A língua tigreia ou língua tigré (ትግረ, tigre ou ትግሬ, tigrē IPA: [tɨgɾe]; também conhecida como xasa no Sudão, no alfabeto árabe ألخاصية, ḫāṣiyah) é uma língua semítica pertencente à família etiópica setentrional, sendo assim próxima à língua ge'ez e à língua tigrínia. É falada por aproximadamente 800 mil pessoas na Eritreia, contando ainda com um reduzido grupo de falantes no Sudão. É a língua falada pelo povo tigré e é utilizada como segunda língua por parte do povo nara. A língua, os falantes e o território do Tigrés não devem ser confundidos com o povo tigrínio, que também vive na Eritreia e que fala a língua tigrínia, nem com a região de Tigré, na Etiópia.
O tigré é uma das nove línguas reconhecidas oficialmente na Eritreia, cuja constituição prevê que a "igualdade entre todas as línguas eritreias é garantida".Constituição da Eritreia. Capítulo 1, Artigo 4, Inciso 3. Consultado em 18 de março de 2023. A língua está no nível 4 da escala EGIDS, que mede o grau de desenvolvimento e perigo de extinção de uma língua. Nessa posição, a língua é tida como sem perigo de extinção, sendo utilizada institucionalmente, para além das famílias e comunidades.
Desde o século XIX, a língua tigré tem sido escrita no alfabeto ge'ez, utilizado em outras línguas etiópicas como o tigrínia e o amárico. Essa escrita foi introduzida por missionários suecos para traduzir a Bíblia nessa língua. No entanto, por questões políticas e religiosas, muitos tigrés muçulmanos preferem o uso do alfabeto árabe. Etimologia Não há informações precisas em relação à origem do nome da língua tigré. Sabe-se que há outros povos, línguas e locais com nomes parecidos nessa região, na Eritreia e na Etiópia. O povo tigrinya, cuja língua tem o mesmo nome, é a etnia mais populosa da Eritreia; eles vivem bem próximo aos tigrés e pertencem à mesma família linguística. Há ainda a região de Tigré (tigray), no norte da Etiópia, na qual vivem os tigrinya etíopes, conhecidos na Etiópia como tigray. Esses nomes semelhantes levam a confusões entre as etnias e regiões.
Distribuição O tigré é falado na região da costa do Mar Vermelho e nas planícies do norte e do oeste da Eritreia, além de uma pequena parcela de falantes no Sudão. Essa é uma região onde a prática do multilinguismo é muito comum, o que faz com que o tigré seja a segunda língua de pessoas de outros grupos étnicos da região.
Há uma grande variedade de dialetos do tigré. O mais documentado e que serviu de base para as primeiras pesquisas linguística e registros escritos da língua é o dialeto do subgrupo étnico Mensaʿ. Outros dialetos incluem os do subgrupo Ḥabāb e o da cidade de Gindaʿ, na região do Mar Vermelho Setentrional.
A língua dahalik, falada no arquipélago de dalaque, já foi considerada um dialeto do tigré, mas hoje acredita-se que sejam línguas distintas. O grau de inteligibilidade mútua entre os dialetos do tigré é de cerca de 91%, enquanto a inteligibilidade entre o dahalik e o tigré varia entre 24 e 51%, a depender do dialeto.
O tigré é a língua viva mais próxima do ge'ez, língua litúrgica da Igreja Ortodoxa Eritreia e Etíope. A similaridade léxica entre as duas línguas é de 71%. Outra língua com bastante influência no tigré é o árabe, tanto pela presença de grupos cuja primeira língua é o árabe na Eritreia e em países próximos (especialmente o Sudão), quanto pelo uso do árabe nos rituais e orações do islamismo, religião da vasta maioria do povo tigré. Há um grande número de empréstimos linguísticos do árabe no tigré, inclusive em palavras da lista de Swadesh. Além do léxico, a língua árabe também influenciou aspectos morfológicos e fonológicos do tigré, como na faringealização de consoantes ejetivas e na formação dos diminutivos.
Fonologia Para a representação dos sons na língua tigré, esse artigo usa, no geral, um sistema que é comum (embora não universal) entre linguistas que estudam as línguas semíticas da Etiópia, mas difere um pouco das convenções do alfabeto fonético internacional. Quando o símbolo no IPA for diferente, este será indicado no quadro entre colchetes.
A língua tigré é uma língua acentual, portanto, não apresenta tom.
