Os ostracodos, ostracodes ou ostrácodes são pequenos crustáceos (comprimento de 0,1 mm a 32 mm) e que estão incluídos na classe Ostracoda. Possuem como característica marcante uma concha bivalve composta por quitina e, na maioria dos casos, também carbonato de cálcio e magnésio (em menor proporção). Diversos apêndices (ou "perninhas") são utilizadas na locomoção (dependendo do grupo), são eles as antênulas, as antenas, e os quintos, sextos e sétimos pares de apêndices, além da furca (que não é um apêndice verdadeiro).
A concha os protege do ambiente exterior. São animais com abundante registo fóssil (maior dentre os artrópodes), que remete para 440 milhões de anos antes do presente, o que significa que parte deles sobreviveu aos momentos mais difíceis da vida na Terra, como as cinco grandes extinções em massa do Fanerozoico.Idem Podem ser encontrados em todos os tipos de ambientes marinhos, desde as praias até as regiões mais profundas do oceano, e também em ambientes de água salobra (estuários, manguezais...) e de água doce (rios, lagos, copos de bromélias, poças temporárias..., além de também terem sido encontrados em ambientes semi-terrestres (ou seja, locais muito úmidos próximos a cachoeiras...). Os ostracodes são componentes fundamentais para os ecossistemas, no fundo do ambiente aquático eles fazem parte tanto da epifauna (vivem na superfície do substrato) como da infauna (vivem enterrados no sedimento). Eles habitam também a coluna d'água, ou seja, existem ostrácodes planctônicos. Eles se alimentam de detritos orgânicos, de plantas, de algas e alguns de outros animais, como jovens anelídeos e até moluscos. Existem aproximadamente 33.000 espécies fósseis e viventes nesta classe, porém certamente existem muitas mais a serem descritas. Estima-se que as espécies vivas sejam em torno de 10 000 a 15 000.
Morfologia e Plano Corpóreo As espécies da fauna atual de Ostracoda apresentam tamanho que varia de 0,1 mm a mais de 60 mm (como, por exemplo, o Gigantocypris). Contudo, considerando um indivíduo adulto, a maioria dos ostracodos medem entre 0,4 mm e 1 mm de comprimento.
Carapaça Estes micros crustáceos apresentam uma carapaça bivalve, articulada dorsalmente, que recobre todo o corpo (cabeça e tronco) do organismo. A carapaça pode apresentar diversas ornamentações, poros e variações na forma, e é fechada por musculatura adutora com fibras transversais localizada na região central das valvas. É composta de quitina e apresenta impregnações de carbonato de cálcio na maioria das espécies. Na região dorsal, há uma faixa de cutícula não calcificada que dá origem a uma linha de dobradiça distinta. Sua carapaça pode, por vezes, lembrar as carapaças dos representantes da ordem Diplostraca, crustáceos da classe Branchiopoda, contudo há algumas diferenças visíveis entre os grupos a serem listadas a seguir:
Enquanto as subordens Laevicaudata, Spinicaudata e Cyclestherida, pertencentes à ordem Diplostraca, apresentam linhas concêntricas de crescimento nas suas valvas (de maneira muito similar aos moluscos bivalves), o mesmo não ocorre com ostracodos. Isso se deve a diferenças no processo da muda desses organismos. Ostracodos descartam o esqueleto das valvas a cada muda realizada. Já as espécies de Laevicaudata, Spinicaudata e Cyclestherida, simplesmente adicionam material à carapaça preexistente, formando as linhas de crescimento conforme o material novo é depositado. Indivíduos da subordem Cladocera, pertencente à ordem Diplostraca, apresentam uma carapaça que nunca é articulada, mas apenas dobrada dorsalmente, enquanto a carapaça de ostracodos é articulada. Ainda, cladóceros não têm seu corpo todo recobertos pela carapaça, mantendo sua cabeça descoberta. Diplóstracos e ostracodos apresentam diferenças significativas em relação aos seus apêndices e a segmentação do corpo.
