São Miguel Paulista, comumente chamado apenas de São Miguel, é um distrito da Zona Leste do município brasileiro de São Paulo.
História O distrito de São Miguel Paulista, situado na zona leste do município de São Paulo, possui uma das histórias mais longas e complexas entre os distritos que compõem a divisão administrativa da capital paulista, com origens que remontam ao período pré-colonial e que se estendem por mais de quatro séculos de transformações territoriais, demográficas e econômicas que moldaram o perfil contemporâneo do território. Antes da chegada dos colonizadores europeus, a região do atual distrito era ocupada pela aldeia tupiniquim de Ururaí, cujo território era comandado pelos caciques Piquerobi e Jaguaranho, lideranças indígenas que exerciam autoridade sobre a população nativa estabelecida naquela porção da bacia hidrográfica do rio Tietê. A posição geográfica da aldeia de Ururaí, situada em ponto estratégico de defesa da recém-fundada Vila de São Paulo de Piratininga contra as incursões dos tamoios vindos do litoral norte paulista, conferiu ao local uma importância militar e política que atraiu a atenção dos colonizadores portugueses e dos missionários jesuítas desde os primeiros anos da colonização do planalto paulistano. O Aldeamento de São Miguel foi um dos diversos aldeamentos jesuítas estabelecidos na região de São Paulo de Piratininga, e, junto com a vila de Pinheiros, constituiu um dos únicos núcleos populacionais de origem portuguesa independentes que conseguiram prosperar na região, distinguindo-se dos demais aldeamentos pela continuidade de sua ocupação e pela relevância que adquiriu no sistema de defesa e abastecimento da capitania de São Paulo.
A data de fundação do aldeamento de São Miguel é incerta e controversa entre os historiadores. A teoria que aponta a data mais antiga informa o ano de 1560, quando o padre José de Anchieta visitou os índios guaianases que haviam fugido da Vila de São Paulo de Piratininga após a chegada de índios provenientes da extinta Vila de Santo André da Borda do Campo, dispersando-se em diferentes direções pelo planalto paulistano. São Miguel mereceu atenção especial nesse contexto de dispersão indígena por estar situado em posição estratégica de defesa da Vila de São Paulo contra as incursões dos tamoios vindos do litoral norte paulista, o que motivou os jesuítas a concentrarem seus esforços missionários naquele local. A aldeia de Ururaí foi doada aos índios por meio de carta de sesmaria datada de 12 de outubro de 1580, instrumento jurídico que formalizou a posse coletiva do território pelos indígenas aldeados e que constituiu o fundamento legal sobre o qual se assentou a ocupação do espaço nos séculos subsequentes.
thumb|Capela de São Miguel Arcanjo, construída em 1622.Nessa aldeia, os jesuítas e os próprios índios ergueram uma capela dedicada a São Miguel Arcanjo, denominada Capela de São Miguel Arcanjo, que se tornaria o núcleo fundador do que viria a ser o distrito de São Miguel Paulista e que constitui, até os dias atuais, um dos mais relevantes testemunhos da arquitetura colonial paulistana. A Capela dos Índios, como ficou conhecida a edificação, está localizada na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, também conhecida como Praça do Forró, e é considerada a única construção no município de São Paulo que, após a reforma que sofreu no século XVII, conserva-se totalmente original, com paredes em taipa de pilão, técnica construtiva indígena e colonial que consiste na compactação de terra úmida entre formas de madeira, conferindo à edificação um valor histórico e arquitetônico de excepcional relevância para o patrimônio cultural do município de São Paulo e do estado de São Paulo. No decorrer do século XVII, São Miguel foi progressivamente perdendo a importância estratégica que havia adquirido nos primeiros anos da colonização, em razão da saída maciça de índios levados pelos colonizadores portugueses nas entradas e bandeiras promovidas pelo sertão, que esvaziaram demograficamente o aldeamento e reduziram sua relevância no sistema de defesa e abastecimento da capitania de São Paulo.
