Paranapiacaba é um distrito do município brasileiro de Santo André, que integra a Região Metropolitana de São Paulo e a Região do Grande ABC, no estado de São Paulo. Possui 2 458 habitantes, segundo o IBGE 2022.

Paranapiacaba destaca-se na história brasileira por reunir elementos fundamentais do desenvolvimento econômico, industrial e esportivo do país. Surgida no contexto da construção da ferrovia Santos–Jundiaí, inaugurada em 1867, a vila desempenhou papel estratégico no escoamento da produção cafeeira do interior paulista para o Porto de Santos, contribuindo para a consolidação da economia do café e para o processo de industrialização de São Paulo. Ao mesmo tempo, tornou-se um importante núcleo ferroviário e operário, preservando um conjunto urbano de forte influência inglesa. Além de sua relevância econômica e patrimonial, Paranapiacaba também integra a história do futebol brasileiro por abrigar o primeiro campo de futebol com medidas oficiais do Brasil, do clube União Lyra Serrano, onde foram realizadas algumas das primeiras partidas organizadas.

Devido à sua riqueza e importância histórica e arquitetônica para o Brasil, a vila é um patrimônio arquitetônico, natural, cultural e industrial, sendo considerado um "museu a céu aberto", e um conhecido destino turístico, principalmente nas atividades de ecoturismo e turismo histórico-cultural, fazendo parte do Expresso Turístico. Famosa por sua densa neblina, é internacionalmente conhecida por seu folclore e lendas, que deram origem a festividades como a Convenção de Bruxas e Magos, maior da América Latina, além de abrigar festivais de inverno e eventos culturais expressivos, como o Festival do Cambuci.

No início dos anos 2000, Paranapiacaba foi destaque internacional ao ter sido incluído no World Monuments Watch (WMW) de 2000 e 2002, que lista os 100 monumentos mais importantes do mundo pelo World Monuments Fund, e integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reconhecida pela UNESCO como de relevante valor para humanidade. Desde 1987 é considerada Patrimônio Histórico Estadual pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat); em 2002, recebeu o reconhecimento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Histórico Nacional.

Toponímia

"Paranapiacaba" originou-se do termo tupi paranapiacaba, que significa "lugar de onde se vê o mar", através da junção de paranã (mar), epîak (ver) e aba (lugar). Esta primeira tradução deve ser creditada a Frei Gaspar da Madre de Deus.

Já para o tupinólogo João Mendes de Almeida, o termo faz referência a um antigo caminho indígena que levava ao porto do mar, no caso, o Piaçaguera (Porto Velho). Assim, o termo, segundo Almeida, significa "caminho do porto do mar", através da junção de pé.rá-ñáî.piâ.quâb.a, donde pé.rá (mar) + ñáî (porto) + piâ (caminho) + quâb (passar) + a (infinitivo).

O nome primitivo do atual distrito de Paranapiacaba é Capetevar (Caá.apité.á), que significa "o monte mais alto" (da serra), o que condiz com o seu nome Alto da Serra, empregado pela companhia inglesa São Paulo Railway. Paranapiacaba foi empregado posteriormente para denominar o distrito pertencente ao município de Santo André.

História A SPR e o café esquerda|miniaturadaimagem|254x254px|Vista panorâmica parte alta Por concessão, um grupo inglês explorou o sistema ferroviário na Serra do Mar. E o primeiro sistema implementado foi o sistema funicular: com cabos e máquinas fixas. A primeira linha, com onze quilômetros de extensão, foi inaugurada em 1867 pelo grupo São Paulo Railway. Ela começou a ser construída em 1862 e teve como um dos maiores acionistas e idealizadores o lendário Barão de Mauá. Em 1859, ele chamou o engenheiro ferroviário britânico James Brunlees, que veio ao Brasil e deu viabilidade ao projeto. A execução de tal projeto foi de responsabilidade de outro engenheiro inglês, Daniel Makinson Fox.

