O Desabrochar de Cem Flores, também conhecido como Movimento das Cem Flores () e Movimento dos Dois Cem (), foi um período entre 1956 e 1957 na República Popular da China (RPC) durante o qual o Partido Comunista da China (PCC), liderado por Mao Tsé-Tung, propôs "deixar cem flores desabrocharem nas ciências sociais e nas artes e deixar cem pontos de vista serem expressos no campo da ciência". O movimento foi, em parte, uma resposta às tensões entre o PCC e os intelectuais chineses. Ele incentivou os cidadãos a oferecer críticas e conselhos ao governo e ao Partido. Na perspectiva maoista, a campanha destinava-se a cumprir uma função antiburocrática. A campanha representou uma flexibilização da política ideológica e cultural e resultou num aumento de conselhos e críticas dirigidos ao Partido e às suas políticas por pessoas de fora de seus quadros.
À medida que as críticas aumentaram, o Partido Comunista passou a considerá-las uma ameaça. A subsequente repressão às críticas desenvolveu-se na Campanha Antidireitista, que restabeleceu a ortodoxia maoista na expressão pública.
A campanha
A campanha das Cem Flores foi um período de flexibilização da política ideológica e cultural da RPC.Dayton Lekner, A Hundred Flowers: How Literature Shaped Maoism, Cambridge University Press, 2025, p. 20. Mao Tsé-Tung propôs "deixar cem flores desabrocharem nas ciências sociais e nas artes e deixar cem pontos de vista serem expressos no campo da ciência".Roderick MacFarquhar, The Hundred Flowers, 1960, p. 3.
A campanha permitiu que os cidadãos oferecessem críticas e conselhos ao governo e ao Partido; assim, destinava-se a cumprir uma função antiburocrática, pelo menos por parte dos maoistas.Maurice J. Meisner, Mao's China and After: A History of the People's Republic, The Free Press, 1986, p. 169. A campanha produziu uma onda de críticas dirigidas ao Partido e às suas políticas por pessoas que não pertenciam aos seus quadros.Daniel Leese, Mao Cult: Rhetoric and Ritual in China's Cultural Revolution, Cambridge University Press, 2011, p. 55.
Nome
O nome do movimento é composto por duas partes. A primeira, "deixar cem flores desabrocharem", vem do romance da era Qing Flowers in the Mirror, de Li Ruzhen;Lekner, 2025, p. 45. a segunda, "deixar cem escolas de pensamento contenderem", vem do Tratado sobre Literatura do Livro de Hã, escrito pelo historiador chinês Ban Gu:
百花齊放,百家爭鳴 Bǎihuā qífàng, bǎijiā zhēngmíng "Que cem flores desabrochem; que cem escolas de pensamento disputem entre si."
No contexto da campanha, a origem da expressão "deixar cem flores desabrocharem" foi atribuída a Zhou Yang, então figura do Ministério da Cultura da China, que a utilizou em 1951; ele pode ter recolhido a expressão de uma discussão sobre a Ópera de Pequim.
Em abril de 1956, Mao afirmou que "deixar cem flores desabrocharem" seria a política para todas as artes e ciências.Lekner, 2025, p. 49. O nome foi usado para despertar o interesse dos intelectuais chineses, fazendo referência ao Período dos Reinos Combatentes, quando numerosas escolas de pensamento competiam pela supremacia ideológica, e não militar. Historicamente, o Confucionismo, o budismo chinês e o Taoismo haviam adquirido proeminência, e o socialismo passaria então por sua própria prova. Na época, o movimento sofreu oposição até mesmo de alguns dos seguidores mais devotos de Mao, bem como de pessoas do meio acadêmico, sobretudo Guo Moruo.
Juntamente com a ideia das cem flores desabrochando, outras metáforas recorrentes em jornais, ensaios, poesias e cartazes de grandes caracteres incluíam "flores perfumadas", "ervas venenosas", "vento leve e chuva fina", entre outras.Lekner, 2025, p. 9.
Entre os slogans populares da campanha estavam "quem fala não tem culpa" e "diga tudo, não deixe nada por dizer".Lekner, 2025, p. 41.
