A Guerra da Orelha de Jenkins ou Guerra do Asiento foi um conflito bélico ocorrido no Caribe, entre 1739 e 1748, durante o qual se enfrentaram as frotas e tropas coloniais da Grã-Bretanha e da Espanha (com auxílio da França, que enviou uma frota).
A partir de 1742, a contenda se transformou em um episódio da Guerra da Sucessão Austríaca, cujo teatro americano terminaria com a derrota inglesa e o retorno ao status quo ante bellum. A ação mais significativa da guerra foi o cerco de Cartagena das Índias, em 1741, quando foi derrotada uma frota britânica de 186 navios e quase homens, por uma guarnição espanhola composta de homens e seis navios de linha. A história não voltaria a ver uma batalha anfíbia de tal magnitude até o Desembarque da Normandia, mais de dois séculos depois.
O curioso nome, pelo qual a guerra é conhecida na historiografia inglesa, deve-se ao episódio considerado casus belli: o aprisionamento de um navio britânico por um barco-patrulha espanhol, quando, segundo o capitão do navio britânico, Robert Jenkins, sua orelha foi cortada pelo capitão da embarcação espanhola, Julio León Fandiño. Em audiência realizada na Câmara dos Comuns, em 1738 — no contexto de uma campanha belicista, por parte da oposição parlamentar, contra o primeiro-ministro Walpole —, Jenkins denunciou o caso com a orelha na mão. Diante da repercussão do episódio, Walpole se viu obrigado, com relutância, a declarar guerra à Espanha, em 23 de outubro de 1739.
Nomenclatura O incidente que deu nome à guerra ocorreu em 1731,La guerra de la oreja de Jenkins. Diario de Cádiz, 29 de fevereiro de 2008. na costa da Flórida, quando o navio britânico Rebecca foi interceptado, e sua tripulação embarcada no barco-patrulha espanhol La Isabela, comandado por Juan de León Fandiño. Após o embarque, Fandiño acusou Robert Jenkins de contrabando e cortou sua orelha esquerda, dizendo: "Vá e diga ao seu rei que eu farei o mesmo com ele, se ele ousar fazer o mesmo que você". Em março de 1738, Jenkins recebeu ordem de testemunhar perante o Parlamento, presumivelmente para repetir sua história diante de um comitê da Câmara dos Comuns. Segundo alguns relatos, ele produziu a orelha decepada como parte de sua apresentação, embora não exista registro detalhado da audiência. O incidente foi considerado, juntamente com vários outros casos de "depredações espanholas contra súditos britânicos", como um insulto à honra da Grã-Bretanha e um claro casus belli.James, p. 59
O conflito foi nomeado pelo ensaísta e historiador Thomas Carlyle, em 1858, cento e dez anos após o fim das hostilidades. Carlyle mencionou a orelha em várias passagens de sua History of Friedrich II (1858), mais notavelmente no livro XI, capítulo VI, onde se refere especificamente à "Guerra da orelha de Jenkins".
Causas A conclusão da Guerra de Sucessão Espanhola, com o tratado de Utrecht não havia suposto unicamente o desmembramento do patrimônio da monarquia hispânica na Europa. Inglaterra, já Grã-Bretanha, à parte de ter evitado a criação de uma potência hegemônica no continente europeu (com a combinação das monarquias bourbônicas de França e Espanha, junto com as possessões da última no continente), conseguiu amplas concessões comerciais no império espanhol na América. Assim, à parte da possessão de Gibraltar e Minorca (territórios reclamados pela Espanha durante todo o século XVIII), a Grã-Bretanha obteve o denominado «direito de assento» (possibilidade de vender escravos negros na América hispana) durante trinta anos e a concessão do «navio permitido» (que permitia o comércio direto da Grã-Bretanha com a América espanhola pelo volume de mercadorias que pudesse transportar um barco), rompendo assim o monopólio para o comércio com a América espanhola, restringido pela Coroa a comerciantes provenientes da Espanha metropolitana. Ambos os acordos comerciais estavam aos auspícios da Companhia dos Mares do Sul. thumb|200px|Felipe V da Espanha. Entretanto, o comércio direto da Grã-Bretanha com a América espanhola seria uma fonte constante de problemas entre ambas as monarquias. Além desse, existiam outros motivos de conflito: problemas fronteiriços na América do Norte entre Flórida (espanhola) e Geórgia (britânica), queixas espanholas pelo estabelecimento ilegal de cortadores de madeira britânicos nas costas do Caribe, reclamação constante de retrocessão de Gibraltar e Minorca por parte da Espanha, o desejo britânico de dominar os mares, mais difícil ante a recuperação da marinha espanhola e a rivalidade conseguinte entre Grã-Bretanha e Espanha, algo que já tinha ocasionado uma curta guerra entre ambos os países em 1719 na que chegou a dar-se um falido intento espanhol de invadir a Inglaterra.
