A Colônia Japonesa de Ivoti é uma área do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil. Divide-se em 37 lotes, dos quais sete ficam no município de Dois Irmãos e trinta em Ivoti, no Vale das Palmeiras. A Colônia Japonesa de Ivoti faz parte desse vale, estando situada entre as ruas Monte Fuji, Vale das Palmeiras e Sakura, fazendo divisa, a leste, com o município de Dois Irmãos.Caracteriza-se como a maior comunidade nipo-brasileira do Rio Grande do Sul, com forte caráter rural, preservando práticas agrícolas e culturais tradicionais. Além disso, conta com a Feira da Colônia Japonesa, importante espaço de valorização da cultura e da produção local.

Outro destaque é o Memorial da Colônia Japonesa, inaugurado em 2011 pela Lei Municipal nº 2578/2010. Localiza-se na Rua Sakura,1028, no Bairro Colônia Japonesa, em um prédio reestruturado que anteriormente abrigava a Escola Municipal Castelo Branco, criada para atender à demanda educacional dos filhos de imigrantes. O projeto de requalificação foi assinado pelos arquitetos Madalena Fuke e Leonel Ávila.

Topônimo "Ivoti" é um termo oriundo da língua tupi que significa "flor". Nesse contexto, observa-se também uma adaptação linguística por parte da comunidade nipo-brasileira local: a cidade é frequentemente referida como “Ibochi” (イボチ), forma resultante da aproximação fonética do nome “Ivoti” ao sistema fonológico do japonês, que não possui o fonema /v/ e tende a substituí-lo por /b/.

Além disso, entre os membros da comunidade, especialmente no uso cotidiano, é comum a utilização do termo “Koronia” (コロニア, koronia), derivado do português “colônia”, para se referir à região da Colônia Japonesa de Ivoti.

História A constituição da colônia japonesa no município de Ivoti ocorreu a partir da iniciativa de um grupo de imigrantes que buscava maior autonomia produtiva e melhores condições de inserção no mercado agrícola. Esse movimento teve origem ainda na década de 1950, quando Naotaka Hoshiko convidou Noritoshi Sasada, Kodama e Kamimura, juntamente com alunos da Escola Técnica da Faculdade de Agronomia de Kagoshima, Japão, para trabalharem no Rio Grande do Sul. Após dificuldades no processo migratório, apenas três deles chegaram ao Brasil em 1959, estabelecendo-se inicialmente em Viamão.

Com a chegada, em 1960, de novos integrantes entre eles alunos de Noritoshi Sasada e de seu irmão, Toyohiko Sasada, consolidou-se um grupo com formação técnica em agricultura. Diante das limitações da produção hortigranjeira, marcada pela instabilidade de preços e pela dependência do mercado urbano, o grupo passou a buscar alternativas mais sustentáveis. Nesse contexto, organizaram-se coletivamente com o objetivo de formar uma colônia agrícola cooperativa, inspirada em experiências como a de Ramos, em Frei Rogério que na época era distrito de Curitibanos. Entre esse grupo de imigrantes, 26 famílias, em busca de terras para fruticultura, passaram pelos municípios de Triunfo, Santo Antônio, Osório, Caí e Estância Velha, mas acabaram decidindo fixar-se em Ivoti (LEDUR, 2017). Com o apoio da Japan Migration and Colonization (JAMIC)11, eles adquiriram, em 1966, 120 hectares de terra por 500 cruzeiros cada. O valor foi financiado pela empresa vinculada ao governo japonês, que também auxiliou na preparação da colônia e na construção de casas (OLIVEIRA; MARTINS, 2008). Segundo Ledur, os primeiros imigrantes vieram das regiões de Gravataí e de Viamão, “sendo que o primeiro a chegar foi o agrônomo e professor Toyohiko Sasada, acompanhado pela esposa Masako e os filhos pequenos Naoko e Koji” (2017, p. 49). Conforme os primeiros imigrantes chegavam e construíam suas moradias, eles recebiam as novas famílias e ajudavam-nas a também se instalarem em Ivoti. Depois de estruturada a colônia, a organização foi desenvolvida em torno de uma cooperativa, criada para ser responsável pela venda dos produtos coloniais e para fornecer alimentos e produtos agrícolas aos associados, sendo firmada uma produção familiar e de apoio coletivo (DAI PRÁ, 2021, p. 34). A decisão pela constituição da colônia baseou-se na busca por terras adequadas à fruticultura. Após tentativas em diferentes municípios, o grupo adquiriu, em 20 de dezembro de 1966, 160 hectares de terras no município de Ivoti, provenientes de seis propriedades de agricultores teuto-brasileiros. A aquisição foi viabilizada por meio de financiamento da JAMIC – Emigração e Colonização Ltda., ao custo de Cr$ 500,00 por hectare.