Antecedentes
Em março de 1951, cogitou-se ampliar o Instituto de Pesquisa da Ópera de Pequim e transformá-lo no Instituto de Pesquisa da Ópera Chinesa. Mao foi convidado a escrever uma dedicatória para o instituto. Ao mesmo tempo, parte dos envolvidos argumentava que a Ópera de Pequim estava ultrapassada e que a ópera revolucionária deveria ser promovida. No fim de março, Mao escreveu como dedicatória para a criação do Instituto de Pesquisa da Ópera Chinesa: "Que cem flores desabrochem; elimine o velho para fazer surgir o novo". Diversos grupos começaram a empregar a expressão depois que ela se popularizou no contexto da reforma da ópera; muitos passaram a utilizá-la para defender uma política pluralista em outros campos artísticos.Lekner, 2025, p. 52.
Em 1953, Chen Boda, responsável pelo Comitê para o Estudo de Questões Históricas Chinesas, procurou Mao em busca de orientação sobre os princípios de trabalho, ao que Mao respondeu com quatro caracteres: "Que cem escolas de pensamento contendam".
Em abril de 1956, num discurso durante uma reunião ampliada do Politburo do Partido Comunista da China, Mao Tsé-Tung afirmou:Lekner, 2025, p. 58.
Nas artes, "cem flores desabrocham juntas"; na ciência, "cem escolas contendem" — a disputa das cem escolas do período das Primaveras e Outonos e dos Reinos Combatentes — essa deve ser a nossa política; essa é a opinião das pessoas de dois mil anos atrás.
Durante a primeira metade da década de 1950, os intelectuais chineses haviam sido tratados como uma das "classes negras", hostis ou, na melhor das hipóteses, pouco entusiasmadas com a Revolução Comunista Chinesa. Houve ataques direcionados a intelectuais e suas obras, e os comunistas procuraram enquadrá-los politicamente. Mao, durante uma reunião do Governo Central, chegou a ridicularizar o pensador liberal Liang Shuming como "reacionário" e "conspirador ambicioso" depois que Liang se atreveu a criticar os comunistas pela elevada tributação dos camponeses. Na segunda metade de 1955, quando o proeminente escritor marxista e teórico literário Hu Feng manifestou oposição às rígidas políticas do Partido, controladas pelo Estado, para a literatura e a arte, foi lançado um grande expurgo político, que se transformou numa ampla campanha de terror, envolvendo e levando à prisão dezenas de intelectuais chineses.
Sugere-se que o lançamento da campanha tenha sido adiado pelo impacto do discurso que denunciou Stalin no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em fevereiro de 1956, pronunciado por Nikita Khrushchov.
O movimento foi, em parte, uma resposta às tensões entre o PCC e os intelectuais chineses.
Lançamento (início de 1956 – início de 1957)
Na fase inicial do movimento, as questões discutidas eram relativamente pequenas e pouco importantes no quadro geral. Dava-se ênfase à distinção entre "amigo e inimigo". Os intelectuais abordaram a campanha com desconfiança, devido à falta de orientações sobre quais tipos de discurso eram aceitáveis; alguns também suspeitavam que a campanha pudesse ser uma armadilha e que manifestações não autorizadas pudessem lhes trazer problemas. Como resultado, o Governo Central não recebeu muitas críticas, embora tenha havido um aumento significativo de cartas com conselhos conservadores. O primeiro-ministro Zhou Enlai recebeu algumas delas e percebeu novamente que, embora a campanha tivesse obtido considerável publicidade, não avançava como se esperava. Zhou procurou Mao e afirmou que era necessário maior incentivo da burocracia central para levar os intelectuais a participar mais ativamente da discussão. Mao Tsé-Tung considerou a ideia interessante e assumiu diretamente o controle do processo. Guo Moruo declarou que a disputa entre diferentes escolas deveria ser orientada pelo objetivo central de construir uma sociedade socialista.
