico) Guimarães Editores, Lisboa. 1988 - Prazer e Glória (romance) 1988 - A Torre (conto) 1989 - Eugénia e Silvina (romance) 1991 - Vale Abraão (romance) 1992 - Ordens Menores (romance) 1994 - As Terras do Risco (romance) 1994 - O Concerto dos Flamengos (romance) 1995 - Aquário e Sagitário (narrativa) 1996 - Memórias Laurentinas (romance) 1997 - Um Cão que Sonha (romance) 1998 - O Comum dos Mortais (romance) 1999 - A Quinta Essência (romance) 1999 - Dominga (conto) 2000 - Contemplação Carinhosa da Angústia (antologia) 2001 - O Princípio da Incerteza: I — Jóia de Família (romance) 2002 - O Princípio da Incerteza: II — A Alma dos Ricos (romance) 2003 - O Princípio da Incerteza: III — Os Espaços em Branco (romance) 2004 - Antes do Degelo (romance) 2005 - Doidos e Amantes (romance) 2006 - A Ronda da Noite (romance) 2018 - Deuses de Barro (romance escrito em 1942)

Biografias 1979 - Santo António 1979 - A Vida e a Obra de Florbela Espanca (biobibliografia) 1979 - Florbela Espanca 1981 - Sebastião José 1982 - Longos Dias Têm Cem Anos — Presença de Vieira da Silva 1986 - Martha Telles: o Castelo Onde Irás e Não Voltarás (ensaio e biografia)

Teatro 1958 - Inseparável ou o Amigo por Testamento 1986 - A Bela Portuguesa 1992 - Estados Eróticos Imediatos de Soren Kierkegaard 1996 - Party: Garden-Party dos Açores — Diálogos 1998 - Garret: O Eremita do Chiado

Crónicas, memórias, textos ensaísticos 1961 - Embaixada a Calígula (relato de viagem) 1979 - Conversações com Dimitri e Outras Fantasias (crónicas) 1980 - Arnaldo Gama — “Gente de Bem” 1981 - A Mãe de um Rio (texto e fotografia) 1981 - Dostoievski e a Peste Emocional 1981 - Camilo e as Circunstâncias 1982 - Antonio Cruz, o Pintor e a Cidade 1982 - D.Sebastião: o Pícaro e o Heroíco 1982 - O Artista e o Pensador como Minoria Social 1984 - ”Menina e Moça” e a Teoria do Inacabado 1986 - Apocalipse de Albrecht Dürer 1987 - Introdução à Leitura de “A Sibila” 1988 - Aforismos 1991 - Breviário do Brasil (diário de viagem) 1994 - Camilo: Génio e Figura 1995 - Um Outro Olhar sobre Portugal (relato de viagem), com fot. de Pierre Rossollin, e il. de Maluda 1996 - Alegria do Mundo I: escritos dos anos de 1965 a 1969 1997 - Douro (texto e fotografia), em colab. com Mónica Baldaque 1998 - Alegria do Mundo II: escritos dos anos de 1970 a 1974 1998 - Os Dezassete Brasões (texto e fotografia) 1999 - A Bela Adormecida 2000 - O Presépio: Escultura de Graça Costa Cabral (texto e fotografia), em colab. com Pedro Vaz 2001 - As Meninas (texto e pintura) 2002 - O Livro de Agustina (autobiografia) 2002 - Azul (divulgação), em colab. com Luísa Ferreira