thumb|upright=1.4|Parte da entrada norte do palácio de Cnossos, um dos principais assentamentos minoicos
Civilização Minoica foi uma civilização egeia em Creta, a maior ilha do mar Egeu, que floresceu aproximadamente entre o e Foi redescoberta no começo do durante as expedições arqueológicas do britânico Arthur Evans. O historiador Will Durant refere-se à civilização como "o primeiro elo da cadeia europeia". Os primeiros habitantes de Creta remontam a pelo menos , durante o Paleolítico Médio. No entanto, os primeiros sinais de práticas agrícolas não surgiram antes de , caracterizando então o começo da civilização. Com a introdução do cobre em torno de foi possível o início da manufatura de bronze. A partir deste marco a civilização desenvolveu-se gradativamente pelos séculos seguintes, irradiando sua cultura para boa parte dos povos do Mediterrâneo Oriental. Sua história apresentou períodos de conturbação interna, possivelmente causados por desastres naturais, que culminaram na destruição da maior parte de seus centros urbanos. Por volta de , enfraquecidos internamente, os minoicos foram totalmente assimilados pelos habitantes do continente grego, os micênicos, que repovoaram alguns dos principais assentamentos na ilha e fizeram com que esta prosperasse por mais alguns séculos.
Com uma economia baseada principalmente no comércio externo, a Civilização Minoica moldou todos os aspectos que a caracterizam de modo a atender a demanda do mercado externo. Por Creta ser pobre em jazidas principalmente de metais, os minoicos produziram excedentes agrícolas e de produtos manufaturados que venderam para obter metais do Chipre, Egito e Cíclades. Para facilitar tais trocas comerciais os minoicos desenvolveram um completo sistema de pesos e medidas que utilizava lingotes de cobre e discos de ouro e prata com pesos pré-determinados. A arte minoica foi extremamente fértil e engloba elementos adquiridos com os contatos com povos estrangeiros, assim como elementos autóctones. Havia produções utilizando barro (cerâmica), pedras semipreciosas (arte lítica) e metais. Em todos os casos os artefatos produzidos apresentam gradativa evolução à medida que a civilização ia especializando-se. Os motivos artísticos incorporados nestas produções, assim como nos afrescos, em suma valorizam cenas que representem a natureza e/ou elementos da mesma (animais, plantas), procissões e/ou rituais religiosos, seres mitológicos, etc. A religião minoica era matriarcal. Diferente dos micênicos, os minoicos tinham santuários em locais naturais (fontes, cavernas, elevações) ou nos palácios onde havia diversos espaços dedicados a práticas cultuais. Os minoicos desenvolveram inicialmente um sistema de escrita hieroglífico, possivelmente originado dos hieróglifos egípcios, que evoluiu para a escrita Linear A, que por sua vez evoluiu para a Linear B, que foi incorporada pelos micênicos para escrever sua forma arcaica de grego.
Visão geral
O termo "minoico" foi cunhado por Arthur Evans e deriva do nome do rei mítico "Minos". Este foi associado ao mito grego do labirinto, que Evans identificou como o sítio de Cnossos. Por vezes argumenta-se que a placa egípcia chamada "Keftiu" (Káftiu kftiw) e as semíticas "Caftor" e "Kaptara" nos arquivos de Mari referem-se à ilha de Creta; "Por outro lado alguns fatos conhecidos sobre Caftor/Keftiu dificilmente podem ser associados com Creta", observa John Strange.; Strange reedita as fontes do texto 16-112. Na Odisseia, composta séculos depois da destruição da Civilização Minoica, Homero chama os nativos de Creta de eteocretenses ("verdadeiros cretenses").
Os chamados palácios minoicos (anaktora) são as mais bem acabadas construções conhecidas já escavadas na ilha. São construções monumentais servindo para propósitos administrativos, o que é evidenciado por grandes arquivos de documentos desenterrados por arqueólogos. Cada um dos palácios escavados até agora tem características únicas, mas eles também compartilham características que os distinguem de outras estruturas.