A ideia era fazer com que os intelectuais discutissem os problemas do país para promover novas formas de arte e novas instituições culturais. Mao também viu nisso uma oportunidade para promover o socialismo, acreditando que, após a discussão, ficaria evidente que a ideologia socialista era dominante sobre o capitalismo, mesmo entre chineses não comunistas, impulsionando assim o desenvolvimento e a difusão dos objetivos socialistas. Para reduzir a hesitação, intelectuais foram convidados a fóruns nos quais podiam fazer perguntas exploratórias, descobrindo aos poucos quais formas de expressão eram consideradas aceitáveis. Nesse período, as críticas eram frequentemente indiretas e elogiavam a própria campanha das Cem Flores. Segundo a pesquisa de Lekner, a compreensão convencional de comunicação e poder foi invertida durante a campanha, pois o direito de se manifestar e ser ouvido não era o direito reservado aos que estavam no poder, mas sim o direito de manter a própria voz fora da campanha em curso. Em outras palavras, estudantes eram pressionados por professores a falar; subordinados eram solicitados por superiores a se manifestar. Na sociedade chinesa, houve um relaxamento visível das restrições ao vestuário tradicional chinês e à música ocidental.
As críticas tornaram-se mais específicas em maio de 1956, citando a regimentação da educação, as reformas do pensamento dos anos anteriores, descritas como "dolorosas", e a falta de perspectivas de emprego para aqueles que haviam estudado com acadêmicos americanos e britânicos. Além disso, algumas pessoas retrataram-se de suas autocríticas e confissões dos anos anteriores.
Uma onda de revistas literárias foi lançada ou relançada durante a campanha, incluindo Stars, a primeira revista de poesia apoiada pelo Estado na RPC.Lekner, 2025, p. 153.
Também houve oposição à liberalização. Elementos conservadores no Partido e no Exército ficaram indignados com o ressurgimento de formas literárias tradicionais em detrimento do realismo socialista e com a violação, pela liberalização, do princípio de que a arte deveria servir à política. Mao, porém, não se mostrou perturbado com as críticas e chegou a dizer numa conferência do Partido, em janeiro de 1957, que textos hostis ao marxismo deveriam ser publicados abertamente para que fosse possível encontrar maneiras de refutá-los, comentário do qual mais tarde recuou. Mao declarou que era "errado colocar as coisas em quarentena" e que era melhor "vacinar" as massas expondo-as a ideias prejudiciais, comentários que desapontaram os delegados responsáveis por lidar com as consequências.
No encerramento da conferência de janeiro de 1957, realizada para secretários partidários municipais, de regiões autônomas e provinciais, Mao afirmou:Lekner, 2025, pp. 82–83.
É a flor perfumada que deve disputar ferozmente a posição de liderança; derrubar tudo o que cheira mal não é bom. Não há mal em deixar as ervas venenosas ocuparem uma posição secundária. É como o PCC ser primário e a Liga Democrática ser secundária. É como átomos e elétrons. O átomo, embora pequeno, é muito pesado; para dividir o átomo é necessária a força de muitas locomotivas. Os elétrons que cercam o núcleo, por outro lado, são muito leves, são liberais, mas sem o átomo não há nada. Isso é unidade por meio da oposição.
Em seu texto de 27 de fevereiro de 1957, Sobre o tratamento correto das contradições entre o povo, Mao sugeriu que o Partido Comunista deveria estar aberto às críticas de pessoas que não faziam parte de seus quadros.Lekner, 2025, p. 84. Mao escreveu que mesmo ideias inicialmente consideradas "ervas venenosas" pela sociedade poderiam, no fim, revelar-se corretas:Lekner, 2025, p. 165.
Determinar se algo está certo ou errado frequentemente exige um período de prova. Na história, coisas novas e corretas muitas vezes não conseguiram ser reconhecidas pela maioria das pessoas no início e tiveram de avançar em meio a reviravoltas e lutas. As pessoas tendem a negar, desde o começo, as coisas corretas e boas, as flores perfumadas; em vez disso, consideram-nas ervas venenosas. A teoria do sistema solar de Copérnico e a teoria da evolução de Darwin foram ambas consideradas errôneas em certo momento e ambas passaram por duras lutas.