Philip David Ochs (El Paso, Texas, 19 de dezembro de 1940 – Far Rockaway, Nova Iorque, 9 de abril de 1976) foi um cantor e compositor norte-americano, associado ao renascimento da música folk e ao movimento de canção de protesto dos Estados Unidos durante a década de 1960. As suas composições abordaram frequentemente acontecimentos políticos e sociais contemporâneos, incluindo o movimento dos direitos civis e a oposição à Guerra do Vietname, levando Ochs a descrever-se como um singing journalist («jornalista cantor»).
Depois de se estabelecer em Nova Iorque em 1962, integrou o circuito folk de Greenwich Village e gravou três álbuns para a Elektra Records: All the News That's Fit to Sing (1964), I Ain't Marching Anymore (1965) e Phil Ochs in Concert (1966). Entre as suas canções mais conhecidas encontram-se «I Ain't Marching Anymore», «There but for Fortune», «Changes», «Power and the Glory» e «Love Me, I'm a Liberal».
A partir de Pleasures of the Harbor (1967), já na A&M Records, Ochs alargou a sua linguagem musical através de arranjos e técnicas de produção mais elaborados, afastando-se progressivamente do formato folk predominantemente acústico. Paralelamente à carreira musical, manteve uma intensa atividade política, participando em manifestações contra a Guerra do Vietname e nos protestos realizados durante a Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago. A sua obra continuou a ser editada e reavaliada após a sua morte, através de reedições, gravações de arquivo e álbuns de tributo. Biografia
Infância e formação Philip David Ochs nasceu em 19 de dezembro de 1940, em El Paso, no Texas, filho de Jacob «Jack» Ochs, médico norte-americano, e Gertrude Phin Ochs, de origem escocesa. Durante a infância, a família mudou várias vezes de residência, estabelecendo-se em 1951 em Perrysburg, no estado de Nova Iorque. Foi aí que Ochs iniciou a sua formação musical, depois de a mãe incentivar os filhos a aprenderem um instrumento. Escolheu o clarinete e revelou rapidamente aptidão para o instrumento, dedicando várias horas diárias à prática e obtendo avaliações particularmente favoráveis pela técnica e capacidade de interpretação.
Em dezembro de 1954, a família mudou-se para Columbus, no Ohio, onde Ochs prosseguiu os estudos de clarinete no Capital University Conservatory of Music. Aos dezasseis anos, tornou-se principal solista de clarinete da orquestra da instituição. Apesar da formação clássica, durante a adolescência começou a interessar-se cada vez mais pela música popular norte-americana. Enquanto frequentava a Staunton Military Academy, na Virgínia, ouviu intensamente música country, incluindo artistas como Faron Young, Ernest Tubb, Lefty Frizzell, Johnny Cash e Hank Williams, desenvolvendo também uma forte admiração por Elvis Presley.
Durante a infância e adolescência, Ochs desenvolveu também um forte interesse pelo cinema, em particular pelos westerns e por atores como John Wayne e Audie Murphy, uma paixão que conservaria ao longo da vida. Em Staunton começou igualmente a dedicar-se à escrita, tendo obtido o segundo prémio num concurso da academia com o conto White Milk to Red Wine. Segundo o biógrafo Michael Schumacher, o texto apresentava já elementos de drama e ironia, bem como o tema do confronto entre o indivíduo mais fraco e uma força superior, características que viriam posteriormente a surgir nas suas composições.
Universidade e início da carreira musical miniatura|esquerda|250px|Universidade Estadual de Ohio, onde Phil Ochs estudou jornalismo. Em 1958, Ochs ingressou na Universidade Estadual de Ohio, onde estudou jornalismo. Após uma interrupção nos estudos, regressou à universidade no outono de 1959 e conheceu Jim Glover, estudante e músico folk que viria a exercer uma influência decisiva na sua formação musical e política. Glover apresentou-lhe a obra de Woody Guthrie, Pete Seeger e The Weavers, ao mesmo tempo que os dois começaram a debater regularmente questões políticas e sociais.
