Estruturas vestigiais são órgãos, tecidos, células ou estruturas presentes num organismo vivo que perderam ou modificaram a sua funcionalidade e não exercem mais a sua principal função anterior, a qual era exercida em seus ancestrais. Elas são frequentemente chamadas órgãos vestigiais, embora muitas delas não sejam realmente órgãos e sejam enganosamente retratadas como estruturas sem nenhuma utilidade. Apesar de terem perdido ou diminuído sua principal função, as estruturas podem continuar a exercer tarefas secundárias e muitas vezes é possível reconhecer seu papel em outras espécies ancestrais ou relacionadas por derivação de ancestralidade comum.
Para todos os fins, a definição da comunidade científica sobre vestigialidade, de forma resumida, Ridley, Mark. Evolução. 3ª edição. Tradução: Henrique Ferreira, Luciane Passaglia, Rivor Fischer. Porto Alegre: Artmed, 2006. é a seguinte:
Histórico
Estruturas vestigiais foram notadas desde os tempos antigos, e a razão de sua existência foi especulada por muito tempo antes que a evolução darwiniana fornecesse uma explicação amplamente aceita. No entanto, foi a teoria da evolução que forneceu uma explicação científica abrangente na qual essas estruturas eram remanescentes de características ancestrais.
Aristóteles foi um dos primeiros escritores a comentar em sua História dos Animais, ainda no século IV a.C., que os olhos das toupeiras seriam vestigiais chamando-os de "atrofiados no desenvolvimento" devido ao fato de que as toupeiras mal conseguem ver.Aristóteles (c. 350 a.C.). Historia Animalium. IX, 621b-622a . Citado em Borrelli, Luciana; Gherardi, Francesca; Fiorito, Graziano (2006). Um catálogo de padrões corporais em Cephalopoda. Firenze University Press. No entanto, apenas nos últimos séculos os vestígios anatômicos se tornaram um assunto de estudo sério.
Étienne Geoffroy Saint-Hilaire que estava focado na teoria do desenvolvimento embrionário e na compreensão das relações entre os diferentes grupos de animais forneceu contribuições que ajudaram a estabelecer as bases para o estudo evolutivo da anatomia comparada. Em 1798 o naturalista abordou estruturas vestigiais usando o termo "rudimento", que era bastante explorado:St. Hilaire, Geoffroy (1798). "Observations sur l'aile de l'Autruche, par le citoyen Geoffroy", La Decade Egyptienne, Journal Litteraire et D'Economie Politique 1 (pp. 46–51).
Jean-Baptiste Lamarck citou uma série de estruturas vestigiais em seu livro de 1809, Philosophie Zoologique. Lamarck descreveu que o Spalax, que vive no subsolo como uma toupeira e que aparentemente fica exposto à luz do dia ainda menos, perdeu totalmente o uso da visão de modo que não mostrava nada mais do que vestígios desse órgão.Lamarck, Jean-Baptiste. Philosophie zoologique ou exposition des considérations relatives à l'histoire naturelle des animaux. 1809.
Charles Darwin já estava mais familiarizado com o conceito de estruturas vestigiais, embora esse termo para elas ainda não existisse. Ele listou vários exemplos delas em humanos no livro The Descent of Man. Seus exemplos incluem os músculos da orelha, os dentes do siso, o apêndice, o osso da cauda, os pelos do corpo e a prega semilunar no canto do olho. Darwin também observou, em a Origem das Espécies, que uma estrutura vestigial pode ser inútil para sua função primária, mas ainda retém papéis anatômicos secundários:Darwin, Charles. On the Origin of Species by Means of Natural Selection. John Murray: London. 1859.
Conceito científico É importante ressaltar que vestigial não significa que o órgão ou estrutura não tem função, pode-se sim ter alguma nova função ou desempenhar tarefas secundárias, mas com evidências de uma função antiga presente em algum outro ser vivo com um grau de parentesco. O processo de adaptação é a causa de um órgão perder ou mudar a sua função, ganhando um novo recurso ou perdendo a função ancestral, dirigida pela deriva genética e/ou pela seleção natural, ocorrendo modificações graduais de estruturas já existentes.
As estruturas vestigiais são classificadas como homólogas quando comparadas uma espécie à outra, cujo desenvolvimento tem a mesma origem embrionária, porém em diferentes espécies perderam a sua função ou desenvolveram uma nova função de menor importância, podem ser órgãos, genes sem desempenhar função ou outro tipo de estrutura no organismo do ser vivo, até mesmo refletindo um "comportamento vestigial".RIDLEY, Mark. Evolução. 3ª edição.Tradução: Henrique Ferreira, Luciane Passaglia, Rivor Fischer - Porto Alegre: Artmed, 2006.
Algumas estruturas podem até ter alguma utilidade limitada a um organismo, mas podem degenerar ao longo do tempo. O ponto principal não é que eles não possuam nenhuma utilidade, mas que eles não conferem uma vantagem significativa o suficiente em termos de aptidão para o indivíduo. É complicado afirmar que uma estrutura vestigial é prejudicial ou não ao organismo a longo prazo, pois o futuro da evolução não é previsível, o que não tem qualquer utilidade no presente pode se desenvolver em algo útil no futuro.DAWKINS, Richard. O maior espetáculo da Terra – Evidências da Evolução. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 317-348p.