Consoantes O inventário consonantal do tigré conta com 25 fonemas. +Consoantes da língua tigréBilabialLabiodentalDental / AlveolarPós-alveolarPalatalVelarFaríngeaGlotalPlosiva Africada NasalVibranteFricativa SemivogaisLateral As consoantes /ṭ/, /ḳ/, /ṣ/, e /č̣/ são ejetivas, ou seja, consoantes surdas pronunciadas fechando simultaneamente a glote. O fonema /ḳ/ tem como alofones [k], [k̚] (o diacrítico ◌̚ indica uma consoante sem realização audível, que é articulada, mas não se percebe o fim da oclusão), [q], [q̚] ou [ʔ] quando aparece em sílabas átonas. +Exemplos de alofones de /ḳ/ FonemasFonesSignificado/aḳfāl/[ʉk'fæːl]segmentos/ḥaḳo-hā/[haqoˈhæː]então/ḳawməyat/[ʔomˈjæt]grupo étnico A oclusiva glotal ʾ [ʔ] pode não ser realizada em sequências vocálicas átonas, como no caso da sequência /aʾa/ e da sequência /ā ʾə/ (com a oclusiva glotal em início de palavra). Nesses casos, a sequência é realizada como [a] ou [æ], ou, ainda, como [ɞ] após a semivogal [w]. +Exemplos de supressão da oclusiva glotalFonemasFonesSignificado/gaʾa/[ɡæː](isso) foi/wa- ʾarəyšoni/[wɞɾɨˈʃoni]ou laranja/nətfanātā ʾəngabbiʾ/[nɨtfæˈnatænɡæbˈbiʔ]nós estamos sendo separados
Vogais O inventário vocálico do tigré conta com sete fonemas. +Vogais da língua tigréAnteriorCentralPosteriorFechada [] MédiaAberta, ā [a:]
As vogal /i/, /e/, /o/ e /u/ são realizadas como , , e respectivamente.
A vogal ə é realizada, normalmente, como . Ela pode surgir em um processo de epêntese, entre uma consoante plosiva e /r/. Os nomes próprios tigré e tigrinya são exceções a essa regra. FonemasFonesSignificado/madrasat/[mæɡɨɾɪ'sæt]escola/ḳadra/[ɾædɨɾæ]ele é capaz O fonema /a/ tende a ser realizado como , enquanto /ā/ normalmente é realizado como [] ou [:] (o diacrítico : indica maior duração da vogal). O fonema /a/ sofre processo de assimilação e se realiza como quando precedido de uma consoante faríngea ou glotal, comoʿ [] e ḥ []. FonemasFonesSignificado/salas/[sælæs]três/ḥamalmāl/[ħamælmal](nome de um lugar)/ləbān/[lʉˈbæːn]incenso
Ortografia
Sistema de escrita ge'ez (etiópico) Os falantes nativos do tigré nunca desenvolveram ou adotaram um sistema de escrita. A implementação da escrita para o idioma começou por iniciativa de missionários protestantes suecos, que buscavam evangelizar os povos tigré, de maioria muçulmana. Foi utilizada uma adaptação do sistema de escrita ge'ez, o alfabeto utilizado para a escrita da língua amárica, língua oficial da Etiópia, e da língua tigrinya, a mais falada na Eritreia.
O sistema de escrita ge'ez é um abugida, ou seja, as letras são todas consoantes e a notação das vogais é feita por meio de diacríticos ou pequenas alterações gráficas na consoante.
O fonema /ɐ/ não é encontrado nas gramáticas da língua tigré. Provavelmente, os caracteres que representam sílabas com esse fonema foram mantidos do sistema original, criado para representar a língua ge'ez. +Sistema de escrita ge'ez do tigréä []ə[]/∅exemplo de somሀሁሂሃሄህሆrápido, no dialeto mineiroለሉሊላሌልሎlâmpadaḥ []ሐሑሒሓሔሕሖcarro, porém com a base da língua contra a faringeመሙሚማሜምሞmenteረሩሪራሬርሮperro, em espanholሰሱሲሳሴስሶsapatoš []ሸሹሺሻሼሽሾxícaraḳ []ቀቁቂቃቄቅቆcarro, acompanhado de uma pausa glotalበቡቢባቤብቦbarrigaተቱቲታቴትቶtampač []ቸቹቺቻቼችቾtchauኀኁኂኃኄኅኆarte, no dialeto cariocaነኑኒናኔንኖnariz∅/ʔ []አኡኢኣኤእኦa pausa na expressão de negação "ãhn-ãhn"ከኩኪካኬክኮcarroወዉዊዋዌውዎaval no português brasileiroዐዑዒዓዔዕዖdormir, em alguns dialetos, porém com a base da língua contra a faringeዘዙዚዛዜዝዞcasaž []ዠዡዢዣዤዥዦjanelay []የዩዪያዬይዮcuiaደዱዲዳዴድዶdentej []ጀጁጂጃጄጅጆJames, em inglêsገጉጊጋጌግጎgotat’ []ጠጡጢጣጤጥጦtorre, acompanhado de uma pausa glotalc’ []ጨጩጪጫጬጭጮtchau, acompanhado de uma pausa glotals’ []ጸጹጺጻጼጽጾsapo, acompanhado de uma pausa glotalፈፉፊፋፌፍፎfocaፐፑፒፓፔፕፖpernak’wቈቊቋቌቍcarro, acompanhado de uma pausa glotal e seguido de [w]xwኈኊኋኌኍarte, no dialeto carioca, seguido de [w]kwኰኲኳኴኵquandogwጐጒጓጔጕágua