Entretanto, era no terreno comercial onde se produziria um incessante crescimento da tensão. A Espanha mantinha o monopólio comercial com suas colônias na América, com a única exceção das concessões feitas à Grã-Bretanha, relativas ao navio permitido e o comércio de escravos.
Sob as condições do Tratado de Sevilha (1729), os britânicos acordaram não comercializar com as colônias da América espanhola (exceto o navio permitido), para o qual acordaram permitir, a fim de verificar o tratado, que navios espanhóis interceptaram os navios britânicos em águas espanholas para verificar sua carga, o que era conhecido como «direito de visita».
Todavia, as dificuldades de abastecimento da América espanhola propiciaram o surgimento de um intenso comércio de contrabando nas mãos de holandeses e, fundamentalmente, britânicos. Ante tais feitos, a vigilância espanhola se incrementou, ao tempo que se fortificavam os portos e melhorava o sistema de comboios que servia de proteção à valiosa frota do tesouro que chegava da América. De acordo com o «direito de visita», os navios espanhóis poderiam interceptar qualquer barco britânico e confiscar suas mercadorias, já que, a exceção do navio permitido, todas as mercadorias com destino à América espanhola eram, por definição, contrabando. Dessa forma, não só navios reais, mas também outros navios espanhóis em mãos privadas, com concessão da coroa e conhecidos como guarda costas, podiam abordar os navios britânicos e confiscar suas mercadorias. Tais atividades eram qualificadas de pirataria pelo governo de Londres. thumb|left|200px|Robert Walpole, Primeiro-ministro britânico no momento de declarar a guerra. Além do contrabando, havia ainda barcos britânicos dedicados à pirataria. Boa parte do continuo assédio da Frota das Índias recaía sobre a tradicional ação de corsários ingleses no Mar do Caribe, que remontava aos tempos de Francis Drake. As cifras de barcos capturados por ambos bandos diferem enormemente e são portanto muito difíceis de determinar: até setembro de 1741 os ingleses falam de 231 buques espanhóis capturados frente a 331 barcos britânicos abordados pelos espanhóis; segundo esses, as cifras respectivas seriam de só 25 frente a 186. Em qualquer caso, é de se notar que para então as abordagens espanholas com êxito seguiam sendo mais frequentes que os britânicos.