Um ponto curioso é que pela instabilidade do terreno, a construção da estrada de ferro foi quase artesanal. Não se utilizou explosivos por medo de desmoronamento. As rochas foram cortadas com talhadeiras e pequenas ferramentas manuais. Paredões de até 3 metros e 20 centímetros de altura foram construídos ao logo do traçado da estrada de ferro. A segunda linha começou a funcionar em 1900.

O sistema ferroviário da Serra do Mar era composto por diversos túneis, que eram alvos de lendas e histórias assombradas disseminadas pelos próprios ferroviários. Algumas dessas lendas tiveram origem no fato de muitos operários terem morrido na construção desses túneis.

Antes mesmo do Locobreque, na Serra do Mar, uma primitiva máquina de madeira, também tracionada por cabos fazia o transporte entre os cinco patamares - era a Serrabreque. Durante a operação da Serrabreque, Barão de Mauá era um dos administradores.

Os cabos do locobreque levavam desenvolvimento e riqueza para a região do ABC Paulista e de Santos. Tanto é que a companhia inglesa criou em 1896 uma vila essencialmente de ferroviários, com construções de madeira no estilo inglês. Posteriormente, na vila de Paranapiacaba, os ingleses, no alto de uma subida, construíram uma mansão, que servia de centro de controle operacional. Apelidada pelos ferroviários de "Castelinho", a posição do local proporcionava uma privilegiada visão do sistema e de toda a estrutura da vila de Paranapiacaba. miniaturadaimagem|Casas históricas da vila Em 1907, a Vila foi chamada de Paranapiacapa, mas até 1945 a estação continuou a ser chamada de Alto da Serra. A Vila possuía todos os recursos da época para os maquinistas, fiscais e “foguistas” – responsáveis pela alimentação da fornalha da máquina fixa e da máquina dos trens.

Além de um mercado, de um posto de saúde, de um vagão-ambulância e até um vagão funerário, onde o velório era feito dentro da composição entre Santos e Paranapiacaba, os funcionários possuíam um centro de recreação, o União Lira Serrano, e um Campo de Futebol. No União Lira Serrano eram exibidos filmes, shows musicais e realizados bailes temáticos.

Além de dar mais força ao sistema, os cabos e as máquinas fixas economizavam energia para a operação dos trens. No entanto, vários acidentes eram registrados, principalmente pelo rompimento dos cabos. Havia uma espécie de freio, a tenaz, que agarrava os cabos para evitar a saída dos trens dos trilhos. Nem sempre o sistema, no entanto, funcionava de maneira satisfatória. Em 1956, um grande acidente foi evitado pelo maquinista na época, Romão Justo Filho, nascido em Paranapiacaba no mês de março de 1911, filho de maquinista também. Se a composição descarrilasse, cerca de 150 pessoas poderiam perder a vida. Através da utilização correta do sistema da tenaz, Romão foi “agarrando” aos poucos o cabo até que o trem parasse.

A concessão da linha da Serra do Mar não trouxe apenas glórias e desenvolvimento. Fatos até hoje não explicados satisfatoriamente marcaram a história dos trilhos por onde circularam os Locobreques. Exemplos são os incêndios da Estação da Luz, dois dias antes da primeira etapa da concessão dos ingleses terminar, em 1946, e na velha estação de Paranapiacaba, em 1981. Antes mesmo do incêndio, a estação já havia sido desativada em 1977 e substituída pelo prédio atual. O relógio estilo inglês foi poupado no incêndio e deslocado para uma torre mais alta que a anterior. Nos dois incêndios, tanto na Estação da Luz quanto em Paranapiacaba, as suspeitas principais são de motivação criminosa.

Formação administrativa Distrito policial de Alto da Serra criado em 04/10/1897 no município de São Bernardo. Distrito criado pela Lei nº 1.098 de 05/11/1907 com o nome de Paranapiacaba, no município de São Bernardo. Pelo Decreto n° 9.775 de 30/11/1938 foi transferido para o município de Santo André.