Ochs envolveu-se progressivamente na vida política universitária, participando, entre outras iniciativas, em protestos contra a formação militar obrigatória do ROTC. Paralelamente, escreveu para The Lantern, o jornal estudantil da universidade, e para a revista humorística Sundial, abordando assuntos políticos, música, teatro e questões relacionadas com a vida no campus. Insatisfeito com as limitações editoriais impostas a alguns dos seus textos de natureza política, chegou a criar uma publicação própria, The Word, destinada a divulgar material que considerava demasiado controverso para The Lantern.
A amizade com Glover conduziu também Ochs à guitarra e à composição. Durante a campanha para as eleições presidenciais de 1960, Ochs, que apoiava a candidatura de John F. Kennedy, apostou 50 dólares com Glover, que previa a vitória de Richard Nixon, contra a guitarra acústica Kay deste último. Com a vitória de Kennedy, Ochs ficou com o instrumento e começou a aprender guitarra com Glover.
Ochs e Glover começaram então a atuar juntos, inicialmente sob o nome The Singing Socialists e, posteriormente, como The Sundowners. A dupla interpretava repertório folk e começou a incorporar composições de Ochs inspiradas em acontecimentos políticos contemporâneos. A colaboração foi, contudo, breve, e Glover acabou por partir para Nova Iorque, onde prosseguiu a carreira musical.
Ochs continuou entretanto a atuar na região de Cleveland, já como solista, apresentando-se em clubes de música folk e abrindo concertos de outros artistas. Embora estivesse próximo de concluir o curso de jornalismo, abandonou a Universidade Estadual de Ohio durante o último trimestre e, em 1962, partiu para Nova Iorque, decidido a seguir profissionalmente a carreira musical.
Greenwich Village e primeiros álbuns
Ao chegar a Nova Iorque, em 1962, Ochs instalou-se no ambiente musical de Greenwich Village, então um dos principais centros do renascimento da música folk norte-americana. Começou a atuar regularmente nos cafés e clubes do bairro e aproximou-se de outros compositores e intérpretes da cena folk, entre os quais Tom Paxton, Dave Van Ronk e Bob Dylan. thumb|Petição assinada por Phil Ochs em 1964, solicitando a libertação de Russ Goddard, Gene Keyes e Barry Bassin. Ochs tornou-se também colaborador da revista Broadside, publicação dedicada à divulgação de novas canções de temática social e política. A ligação à revista proporcionou-lhe um importante espaço para apresentar as suas primeiras composições e aproximou-o de uma comunidade de autores que procurava recuperar a tradição da canção folk de intervenção, aplicando-a aos acontecimentos contemporâneos.
Ochs continuou a atuar na região de Cleveland, já como solista, apresentando-se em clubes de música folk e abrindo concertos de outros artistas. Embora estivesse próximo de concluir o curso de jornalismo, abandonou a Universidade Estadual de Ohio durante o último trimestre e, em 1962, partiu para Nova Iorque, decidido a seguir profissionalmente a carreira musical.
A crescente reputação de Ochs no circuito folk levou-o, em 1963, ao Newport Folk Festival, onde participou ao lado de vários dos principais intérpretes associados ao renascimento da música folk norte-americana. Parte das atuações realizadas no festival foi gravada pela Vanguard Records e posteriormente editada em Newport Broadside 1963.
Durante este período, Ochs desenvolveu rapidamente um repertório centrado em acontecimentos políticos e sociais contemporâneos, consolidando a abordagem que o próprio viria a caracterizar como a de um singing journalist. As suas primeiras gravações surgiram em coletâneas associadas à Broadside, à Folkways e à Vanguard, antes de assinar contrato com a Elektra Records.