Entre 1727 e 1732, transcorreu um período especialmente tenso nas relações bilaterais, ao que seguiu um período de distensão entre 1732 e 1737, graças aos esforços em tal sentido do primeiro-ministro britânico —whig—, sir Robert Walpole e do Ministério da Marinha espanhol, ao que se uniu a colaboração entre ambos países na Guerra da Sucessão da Polônia. Não obstante, os problemas seguiram sem resolver-se, com o conseguinte incremento da irritação na opinião pública britânica (na primeira metade do século XVIII começa a se consolidar o sistema parlamentarista britânico, com a aparição dos primeiros jornais periódicos). A oposição a Walpole (não só tories, mas também um número significativo de whigs descontentes) aproveitou este feito para acossar a Walpole (conhecedor do balanço de forças e, por conseguinte, contrário à guerra contra a Espanha), começando uma campanha a favor da guerra. Nesse contexto se produziu a audiência de Robert Jenkins na Câmara dos Comuns em 1738, um contrabandista britânico cujo barco, o Rebecca, tinha sido apresado em abril de 1731 por um guarda-costas espanhol, confiscando-lhe a carga. Segundo o testemunho de Jenkins, o capitão espanhol, Julio León Fandiño, que apresou a nave, cortou-lhe uma orelha ao tempo que lhe dizia: «Ve y dile a tu rey que lo mismo le haré si a lo mismo se atreve». Em sua audiência ante a câmara, Jenkins apoiou seu testemunho mostrando a orelha amputada. thumb|200px|Jorge II da Grã-Bretanha. A oposição parlamentar e posteriormente a opinião pública transformaram os incidentes em uma ofensa à honra nacional e claro casus belli. Incapaz de fazer frente à pressão generalizada, Walpole cedeu, aprovando o envio de tropas à América e de uma esquadra a Gibraltar com o comando do almirante Haddock, o que causou uma reação imediata por parte espanhola. Walpole tratou, então, de chegar a um entendimento com a Espanha no último momento, algo que foi conseguido momentaneamente com a assinatura do Tratado de El Pardo (1739) (14 de janeiro de 1739), pelo que ambas as nações se comprometiam a evitar a guerra e a pagar-se compensações mútuas, além de ficar acordado um novo tratado futuro que ajudasse a resolver outras diferenças acerca dos limites territoriais na América e os direitos comerciais de ambos.
Entretanto, o tratado foi rechaçado pouco depois, no parlamento britânico, contando também com a decidida oposição da Companhia dos Mares do Sul. Estando assim as coisas, o rei Felipe V exigiu o pagamento das compensações acordadas por parte britânica antes de a Espanha o fazer.
Nos dois países as posições endureceram, incrementando os preparativos para a guerra. Finalmente, Walpole cedeu às pressões parlamentares e das ruas, aprovando o início da guerra. Ao mesmo tempo, o embaixador britânico na Espanha solicitou a anulação do «direito de visita». Longe de ceder às pressões britânicas, Felipe V suprimiu o «direito de assento» e o «navio permitido», e reteve todos os barcos britânicos que se encontravam em portos espanhóis, tanto na metrópole como nas colônias americanas. Ante tais fatos, o governo britânico retirou seu embaixador de Madri (14 de agosto) e declarou formalmente a guerra à Espanha (19 de outubro de 1739).
A guerra Puerto Bello 250x250px|thumb|Sátira britânica de 1738 em que aparece o leão inglês atacando um arado tirado por escravos que representa o sistema colonial espanhol. Ao fundo pode-se ver Fandiño cortando a orelha de Jenkins e a um barco britânico em plena batalha com um espanhol. A primeira ação foi protagonizada pelo almirante Edward Vernon, que no comando de seis naves capturou e destruiu Puerto Bello (atual Portobelo, no Panamá), um centro de exportação de prata no Vice-reino de Nova Granada em novembro de 1739. O êxito foi enormemente magnificado pela nascente imprensa inglesa, a qual publicou toda classe de sátiras sobre as forças espanholas ao mesmo tempo que lançava louros a Vernon. Durante uma cena em honra a este a que assistiu o rei Jorge II da Inglaterra, em 1740, foi apresentado um novo hino criado para comemorar a vitória, que não é outro que o atual hino nacional britânico God Save the King. Um vestígio dessas celebrações pode ainda ser encontrado no mapa da cidade de Londres: a conhecida via Portobello Road, ainda que urbanizada na segunda metade do , deriva seu nome de uma granja situada anteriormente no lugar, e denominada Portobello Farm em comemoração dessa batalha.
Nueva Granada (a batalha de Cartagena)
250px|thumb|Fortaleza de San Felipe de Barajas em Cartagena. Uma enorme frota britânica liderada pelo Almirante Vernon foi derrotada em 1741 pelas forças espanholas de Blas de Lezo que defendiam esse forte.