A organização espacial da colônia seguiu critérios técnicos: os 160 hectares foram divididos em lotes de aproximadamente cinco hectares por família, considerando a qualidade do solo como fator determinante. Assim, áreas mais férteis correspondiam a lotes menores, enquanto áreas menos produtivas não foram atribuídas a famílias, ficando sob responsabilidade da cooperativa. Apesar das diferenças de tamanho, todos os lotes foram comercializados pelo mesmo valor, Cr$ 2.380,00. Esse processo envolveu 26 famílias, que adquiriram terras na região do Vale das Palmeiras, considerada mais favorável ao cultivo entre as opções analisadas. A instalação das famílias ocorreu de forma gradual. O primeiro colono a chegar foi Toyohiko Sasada, em dezembro de 1966, seguido pelos demais. Na ausência de infraestrutura inicial, os colonos organizaram-se coletivamente para construir moradias, abrir estradas e estruturar o espaço produtivo. A cooperação entre as famílias foi fundamental nesse processo, incluindo a hospedagem temporária dos recém-chegados e o compartilhamento de recursos. Nesse contexto inicial, as primeiras casas foram construídas em madeira, sendo progressivamente substituídas por edificações de alvenaria, à medida que as condições econômicas das famílias melhoravam. Em alguns casos, os imigrantes também passaram a ocupar antigas casas em estilo enxaimel, remanescentes da colonização alemã na região, incorporando estruturas já existentes ao novo espaço comunitário. Esse espaço da colônia ainda se mantém como uma área rural, onde os campos e a vegetação natural predominam sobre as construções e as moradias, embora o número de casas e de estradas tenham crescido. As primeiras residências construídas na colônia eram feitas de madeira e, posteriormente, foram mudadas para casa de alvenaria, conforme a economia local prosperava. Alguns imigrantes ainda ocuparam as poucas casas no estilo enxaimel no local, construídas pelos imigrantes alemães (DAI PRÁ, 2021, p. 38).

Paralelamente ao desenvolvimento das estruturas residenciais e produtivas, foram sendo criados espaços coletivos voltados à vida comunitária, como locais para reuniões, festividades, práticas esportivas e atividades educativas. Esses espaços passaram também a concentrar funções econômicas, especialmente relacionadas à comercialização e à distribuição dos produtos agrícolas, substituindo os galpões improvisados dos primeiros anos. Com o tempo, essa área central passou a ser reconhecida pelos próprios moradores como o “sentā” (センター, center), constituindo um importante ponto de referência social, econômica e cultural dentro da colônia. Além das residências e das construções relacionadas com a produção pecuária e agrícola, os imigrantes também construíram prédios comunitários para confraternizações, festividades, prática de esportes, ensino e, também, para a comercialização e distribuição dos produtos cultivados na colônia, substituindo, assim, os galpões improvisados erguidos nos primeiros anos. Esses espaços comunitários pertencem à associação de moradores e a cooperativas locais, ocupando uma área central da colônia denominada pela comunidade como Centro (sentaa – center).  (DAI PRÁ, 2021, p. 38).