Pedido de emancipação

O distrito tentou a emancipação político-administrativa e ser elevado à município, através de processo que deu entrada na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo no ano de 1963, mas como não atendia os requisitos necessários exigidos por lei para tal finalidade, o processo foi arquivado.

Demografia População urbana

População total Pelo Censo 2022 (IBGE) a população total do distrito era de .

Geografia Área territorial A área territorial do distrito é de (IBGE 2022).

Rodovias O principal acesso ao distrito é a Rodovia Deputado Antonio Adib Chammas (SP-122). miniaturadaimagem|Cachoeira da Fumaça

Clima Ao contrário de toda a Região Metropolitana de São Paulo que possui um clima seco no inverno, Paranapiacaba possui um clima úmido e ameno a frio nesta estação abdicando assim a letra "w" na classificação do clima de Köppen para a letra "f" que significa precipitações constantes ao longo do ano sem interrupção de chuvas, sendo mais seco que o verão, porém tão úmido quanto Curitiba no período de inverno. esquerda|miniaturadaimagem|Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba O mês mais quente, fevereiro, possui a média mensal de e o mês mais frio, julho, possui uma temperatura média de . A umidade de Paranapiacaba é oriunda da vegetação da Serra do Mar e do Oceano Atlântico visto que este distrito está cercado de vegetação e o mesmo jaz sobre a encosta da Serra a 796m acima do nível do mar, e o Oceano Atlântico está a poucos quilômetros do mesmo, e que sopra nuvens carregadas de chuva e muita umidade para o núcleo central do distrito.

A precipitação no distrito é uma das mais altas da região metropolitana de São Paulo com quase anuais, um pouco mais que o dobro da média anual da zona urbana de Santo André ().

Serviços públicos Registro civil Atualmente é feito no próprio distrito, pois o Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais ainda continua ativo.

Saneamento O serviço de abastecimento de água é feito pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (SABESP).

Energia A responsável pelo abastecimento de energia elétrica é a Enel Distribuição São Paulo, antiga Eletropaulo.

Telecomunicações O distrito foi atendido pela Companhia Telefônica da Borda do Campo (CTBC) até 1998, quando esta empresa foi vendida juntamente com a Telecomunicações de São Paulo (TELESP) para a Telefônica, que em 2012 adotou a marca Vivo para suas operações.

Ferrovia Pátio ferroviário, estações e relógio

thumb|Alto da Serra - Guilherme Gaensly, Acervo do Museu Paulista da USP A São Paulo Railway inaugurou sua linha férrea em 16 de fevereiro de 1867. Servia como transporte de passageiros e meio de escoamento da produção de café da província paulista para o porto de Santos. Em 1874, foi inaugurada a Estação do Alto da Serra, que, mais tarde, seria denominada Paranapiacaba. A estação estava localizada na então freguesia de São Bernardo.alt=Neblina sobre a passarela metálica de Paranapiacaba|miniaturadaimagem|Neblina sobre a passarela metálica de Paranapiacaba|esquerdaNo ano de 1898, foi erguida uma nova estação com madeira, ferro e telhas francesas trazidos da Inglaterra. Esta estação tinha, como característica principal, o grande relógio fabricado pela James William Benson, de Londres, que se destacava no meio da neblina muito comum naquela região.

thumb|right|Pátio ferroviário de Paranapiacaba

Com o aumento do volume e peso da carga transportada, foi iniciada em 1896 a duplicação da linha férrea, paralela à primeira, a fim de atender à crescente demanda. Essa nova linha, também denominada de Serra Nova, era formada por 5 planos inclinados e 5 patamares, criando um novo sistema funicular. Os assim chamados novos planos inclinados atravessavam 11 túneis em plena rocha, enfrentando o desnível de 796 metros que se iniciava no sopé da serra, em Piaçagüera, no município de Cubatão. O traçado da ferrovia foi retificado e suavizado e ampliaram-se os edifícios operacionais. A inauguração deu-se em 28 de dezembro de 1901.