Tagmose Devido à extrema redução no tamanho corporal e nas estruturas das partes moles, são diversas as interpretações da tagmose em Ostracoda. para alguns autores, os ostracodos apresentam uma cabeça, um tronco e um télson, apresentando furca (ou forquilha caudal). Por outro lado, a homologia da furca com o telson ainda é dúbia. Não há distinção clara entre tórax e abdômen, que pode ser resultante da fusão de ambos ou de perda do abdômen. O tronco é reduzido, quando comparado ao de outros crustáceos, e não demonstra evidências de segmentação externa, apesar de ser possível a visualização dos 11 somitos pós-cefálicos em poucos táxons. Apêndices Ostracoda é o grupo de crustáceos com número de apêndices bastante reduzido. Na cabeça, apresentam-se quatro ou cinco pares de apêndices bem desenvolvidos e, no tronco, um a três pares, sendo o terceiro par chamado de órgão copulador por portar os gonóporos. Aqui é importante mencionar que a homologia do apêndice copulatório com um par de apêndices permanece dúbia, já que em um estudo ontogenético, autores chegaram à conclusão de que o apêndice copulatório resulta da fusão de partes de diferentes apêndices e furca. As maxilas (apêndices cefálicos) e os apêndices do tronco podem se encontrar modificados para auxiliar na locomoção, na alimentação ou na limpeza das valvas. alt=Iconografia zoológica mostrando os apêndices e corpo de um ostracodo|esquerda|miniaturadaimagem|435x435px|Iconografia zoológica mostrando os apêndices e corpo de um ostracodo
Sistema Sensorial A presença de cerdas sensoriais nos apêndices e na própria carapaça contribui na maior parte da percepção do ambiente pelos ostracodos. Além da existência de cerdas sensoriais, está presente, na maioria dos ostracodos, um olho naupliar (ou naupliano) simples mediano, geralmente chamado de “olho maxilopodiano”. Nas espécies de Myodocopa, pode-se observar olhos compostos sésseis. Sistema Circulatório Apenas na ordem Myodocopa apresentam-se vasos sanguíneos e um coração. Nas demais ordens, a circulação da hemolinfa ocorre entre as paredes valvares. Trocas gasosas Em ostracodos, as brânquias estão ausentes na maioria das espécies, limitando as trocas gasosas ao processo de difusão entre os tecidos e o meio. A partir da movimentação dos apêndices para locomoção e/ou alimentação e/ou respiração, geram-se fluxos de água internamente à carapaça do animal, facilitando as trocas gasosas.
Excreção Os órgãos excretores podem se apresentar como glândulas maxilares, estruturas grandes que repousam entre as paredes valvares, ou antenais, presentes apenas em algumas espécies de Ostracoda. A maioria dos ostracodos apresenta apenas um tipo de glândula excretora, mas alguns poucos apresentam ambos.
Reprodução Há três modos distintos de reprodução dentro do grupo Ostracoda. Estes podem ser: exclusivamente sexuado, exclusivamente partenogenético ou misto. A maioria dos ostracodos se reproduz sexuadamente, contudo, algumas espécies não-marinhas (todas pertencentes à subclasse Podocopa), apresentam indícios de realizarem partenogênese. Em minoria, verifica-se que algumas espécies apresentam populações com ambos os modos reprodutivos, mas sem que ambos ocorram concomitantemente.
Reprodução sexuada Os ostracodos são, em sua maioria, animais dioicos que apresentam fecundação interna com transferência direta de gametas. Os dutos espermáticos dos machos se abrem em dois pênis esclerotizados localizados ventralmente no terceiro par de apêndices do tronco. Os gonóporos femininos se localizam no último par de apêndices do tronco em região ventral.
Durante a cópula de algumas espécies de Ostracoda, o macho utiliza as segundas antenas ou o primeiro par de pernas para imobilizar dorsalmente a fêmea. Os pênis são inseridos nos gonóporos femininos e os espermatozoides são transferidos à fêmea.