Um dos principais desafios iniciais enfrentados pelos colonos foi o acesso à água, elemento essencial para a consolidação das atividades agrícolas. Para viabilizar a produção especialmente de hortaliças e tomateiros, fundamentais naquele primeiro momento , implementou-se um sistema coletivo de abastecimento. Esse sistema consistiu no represamento de um afluente do arroio Feitoria, com posterior elevação da água por meio de bombas de recalque até dois reservatórios instalados no ponto mais elevado da colônia. O reservatório superior destinava-se à irrigação das lavouras, enquanto o inferior armazenava água tratada para consumo doméstico. A construção dessa infraestrutura foi viabilizada por meio de empréstimos assumidos coletivamente pelos colonos, evidenciando o caráter cooperativo da comunidade. Sua manutenção também se dava de forma compartilhada, por meio de contribuições mensais das famílias, garantindo o funcionamento contínuo tanto do abastecimento doméstico quanto da irrigação agrícola.

Dentro desse modelo produtivo e cooperativo, a avicultura também desempenhou papel relevante na constituição da colônia. As famílias organizaram aviários para a criação de frangos, tanto para comercialização quanto para o aproveitamento do esterco como fertilizante natural, especialmente em um contexto de solos desgastados por cultivos anteriores. Essa atividade integrava-se às demais práticas agrícolas, contribuindo para a sustentabilidade produtiva das propriedades e para a diversificação das fontes de renda. Além do cultivo de uva, a colônia de Ivoti também possuía plantações de melões espanhóis, morangos, kiwi, bergamota, tomates e hortaliças, além do cultivo de flores. Nas primeiras décadas da chegada dos imigrantes também teve destaque a criação de frango. (DAI PRÁ, 2021, p. 46).

A gestão da colônia também seguiu um modelo coletivo. Inicialmente, esteve sob responsabilidade de lideranças como Iwao Kagaochi, Inosuke Ueda e Noritoshi Sasada, sendo posteriormente institucionalizada por meio da Cooperativa de Ivoti. Em 20 de fevereiro de 1969, foi constituída a Cooperativa Hortigranjeira Mista Ivoti Ltda., com a finalidade de fortalecer os produtores e estabelecer uma relação mais direta entre produtor e consumidor.A cooperativa teve papel fundamental no crescimento econômico da colônia e iniciou suas atividades com os seguintes sócios: Atsuo Matsumura, Chozaburo Miwa, Eijiro Kamimura, Haruyuki Shimozono, Ichiro Yamada, Inosuke Ueda, Isao Fukumoto, Iwao Kagaochi, Kazuhiro Miyabe, Keisuke Neshiba, Kiyoshi Matsumura, Kuniharu Orita, Kuniyoshi Omomo, Noboru Tanizaki, Norihiko Sakuragui, Sadao Suzuki, Shigeo Goshiyama, Shohei Kisaki, Sueo Chiba, Sumikazu Arima, Tadahiko Ozaki, Tadahiro Takeuchi, Tadaomi Yano, Teruo Tanaka, Tomichiro Ishigami, Toru So, Toyohiko Sasada, Yukinori Sato e Yukio Oike.

No início da década de 1970, a colônia alcançou uma safra recorde de uvas de mesa do tipo Itália, que passaram a ser conhecidas como “uvas japonesas” na região. Ainda no início da década de 1970 aconteceram safras recorde de produção de uvas de mesa tipo Itália, que inclusive em Ivoti são chamadas de “uvas japonesas”. (DILLY, 2014, p.64) Entretanto, a partir da década de 1980, a produção entrou em declínio, em decorrência da crescente concorrência com outros estados produtores, da redução dos lucros e de problemas administrativos que afetaram a organização produtiva local. Como consequência desse cenário, a cooperativa foi gradualmente enfraquecida, chegando ao seu encerramento no final da década de 1990.

Na mesma época deste processo, observou-se também um movimento de mobilidade transnacional entre os membros da colônia chamado "movimento dekassegui", já que, a partir dos anos 1980, parte dos imigrantes e seus descendentes passou a migrar para o Japão em busca de melhores oportunidades de trabalho. Em muitos casos, o objetivo era acumular recursos financeiros para quitar dívidas e, posteriormente, retornar ao Brasil, configurando um fluxo migratório inverso ao da imigração original.

Os principais produtos cultivados na Colônia Ivoti são as uvas de mesa, o quiuí, a bergamota, o caqui, as flores naturais, tanto para produção de mudas como para ornamentação, e as hortaliças, para consumo e produção de mudas.

Atividades culturais