Aparentemente o povo minoico não era indo-europeu e nem sequer era aparentado com os habitantes pré-gregos da Grécia continental e da Anatólia Ocidental, os chamados pelasgos. No entanto, uma análise das sequências do genoma dos minoanos e micênicos antigos, que viveram há a anos, eram geneticamente similares, tendo pelo menos três quartos de sua ascendência dos primeiros agricultores neolíticos. Eles provavelmente migraram de Anatólia para a Grécia e Creta milhares de anos antes da Idade do Bronze. A Civilização Minoica foi muito mais avançada e sofisticada que a contemporânea civilização heládica durante a Idade do Bronze. A escrita minoica () não foi ainda decifrada, mas há indícios de que represente uma língua egeia, não relacionada com qualquer língua indo-europeia. A partir do período neolítico, Creta passou a estar entre os dois fluxos culturais que conduziam ao oeste: o frente-asiático e o norte africano. Aparentemente, a Creta minoica permaneceu livre de qualquer invasão por muitos séculos e conseguiu desenvolver uma civilização auto-sustentável distinta, que foi provavelmente a mais avançada no Mediterrâneo durante a Idade do Bronze.
Cronologia
Em vez de associar datas do calendário absoluto (embora, por vezes, isso também seja utilizado) para o período minoico, os arqueólogos usam dois sistemas de cronologia relativa. O primeiro, criado por Evans e modificado depois por outros arqueólogos, baseia-se em estilos na produção cultural, os estilos de cerâmica. Ele divide o período minoico em três eras principais – Minoano Antigo (MA), Minoano Médio (MM) e Minoano Recente (MR). Estas eras são subdivididas, por exemplo, em Minoano Antigo I, II e III (MAI, MAII e MAIII). Outro sistema de datação, também cultural, proposto pelo arqueólogo grego Nicolaos Platon, é baseado no desenvolvimento dos complexos arquitetônicos conhecidos como palácios de Cnossos, Festo, Mália e Cato Zacro, e divide o período minoico em pré-palaciano, protopalaciano, neopalaciano e pós-palaciano. A relação entre estes sistemas é dada na tabela abaixo com as datas do calendário aproximado extraídas de Warren e Hankey (1989).
A erupção do vulcão Santorini ocorreu durante uma fase avançada do período Minoano Recente IA. A data da erupção vulcânica é extremamente controversa. A datação por radiocarbono indica o final do ; no entanto essa estimativa entra em conflito com as de arqueólogos que sincronizam a erupção com a cronologia convencional egípcia e obtêm uma data de cerca de - A erupção é frequentemente identificada como um evento natural catastrófico para a cultura, levando possivelmente ao fim da civilização.
Cronologia de Arthur Evans e Nicolaos Platon A. Evans N. Platon Cronologia tradicional Cronologia egípcia Cronologia heládica Minoano Antigo Pré-palaciano Minoano Antigo I 3100–2700 Dinastias I a IV Heládico Antigo Minoano Antigo II 2700–2200 Dinastias V e VI Minoano Antigo III 2200–2000 Dinastias VI a X Minoano Médio Dinastia XI Minoano Médio IA 2000–1900 Heládico Médio Minoano Médio IB Protopalaciano 1900–1800 Minoano Médio II 1800–1700 Dinastia XII Minoano Médio IIIA Neopalaciano 1700–1600 Dinastias XIII a XVII Minoano Médio IIIB 1600–1550 Minoano Recente Dinastia XVIII Minoano Recente IA 1550–1520 Heládico Recente I Minoano Recente IB 1520–1430 Heládico Recente II Minoano Recente II Pós-palaciano 1430–1400 Dinastias XVIII a XX Heládico Recente IIB Minoano Recente IIIA 1400–1330 Dinastia XXI Heládico Recente IIIA Minoano Recente III B 1330–1200 Heládico Recente IIIB Minoano Recente IIIC 1200–1100 heládico Recente IIIC Sub-minoano