Interpretação seletiva do conceito Negacionistas da evolução muitas vezes distorcem o conceito de estruturas vestigiais, usando táticas como a citação fora do contexto para alterar o significado pretendido dessas estruturas. Para isso, passagens de materiais científicos são recolhidas e interpretadas de maneira seletiva, enfatizando o aspecto de "sem função" das estruturas vestigiais como sendo sua definição e ignorando seu contexto evolutivo mais amplo.LIMA, Ricardo Junio Feitosa. Fraude Científica Flagrante: amostras de falácias informais. 1° Edição. São Paulo: International Journal of Sciences. 2021. ISBN-13: 979-8545019809. Com essa premissa, argumentam que se uma estrutura vestigial for encontrada desempenhando alguma função, isso nega sua natureza vestigial e, portanto, desafia a ideia da evolução. Contudo, ainda em 1859, Charles Darwin já tinha observado que uma estrutura vestigial poderia ser inútil para sua função primária, mas ainda manter funções anatômicas secundárias. Essa abordagem distorcida desconsidera a compreensão científica atual das estruturas vestigiais, que reconhece que essas características podem ter perdido sua função original ao longo do tempo, mas ainda podem desempenhar papéis secundários importantes. +Tabela de funcionalidade para estruturas vestigiais mais polêmicasNome da estrutura vestigialPrincipal função anterior Tarefa anatômica secundária que continua a ser desempenhadaDentes do SisoFunção de ajudar a moer tecidos vegetais rígidos. Contribui ocupando os espaços vazios em caso de perda de mais dentes molares na arcada.Apêndice vermiformeFunção digestiva ligada à digestão da celulose.Contribui para a imunidade intestinal e a reserva da microbiota, como as bactérias.Cóccix Função de assistência no equilíbrio e mobilidade.Contribui ancorando ainda os vários músculos pélvicos, como toda cauda animal faz.Prega semilunarFunção de proteção e/ou limpeza do globo ocular.Contribui ainda com o mantimento da drenagem das lágrimas, como toda nictitante faz.Esporão pélvicoFunção locomotora nos ancestrais dos ofídeos.Contribui permitindo estímulos por toque durante o acasalamento, como os membros fazem.Ossos pélvicos em cetáceosFunção locomotora nos ancestrais dos cetáceos.Contribui ancorando os músculos da genitália, como a pélvis de outros animais faz.
Conceito de estruturas rudimentares Embora os termos estrutura vestigial e estrutura rudimentar sejam frequentemente usados como sinônimos, há uma clara distinção entre eles. Estruturas rudimentares são parcialmente transformações formadas ou incompletas de uma característica de desenvolvimento e são encontradas apenas em embriões, enquanto estruturas vestigiais são remanescentes evolutivos de uma característica ancestral e são encontradas em adultos. De forma grosseira, o rudimento surge e depois é retido pela ação de um gene, enquanto o vestígio dura por toda a vida do indivíduo.
O atavismo pode surgir em um organismo no estágio embrionário a partir desse recurso. Acontece que uma mutação casual pode desencadear uma extensão do desenvolvimento desse rudimento embrionário. A presença de um rudimento embrionário é em parte a consequência do compartilhamento de genes reguladores entre diferentes tecidos e órgãos e a dificuldade de remover inteiramente um primórdio. No último caso, se o desenvolvimento de uma estrutura rudimentar não for devidamente interrompido pela ação de um gene, o indivíduo nasce com a estrutura atávica.
Todos os mamíferos têm uma cauda em algum ponto de seu desenvolvimento; em humanos, uma cauda rudimentar está presente por um período de 4 semanas, durante os estágios 14 a 22 da embriogênese humana. Esta cauda é mais proeminente em embriões humanos de 31 a 35 dias de idade. Esta cauda é retida formando o cóccix, que é o resto vestigial da cauda humana perdida. Em casos raros, o defeito congênito, na reabsorção da cauda rudimentar, resulta em uma estrutura atávica semelhante a uma cauda curta presente no nascimento e que geralmente podem ser removidas cirurgicamente. +Rudimentos x vestígiosEstrutura rudimentarEstrutura vestigialCauda longa em embrião humano por um período de 4 semanas Cauda atrofiada denominada cóccix Perna cumprida em embrião de cobra Python próxima à coacla Perna vestigial denominada esporão pévico Cauda longa em embriões de aves como frangos (Gallus gallus) Cauda fusionada denominada pigóstilo Membro traseiro em embriões de golfinhos (Stenella attenuata) Pelve vestigial em golfinhos e baleias Dentição rudimentar em fetos de baleias desdentadas (Mysticeti) O epitélio com vários alvéolos dentários vestigiais Múltiplos dígitos em cavalos embrionários de 29-35 diasOssos denominados como ossos da tala Miller, Robert M. (1999). Understanding the Ancient Secrets of the Horse's Mind. Neenah, WI: Russell Meerdink Company Ltd. ISBN 978-0-929346-65-6. OCLC 42389612.
Exemplos As estruturas vestigiais são uma assinatura da evolução, uma evidência de que a evolução existe, e a história dessa evolução está escrita em todo o corpo dos seres vivos. Para melhor esclarecimento de como essas estruturas podem ser encontradas em diversos organismos, inclusive nos seres humanos, segue-se alguns exemplos.
Vestigialidade em animais humanos No decorrer das interpretações acerca do que é uma estrutura vestigial houve muita discussão sobre quais seriam realmente os vestígios no corpo humano - praticamente todos os órgãos endócrinos e linfáticos já foram considerados um dia vestigiais, sendo que aproximadamente 180 órgãos já foram considerados vestigiais depois da 1º lista de Wiedersheim. Até mesmo órgãos extremamente importantes, como a glândula paratireoide, eram considerados como vestígios. A principal razão dessa colocação seria que as funções dessas estruturas ainda não eram compreendidas. Com a evolução da ciência, pode-se distinguir aquele órgão que realmente não possui uma função importante, que pode ser considerada como vestigial.
Cauda atrofiada Cóccix