A Provisão Régia de 21 de junho de 1779 elevou a aldeia à condição de Distrito de São Miguel, conferindo ao território uma identidade administrativa que se manteria, com sucessivas alterações de denominação, até os dias atuais. A partir desse ato normativo, a carta de sesmaria de 1580 passou a ser progressivamente desrespeitada, abrindo espaços para a expansão da lavoura e para o crescimento populacional local, que se intensificou ao longo do século XVIII com a chegada de novos moradores atraídos pela fertilidade das terras e pela posição do território no sistema de caminhos que conectava a capitania de São Paulo às demais regiões da colônia. Durante muito tempo, o território foi chamado "distrito da Penha de França", subordinação administrativa que refletia a dependência do território em relação ao núcleo urbano da Penha, situado a oeste, e que perdurou até o fim do período imperial, quando São Miguel ganhou autonomia administrativa e passou a constituir uma unidade territorial independente. A existência da estrada que ligava o Rio de Janeiro a São Paulo, e que passava pelo interior da antiga Aldeia de São Miguel, foi um dos fatores determinantes para a constituição e o desenvolvimento do distrito, pois o fluxo de viajantes, tropeiros e mercadorias que transitava por aquela via estimulou o surgimento de atividades comerciais e de serviços que dinamizaram a economia local ao longo dos séculos XVIII e XIX; essa estrada histórica transformou-se, com o processo de urbanização do século XX, nas avenidas Marechal Tito e São Miguel, que constituem até hoje os principais eixos viários do distrito. Em 26 de abril de 1865, foram criadas duas classes do ensino das primeiras letras — uma para meninos e outra para meninas —, marco que representa o início da institucionalização do ensino público no território do distrito. Em 16 de junho de 1891, criou-se o primeiro ofício do registro civil, o cartório de paz, que formalizou o registro dos atos da vida civil da população residente. Até o século XIX, a denominação "São Miguel" compreendia um espaço geográfico muito mais amplo do que o atual distrito, abrangendo os territórios que hoje correspondem aos distritos de Itaim Paulista, Ermelino Matarazzo, Itaquera, Guaianases e Pimentas, e que nos primórdios da colonização se estendia até parte do município de Mogi das Cruzes, configurando um dos maiores territórios da zona leste paulistana. Em 1903, a região já contava com 108 casas e 2 299 habitantes, dados que atestam o crescimento demográfico que o território havia experimentado ao longo do século XIX e que anunciavam a expansão que se intensificaria nas décadas seguintes.
Durante muito tempo, a principal atividade econômica do distrito foi a indústria da cerâmica, que aproveitava a abundância de argila nas margens dos córregos e rios que atravessavam o território para a produção de tijolos, telhas e outros materiais de construção que abasteciam o mercado paulistano em expansão. A partir de 1913, o distrito passou a evoluir também comercialmente, com o surgimento dos primeiros estabelecimentos de comércio varejista que atendiam à população residente e aos viajantes que transitavam pela estrada São Paulo–Rio de Janeiro. Em 1920, um corretor imobiliário instalou em seu loteamento — o atual Parque Paulistano — um ônibus com três viagens diárias, facilitando o acesso dos compradores de terrenos ao distrito e antecipando o processo de urbanização que se intensificaria nas décadas seguintes. Nesse mesmo ano, começaram a se dirigir para São Paulo grande número de nordestinos, principalmente baianos e pernambucanos, que se instalaram especialmente em São Miguel, inaugurando um fluxo migratório que marcaria profundamente a composição demográfica e cultural do distrito ao longo do século XX. A primeira estrada do distrito, a São Paulo–Jacareí, foi construída precariamente em 1924, em razão da escassez de recursos, mas representou um avanço significativo na integração do território ao sistema viário da capital paulistana. Em 1930, inaugurou-se a linha de ônibus Penha–São Miguel, operada pela empresa Auto Ônibus Penha-São Miguel, que conectou o distrito ao núcleo urbano da Penha e facilitou o deslocamento da população residente para os centros de emprego e serviços da zona leste paulistana. Em 1932, foi inaugurada a linha variante da Estrada de Ferro Central do Brasil e, no mesmo ano, a estação ferroviária de São Miguel, que integrou o distrito ao sistema ferroviário da Região Metropolitana de São Paulo e impulsionou o crescimento demográfico e econômico do território nas décadas seguintes. A fase industrial do distrito iniciou-se em 1935, quando o senhor Antônio Fuga e seus filhos deram início à construção da Companhia Nitro Química Brasileira, empreendimento que seria inaugurado em 1939 e que se tornaria o principal motor do desenvolvimento econômico e demográfico do distrito ao longo do século XX. A Companhia Nitro Química Brasileira, pertencente ao Grupo Votorantim e fundada pelo empresário José Ermírio de Moraes como resposta à liderança das Indústrias Matarazzo na produção do raion, a seda sintética, gerou uma intensa migração para São Miguel, atraindo principalmente trabalhadores da região Nordeste do Brasil que se estabeleceram no distrito e transformaram sua composição demográfica e cultural de forma irreversível. Em 1939, São Miguel foi palco da construção da primeira estrada de concreto do Brasil, marco da modernização da infraestrutura viária do país que atesta a relevância do território no contexto do desenvolvimento nacional daquele período. Em 1941, foi instalada em Ermelino Matarazzo — que naquela época ainda fazia parte de São Miguel — a Celosul, fábrica de papel de propriedade do Grupo Matarazzo, que ampliou a base industrial do território e atraiu novos contingentes de trabalhadores para a região. A Companhia Nitro Química cresceu rapidamente e em 1948 já empregava quatro mil operários, número que atesta a dimensão do impacto econômico e demográfico que a indústria exerceu sobre o distrito e sobre toda a zona leste paulistana. Em 1950, foram fundados no distrito a Maçonaria, o Rotary e o Lions Club, cujos fundadores e principais associados eram comerciantes estabelecidos na região, refletindo a consolidação de uma classe de comerciantes e empresários locais que desempenharia papel central na vida social e econômica do território nas décadas seguintes. O primeiro ginásio noturno estadual foi inaugurado em 1953 no Grupo Escolar Carlos Gomes, já instalado como grupo escolar desde 1938, marco que representa a expansão da oferta de ensino secundário no território do distrito.