Sistema de escrita arábe Parte do povo tigré prefere o uso do alfabeto árabe para escrever o tigré por motivos históricos, políticos e religiosos. A maioria da população é muçulmana e valoriza a língua árabe, presente na liturgia islâmica. Além disso, a escrita ge'ez é associada ao amárico, à Igreja Ortodoxa Etíope e, portanto, aos tempos de domínio etíope sobre o atual território da Eritreia, quando o amárico era ensinado nas escolas e as línguas locais eram desvalorizadas. Desse modo, o uso do sistema de escrita ge'ez é visto como uma forma de apagamento da identidade islâmica e eritreia dos tigré. +Sistema de escrita árabe do tigrécaracteres árabesexemplo de somهrápido, no dialeto mineiroلlâmpadaḥ []حcarro, porém com a base da língua contra a faringeمmenteرperro, em espanholجsapatoš []ش ; سxícaraḳ []قcarro, acompanhado de uma pausa glotalبbarrigaتtampač []ڛtchauخarte, no dialeto cariocaنnariz∅/ʔ []اa pausa na expressão de negação "ãhn-ãhn"كcarroوaval no português brasileiroعdormir, em alguns dialetos, porém com a base da língua contra a faringeز ; ذ ; ظcasaž []ژjanelay []ج ; يcuiaد ; ضdentej []جJames, em inglêsغgotat’ []طtorre, acompanhado de uma pausa glotalc’ []ڟtchau, acompanhado de uma pausa glotals’ []صsapo, acompanhado de uma pausa glotalفfocaپperna
Gramática
Pronomes
Pronomes pessoais Os pronomes pessoais do tigré variam de acordo com gênero (exceto na primeira pessoa) e número. +Pronomes pessoais do tigrésingularpluraltigréportuguêstigréportuguêsʾanaeuḥənanósʾəntatu, você (masculino)ʾəntumvós, vocês (masculino)ʾəntitu, você (feminino)ʾəntənvós, vocês (feminino)hətuelehətomeleshətaelahətanelas
Pronomes genitivos O pronome nay indica posse ou características de um nome, de forma semelhante ao caso genitivo do inglês com a partícula 's. +Exemplos do uso do pronome nayšaʿab nay təgrao povo tigréəmtəḥān nay mātriko exame de matrículala-ʿəmer naynanossa idade Outros pronomes genitivos, que têm função semântica semelhante aos pronomes possessivos do português, são sufixais, ou seja, adicionados no fim de um nome ou preposição. +Pronomes genitivos sufixais do tigrépessoassingularplural1ª -ye, -y -na2ª Masc -ka -kum2ª Fem -ki -kən3ª Masc -u -om3ª Femā -an O pronome sufixal da primeira pessoa do singular pode se modificar dependendo da última letra da palavra à qual ele se junta. -ye é usado na maioria dos casos, mas após uma vogal, a partícula se reduz para -y, e seguida de /t/ ela forma -če. +Adição do pronome sufixal de 1ª pessoa a nomes no tigrénomessignificadonomes sufixadossignificadokətāblivrokətābyemeu livroḥāltio maternoḥālyemeu tio maternomorāpalitomorāymeu palitoʿəntātolhosʿəntāčemeus olhosmankinatcarromankinače meu carro
Substantivos As raízes nominais no tigré são formadas por consoantes apenas. Essas raízes consonantais são preenchidas com vogais e combinadas a afixos para formar nomes. +Formação de nomes no tigréraiz consonantaltigréportuguêstigréportuguêsʾ-b-nʾəbənpedraʾəbbanāy pedregosob-z-ḥbəzuḥmuitosmabzəḥa maioriad-r-smadrasatescoladarsaele recitou
Gênero O gênero gramatical é marcado geralmente pelas partículas -t ou -at. No entanto, alguns nomes femininos não têm marcação de gênero, como ṣaḥay ("sol") e ʾəm ("mãe"). Nesses casos, o gênero pode ser marcado por pronomes. +Nomes femininos no tigrétigréportuguêsšaybatmulher de cabelo grisalhoʿammattia paternağabanatgarrafa de caféʾəssitmulher Em casos em que um nome masculino tem uma estrutura CVCVC, ao passar para o gênero feminino a estrutura fonológica muda para CVCC-at. Processo semelhante ocorre com a adição de pronome sufixal feminino. +Mudança de gênero gramatical em nomesnome masc.portuguêsnome fem.portuguêskaləbcachorrokalbatcadelašayəbpessoa de cabelo grisalhošaybatmulher de cabelo grisalhokətəblivrokətbālivro dela
Número