Mitologia
Titanomaquia
upright=0.8|thumb|Saturno devorando seu filho, Francisco de Goya (1819-1823)
upright=0.8|thumb|Dédalo e Pasífae, afresco romano da Casa dos Vécios, Pompeia ()
Por intermédio de uma antiga profecia que afirmava que Cronos seria destronado por um de seus filhos, este começa a devorá-los um a um após estes serem concebidos por sua mulher e irmã, Reia. O último deles, Zeus, foi poupado deste fim trágico, pois foi enviado para Creta para ser criado pela cabra Amalteia. Anos depois, a cabra revela a Zeus o fim de seus irmãos e este, então, é acometido por intensa fúria. Alia-se com sua tia, a titânide Métis que da a ele uma poção que seu pai deveria tomar para vomitar seus parentes; ao tomá-la, Cronos regurgita seus filhos já crescidos que, juntos a Zeus, iniciam a guerra cósmica contra seu pai, a Titanomaquia. De um lado estava os deuses liderados por Zeus, do outro os titãs liderados por Cronos e Atlas (participou da guerra, pois os deuses destruíram Atlântida, seu reino). No fim do conflito os titãs foram completamente derrotados e uma nova ordem cósmica foi estabelecida: Zeus reinou sobre os céus e a terra, Posidão sobre os mares e Hades sobre o Tártaro.
Reis de Creta
Primeiros reis
O primeiro rei de Creta foi Cres, descendente dos habitantes da ilha, os curetes (povo que auxiliou a cabra nos cuidados com o infante Zeus), que reinou em ou Um dos filhos de Doro, Téctamo, invade a ilha com um exército de eólios e pelasgos e a domina por completo. Casou-se com a filha de Creteu e desta união nasceu seu filho e sucessor Astério. Durante o reinado de Astério, Zeus rapta a princesa fenícia Europa, filha de Agenor, e com ela gera Radamanto, Sarpedão e Minos. Astério casa-se com Europa e adota seus filhos.
Licasto, segundo certas fontes (entre elas Diodoro Sículo), foi um rei de Creta, de forma que houvesse em Creta dois reis de nome Minos; o primeiro era filho de Zeus e Europa; o segundo foi o senhor dos Mares. Segundo Diodoro, o primeiro Minos sucedeu a Astério no poder. Este casou-se com Itone, filha de Líctio, e desta união nasceu Licasto. Licasto casou-se com Idê, filha de Coribas e desta união nasceu o segundo Minos.
Minos
Com a morte de Astério, os filhos de Europa começaram uma intensa rivalidade, pois todos os três apaixonaram-se pelo mesmo homem, Mileto, filho de Apolo e Aria. Como resultado, Minos expulsa seus irmãos da ilha e torna-se o rei único. Minos produziu as leis cretenses, e casou-se com Pasífae, filha de Hélio e Perseis; segundo Asclepíades, Minos casou-se com Creta, filha de Astério. Desta união gerou Catreu, Deucalião, Glauco, Androgeu, Acale, Xenódice, Ariadne e Fedra: Minos teve também filhos fora do casamento.
Durante seu reinado, seu poder foi constantemente contestado, o que o levou a pedir que um touro emergisse do mar para ser sacrificado em sua homenagem, durante um sacrifício a Posidão; este atendeu ao pedido, mas Minos, em vez de sacrificar o touro, o coloca junto de sua manada e sacrifica outro em seu lugar. Em represália, Posidão faz com que Pasífae se apaixonasse pelo touro que agora é selvagem. Dédalo, um famoso arquiteto e inventor ateniense, construiu uma vaca mecânica para que Pasífae pudesse copular com o animal e desta união nasceu Astério, mais conhecido como Minotauro (criatura metade homem, metade touro), que foi encerrado no labirinto construído por Dédalo a mando de Minos.
upright=0.9|esquerda|thumb|Dracma de Cnossos ( - ) representando o Minotauro