Em 1964, Ochs lançou pela Elektra Records o seu primeiro álbum, All the News That's Fit to Sing. O disco refletia a abordagem fortemente ligada à atualidade que caracterizava esta fase da sua composição, abordando acontecimentos e figuras relacionados com a Guerra do Vietname, a Crise dos mísseis de Cuba e o movimento dos direitos civis. A gravação assentava sobretudo num acompanhamento acústico de duas guitarras, com Danny Kalb a acompanhar Ochs em várias faixas.
O álbum revelava também aspetos da composição de Ochs que ultrapassavam a sua vertente mais diretamente ligada à atualidade. «Too Many Martyrs» e «Celia» foram destacadas pelo crítico Mark Deming, da AllMusic, pela sua força emocional, enquanto «The Bells», adaptação musical de um poema de Edgar Allan Poe, foi apontada como exemplo das capacidades musicais de Ochs para além da sua escrita de letras.
O repertório do álbum não se limitava, contudo, ao comentário político imediato. Ochs musicou «The Bells», poema de Edgar Allan Poe, enquanto canções como «Power and the Glory», «Too Many Martyrs» e «Celia» alargavam o repertório para além da simples descrição de acontecimentos contemporâneos. O crítico Mark Deming, da AllMusic, destacou a adaptação de Poe como demonstração das capacidades musicais de Ochs, para além da sua reconhecida aptidão como letrista.
Consolidação artística e Phil Ochs in Concert
Em 1965, Ochs lançou o seu segundo álbum, I Ain't Marching Anymore, novamente pela Elektra Records. Em comparação com o disco de estreia, Ochs apresentava-se já como um intérprete mais seguro, assumindo sozinho o acompanhamento à guitarra. O crítico Mark Deming, da AllMusic, assinalou igualmente uma maior consistência na composição, destacando a evolução registada entre os dois álbuns.
O repertório incluía canções de intervenção como «Draft Dodger Rag» e «Here's to the State of Mississippi», mas também demonstrava a diversidade dos seus interesses musicais e literários. Ochs interpretou «Ballad of the Carpenter», de Ewan MacColl, e adaptou «The Highwayman», poema do escritor britânico Alfred Noyes. Deming destacou estas duas gravações como exemplos da capacidade de Ochs enquanto intérprete, para além do seu trabalho como compositor.
A faixa-título tornou-se uma das mais conhecidas canções de protesto de Ochs e uma das suas composições mais diretamente associadas à oposição à guerra. Na letra, o narrador assume sucessivamente a identidade de soldados que participaram em diferentes conflitos da história dos Estados Unidos, desde a Batalha de Nova Orleães e a Guerra Civil Americana até às duas guerras mundiais, terminando cada evocação com a recusa expressa no refrão de continuar a combater. Richie Unterberger, da AllMusic, destacou esta utilização de uma identidade narrativa que atravessa diferentes períodos históricos como um dos elementos que distinguia a canção de outras composições antiguerra surgidas durante o renascimento da música folk da década de 1960.
Em março de 1966, Ochs editou Phil Ochs in Concert, o seu terceiro e último álbum pela Elektra Records. Ao contrário do que era habitual em muitos álbuns ao vivo, o repertório era constituído inteiramente por canções que Ochs ainda não tinha editado em versões de estúdio, incluindo «When I'm Gone», «Cops of the World» e «Changes». O disco tornou-se o primeiro álbum do músico a entrar na tabela da Billboard, alcançando a 149.ª posição.
Apesar do título, Phil Ochs in Concert não corresponde ao registo integral de uma única atuação. O concerto realizado no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 7 de janeiro de 1966, foi gravado pela Elektra, mas problemas vocais de Ochs tornaram grande parte do material inutilizável. Foram realizadas novas gravações no Jordan Hall, em Boston, e, posteriormente, no Judson Hall, em Nova Iorque, onde parte substancial das interpretações foi registada sem público. O álbum incorporou ainda excertos das interações de Ochs com as audiências dos concertos anteriores, preservando parte do humor e dos comentários satíricos que caracterizavam as suas apresentações.