Partenogênese A partenogênese, em ostracodos, parece estar atrelada à ocorrência em habitats efêmeros de água doce. Em representantes não-marinhos da subclasse Podocopa, especialmente em Cypridoidea, infere-se que algumas espécies sejam capazes de se reproduzir por partenogênese, uma vez que machos destas espécies nunca foram encontrados. Dentre as espécies europeias da família Cyprididae, machos são desconhecidos em 80% dos casos.
Misto Alguns registros demonstram que certas espécies são capazes de alternar entre os modos sexuado e partenogenético. Eucyphs virens, por exemplo, é uma espécie de Cypridoidea que apresenta partenogênese geográfica, ou seja, seu modo reprodutivo varia conforme sua distribuição espacial. Populações de E. virens encontradas em lagoas temporárias pela Europa apresentavam partenogênese, enquanto em certos locais na Espanha, sul da França e Silícia se reproduziam sexuadamente.
Oviposição e incubação Na maioria das espécies, as fêmeas põem ovos, mas algumas espécies incubam os ovos internamente às suas valvas. A oviposição se dá tanto livremente na água quanto associada a algas ou rochas, podendo ser depositados ovos isolados ou agrupamentos dos mesmos. A incubação dos ovos se dá em uma expansão posterior da carapaça da fêmea, podendo conter até 85 crias em alguns taxa. Alguns taxa de Podocopida incubam ovos e juvenis até que realizem a segunda ou terceira, podendo haver crias em diferentes estágios de desenvolvimento dentro da câmara incubadora.
Alguns ostracodos que habitam corpos temporários de água doce produzem ovos de resistência, que podem permanecer em estado latente por meses ou anos até que o ambiente se torne favorável novamente.
Aspectos ecológicos dos Ostracodos miniaturadaimagem|160x160px|Lepomis macrochirus, um predador dos ostracodos Os ostracodos possuem distribuição diversa, podendo habitar ecossistemas aquáticos, ambientes dulcícolas e marinhos onde possuem grande abundância em bentos, apesar de algumas espécies serem excelentes nadadores, e habitam o interior de plantas emersas e submersas, mas podem habitar até mesmo ambientes semi-terrestres ou terrestres, em que comumente são associados a musgos. Vale lembrar que esses crustáceos possuem adaptações morfofisiológicas a ambientes hostis, como aqueles que têm falta de água. Possuem diferentes hábitos alimentares, podendo ser carnívoros, herbívoros, filtradores, se alimentando de outros pequenos crustáceos, peixes, anelídeos, representantes vegetais, partículas orgânicas suspensas e detritos. Todavia, esses animais são predados por peixes, invertebrados planctônicos ou bentônicos e por algumas aves aquáticas. alt=Bioluminescência de um Ostracodo.|esquerda|miniaturadaimagem|189x189px|Bioluminescência da Vargula hilgendorfii
Bioluminescência Algumas espécies de ostracodos também contribuem para a luminescência dos mares emitindo uma brilhante luz azul. O mecanismo químico para esse fenômeno se baseia na proteína luciferina. Na presença de oxigênio e da enzima luciferinase, essa molécula sofre oxidação e acaba por emitir luz. Este processo ocorre em glândulas e pode tanto culminar no acúmulo destes fatores na carapaça como na secreção para a água. Ocorre majoritariamente nos períodos noturnos e está muitas vezes relacionado a uma corte sexual entre os indivíduos, que pode envolver outros comportamentos, como movimentos ascendentes em espiral e uma pulsação sincronizada entre grupos de animais próximos. A bioluminescência também pode ser útil para evitar a predação. No caso da Vargula sp., quando atacada por um peixe planctívoro, produz uma luminosa nuvem com cerca de alguns centímetros. Mantida por alguns instantes, que duram de segundos a minutos, essa coluna de luz pode incomodar o predador a ponto de ele evadir o local, ou até mesmo atrair um peixe maior que acaba por espantá-lo.
Registro Fóssil